Tem um tipo de cuidado que parece amor, mas funciona quase como engenharia. Não é o abraço que acolhe — é o molde que antecipa. São os pais que, antes mesmo do filho falar a primeira palavra com clareza, já têm um roteiro inteiro escrito: profissão, postura, gostos, o time de futebol, a religião, o partido político, até a forma de errar.
Não é difícil reconhecer essa cena no
cotidiano. O filho que “sempre foi bom em matemática” e, por isso, vira
engenheiro sem nunca ter sido perguntado se gostava mesmo de números. A filha
que “leva jeito pra cuidar” e cresce acreditando que sua função é atender
expectativas, não desejos. Tudo parece natural, como se a vida tivesse seguido
um fluxo lógico — mas, no fundo, alguém foi ajustando as margens desse rio.
O problema dos pais projetistas não é a
intenção. Quase sempre ela nasce do medo: medo de que o filho sofra, de que
escolha “errado”, de que não consiga se sustentar, de que se perca. Projetar o
outro vira uma forma de protegê-lo do caos do mundo. Só que, ao fazer isso,
acabam protegendo também o filho da própria experiência de existir.
O antropólogo David Le Breton
fala muito sobre como o corpo e a identidade são territórios de experimentação
— lugares onde a pessoa precisa testar limites, errar, desaparecer um pouco de
si para depois se reencontrar. Quando os pais ocupam esse território antes do
tempo, não sobra espaço para o filho se perder — e, sem se perder, também não
há como se descobrir.
É curioso: esses filhos muitas vezes
crescem “certinhos”. Não dão trabalho, seguem regras, atingem metas. Mas, em
algum momento — geralmente silencioso — surge uma espécie de estranhamento.
Como se estivessem vivendo uma vida funcional, porém emprestada. Não é
exatamente sofrimento, mas uma falta de encaixe, como usar uma roupa que nunca
foi escolhida por você.
E aí aparece uma pergunta incômoda: até
que ponto o cuidado virou controle? Porque há uma linha muito fina entre
orientar e projetar. Orientar é oferecer direção, mas permitir desvios.
Projetar é traçar o caminho inteiro e esperar que o outro apenas caminhe.
Talvez o gesto mais difícil de um pai
ou mãe seja justamente esse: aceitar que o filho não é uma continuidade de si,
mas uma ruptura. Não é um projeto a ser executado, mas uma presença a ser
acompanhada. E acompanhar exige uma coragem diferente — a de ver o outro
escolher caminhos que você não escolheria.
No fim das contas, criar alguém não é
construir uma obra pronta. É mais parecido com cuidar de um jardim onde cada
planta cresce de um jeito imprevisível. Você pode regar, proteger do excesso de
sol, até podar aqui e ali — mas nunca decidir exatamente a forma final.
Penso que talvez seja aí que mora o
verdadeiro amor: não no desenho antecipado do que o outro deve ser, mas na
disposição de se surpreender com aquilo que ele decide se tornar.
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