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quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Gente Grande

O que pensa o Pequeno Príncipe

Em algum momento da vida, quase sem perceber, a gente começa a trocar perguntas por respostas prontas. Antes, tudo era curioso: por que as estrelas brilham? por que as pessoas são como são? Depois, passamos a nos preocupar com prazos, números, metas — e aquilo que não pode ser medido parece perder importância.

No Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry, essa transformação ganha nome: “gente grande”. Não se trata apenas de adultos, mas de uma maneira de enxergar o mundo. Este ensaio busca compreender essa figura não só pela literatura, mas também à luz do pensamento de filósofos, sociólogos e psicólogos que refletiram sobre racionalidade, infância e sentido da existência.

Antoine de Saint-Exupéry, foi um escritor, poeta e também aviador francês, nascido em 1900. Sua experiência como piloto influenciou fortemente sua obra, inclusive o cenário do deserto presente no livro. O Pequeno Príncipe, publicado em 1943, é sua obra mais famosa e uma das mais traduzidas do mundo.

A racionalidade instrumental e a “gente grande”

A crítica central à “gente grande” é sua obsessão por números, utilidade e controle. Esse comportamento encontra eco naquilo que o filósofo alemão Martin Heidegger chamou de visão instrumental do mundo. Para ele, a modernidade transforma tudo em “recurso” (Bestand), algo a ser utilizado, calculado e explorado.

De forma semelhante, Max Weber descreveu o processo de racionalização da sociedade moderna, no qual a lógica burocrática e técnica substitui formas mais subjetivas de compreensão. O mundo torna-se previsível, organizado — mas também “desencantado”.

A “gente grande” do Pequeno Príncipe vive exatamente nesse mundo desencantado. Ela sabe o preço das coisas, mas não seu valor; mede, mas não compreende. Como alertaria a Escola de Frankfurt, especialmente Theodor Adorno e Max Horkheimer, essa razão instrumental, quando dominante, empobrece a experiência humana ao reduzir tudo ao cálculo.

O essencial invisível e a crítica à objetividade absoluta

A famosa frase “o essencial é invisível aos olhos” pode ser compreendida à luz da fenomenologia, especialmente em Edmund Husserl e Maurice Merleau-Ponty. Esses filósofos destacam que a realidade não se esgota no que é objetivamente mensurável; ela é vivida, percebida, sentida.

Merleau-Ponty, por exemplo, argumenta que nossa relação com o mundo é corporal e sensível, não apenas racional. Isso significa que o sentido das coisas emerge da experiência vivida — algo que a “gente grande” tende a ignorar.

Na psicologia, Carl Rogers reforça essa ideia ao valorizar a experiência subjetiva como núcleo da existência humana. Para ele, compreender alguém exige mais do que dados objetivos; exige empatia, abertura e sensibilidade — exatamente aquilo que o Pequeno Príncipe representa.

A infância como categoria filosófica

A infância, no livro, não é apenas uma fase biológica, mas uma atitude diante do mundo. Essa concepção dialoga diretamente com Friedrich Nietzsche, que, em Assim Falou Zaratustra, descreve a criança como símbolo do espírito livre — aquele capaz de criar novos valores.

A criança nietzschiana não é ingênua, mas criadora. Ela não está presa a convenções rígidas, o que a aproxima do olhar do Pequeno Príncipe, que questiona as certezas da “gente grande” e revela suas incoerências.

Na psicologia do desenvolvimento, Jean Piaget também contribui para essa reflexão ao mostrar que a criança não é um adulto incompleto, mas um sujeito com uma forma própria de pensar. Seu raciocínio é mais aberto, menos condicionado por estruturas rígidas — o que pode explicar sua maior capacidade de imaginação e questionamento.

Alienação e perda de sentido

A condição da “gente grande” também pode ser interpretada como uma forma de alienação. Karl Marx utilizou esse conceito para descrever a perda de conexão do indivíduo com aquilo que produz e com sua própria essência.

Embora em um contexto econômico, essa ideia pode ser ampliada: o adulto moderno frequentemente se distancia de si mesmo, vivendo de forma automática, orientado por exigências externas. Ele se torna estranho à própria experiência — incapaz de perceber o que realmente importa.

Erich Fromm, psicólogo e filósofo, aprofunda essa crítica ao afirmar que a sociedade moderna incentiva o “ter” em detrimento do “ser”. A “gente grande” quer possuir estrelas, contabilizá-las, dominá-las — mas não sabe contemplá-las.

O paradoxo do crescimento

O crescimento, portanto, apresenta um paradoxo. Em vez de ampliar a experiência humana, muitas vezes a restringe. O conhecimento técnico aumenta, mas o sentido diminui.

Hannah Arendt, ao refletir sobre a condição humana, destaca a importância da ação e da natalidade — a capacidade de iniciar algo novo. A infância, nesse sentido, representa essa potência de começo, que a “gente grande” frequentemente perde ao se fixar em rotinas e estruturas rígidas.

A maturidade, então, não deveria ser entendida como abandono da infância, mas como sua integração. Crescer não é deixar de sentir, mas aprender a sentir com mais profundidade.

Concluindo...

A “gente grande” do Pequeno Príncipe é mais do que uma crítica literária: é um diagnóstico filosófico da modernidade. Heidegger, Weber, Nietzsche, Merleau-Ponty, Marx, Fromm e tantos outros ajudam a compreender que essa figura representa uma forma empobrecida de existir — marcada pela perda do sentido, da sensibilidade e da abertura ao mundo.

O convite da obra, à luz desses pensadores, é claro: não se trata de rejeitar a razão, mas de libertá-la de sua forma limitada. É preciso reconciliar cálculo e sensibilidade, objetividade e experiência, conhecimento e encantamento.

Talvez, no fim das contas, crescer de verdade seja isso: tornar-se adulto sem deixar de ver como criança. Porque, como nos lembra o Pequeno Príncipe, aquilo que realmente importa nunca foi visível aos olhos — mas sempre esteve ao alcance de quem ainda sabe olhar.

domingo, 2 de agosto de 2026

Teoria da Decisão

Decidir no Incerto: entre cálculo e condição humana

Começo com uma constatação simples: toda escolha relevante carrega algum grau de incerteza. Escolher uma profissão, investir dinheiro, confiar em alguém — nenhuma dessas decisões vem com garantias. Ainda assim, decidimos. E mais do que isso: tentamos decidir “bem”, como se houvesse um critério invisível capaz de orientar nossas escolhas mesmo quando o futuro permanece aberto.

É nesse ponto que a proposta de John von Neumann e Oskar Morgenstern se torna filosoficamente intrigante. Ao formularem a teoria da utilidade esperada, eles não estavam apenas criando uma ferramenta matemática, mas sugerindo uma imagem do ser humano: a de um agente capaz de ordenar suas preferências, atribuir valores ao mundo e agir de forma coerente mesmo diante do acaso. Decidir, nesse modelo, é calcular — ainda que implicitamente — aquilo que maximiza a utilidade.

Mas o que está em jogo aqui não é apenas técnica, e sim uma concepção de racionalidade. A teoria parte da ideia de que nossas preferências seguem certa lógica interna: se preferimos A a B, e B a C, então devemos preferir A a C. Essa consistência, aparentemente trivial, é o que sustenta a possibilidade de transformar escolhas em algo mensurável. A incerteza não desaparece, mas é domesticada por probabilidades; o desejo não é eliminado, mas traduzido em utilidade.

No entanto, essa tentativa de matematizar a decisão revela também uma tensão mais profunda. Ao reduzir escolhas a cálculos de utilidade esperada, corre-se o risco de ignorar aquilo que escapa à mensuração: o valor simbólico, o peso da experiência, a singularidade de cada situação. O ser humano, afinal, não é apenas um agente que calcula — é também alguém que hesita, interpreta e, muitas vezes, contradiz a si mesmo.

É precisamente essa fissura que se torna evidente nas críticas posteriores, especialmente nas contribuições de Daniel Kahneman. Seus estudos mostram que nossas decisões frequentemente violam os axiomas da racionalidade clássica. Não apenas erramos — erramos de forma sistemática. Superestimamos perdas, tememos riscos de maneira desproporcional, somos influenciados pela forma como uma escolha é apresentada. A racionalidade, longe de ser uma base sólida, revela-se um ideal frequentemente frustrado pela própria condição humana.

Essa tensão entre o modelo racional e a prática concreta das decisões nos conduz a uma questão filosófica central: decidir bem é seguir um cálculo ou compreender a própria limitação? A teoria de von Neumann e Morgenstern sugere que a boa decisão é aquela que maximiza a utilidade esperada. Mas a experiência cotidiana indica que decidir bem pode envolver também intuição, valores não quantificáveis e até mesmo a aceitação do erro.

Há, portanto, dois movimentos simultâneos. De um lado, a busca por rigor: transformar a incerteza em números, a escolha em cálculo, o risco em probabilidade. De outro, a resistência do vivido: emoções, contextos, histórias pessoais que não se deixam reduzir a fórmulas. A decisão humana acontece justamente nesse entre-lugar — onde o cálculo orienta, mas não determina.

Talvez o maior mérito da teoria não esteja em descrever perfeitamente como decidimos, mas em explicitar o ideal ao qual aspiramos: coerência, clareza, consistência. Ao mesmo tempo, suas limitações nos lembram de algo igualmente importante: decidir não é apenas resolver um problema lógico, mas assumir uma posição diante do desconhecido.

No fim, acredito que a decisão não é apenas um cálculo de utilidades, mas um gesto existencial. Cada escolha carrega uma aposta — não apenas sobre o mundo, mas sobre nós mesmos. E é nessa aposta, entre o que podemos prever e aquilo que jamais controlaremos, que a racionalidade encontra seu limite e, talvez, seu verdadeiro sentido.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Hobbes e Autorreferência

O espelho do Leviatã

Comecemos sem solenidade: imaginar a política como um espelho pode parecer estranho à primeira vista. Mas e se o Estado não fosse apenas uma estrutura externa que nos governa, e sim um reflexo ampliado de algo profundamente íntimo — nossa própria autorreferência? Em outras palavras, e se a ordem política fosse menos sobre instituições e mais sobre como nos pensamos a nós mesmos? É nesse ponto que a filosofia de Thomas Hobbes ganha uma atualidade inesperada.

Hobbes, em sua obra Leviatã, parte de uma antropologia radical: o ser humano é movido por desejos, medos e, sobretudo, pela autopreservação. No estado de natureza, essa autorreferência — o voltar-se a si mesmo como centro de cálculo — não encontra limites externos. Cada indivíduo é juiz de suas próprias ações e fins. O resultado é conhecido: a guerra de todos contra todos. Mas essa guerra não é apenas física; ela é também semântica e cognitiva. Cada sujeito é medida de si mesmo, sem uma linguagem comum estável. A autorreferência, aqui, não é apenas psicológica, mas estrutural.

O que Hobbes propõe, então, não é a eliminação da autorreferência, mas sua reorganização. O contrato social funciona como um deslocamento: o indivíduo transfere sua capacidade de decisão a uma instância soberana. O soberano torna-se, assim, uma espécie de autorreferência coletiva. O Leviatã não é apenas um corpo político; ele é um ponto fixo que estabiliza o significado, a lei e a verdade pública. A multiplicidade de autorreferências privadas é condensada em uma única referência comum.

Entretanto, há uma tensão inevitável nesse arranjo. Se o soberano é produto da autorreferência dos indivíduos, ele permanece, em última instância, dependente dela. O Leviatã é um espelho que só existe porque há algo a refletir. Isso cria uma espécie de paradoxo: o Estado precisa ser absoluto para funcionar, mas sua origem é contingente, nascida do medo e da razão calculadora dos indivíduos. Assim, a autorreferência nunca desaparece completamente — ela apenas muda de escala.

Esse ponto abre caminho para uma leitura inovadora de Hobbes. Em vez de vê-lo apenas como um teórico da autoridade, podemos interpretá-lo como um pensador da circularidade entre sujeito e estrutura. O indivíduo cria o Estado para escapar da instabilidade de sua própria autorreferência, mas acaba por se ver refletido em uma forma ampliada dela. O soberano decide por todos, mas sua autoridade repousa na decisão original de cada um. A ordem política, portanto, é um circuito autorreferente: o sujeito funda a autoridade que, por sua vez, funda o sujeito como cidadão.

Essa dinâmica antecipa problemas contemporâneos. Em sociedades digitais, por exemplo, algoritmos operam como novos “Leviatãs”, organizando informações e decisões a partir de dados produzidos pelos próprios usuários. A autorreferência se torna ainda mais explícita: sistemas que aprendem com nossas escolhas passam a moldar nossas futuras escolhas. O que Hobbes pensou como solução para o caos pode hoje reaparecer como um sistema que amplifica nossas próprias tendências.

A contribuição mais provocativa de Hobbes talvez seja esta: não há saída simples da autorreferência. Não podemos simplesmente abandoná-la, pois ela constitui a base de nossa racionalidade e identidade. O que podemos fazer é instituir formas de mediação que a tornem habitável. O Leviatã é uma dessas formas — não perfeita, mas necessária. Ele nos lembra que, no fundo, toda ordem política é um espelho: e o que vemos nele depende da maneira como escolhemos nos refletir.


sábado, 27 de junho de 2026

Racionalização da Racionalidade

Quando a razão deixa de ser ferramenta e vira justificativa

Tem um momento curioso — quase imperceptível — em que a gente deixa de usar a razão para entender as coisas e começa a usá-la para defender o que já decidiu.

Acredito que já devam ter passado por isso: toma uma decisão meio intuitiva, meio emocional… e depois vem aquela sequência impecável de argumentos para provar que foi “totalmente racional”. Tudo faz sentido, tudo se encaixa. Mas, no fundo, fica uma suspeita silenciosa: será que eu pensei para decidir… ou decidi para depois pensar?

Foi a partir desse tipo de situação que comecei a perceber algo mais profundo: talvez a racionalidade, que a gente trata como guia seguro, também precise ser examinada.

Porque nem sempre estamos sendo racionais — muitas vezes, estamos racionalizando.

A modernidade construiu uma confiança quase absoluta na razão. Desde René Descartes, a ideia de que o pensamento claro e distinto poderia fundamentar o conhecimento criou uma espécie de ideal: o sujeito racional como aquele que domina suas decisões por meio do pensamento lógico.

Mas essa confiança ganhou outra forma com Max Weber, que descreveu o processo de racionalização da sociedade: tudo passa a ser organizado, calculado, eficiente. A razão deixa de ser apenas uma ferramenta individual e se torna uma estrutura que molda instituições, comportamentos e até expectativas de vida.

O problema começa quando esse processo se volta para dentro.

Quando a racionalidade não apenas organiza o mundo, mas passa a organizar — e justificar — o próprio sujeito.

É nesse ponto que a crítica se intensifica. Herbert Marcuse percebeu que a racionalidade moderna pode se tornar “instrumental”: ela não pergunta mais “isso é verdadeiro?” ou “isso é bom?”, mas apenas “isso funciona?”. E, mais ainda, “isso pode ser justificado como funcionando?”.

A racionalização da racionalidade acontece exatamente aqui: quando usamos a razão não para investigar, mas para legitimar.

Ela funciona como uma espécie de advogado interno. Não busca a verdade, mas constrói argumentos convincentes para sustentar uma posição já assumida. E faz isso com tanta eficiência que nos convence.

No cotidiano, isso aparece de forma quase banal:

Você evita uma conversa difícil — e explica para si mesmo que “não era o momento certo”.
Você mantém uma rotina que já não faz sentido — mas argumenta que “é o mais seguro”.
Você repete uma opinião — e constrói justificativas que parecem sólidas, mas nunca foram realmente questionadas.

Tudo parece racional.

Mas talvez seja apenas bem explicado.

Friedrich Nietzsche já desconfiava dessa confiança excessiva na razão. Para ele, muitas das nossas justificativas são, na verdade, racionalizações de impulsos mais profundos. A consciência não seria a origem das decisões, mas um narrador que chega depois, organizando a história.

Se isso for verdade, então a racionalidade não é apenas uma ferramenta de clareza — é também um mecanismo de ocultação.

Ela ilumina… mas também encobre.

E aqui surge a questão central: como confiar na razão se ela pode ser usada contra a própria verdade?

Talvez a saída não seja abandonar a racionalidade, mas deslocá-la.

Em vez de confiar cegamente nela, começar a suspeitar dela — não como inimiga, mas como algo que precisa ser constantemente examinado.

Isso exige uma espécie de “meta-racionalidade”: pensar sobre o próprio pensamento. Perguntar não apenas “isso faz sentido?”, mas “por que eu preciso que isso faça sentido?”.

No fundo, a racionalização da racionalidade revela algo desconfortável:

não somos tão transparentes para nós mesmos quanto gostaríamos.

Mas talvez seja justamente aí que a filosofia começa —

não quando pensamos corretamente,

mas quando começamos a desconfiar da forma como pensamos.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Teoria Crítica

Com Žižek na fila do supermercado

Outro dia, numa tarde qualquer, entrei no supermercado só para comprar pão e café. Peguei uma fila relativamente curta, mas que, como sempre, andava lentamente. Foi então que notei um senhor de jaqueta puída ao meu lado, reclamando baixinho que “tudo hoje em dia é feito para a gente esperar”. Um instante depois, percebi que aquele senhor era ninguém menos que Slavoj Žižek. Sim, ele mesmo — fungando, ajeitando a camiseta amarrotada por dentro da calça e fazendo gestos exagerados com as mãos, como se a fila inteira fosse uma provocação metafísica.

“Veja”, ele me diz, cutucando meu ombro com um entusiasmo levemente desesperado, “a fila é o microcosmo da Teoria Crítica! Você acha que está esperando por pão… mas, na verdade, é o sistema esperando por você.” Ele ri, e aquela risada meio engasgada ecoa entre o corredor das bolachas e o freezer das massas congeladas.

Foi ali, segurando um pacote de pão de forma, que a Teoria Crítica da Sociedade fez todo sentido para mim. A Escola de Frankfurt inteira poderia ter sido citada naquela fila. Horkheimer e Adorno diriam que o supermercado, com sua música ambiente e seus corredores organizados para nos fazer gastar mais do que precisamos, é um templo da cultura transformada em mercadoria. A razão instrumental está presente até nos carrinhos com rodinhas que sempre emperram — não por mágica, mas porque a frustração também pode ser lucrativa.

Marcuse, por sua vez, teria olhado para aquela prateleira infinita de produtos idênticos e comentado que a “liberdade de escolha” é só outra forma de unidimensionalidade. Você acha que escolhe entre dez marcas de café, mas todas carregam o mesmo imperativo: consumir para existir. É a ilusão confortável de que decidir entre embalagens diferentes é ato de autonomia.

Žižek, ainda do meu lado, balança a cabeça como quem lê meus pensamentos. “Você pensa que está aqui por necessidade”, ele continua, “mas o sistema quer que você transforme até a fome num gesto político involuntário. É como se cada compra reafirmasse a ordem simbólica!” Ele abre os braços, quase batendo numa senhora que empurrava um carrinho cheio de detergentes.

Enquanto isso, Habermas provavelmente tentaria salvar alguma esperança. Talvez dissesse que, se pelo menos conversássemos realmente na fila — e não apenas murmurássemos reclamações —, poderíamos construir um pequeno espaço de racionalidade comunicativa. Mas basta olhar ao redor: metade das pessoas na fila está presa ao celular, deslizando o dedo por notícias ruins embaladas como entretenimento urgente. A comunicação virou ruído; o consenso, performance.

E é isso que a Teoria Crítica tenta nos mostrar: que a sociedade moderna cria mecanismos tão finos de controle que eles entram em nós sem pedir licença. O tempo que passamos na fila, a ansiedade diante do relógio, a necessidade de “ganhar tempo” comprando café para trabalhar mais — tudo isso compõe a paisagem onde a liberdade se confunde com hábito.

“Mas sabe o mais engraçado?”, Žižek me diz, agora sussurrando, como se fosse revelar um segredo. “Mesmo quando você percebe tudo isso, você ainda compra o pão. A crítica não te liberta magicamente. Ela só mostra o quão preso você está — e isso já é algo.”

E naquele instante percebo que a verdadeira força da Teoria Crítica não está em nos transformar em ascetas radicais que abandonam o supermercado, mas em nos lembrar que nada do que parece natural é realmente inevitável. Que aquilo que chamamos de normalidade — correria, consumo, distração, produtividade — é uma construção histórica. E o que é construído pode ser reconstruído.

Quando finalmente chega minha vez no caixa, Žižek me dá um tapinha no braço e diz: “A liberdade está nas pequenas rachaduras da rotina. Preste atenção nelas.” Depois atravessa a porta automática, que abre com um sopro gelado, como se o mundo estivesse suspenso por um segundo.

Saio também, segurando meu pacote de pão, e percebo que talvez a crítica comece exatamente assim: numa fila lenta, num gesto banal, numa consciência que desperta por alguns instantes. Uma espécie de fresta que o cotidiano, sem querer, deixa escapar.

E é nessas pequenas brechas — mesmo que rapidamente fechadas — que ainda podemos respirar.

sábado, 19 de abril de 2025

Excessos da Racionalidade

 

Nos tempos de hoje, há uma grande obsessão por dados, cálculos e previsões. Tudo precisa ser medido, analisado e justificado com estatísticas. Até mesmo as decisões mais triviais—como escolher um filme para assistir—parecem exigir um estudo de crítica especializada, reviews no Letterboxd (rede social para cinéfilos) e um algoritmo sugerindo o que combina melhor com nosso gosto. No trabalho, nas relações e até nos momentos de lazer, somos compelidos a agir de forma lógica, eficiente e produtiva. Mas será que essa racionalidade desenfreada não nos está roubando algo essencial?

A racionalidade, sem dúvida, é uma das grandes conquistas humanas. Foi graças a ela que saímos das cavernas, dominamos o fogo, construímos civilizações e desenvolvemos a ciência. No entanto, como em qualquer virtude que se estende além de seus limites naturais, a racionalidade pode se tornar um vício. O filósofo Theodor Adorno já advertia sobre a razão instrumental, aquela que reduz tudo a cálculos e resultados, transformando até os afetos humanos em algo mensurável e controlável. Quando a razão se torna excessiva, ela não apenas elimina o erro, mas também a espontaneidade, a intuição e o mistério da existência.

O problema surge quando começamos a exigir lógica absoluta até onde a vida exige fluidez. Uma amizade não pode ser medida em números. O valor de uma conversa despretensiosa ou de um pôr do sol visto sem pressa não pode ser reduzido a métricas. Ainda assim, vivemos numa época em que até o tempo livre precisa ser otimizado—há cursos ensinando a "meditar de forma eficiente", apps que controlam quantas horas dormimos e técnicas para maximizar a criatividade em minutos cronometrados. A racionalidade excessiva nos leva ao paradoxo de uma vida hipercontrolada e, paradoxalmente, vazia de sentido.

A filosofia oriental, especialmente no pensamento de N. Sri Ram, sugere que há uma sabedoria além da lógica fria. Ele propunha que a mente, quando excessivamente estruturada pela racionalidade, perde a capacidade de captar dimensões mais profundas da realidade. A intuição e a percepção direta da vida são qualidades igualmente necessárias, mas a modernidade tende a subjugá-las em nome de um ideal técnico e mecanizado de existência.

O convite aqui não é para rejeitar a razão, mas para reconhecer seus limites. Nem tudo precisa ser útil, produtivo ou matematicamente perfeito. Às vezes, o maior insight não vem de um cálculo exato, mas de uma pausa para respirar. Talvez o que nos falte não seja mais lógica, mas a coragem de abraçar o imprevisível, de confiar no que sentimos sem precisar justificar tudo com números. Afinal, como disse o poeta Fernando Pessoa: "Sentir é estar distraído"—e talvez seja justamente essa distração que nos salve do excesso de razão.