Entre o Mundo que Herdamos e o Mundo que Criamos
Às vezes, enquanto
observo a rotina de uma cidade — alguém atravessando a rua com pressa, outro
discutindo no ponto de ônibus, um grupo rindo de algo que ninguém mais entende
— me pego pensando no quanto seguimos regras que não escolhemos. Horários
impostos, códigos invisíveis, frases feitas, crenças repetidas. É curioso:
vivemos como se tudo estivesse dado, como se as normas viessem encaixotadas de
fábrica, prontas para o uso. Mas, no fundo, sabemos que não é bem assim. Há
sempre uma fresta onde a dúvida entra, e com ela, a possibilidade do novo.
É aí que Castoriadis
surge como um desses pensadores que não deixam a gente acomodar a cabeça no
travesseiro da conformidade.
O Núcleo da Autonomia:
Criar as Próprias Leis
Para Castoriadis, autonomia
não é apenas liberdade de escolher entre opções já existentes. Isso seria, no
máximo, consumo político. Autonomia, em sentido forte, é criar as próprias
leis. É a capacidade de uma coletividade — e também de cada indivíduo — de
questionar o que está posto, reconhecer que as instituições não são naturais, e
decidir, deliberadamente, como deseja viver.
Ele diz:
“A sociedade é obra de
imaginação.”
Ou seja, nada do que nos
organiza — o Estado, a economia, a moral, o calendário, o casamento, o salário,
a escola — vem da natureza. Foram criações humanas, sedimentadas no tempo,
transformadas em tradição, sacralizadas como se fossem inevitáveis.
A autonomia, então,
começa quando percebemos que tudo isso pode ser colocado em questão.
A Radicalidade de
Castoriadis: O Rompimento com a Heteronomia
Se autonomia é criar as
próprias leis, heteronomia é viver sob leis que vêm de fora — da
tradição, dos deuses, dos especialistas, da “ciência”, do mercado, da
burocracia. Castoriadis não gostava dessa postura confortável que diz: “as
coisas são assim”. Ele entendia isso como uma forma de abdicar da imaginação
política.
E ele provoca:
Quando aceitamos o mundo
como dado, deixamos de ser criadores e nos tornamos apenas usuários.
É duro, porque no
cotidiano essa heteronomia se mascara de eficiência: “é assim porque sempre
foi”, “é assim porque todo mundo faz”, “é assim porque não tem alternativa”.
Autonomia Não é
Individualismo
É importante frisar — e
Castoriadis insistia nisso — que autonomia não é o indivíduo fazer o que quer. Autonomia
política é sempre um projeto coletivo.
No trabalho, por exemplo,
autonomia não é ignorar regras; é participar da criação delas.
Na democracia, autonomia não é votar a cada quatro anos; é deliberar
continuamente sobre a vida comum.
Na vida cotidiana, autonomia não é ser “livre” no estilo consumidor; é
compreender de onde vêm as normas que me atravessam e assumir responsabilidade
sobre elas.
Autonomia não é capricho:
é responsabilidade compartilhada.
O Espaço Político Como
Espaço de Imaginação
Castoriadis costuma dizer
que a democracia — a verdadeira, não a administrada — é o regime da sociedade
que se reconhece como auto-instituinte. Isto é: que admite que o mundo
político está sempre aberto. Que não existe última palavra. Que o futuro não é
um cálculo, mas uma criação.
Em termos simples:
A autonomia só existe onde há imaginação viva.
E isso não é enfeite
retórico. É a imaginação que permite dizer:
“E se não fosse assim?”
“E se fizéssemos diferente?”
“E se essa estrutura não for inevitável?”
A autonomia política se
alimenta desse espanto infantil que os adultos tentam sufocar — o espanto de
que tudo poderia ser de outro jeito.
Cotidiano: As Pequenas
Portas da Autonomia
Ela aparece em detalhes:
- Na reunião de condomínio em que
alguém ousa propor uma forma mais justa de dividir custos.
- No grupo de trabalho que questiona
metas absurdas e sugere ritmos humanos.
- Na escola que decide construir regras
de convivência junto com os alunos.
- No bairro que se organiza para
discutir segurança, transporte, convivência — não esperando que um gestor
distante resolva.
São pequenos exercícios
de imaginação política. Pequenos, mas estruturantes.
Castoriadis para Comentar
Castoriadis nos lembra
que autonomia não é um estado alcançado, mas uma prática permanente,
sempre vulnerável, sempre exigente. Ele escreve:
“Uma sociedade autônoma é
aquela que sabe que se criou e que pode se recriar.”
Essa frase é um convite —
e também uma cobrança. Ela pede que abandonemos a passividade, que recusemos o
discurso do inevitável, que entremos no perigoso território de assumir que
somos responsáveis pelas instituições que nos moldam.
Autonomia é trabalho.
Autonomia é risco.
Autonomia é criação.
E, talvez por isso, seja
tão rara — e tão necessária.




