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sábado, 25 de outubro de 2025

Despersonalização

O eu que se desfaz

Há dias em que a gente se olha no espelho e tem a impressão de ver alguém hospedado no próprio rosto. O café está ali, a rotina segue seu roteiro de sempre, o corpo se move — mas parece pertencer a outro. É como assistir à própria vida de fora, um espectador cansado de si mesmo. Essa sensação estranha, meio fantasmagórica, chama-se despersonalização: quando o “eu” perde suas bordas, e o sujeito passa a se ver como uma sombra daquilo que costumava ser.

Na vida cotidiana, ela se infiltra de maneira sutil. Um professor que, depois de anos repetindo o mesmo conteúdo, fala no automático, sem reconhecer mais a própria voz. Um motorista que dirige por quilômetros e, ao chegar, percebe que não lembra do caminho. Ou alguém que, em meio às telas e obrigações, sente-se presente apenas em aparência, como se sua consciência estivesse em suspensão. A despersonalização não é apenas um termo clínico — é um sintoma de uma época que exaure o sentido de ser alguém.

O filósofo Jean-Paul Sartre já havia notado esse fenômeno em O Ser e o Nada: para ele, o sujeito se dissolve quando se torna um objeto diante do olhar do outro. É o “eu” que se vê sendo visto, reduzido a imagem. Em tempos de redes sociais, essa condição ganha forma: somos constantemente convertidos em vitrines de nós mesmos, onde o ser cede espaço à performance. A identidade, que antes se construía na interioridade, agora se mede em curtidas e visualizações — uma exteriorização que, paradoxalmente, esvazia o sujeito.

Martin Heidegger também ajuda a entender esse deslizamento do eu. Em Ser e Tempo, ele descreve o impessoal (das Man), esse modo de existir em que o sujeito se confunde com o que “se faz”, “se diz”, “se espera”. O “eu” se dilui no anonimato do cotidiano: “fala-se”, “pensa-se”, “vive-se”. Assim, a despersonalização não vem apenas de uma crise individual, mas de uma estrutura social que empurra o ser humano para fora de si, num ritmo em que ser autêntico se torna quase um luxo.

E há ainda Clarice Lispector, que, com menos filosofia e mais carne, traduziu essa sensação em palavras: “Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, talvez.” Clarice não descreve uma doença, mas uma travessia. A despersonalização pode ser, paradoxalmente, um caminho para o reencontro — um esvaziamento necessário para descobrir o que ainda é verdade em meio a tantas máscaras.

No mundo contemporâneo, marcado por hiperconexão e aceleração, a despersonalização tornou-se quase uma epidemia silenciosa. Vivemos cercados de estímulos que fragmentam a atenção e substituem o tempo da experiência pelo tempo da resposta imediata. Não há mais espaço para o silêncio interior — e, sem ele, o “eu” se desfaz como fumaça. A tecnologia, ao mesmo tempo em que amplia a comunicação, também fabrica versões editadas de nós mesmos, gerando uma espécie de presença sem presença: estamos em toda parte, menos onde realmente somos.

Talvez, portanto, a despersonalização seja o sintoma de uma alma sobrecarregada. Mas também pode ser um convite: parar, desidentificar-se do ruído, reconhecer o vazio e, nesse vazio, reencontrar uma forma mais simples e humana de existir. Em meio à pressa e à aparência, talvez o primeiro gesto de resistência seja lembrar — e sentir — que ainda há alguém ali dentro.