O eu que se desfaz
Há
dias em que a gente se olha no espelho e tem a impressão de ver alguém
hospedado no próprio rosto. O café está ali, a rotina segue seu roteiro de
sempre, o corpo se move — mas parece pertencer a outro. É como assistir à
própria vida de fora, um espectador cansado de si mesmo. Essa sensação
estranha, meio fantasmagórica, chama-se despersonalização: quando o “eu”
perde suas bordas, e o sujeito passa a se ver como uma sombra daquilo que
costumava ser.
Na
vida cotidiana, ela se infiltra de maneira sutil. Um professor que, depois de
anos repetindo o mesmo conteúdo, fala no automático, sem reconhecer mais a
própria voz. Um motorista que dirige por quilômetros e, ao chegar, percebe que
não lembra do caminho. Ou alguém que, em meio às telas e obrigações, sente-se
presente apenas em aparência, como se sua consciência estivesse em suspensão. A
despersonalização não é apenas um termo clínico — é um sintoma de uma época que
exaure o sentido de ser alguém.
O
filósofo Jean-Paul Sartre já havia notado esse fenômeno em O Ser e o
Nada: para ele, o sujeito se dissolve quando se torna um objeto diante do
olhar do outro. É o “eu” que se vê sendo visto, reduzido a imagem. Em tempos de
redes sociais, essa condição ganha forma: somos constantemente convertidos em
vitrines de nós mesmos, onde o ser cede espaço à performance. A identidade, que
antes se construía na interioridade, agora se mede em curtidas e visualizações
— uma exteriorização que, paradoxalmente, esvazia o sujeito.
Martin
Heidegger também ajuda a entender esse deslizamento do eu. Em Ser
e Tempo, ele descreve o impessoal (das Man), esse modo de
existir em que o sujeito se confunde com o que “se faz”, “se diz”, “se espera”.
O “eu” se dilui no anonimato do cotidiano: “fala-se”, “pensa-se”, “vive-se”.
Assim, a despersonalização não vem apenas de uma crise individual, mas de uma
estrutura social que empurra o ser humano para fora de si, num ritmo em que ser
autêntico se torna quase um luxo.
E
há ainda Clarice Lispector, que, com menos filosofia e mais carne,
traduziu essa sensação em palavras: “Perdi alguma coisa que me era essencial, e
que já não me é mais. Não me é necessária, talvez.” Clarice não descreve uma
doença, mas uma travessia. A despersonalização pode ser, paradoxalmente, um
caminho para o reencontro — um esvaziamento necessário para descobrir o que
ainda é verdade em meio a tantas máscaras.
No
mundo contemporâneo, marcado por hiperconexão e aceleração, a despersonalização
tornou-se quase uma epidemia silenciosa. Vivemos cercados de estímulos que
fragmentam a atenção e substituem o tempo da experiência pelo tempo da resposta
imediata. Não há mais espaço para o silêncio interior — e, sem ele, o “eu” se
desfaz como fumaça. A tecnologia, ao mesmo tempo em que amplia a comunicação,
também fabrica versões editadas de nós mesmos, gerando uma espécie de presença
sem presença: estamos em toda parte, menos onde realmente somos.
Talvez,
portanto, a despersonalização seja o sintoma de uma alma sobrecarregada. Mas
também pode ser um convite: parar, desidentificar-se do ruído, reconhecer o
vazio e, nesse vazio, reencontrar uma forma mais simples e humana de existir.
Em meio à pressa e à aparência, talvez o primeiro gesto de resistência seja
lembrar — e sentir — que ainda há alguém ali dentro.
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