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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Oportunidade de Esquecer


Eu costumava achar que esquecer era uma falha. Um curto-circuito da memória. Uma traição ao que foi vivido. Hoje desconfio do contrário: esquecer, muitas vezes, é uma forma silenciosa de sobrevivência.

A gente não esquece só datas, nomes ou senhas. Esquece versões de si mesmo. Esquece promessas que já não fazem sentido. Esquece dores que insistiam em definir quem éramos. E, sem perceber, vai abrindo espaço para uma versão menos pesada de existir.

Outro dia, no café — esse meu pequeno santuário cotidiano — percebi que já não lembrava mais com nitidez de uma discussão antiga que, na época, parecia definitiva. Lembro da sensação, não das palavras. E isso mudou tudo. Porque a sensação também tinha perdido força. O esquecimento, ali, não foi perda: foi libertação.

Esquecer é permitir que o passado deixe de ser uma sentença e passe a ser apenas um capítulo. Não apagado — mas também não mais gritado.

No cotidiano, isso aparece em coisas pequenas:

– Quando você encontra alguém que já te feriu e percebe que não sente mais raiva.

– Quando uma música antiga já não dói.

– Quando um erro vira só uma história, não mais uma identidade.

A memória quer nos ensinar. O esquecimento quer nos devolver leveza.

Paul Ricoeur dizia que lembrar e esquecer fazem parte do mesmo gesto humano: dar sentido ao tempo. Sem esquecimento, a memória vira um arquivo cruel, onde nada pode ser reorganizado. Sem memória, o esquecimento vira vazio. O equilíbrio entre os dois é o que nos permite continuar.

Talvez a vida não nos dê apenas oportunidades de lembrar — mas também oportunidades discretas de esquecer na medida certa. Não por desprezo ao passado, mas por respeito ao futuro.

E eu, hoje, começo a desconfiar que esquecer não é abandonar quem fomos.

É apenas recusar continuar sendo apenas aquilo.

domingo, 11 de janeiro de 2026

Tempo Segue


Vamos ficando velhos, vamos ficando, outros vão indo embora, vamos ficando mais sozinhos do que antes. A vida continua para os que ficam — não por coragem, mas por necessidade. O despertador toca, o ônibus passa no mesmo horário, o trabalho cobra presença, o mercado pede escolhas banais como arroz ou macarrão. A gente aprende a sorrir em reuniões, a reclamar do calor, a responder “tudo bem” mesmo quando não está. Aprende a regar plantas, pagar contas, planejar pequenos futuros. E, no meio dessas tarefas simples, descobre que continuar vivendo não é trair quem se foi — é, de algum modo, honrar a parte da história que ainda nos cabe escrever.

Sentimentos e emoções dos que ficam

Quem fica aprende um idioma estranho: o da ausência. Não é exatamente silêncio — é um som baixo, contínuo, como geladeira de madrugada. A casa continua de pé, as ruas continuam passando ônibus, o café continua esfriando na xícara. Mas alguma coisa não continua.

Os que ficam carregam uma mistura impossível de sentimentos: saudade, culpa, raiva, ternura, alívio envergonhado, esperança tímida. Tudo ao mesmo tempo, sem ordem. A gente ri e logo depois se pergunta se tinha direito de rir. A gente lembra e dói; tenta esquecer e dói de outro jeito.

No cotidiano isso aparece em gestos pequenos:

— no lugar vazio à mesa;

— na mensagem que quase enviamos;

— na música que não dá para ouvir até o fim;

— no aniversário que vira um parêntese no calendário.

Os que ficam também sentem um tipo curioso de solidão acompanhada. Estamos cercados de pessoas, mas a falta é específica demais para ser substituída. É como perder uma palavra que só aquela pessoa sabia pronunciar do jeito certo.

Rubem Alves dizia que “saudade é a alma dizendo para onde quer voltar.” E talvez seja isso: os que ficam vivem com a alma em trânsito, indo e voltando entre o que foi e o que ainda precisa aprender a ser.

Com o tempo, a dor muda de forma. Não some — amadurece. Vira memória com bordas menos cortantes. Vira gratidão misturada com melancolia. Vira uma presença invisível que nos ensina a amar melhor os que ainda estão aqui.

Os que ficam não são apenas sobreviventes. São guardiões. Guardam histórias, risadas, defeitos, manias, frases mal acabadas. E, sem perceber, continuam o outro dentro de si.

Porque, no fundo, ficar não é só permanecer.

É aprender a carregar. E transformar ausência em uma forma diferente de companhia.

Mais velhos, mais solitários até que chegue minha vez de partir, outra vida me aguarda, assim espero!

sábado, 10 de janeiro de 2026

Poço de Solidão


Há dias em que a solidão não é um quarto vazio, mas um poço. Não um poço assustador — daqueles de filme de terror —, mas um poço fundo, silencioso, onde a gente escuta melhor o próprio eco. Eu caio nele sem perceber: quando o celular fica mudo, quando a conversa termina cedo demais, quando percebo que ninguém vai notar se eu demorar um pouco mais para voltar.

O curioso é que, nesse poço, não estou exatamente só. Estou comigo. E isso, às vezes, é mais difícil do que lidar com os outros.

No cotidiano, o poço aparece em formas discretas: na mesa do almoço, quando todo mundo fala e eu apenas mastigo; no ônibus, quando olho os reflexos no vidro e não reconheço muito bem quem está ali; na noite em que não tenho vontade de ligar para ninguém, mas também não quero ficar em silêncio. É uma solidão que não dói como abandono — dói como espelho.

Mário Quintana dizia que “a solidão é uma ilha com saudade de continente”. Acho bonito, mas incompleto. Porque há dias em que a ilha não quer continente nenhum. Quer apenas entender por que existe. O poço, então, não é fuga: é descida.

E toda descida tem risco. A gente pode se perder no fundo, confundir silêncio com vazio, introspecção com desistência. Mas também pode encontrar algo que o barulho da vida esconde: perguntas que nunca fizemos, vontades que nunca admitimos, medos que fingimos não ter.

Já percebi que há dois tipos de solidão. A que nos empobrece — quando nos sentimos invisíveis. E a que nos afina — quando começamos a ouvir camadas mais profundas de nós mesmos. O poço de solidão pode ser túmulo ou nascente. Depende do que fazemos lá embaixo.

Às vezes eu volto com pouco: uma frase, uma lembrança, uma vontade de mudar algo pequeno. Às vezes volto apenas mais leve, como quem não resolveu nada, mas entendeu melhor o problema.

Talvez a solidão não seja ausência de companhia, mas excesso de interior.

E talvez o poço não exista para nos engolir, mas para nos ensinar a subir com mais consciência de quem somos.

Porque no fundo do poço, descobri uma coisa simples: não é a solidão que assusta — é o encontro que ela provoca.

sábado, 25 de outubro de 2025

Despersonalização

O eu que se desfaz

Há dias em que a gente se olha no espelho e tem a impressão de ver alguém hospedado no próprio rosto. O café está ali, a rotina segue seu roteiro de sempre, o corpo se move — mas parece pertencer a outro. É como assistir à própria vida de fora, um espectador cansado de si mesmo. Essa sensação estranha, meio fantasmagórica, chama-se despersonalização: quando o “eu” perde suas bordas, e o sujeito passa a se ver como uma sombra daquilo que costumava ser.

Na vida cotidiana, ela se infiltra de maneira sutil. Um professor que, depois de anos repetindo o mesmo conteúdo, fala no automático, sem reconhecer mais a própria voz. Um motorista que dirige por quilômetros e, ao chegar, percebe que não lembra do caminho. Ou alguém que, em meio às telas e obrigações, sente-se presente apenas em aparência, como se sua consciência estivesse em suspensão. A despersonalização não é apenas um termo clínico — é um sintoma de uma época que exaure o sentido de ser alguém.

O filósofo Jean-Paul Sartre já havia notado esse fenômeno em O Ser e o Nada: para ele, o sujeito se dissolve quando se torna um objeto diante do olhar do outro. É o “eu” que se vê sendo visto, reduzido a imagem. Em tempos de redes sociais, essa condição ganha forma: somos constantemente convertidos em vitrines de nós mesmos, onde o ser cede espaço à performance. A identidade, que antes se construía na interioridade, agora se mede em curtidas e visualizações — uma exteriorização que, paradoxalmente, esvazia o sujeito.

Martin Heidegger também ajuda a entender esse deslizamento do eu. Em Ser e Tempo, ele descreve o impessoal (das Man), esse modo de existir em que o sujeito se confunde com o que “se faz”, “se diz”, “se espera”. O “eu” se dilui no anonimato do cotidiano: “fala-se”, “pensa-se”, “vive-se”. Assim, a despersonalização não vem apenas de uma crise individual, mas de uma estrutura social que empurra o ser humano para fora de si, num ritmo em que ser autêntico se torna quase um luxo.

E há ainda Clarice Lispector, que, com menos filosofia e mais carne, traduziu essa sensação em palavras: “Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, talvez.” Clarice não descreve uma doença, mas uma travessia. A despersonalização pode ser, paradoxalmente, um caminho para o reencontro — um esvaziamento necessário para descobrir o que ainda é verdade em meio a tantas máscaras.

No mundo contemporâneo, marcado por hiperconexão e aceleração, a despersonalização tornou-se quase uma epidemia silenciosa. Vivemos cercados de estímulos que fragmentam a atenção e substituem o tempo da experiência pelo tempo da resposta imediata. Não há mais espaço para o silêncio interior — e, sem ele, o “eu” se desfaz como fumaça. A tecnologia, ao mesmo tempo em que amplia a comunicação, também fabrica versões editadas de nós mesmos, gerando uma espécie de presença sem presença: estamos em toda parte, menos onde realmente somos.

Talvez, portanto, a despersonalização seja o sintoma de uma alma sobrecarregada. Mas também pode ser um convite: parar, desidentificar-se do ruído, reconhecer o vazio e, nesse vazio, reencontrar uma forma mais simples e humana de existir. Em meio à pressa e à aparência, talvez o primeiro gesto de resistência seja lembrar — e sentir — que ainda há alguém ali dentro.


terça-feira, 30 de setembro de 2025

Homens Ocos

Um ensaio sobre o vazio entre o gesto e a alma a partir do poema de T. S. Eliot

 

Talvez você conheça alguém assim.

Uma pessoa que parece inteira, mas algo não encaixa. Não é ausência de fala, nem de gestos. É como se faltasse espessura. Gente que vive com precisão — trabalha, sorri, opina — mas não se deixa atravessar pela vida. Como bonecos bem montados, porém vazios por dentro. São os homens ocos. Não monstros, não maus. Apenas esvaziados.

Ler o poema The Hollow Men de T. S. Eliot — em português, Os Homens Ocos — é como olhar nos olhos de uma estátua: está tudo ali, menos o essencial. O poema é sombrio, mas não apocalíptico no sentido tradicional — ele fala da apatia que precede o fim, da alma que evapora enquanto o corpo ainda está em movimento. E é nesse abismo entre aparência e substância que podemos enxergar um problema filosófico crucial da modernidade: a erosão do ser.

 

O poema — Os Homens Ocos (tradução de Ivan Junqueira)

Epígrafe
Mistah Kurtz — he dead
A penny for the Old Guy

I
Somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
Cheios de palha. Ai de nós!
Nossas vozes secas, quando
Sussurramos juntos,
São calmas e sem sentido
Como vento na grama seca
Ou pés de ratos sobre vidro estilhaçado
Em nossa cave seca.

Figura sem forma, sombra sem cor,
Força paralisada, gesto sem movimento;

Aqueles que atravessaram
Com olhos retos, para o outro Reino da morte,
Lembram-nos — se é que o fazem — não como almas perdidas
Violentas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II
Olhos que não me encaram na vida
Aparecem como o sol
Sobre uma coluna partida
No outro Reino da morte,
Evitam-me a vida do desejo
Em um campo que não se move.

Ali, a pedra erguida está sob o sol,
E há árvores sussurrantes,
E há um rumor de águas.
E no vento uma canção...
Mais distante e mais solene
Que uma estrela.

Deixai-me mais perto da minha indumentária,
Deixai-me também usar
Tão deliberadamente
Tais disfarces de pele de rato, de vento cruzado,
De um campo moribundo,
De figuras contornadas e reverentes,
No crepúsculo
Este Reino vago.

III
Não é este o Reino final
Andando sozinhos à hora em que estamos
Tremendo com ternura
Lábios que beijariam
Formam orações a pedras quebradas.

IV
Os olhos não estão aqui
Não há olhos aqui
Neste vale de estrelas moribundas
Neste vale oco
Esta mandíbula partida de nossos Reinos perdidos

Neste último dos locais de encontro
Tateamos juntos
E evitamos a fala
Reunidos à margem do rio inchado
Sem ver — a não ser
Pelo resplendor dos olhos que reaparecem
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do Reino crepuscular da morte
A esperança apenas
Dos homens ocos.

V
Aqui vamos nós em volta da figueira
Figueira, figueira
Aqui vamos nós em volta da figueira
Às cinco da manhã.

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E o ato
Cai a Sombra
Pois Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Cai a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a queda
Cai a Sombra
Pois Teu é o Reino

Pois Teu é
A vida é
Pois Teu é o

É este o modo como o mundo acaba
É este o modo como o mundo acaba
É este o modo como o mundo acaba
Não com um estrondo, mas com um suspiro.

 

Entre a forma e a sombra: o intervalo que nos esvazia

Cada estrofe do poema faz vibrar uma sensação de descompasso. Eliot aponta para uma espécie de falha espiritual da modernidade: estamos cercados por estruturas — de linguagem, de trabalho, de ritos — mas desprovidos de densidade interior.

“Entre o desejo e o espasmo, entre a essência e a queda, cai a sombra.”

Aqui, a sombra é o vazio que se instala entre o que se é e o que se faz. O homem oco é aquele que vive no intervalo entre a potência e o ato. Ele poderia ser, mas não se atualiza. Ele fala, mas não comunica. Ele ama, mas não se entrega. É o sujeito funcional que abandonou a alma em algum ponto do percurso.

 

O cotidiano como campo de palha

Esse poema parece um delírio poético? Basta observar a vida comum:
– Reuniões cheias de palavras, mas sem escuta.

– Relacionamentos cheios de regras, mas sem presença.

– Redes sociais cheias de imagens, mas sem verdade.

A palha de Eliot é nossa repetição. Nossas frases automáticas. Nossa performance social. E há um risco: que a vida se torne uma sucessão de gestos sem alma, até o ponto em que o sujeito ainda respira, mas não vibra mais.

O filósofo Byung-Chul Han fala do “esvaziamento da interioridade” como marca do nosso tempo. O homem oco é esse homem adaptado à transparência, à hiperconexão e ao cansaço. Ele já não resiste, apenas repete.

 

A sombra que substitui o grito

Eliot anuncia que o mundo não acaba com uma explosão, mas com um suspiro.

“É este o modo como o mundo acaba / Não com um estrondo, mas com um suspiro.”

O fim que nos ameaça não é o da guerra, mas o do sentido. Um fim morno, sem convulsões. O apocalipse não como catástrofe, mas como esvaziamento. É como se a vida, aos poucos, fosse se tornando cenário, sem enredo. E nós, espectadores de nós mesmos.

Nietzsche gritava. Eliot sussurra. E nesse sussurro há algo mais trágico: a desistência. O niilismo aqui não é rebelde — é resignado.

 

Como escapar do oco?

Será possível escapar do destino dos ocos?

O filósofo Kierkegaard dizia que o salto da fé é o único movimento verdadeiro do espírito. É preciso atravessar o medo, escolher mesmo sem garantias, viver com responsabilidade existencial.

Simone Weil propunha uma saída silenciosa: atenção. Estar presente de verdade. Recolher-se da pressa, do ruído, da distração — e ouvir. Olhar. Habitar o gesto com consciência.

Talvez, então, o oposto do homem oco não seja o homem cheio — mas o homem desperto. Aquele que, mesmo ferido, mesmo cansado, ainda ousa sentir.

 

O suspiro que resiste à morte interior

Ler Os Homens Ocos é encarar um espelho escuro. Reconhecemos traços nossos ali. Não para nos culpar, mas para nos despertar.

A tragédia de Eliot é um convite: perceber o oco já é resistir a ele. O gesto reencontra a alma quando não é mais só performance, mas presença.

Se ainda pudermos colocar verdade no olhar, intenção na palavra, amor no gesto — mesmo que breve — talvez o poema ganhe outro fim. Talvez o mundo ainda possa recomeçar. Não com um estrondo, mas com um novo sussurro. Um sussurro que não seja vazio. Um sussurro cheio de ser.


domingo, 20 de abril de 2025

Koan Zen

Outro dia, fui fechar a janela do quarto e notei que o vento tinha espalhado umas folhas pelo chão. Nada demais. Só que, enquanto recolhia as folhas, uma pergunta estalou na mente como se tivesse vindo com o vento: “Qual era o meu rosto antes de eu nascer?”. Simplesmente assim, sem cerimônia. Parei com a folha na mão, como quem segura um enigma. E aí me lembrei: isso é um koan.

Os koans são aquelas perguntas malucas (mas estranhamente lúcidas) do Zen budismo, feitas para arrebentar as amarras da lógica comum. Tipo: “Qual o som de uma palma só?” ou “Se você encontrar o Buda pelo caminho, mate-o.” Não é poesia, nem enigma para decifrar com inteligência. É mais como uma pedrinha lançada no lago da mente — o objetivo não é responder, mas desinstalar o programa racional.

O enigma que não quer resposta

Koans não têm respostas claras. E é exatamente isso que os torna tão potentes. Eles não querem ser compreendidos, querem ser vividos. Como uma crise existencial às três da manhã. Como um pôr do sol que te faz chorar sem saber por quê.

Diferente dos dilemas da filosofia ocidental, que muitas vezes tentam organizar o pensamento e encontrar uma saída lógica, os koans são implosões. Eles colocam a gente diante de um limite — o ponto em que o raciocínio tropeça. E nesse tropeço, abre-se o chão. Quem cai, acorda. Pelo menos é o que dizem os mestres Zen.

Koan no cotidiano: a contradição que revela

Imagine que você está esperando um ônibus que está sempre atrasado. Vem aquela raiva. Você pensa: “Por que sempre comigo?” — e já começa a se armar contra o mundo. Mas, de repente, alguém do lado diz: “O ônibus chega quando você parar de esperar.” Parece piada, mas é quase um koan. É uma afirmação que não quer te consolar, mas quebrar o eixo da sua espera ansiosa. E se o ônibus, ou qualquer outra coisa, só chega quando a gente se esvazia da expectativa?

Um amigo me contou que, quando estava se recuperando de uma separação, uma senhora japonesa da vizinhança disse apenas: “O bambu entorta, mas não quebra.” Ele riu, achou bonito, mas só meses depois entendeu. Não com a mente, mas com o corpo, com o tempo, com o sentir.

Filosofia do absurdo lúcido

Dá pra pensar os koans como aquilo que o filósofo francês Albert Camus chamaria de “o absurdo”. Mas ao invés de se angustiar com o silêncio do universo, o Zen sorri para ele. O koan é esse sorriso, desconcertante e silencioso.

O brasileiro Huberto Rohden, em sua ponte entre mística oriental e filosofia ocidental, falava da necessidade de uma “inteligência intuitiva”, capaz de perceber além dos conceitos. Os koans vivem exatamente aí — onde a mente se rende, e o coração começa a ouvir.

Quando o koan vira espelho

A mágica (ou o terror) de um koan é que ele sempre devolve a pergunta pra você. “Quem está ouvindo este som?” “Quem você é quando não está sendo ninguém?” — São perguntas que não apontam para fora, mas fazem o espelho se transformar em abismo.

E talvez o mais inovador seja isso: o koan é uma anti-filosofia que filosofa por choque, por quebra, por vazio. É como se dissesse: “Enquanto você tentar entender, não vai perceber.” É um chamado para estar, não para saber.

Conclusão? Nem pensar.

No espírito dos koans, talvez o melhor seja terminar este ensaio com um vazio. Ou com outra pergunta:

Se você fechar os olhos agora, onde você está?

Talvez a resposta venha com o vento. Ou com a folha que escapou pela janela.


sexta-feira, 11 de abril de 2025

Coisas Perdidas

Perdemos coisas todos os dias. Algumas deslizam de nossas mãos e caem no chão, outras se esvaem em lapsos de memória, e há aquelas que nunca percebemos que existiram. São as coisas que escapam ao olhar e se escondem nos vãos do conhecimento. Mas como detectar aquilo que, por definição, é ignorado? Como perceber o que nunca foi visto?

O que os olhos não alcançam

O olhar é seletivo. Captura apenas o que julga importante, aquilo que faz sentido dentro do quadro do já conhecido. Uma sombra projetada sobre a parede pode esconder um detalhe, uma nuvem pode encobrir uma estrela, e um viés mental pode obliterar uma ideia. Isso significa que nossa percepção é, ao mesmo tempo, um farol e um anteparo: ilumina o que deseja e obscurece o que não lhe interessa.

No cotidiano, esse fenômeno ocorre de forma banal. Um amigo passa ao nosso lado e não o reconhecemos porque estamos absortos no próprio pensamento. Um detalhe arquitetônico da cidade onde vivemos por anos pode passar despercebido até que um visitante o aponte. As palavras ditas em um tom mais baixo durante uma conversa podem se perder, assim como nuances emocionais escapam quando estamos focados apenas no conteúdo das frases.

Conhecimento e suas fronteiras

O conhecimento não é apenas uma soma de fatos; é um mapa cheio de zonas em branco. O que sabemos orienta nossa busca, mas também delimita nossos horizontes. Quando um conceito novo emerge, percebemos que faltava algo no entendimento anterior, mas, até então, essa ausência não era sequer intuída.

As ciências nos ensinam isso repetidamente. Durante séculos, acreditava-se que o ar era apenas um espaço vazio, até que se descobriu sua composição química. Da mesma forma, os astrônomos do passado observavam o céu sem imaginar que ali, entre os pontos brilhantes, havia planetas invisíveis aos seus instrumentos. E, mesmo agora, com todo o avanço tecnológico, ainda há mistérios que permanecem além de nossa detecção, seja nas profundezas do oceano ou nas dimensões quânticas da matéria.

O instante sem contagem do tempo

Há momentos em que o tempo parece suspenso, um intervalo onde não há passado nem futuro, apenas um presente expandido. E, paradoxalmente, é nesse espaço sem tempo que lembranças emergem, o presente se intensifica e o futuro se insinua. Um instante de silêncio profundo pode conter toda a memória de uma vida, assim como um olhar pode antecipar um destino.

Muitas vezes, deixamos de perceber esses momentos porque estamos demasiado preocupados em medir o tempo, contá-lo, aprisioná-lo em cronômetros e agendas. No entanto, se nos permitimos habitar esse espaço sem contagem, podemos acessar um universo imenso que se esconde nas entrelinhas da experiência. A sensação de déjà vu, o pressentimento inexplicável, a lembrança que surge do nada — tudo isso aponta para a vastidão que existe além do tempo contado.

Como detectar o que se ignora?

Se o olhar e o conhecimento são limitados, o que nos resta para perceber o imperceptível? A resposta pode estar na atenção ao vazio, no estranhamento, no erro. Algo perdido pelo olhar pode ser detectado quando notamos o que deveria estar lá e não está. Um ruído cortado abruptamente pode revelar um som antes ignorado; uma resposta hesitante pode indicar um pensamento nunca articulado; um padrão que se repete pode apontar para algo que sempre esteve lá, mas nunca foi questionado.

Nietzsche dizia que a filosofia começa quando nos permitimos estranhar o óbvio. Questionar o que parece dado, virar os olhos para onde nunca olhamos antes, escutar o silêncio ao redor das palavras. Às vezes, o que está perdido não precisa ser encontrado, apenas percebido pela primeira vez.