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terça-feira, 18 de novembro de 2025

Erradicar Espectros


Um ensaio filosófico para quem convive com sombras que não pediram permissão para morar dentro de nós.

Às vezes, no meio da manhã, quando a vida parece seguir no piloto automático — trabalho, mensagem no celular, uma preocupação genérica pairando no ar — surge aquela sensação estranha de que há algo nos observando por dentro. Não é fantasma de filme, nem espírito de novela: são espectros nossos, construídos ao longo dos anos, geralmente escondidos atrás de frases como “depois eu penso nisso” ou “isso já passou”.

Mas espectro é teimoso.

Ele não passa.

Ele fica ali, sentado no canto da alma, fazendo comentário mental quando ninguém pediu opinião. E quando percebemos, esses espectros já dirigem parte das nossas escolhas, moldam nossos medos e reescrevem silenciosamente o que acreditamos ser nossa liberdade.

Erradicar espectros não significa declarar guerra ao sobrenatural. Significa declarar paz com a nossa própria história — e isso, como você sabe, é muito mais difícil.

Erradicar espectros é, antes de tudo, um movimento interno de lucidez. É aceitar que grande parte do que nos assombra não vem de fora, mas do avesso que carregamos conosco: expectativas frustradas, vínculos mal resolvidos, arrependimentos disfarçados, crenças herdadas que envelheceram mal. No fundo, todo ser humano é uma casa antiga com fios expostos. E qualquer casa antiga produz ruídos que, se não compreendidos, parecem fantasmas.

O espectro, nesse sentido, não é uma entidade: é um resto.

Algo que não se concluiu, mas continua ativo.

O filósofo brasileiro Vilém Flusser, embora mais conhecido por seu pensamento sobre comunicação e tecnologia, oferece uma chave poderosa para este tema. Para Flusser, vivemos cercados por aparelhos, códigos e hábitos que operam como programas — forças invisíveis que orientam nossas ações sem que percebamos. Ele dizia que, enquanto não tomarmos consciência desses programas, seremos apenas “funcionários do sistema”, executando funções que nem sabemos de onde surgem.

Se transportarmos essa ideia para o interior da psique, percebemos que nossos espectros são exatamente esses programas emocionais rodando em segundo plano. Medos repetidos. Reações automáticas. Padrões herdados. Tudo aquilo que se tornou tão familiar que já nem percebemos mais que não somos nós — é apenas código antigo.

Erradicar espectros, então, não é eliminá-los de forma violenta, mas desprogramá-los.

E como se desprograma um espectro? Com três movimentos filosóficos simples, porém exigentes:

1. Nomear o que assombra

Nenhum espectro sobrevive quando é dito em voz alta. A clareza é seu exorcismo.
Flusser insistia que a linguagem cria mundos; então, nomear é reorganizar a realidade.
Quando dizemos: “isso dói”, “isso me persegue”, “isso ainda me afeta”, a sombra perde densidade.

2. Assumir autoria do próprio roteiro

Se o espectro é algo inconcluso, somos nós que temos de concluir.
Não importa se é perdão, renúncia, aceitação ou mudança concreta — o que não pode é continuar na penumbra.

O ato de assumir responsabilidade sobre o que sentimos devolve ao sujeito a autonomia que o espectro roubou.

3. Criar novos códigos

Flusser acreditava que a inovação nasce quando rompemos com a programação padronizada.
Na vida interior, isso significa construir novos hábitos de pensamento, novas práticas, novas relações.

Espectros sobrevivem de repetição.

Novidade é a morte deles.

Concluindo...

Erradicar espectros não é um fim; é um processo contínuo de desassombro.
É aprender a caminhar com menos ruído interno.

É entender que a alma também precisa de limpeza de arquivo, atualização de software, reescrita de código.

No final, talvez não exista vida sem espectros — mas existe vida com espectros reconhecidos, domesticados e despojados de autoridade.

E essa, já é uma forma de libertação.