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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Diferenciar-se de Si Mesmo


Vou começar assim: quando acordo e, por alguns segundos, ainda sou o mesmo de ontem. O corpo reconhece o caminho até a cozinha, o espelho devolve um rosto familiar, o nome continua colado em mim como um crachá. Mas basta um pensamento fora do roteiro, um incômodo sem nome, para surgir a suspeita — e se eu já não for exatamente quem penso ser? É nesse pequeno desencaixe cotidiano que Deleuze começa a trabalhar. Não para nos devolver uma identidade mais sólida, mas para retirar o chão de vez.

Gilles Deleuze é o filósofo francês que fez da diferença, do devir e da criação conceitos centrais para pensar a vida não como identidade, mas como movimento contínuo.

Diferenciar-se de si mesmo

Para Deleuze, a diferença não é um desvio em relação a uma identidade prévia. Ela não nasce do “eu” como uma variação do mesmo, nem é um erro de cópia. A diferença é primeira. O que chamamos de identidade é apenas um efeito tardio, um congelamento provisório de forças que estão sempre em movimento. Diferenciar-se de si mesmo, portanto, não é uma escolha moral nem um projeto de autossuperação; é a própria condição de existência.

Em Diferença e Repetição, Deleuze desmonta a ideia clássica de que o pensamento começa pelo reconhecimento — “isso é isto”, “eu sou eu”. Para ele, pensar de verdade só acontece quando algo falha nesse reconhecimento, quando o pensamento é forçado por aquilo que não se deixa identificar. Diferenciar-se de si mesmo é ser atravessado por esse choque: algo em mim que não coincide comigo, que não responde ao meu nome, que não obedece à minha história.

O eu como hábito mal compreendido

Aquilo que chamamos de “eu” é, em grande parte, um conjunto de hábitos. Maneiras de reagir, de sentir, de narrar a própria vida. O problema é que o hábito cria a ilusão de continuidade: acreditamos que somos o mesmo porque repetimos gestos, rotinas, opiniões. Mas, para Deleuze, a repetição nunca repete o mesmo. Toda repetição introduz uma diferença, ainda que mínima, ainda que imperceptível.

Assim, diferenciar-se de si mesmo não significa romper dramaticamente com o passado, mas perceber que nunca fomos idênticos nem a nós mesmos. O “eu” é uma superfície onde passam forças impessoais: desejos que não escolhemos, afetos que nos surpreendem, ideias que surgem sem pedir licença. O sujeito não é a origem dessas forças; é apenas o lugar onde elas se cruzam por um instante.

Tornar-se outro sem virar outro

Há aqui um ponto delicado. Diferenciar-se de si mesmo não é “virar outra pessoa” no sentido psicológico ou social. Não se trata de trocar de personalidade, carreira ou discurso. Trata-se de algo mais radical e mais silencioso: permitir que o que em nós é impessoal, pré-individual, continue a agir.

Deleuze fala em devir, e não em transformação. O devir não tem ponto de partida fixo nem ponto de chegada definido. Quem entra em devir não abandona o que é para se tornar algo diferente; ele se desloca, se desalinha, se abre a conexões inesperadas. Diferenciar-se de si mesmo é aceitar esse desalinhamento sem tentar imediatamente traduzi-lo em identidade.

No cotidiano, isso aparece quando percebemos que um pensamento que nos atravessa não “combina” com quem acreditamos ser. Ou quando um desejo surge sem justificativa biográfica. Ou ainda quando sentimos que certas palavras que usamos já não nos representam — mas também não sabemos quais as substituiriam. Esse desconforto não é um erro a corrigir; é o próprio pensamento em ato.

Ética da diferença

Há uma ética implícita nessa concepção. Diferenciar-se de si mesmo exige uma certa coragem: a de não se proteger excessivamente por narrativas fixas sobre quem se é. Em vez de perguntar “quem sou eu?”, a pergunta deleuziana seria: o que pode um corpo? O que pode este corpo, esta mente, este conjunto instável de afetos, quando não está ocupado em se reconhecer o tempo todo?

Essa ética não busca autenticidade, mas potência. Não pede coerência, mas intensidade. Diferenciar-se de si mesmo é permitir que a vida em nós vá além das formas que já conhece. É resistir à tentação de fechar-se em uma identidade confortável só para evitar o risco de não saber.

Um eu em variação contínua

Talvez o gesto mais inovador de Deleuze seja este: retirar da diferença qualquer traço de negatividade. Diferenciar-se de si mesmo não é perda, crise ou fragmentação. É produção. Produção de novos modos de sentir, pensar e existir. O “si mesmo” não é um núcleo a ser preservado, mas um campo de variações possíveis.

No fim, aquilo que chamamos de identidade é apenas uma pausa provisória no fluxo. Um nome dado ao movimento para que possamos continuar. Mas a vida, indiferente aos nomes, segue diferindo — inclusive de nós mesmos. E talvez pensar, no sentido mais forte, seja justamente acompanhar esse movimento sem tentar detê-lo.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Erradicar Espectros


Um ensaio filosófico para quem convive com sombras que não pediram permissão para morar dentro de nós.

Às vezes, no meio da manhã, quando a vida parece seguir no piloto automático — trabalho, mensagem no celular, uma preocupação genérica pairando no ar — surge aquela sensação estranha de que há algo nos observando por dentro. Não é fantasma de filme, nem espírito de novela: são espectros nossos, construídos ao longo dos anos, geralmente escondidos atrás de frases como “depois eu penso nisso” ou “isso já passou”.

Mas espectro é teimoso.

Ele não passa.

Ele fica ali, sentado no canto da alma, fazendo comentário mental quando ninguém pediu opinião. E quando percebemos, esses espectros já dirigem parte das nossas escolhas, moldam nossos medos e reescrevem silenciosamente o que acreditamos ser nossa liberdade.

Erradicar espectros não significa declarar guerra ao sobrenatural. Significa declarar paz com a nossa própria história — e isso, como você sabe, é muito mais difícil.

Erradicar espectros é, antes de tudo, um movimento interno de lucidez. É aceitar que grande parte do que nos assombra não vem de fora, mas do avesso que carregamos conosco: expectativas frustradas, vínculos mal resolvidos, arrependimentos disfarçados, crenças herdadas que envelheceram mal. No fundo, todo ser humano é uma casa antiga com fios expostos. E qualquer casa antiga produz ruídos que, se não compreendidos, parecem fantasmas.

O espectro, nesse sentido, não é uma entidade: é um resto.

Algo que não se concluiu, mas continua ativo.

O filósofo brasileiro Vilém Flusser, embora mais conhecido por seu pensamento sobre comunicação e tecnologia, oferece uma chave poderosa para este tema. Para Flusser, vivemos cercados por aparelhos, códigos e hábitos que operam como programas — forças invisíveis que orientam nossas ações sem que percebamos. Ele dizia que, enquanto não tomarmos consciência desses programas, seremos apenas “funcionários do sistema”, executando funções que nem sabemos de onde surgem.

Se transportarmos essa ideia para o interior da psique, percebemos que nossos espectros são exatamente esses programas emocionais rodando em segundo plano. Medos repetidos. Reações automáticas. Padrões herdados. Tudo aquilo que se tornou tão familiar que já nem percebemos mais que não somos nós — é apenas código antigo.

Erradicar espectros, então, não é eliminá-los de forma violenta, mas desprogramá-los.

E como se desprograma um espectro? Com três movimentos filosóficos simples, porém exigentes:

1. Nomear o que assombra

Nenhum espectro sobrevive quando é dito em voz alta. A clareza é seu exorcismo.
Flusser insistia que a linguagem cria mundos; então, nomear é reorganizar a realidade.
Quando dizemos: “isso dói”, “isso me persegue”, “isso ainda me afeta”, a sombra perde densidade.

2. Assumir autoria do próprio roteiro

Se o espectro é algo inconcluso, somos nós que temos de concluir.
Não importa se é perdão, renúncia, aceitação ou mudança concreta — o que não pode é continuar na penumbra.

O ato de assumir responsabilidade sobre o que sentimos devolve ao sujeito a autonomia que o espectro roubou.

3. Criar novos códigos

Flusser acreditava que a inovação nasce quando rompemos com a programação padronizada.
Na vida interior, isso significa construir novos hábitos de pensamento, novas práticas, novas relações.

Espectros sobrevivem de repetição.

Novidade é a morte deles.

Concluindo...

Erradicar espectros não é um fim; é um processo contínuo de desassombro.
É aprender a caminhar com menos ruído interno.

É entender que a alma também precisa de limpeza de arquivo, atualização de software, reescrita de código.

No final, talvez não exista vida sem espectros — mas existe vida com espectros reconhecidos, domesticados e despojados de autoridade.

E essa, já é uma forma de libertação.