Vou
começar assim: quando acordo e, por alguns segundos, ainda sou o mesmo de
ontem. O corpo reconhece o caminho até a cozinha, o espelho devolve um rosto
familiar, o nome continua colado em mim como um crachá. Mas basta um pensamento
fora do roteiro, um incômodo sem nome, para surgir a suspeita — e se eu já
não for exatamente quem penso ser? É nesse pequeno desencaixe cotidiano que
Deleuze começa a trabalhar. Não para nos devolver uma identidade
mais sólida, mas para retirar o chão de vez.
Gilles
Deleuze é o filósofo francês que fez da diferença, do devir e
da criação conceitos centrais para pensar a vida não como identidade, mas como
movimento contínuo.
Diferenciar-se
de si mesmo
Para
Deleuze, a diferença não é um desvio em relação a uma identidade prévia. Ela
não nasce do “eu” como uma variação do mesmo, nem é um erro de cópia. A
diferença é primeira. O que chamamos de identidade é apenas um efeito tardio,
um congelamento provisório de forças que estão sempre em movimento.
Diferenciar-se de si mesmo, portanto, não é uma escolha moral nem um projeto de
autossuperação; é a própria condição de existência.
Em
Diferença e Repetição, Deleuze desmonta a ideia clássica de que o
pensamento começa pelo reconhecimento — “isso é isto”, “eu sou eu”. Para ele,
pensar de verdade só acontece quando algo falha nesse reconhecimento, quando o
pensamento é forçado por aquilo que não se deixa identificar. Diferenciar-se de
si mesmo é ser atravessado por esse choque: algo em mim que não coincide
comigo, que não responde ao meu nome, que não obedece à minha história.
O
eu como hábito mal compreendido
Aquilo
que chamamos de “eu” é, em grande parte, um conjunto de hábitos. Maneiras de
reagir, de sentir, de narrar a própria vida. O problema é que o hábito cria a
ilusão de continuidade: acreditamos que somos o mesmo porque repetimos gestos,
rotinas, opiniões. Mas, para Deleuze, a repetição nunca repete o mesmo. Toda
repetição introduz uma diferença, ainda que mínima, ainda que imperceptível.
Assim,
diferenciar-se de si mesmo não significa romper dramaticamente com o passado,
mas perceber que nunca fomos idênticos nem a nós mesmos. O “eu” é uma
superfície onde passam forças impessoais: desejos que não escolhemos, afetos
que nos surpreendem, ideias que surgem sem pedir licença. O sujeito não é a
origem dessas forças; é apenas o lugar onde elas se cruzam por um instante.
Tornar-se
outro sem virar outro
Há
aqui um ponto delicado. Diferenciar-se de si mesmo não é “virar outra pessoa”
no sentido psicológico ou social. Não se trata de trocar de personalidade,
carreira ou discurso. Trata-se de algo mais radical e mais silencioso: permitir
que o que em nós é impessoal, pré-individual, continue a agir.
Deleuze
fala em devir, e não em transformação. O devir não tem ponto de partida
fixo nem ponto de chegada definido. Quem entra em devir não abandona o que é
para se tornar algo diferente; ele se desloca, se desalinha, se abre a conexões
inesperadas. Diferenciar-se de si mesmo é aceitar esse desalinhamento sem
tentar imediatamente traduzi-lo em identidade.
No
cotidiano, isso aparece quando percebemos que um pensamento que nos atravessa
não “combina” com quem acreditamos ser. Ou quando um desejo surge sem
justificativa biográfica. Ou ainda quando sentimos que certas palavras que
usamos já não nos representam — mas também não sabemos quais as substituiriam.
Esse desconforto não é um erro a corrigir; é o próprio pensamento em ato.
Ética
da diferença
Há
uma ética implícita nessa concepção. Diferenciar-se de si mesmo exige uma certa
coragem: a de não se proteger excessivamente por narrativas fixas sobre quem se
é. Em vez de perguntar “quem sou eu?”, a pergunta deleuziana seria: o que
pode um corpo? O que pode este corpo, esta mente, este conjunto instável de
afetos, quando não está ocupado em se reconhecer o tempo todo?
Essa
ética não busca autenticidade, mas potência. Não pede coerência, mas
intensidade. Diferenciar-se de si mesmo é permitir que a vida em nós vá além
das formas que já conhece. É resistir à tentação de fechar-se em uma identidade
confortável só para evitar o risco de não saber.
Um
eu em variação contínua
Talvez
o gesto mais inovador de Deleuze seja este: retirar da diferença qualquer traço
de negatividade. Diferenciar-se de si mesmo não é perda, crise ou fragmentação.
É produção. Produção de novos modos de sentir, pensar e existir. O “si mesmo”
não é um núcleo a ser preservado, mas um campo de variações possíveis.
No
fim, aquilo que chamamos de identidade é apenas uma pausa provisória no fluxo.
Um nome dado ao movimento para que possamos continuar. Mas a vida, indiferente
aos nomes, segue diferindo — inclusive de nós mesmos. E talvez pensar, no
sentido mais forte, seja justamente acompanhar esse movimento sem tentar
detê-lo.