Um
ensaio filosófico para quem convive com sombras que não pediram permissão para
morar dentro de nós.
Às
vezes, no meio da manhã, quando a vida parece seguir no piloto automático —
trabalho, mensagem no celular, uma preocupação genérica pairando no ar — surge
aquela sensação estranha de que há algo nos observando por dentro. Não é
fantasma de filme, nem espírito de novela: são espectros nossos, construídos ao
longo dos anos, geralmente escondidos atrás de frases como “depois eu penso
nisso” ou “isso já passou”.
Mas
espectro é teimoso.
Ele
não passa.
Ele
fica ali, sentado no canto da alma, fazendo comentário mental quando ninguém
pediu opinião. E quando percebemos, esses espectros já dirigem parte das nossas
escolhas, moldam nossos medos e reescrevem silenciosamente o que acreditamos
ser nossa liberdade.
Erradicar
espectros não significa declarar guerra ao sobrenatural. Significa declarar paz
com a nossa própria história — e isso, como você sabe, é muito mais difícil.
Erradicar
espectros é, antes de tudo, um movimento interno de lucidez. É aceitar que
grande parte do que nos assombra não vem de fora, mas do avesso que carregamos
conosco: expectativas frustradas, vínculos mal resolvidos, arrependimentos
disfarçados, crenças herdadas que envelheceram mal. No fundo, todo ser humano é
uma casa antiga com fios expostos. E qualquer casa antiga produz ruídos que, se
não compreendidos, parecem fantasmas.
O
espectro, nesse sentido, não é uma entidade: é um resto.
Algo
que não se concluiu, mas continua ativo.
O
filósofo brasileiro Vilém Flusser, embora mais conhecido por seu
pensamento sobre comunicação e tecnologia, oferece uma chave poderosa para este
tema. Para Flusser, vivemos cercados por aparelhos, códigos e hábitos que
operam como programas — forças invisíveis que orientam nossas ações sem que
percebamos. Ele dizia que, enquanto não tomarmos consciência desses programas,
seremos apenas “funcionários do sistema”, executando funções que nem sabemos de
onde surgem.
Se
transportarmos essa ideia para o interior da psique, percebemos que nossos
espectros são exatamente esses programas emocionais rodando em segundo
plano. Medos repetidos. Reações automáticas. Padrões herdados. Tudo aquilo que
se tornou tão familiar que já nem percebemos mais que não somos nós — é apenas
código antigo.
Erradicar
espectros, então, não é eliminá-los de forma violenta, mas desprogramá-los.
E
como se desprograma um espectro? Com três movimentos filosóficos simples, porém
exigentes:
1.
Nomear o que assombra
Nenhum
espectro sobrevive quando é dito em voz alta. A clareza é seu exorcismo.
Flusser insistia que a linguagem cria mundos; então, nomear é reorganizar a
realidade.
Quando dizemos: “isso dói”, “isso me persegue”, “isso ainda me afeta”, a sombra
perde densidade.
2.
Assumir autoria do próprio roteiro
Se
o espectro é algo inconcluso, somos nós que temos de concluir.
Não importa se é perdão, renúncia, aceitação ou mudança concreta — o que não
pode é continuar na penumbra.
O
ato de assumir responsabilidade sobre o que sentimos devolve ao sujeito a
autonomia que o espectro roubou.
3.
Criar novos códigos
Flusser
acreditava que a inovação nasce quando rompemos com a programação padronizada.
Na vida interior, isso significa construir novos hábitos de pensamento, novas
práticas, novas relações.
Espectros
sobrevivem de repetição.
Novidade
é a morte deles.
Concluindo...
Erradicar
espectros não é um fim; é um processo contínuo de desassombro.
É aprender a caminhar com menos ruído interno.
É
entender que a alma também precisa de limpeza de arquivo, atualização de
software, reescrita de código.
No
final, talvez não exista vida sem espectros — mas existe vida com espectros reconhecidos,
domesticados e despojados de autoridade.
E
essa, já é uma forma de libertação.
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