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sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Senso Invertido

Há quem diga que fulano tem “senso invertido” como quem fala de alguém que, diante de um caminho reto, decide andar de costas. O senso invertido não é exatamente burrice nem rebeldia gratuita — é uma forma de percepção que vai contra a corrente, às vezes por teimosia, outras por sensibilidade. É como ver beleza no que está fora do lugar, lógica no caos, esperança onde ninguém mais acredita.

 

Imagine a criança que prefere brincar com a caixa do presente em vez do brinquedo. Ou aquele colega de trabalho que acha os momentos mais produtivos justamente quando a reunião acaba. O senso invertido aparece em pequenas decisões cotidianas: escolher o caminho mais longo porque é mais bonito, ouvir primeiro a opinião do mais calado, desconfiar do que todos aceitam como certo.

 

Na vida prática, o senso invertido pode parecer um atraso. Mas, em muitos casos, é o que impede que nos tornemos apenas peças obedientes de uma engrenagem social. É ele que faz alguém se recusar a aceitar uma injustiça "só porque sempre foi assim". É ele que, às vezes, faz um artista pintar com a cor errada ou um inventor insistir numa ideia improvável — e mudar tudo.

 

O filósofo e sociólogo francês Roland Barthes dizia que “o óbvio é aquilo que deve ser combatido”. Nesse espírito, o senso invertido funciona como uma espécie de anticorpo contra os automatismos do mundo. Ele é, no fundo, uma forma de resistência: não aceitar o que é dado como natural, questionar o evidente, reverter a lógica do costume.

 

Claro que nem sempre ele acerta. Às vezes tropeça na própria originalidade. Mas, mesmo quando erra, o senso invertido abre novas trilhas. E isso já é muito. Porque nem todo caminho precisa ser o certo — alguns só precisam ser possíveis.