Há quem diga que fulano tem “senso invertido” como quem fala de alguém que, diante de um caminho reto, decide andar de costas. O senso invertido não é exatamente burrice nem rebeldia gratuita — é uma forma de percepção que vai contra a corrente, às vezes por teimosia, outras por sensibilidade. É como ver beleza no que está fora do lugar, lógica no caos, esperança onde ninguém mais acredita.
Imagine
a criança que prefere brincar com a caixa do presente em vez do brinquedo. Ou
aquele colega de trabalho que acha os momentos mais produtivos justamente
quando a reunião acaba. O senso invertido aparece em pequenas decisões
cotidianas: escolher o caminho mais longo porque é mais bonito, ouvir primeiro
a opinião do mais calado, desconfiar do que todos aceitam como certo.
Na
vida prática, o senso invertido pode parecer um atraso. Mas, em muitos casos, é
o que impede que nos tornemos apenas peças obedientes de uma engrenagem social.
É ele que faz alguém se recusar a aceitar uma injustiça "só porque sempre
foi assim". É ele que, às vezes, faz um artista pintar com a cor errada ou
um inventor insistir numa ideia improvável — e mudar tudo.
O
filósofo e sociólogo francês Roland Barthes dizia que “o óbvio é
aquilo que deve ser combatido”. Nesse espírito, o senso invertido funciona
como uma espécie de anticorpo contra os automatismos do mundo. Ele é, no fundo,
uma forma de resistência: não aceitar o que é dado como natural, questionar o
evidente, reverter a lógica do costume.
Claro
que nem sempre ele acerta. Às vezes tropeça na própria originalidade. Mas,
mesmo quando erra, o senso invertido abre novas trilhas. E isso já é muito.
Porque nem todo caminho precisa ser o certo — alguns só precisam ser possíveis.
