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domingo, 29 de março de 2026

Faces da Sociedade


Há dias em que a sociedade parece perfeitamente funcional. As pessoas seguem rotinas, pagam contas, discutem trivialidades, fazem planos. Tudo parece em ordem — ou, pelo menos, suficientemente organizado para que ninguém questione demais. Mas foi numa dessas aparências de normalidade que comecei a pensar naquilo que Zygmunt Bauman chamaria, talvez, de a segunda face da sociedade: aquela que não se mostra no cotidiano tranquilo, mas que nunca deixa de existir.

Bauman, especialmente em sua leitura do Holocausto, desmonta uma ilusão confortável: a de que barbáries são desvios, acidentes históricos, fruto de loucura coletiva ou de indivíduos monstruosos. Não. O que ele sugere é mais perturbador — o Holocausto não foi uma quebra da modernidade, mas uma de suas possibilidades internas. Não algo fora da sociedade, mas algo que emergiu dela, com suas ferramentas, sua racionalidade, sua burocracia.

E isso muda tudo.

Porque gostamos de pensar que a sociedade tem uma face “boa” e outra “má”, como se fossem separáveis. Mas Bauman insiste que elas são inseparáveis. A mesma estrutura que organiza trens com precisão pode organizar deportações. A mesma lógica administrativa que otimiza processos pode, em outro contexto, otimizar a morte. A segunda face da sociedade não é o oposto da primeira — é sua continuação em condições extremas.

Lembrei disso outro dia numa situação banal: uma fila de atendimento onde ninguém olhava nos olhos de ninguém. Cada pessoa era apenas mais um número, mais um problema a ser resolvido rapidamente. Não havia maldade ali, claro. Mas havia uma espécie de neutralidade fria. E talvez seja justamente nisso que mora o perigo: quando o outro deixa de ser alguém e passa a ser uma função, um dado, um obstáculo.

O Holocausto, nesse sentido, representa o ponto em que essa neutralidade se radicaliza. Não se tratava apenas de ódio — embora ele existisse — mas de um sistema inteiro funcionando sem a necessidade de empatia. Pessoas cumprindo funções, obedecendo ordens, seguindo protocolos. A desumanização não começou nos campos; começou antes, na forma como se passou a ver certas pessoas como categorias, como problemas a serem administrados.

É nesse ponto que entram experiências políticas do século XX como o fascismo e o comunismo — não como fenômenos idênticos, mas como expressões distintas de uma mesma tentação moderna: a de organizar a sociedade de forma total, subordinando o indivíduo a uma ideia maior. No fascismo, essa ideia se manifesta na nação, na pureza, na ordem imposta pela força; no comunismo histórico, especialmente em suas versões autoritárias, ela aparece na promessa de igualdade absoluta, muitas vezes implementada por meio de controle rígido e eliminação de dissensos. Em ambos os casos, quando levados ao extremo, há um risco comum: o apagamento da singularidade humana em nome de um projeto coletivo. A segunda face da sociedade emerge quando o sistema passa a valer mais do que as pessoas que o compõem.

E aqui a reflexão se torna incômoda: o quanto disso ainda vive entre nós?

Na chamada modernidade líquida, as relações são frágeis, rápidas, descartáveis. Isso cria uma outra forma de desumanização — mais sutil, menos visível, mas ainda presente. Não eliminamos o outro fisicamente, mas o tornamos irrelevante, substituível, invisível. É uma violência sem espetáculo, quase silenciosa.

O sociólogo brasileiro Jessé Souza ajuda a aprofundar esse ponto quando fala sobre como certas sociedades naturalizam a desigualdade. Para ele, há grupos inteiros que são tratados como “menos gente”, não por decreto explícito, mas por práticas cotidianas: o desprezo, a indiferença, a invisibilidade. É como se a segunda face da sociedade estivesse sempre operando, mas em baixa intensidade, integrada ao nosso dia a dia.

Talvez seja por isso que o pensamento de Bauman incomoda tanto. Ele não permite que coloquemos o mal em um lugar distante, histórico, encerrado. Ele sugere que as condições que tornaram o Holocausto possível não desapareceram — elas apenas mudaram de forma.

No fim, a segunda face da sociedade não é um segredo escondido. Ela está ali, nas pequenas desatenções, nas relações utilitárias, na facilidade com que classificamos e descartamos pessoas. O Holocausto, então, não é apenas memória — é um alerta radical sobre o que pode acontecer quando deixamos de ver o outro como humano.

E talvez a pergunta mais difícil não seja “como aquilo foi possível?”, mas “em que medida ainda é?”. E isto tudo debaixo de nossos olhos e narizes...