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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Compraram a Republica



Tem algo de inquietante no ar — uma sensação difusa de que não se trata apenas de mais um escândalo, mais uma manchete ou mais uma crise cíclica. A impressão é mais profunda: como se a própria estrutura da vida pública tivesse sido lentamente colonizada por uma lógica que não distingue mais o interesse coletivo do cálculo privado. Quando se pergunta “quem comprou e quem vendeu a República?”, que sensação assustadora, talvez a resposta mais desconfortável seja: ninguém em específico — e, ao mesmo tempo, todos participaram de alguma forma.

Um olhar sociológico sugere que a corrupção, nesse nível, deixa de ser um desvio e passa a funcionar como linguagem. Não é mais exceção à regra, mas uma gramática invisível que organiza relações de poder. Nesse sentido, a corrupção não é apenas um ato ilegal; ela se torna um sistema de trocas simbólicas e materiais, onde favores, cargos e decisões públicas circulam como moeda. A República, idealmente fundada sobre princípios abstratos como justiça, igualdade e legalidade, passa a operar, na prática, por meio de vínculos pessoais, lealdades informais e interesses fragmentados.

Aqui, um diálogo com Claude Lévi-Strauss ajuda a iluminar o problema: em suas análises sobre estruturas sociais, ele mostra que toda sociedade se organiza por sistemas de troca — não apenas de bens, mas de signos, alianças e reconhecimentos. O que vemos no Brasil contemporâneo pode ser interpretado como uma distorção dessas estruturas: a troca deixa de ser regulada por normas impessoais e passa a ser capturada por redes privadas. A corrupção, então, não é um acidente — é uma estrutura paralela que compete com a estrutura oficial.

Mas há um segundo nível ainda mais perturbador: o simbólico. A corrupção entranhada corrói não apenas instituições, mas também a confiança coletiva — aquilo que permite que estranhos convivam sob regras comuns. Quando essa confiança se dissolve, instala-se uma espécie de cinismo social generalizado. O cidadão passa a suspeitar de tudo e de todos; a ética pública se relativiza; e a própria ideia de bem comum perde densidade. Nesse cenário, a corrupção se reproduz porque já não encontra resistência moral suficiente para ser rejeitada de forma consistente.

Podemos tencionar essa análise com Max Weber, que via o Estado moderno como uma estrutura baseada na racionalidade legal e na impessoalidade das normas. Quando essa racionalidade é corroída, o que emerge é uma forma híbrida — nem tradicional, nem plenamente moderna — onde o poder se exerce de maneira ambígua, oscilando entre o formal e o informal. O resultado é um Estado que existe juridicamente, mas cuja prática cotidiana é constantemente atravessada por exceções.

No entanto, reduzir o problema a uma falha moral ou institucional seria simplista. A corrupção entranhada também revela uma tensão histórica: a dificuldade de consolidar, em profundidade, uma cultura republicana. Isso implica reconhecer que a República não é apenas um regime político, mas um hábito coletivo — uma disposição para colocar o interesse público acima das vantagens imediatas. Sem esse hábito, as instituições tornam-se frágeis, porque dependem de uma ética que não está plenamente internalizada.

Talvez o ponto mais incômodo seja este: a corrupção sistêmica não se sustenta apenas “no alto”. Ela se alimenta de pequenas concessões cotidianas, de racionalizações individuais, de uma lógica difusa do “todo mundo faz”. Nesse sentido, a pergunta inicial se desloca: não é apenas quem vendeu a República, mas em que medida ela foi sendo gradualmente fragmentada por uma cultura que normaliza a exceção.

Ainda assim, há um paradoxo. O fato de a corrupção ser percebida, discutida e denunciada indica que a ideia de República não desapareceu — ela persiste como horizonte crítico. É justamente essa tensão entre ideal e prática que mantém aberta a possibilidade de transformação. A crise, então, pode ser lida não apenas como decadência, mas como um momento de revelação: quando as estruturas invisíveis se tornam visíveis, e aquilo que era naturalizado passa a ser questionado.

talvez, a pergunta mais fértil não seja “quem comprou ou vendeu”, mas “quais condições permitiram que a República se tornasse negociável?”. A resposta não será simples, nem confortável. Mas é nesse desconforto que reside a possibilidade de reconstruir — não apenas instituições, mas o próprio sentido de pertencimento a uma vida comum. O que estão fazendo com nossa pátria amada!