Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador encantos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador encantos. Mostrar todas as postagens

sábado, 13 de setembro de 2025

Astúcias da Retórica

A retórica não é apenas a arte de persuadir — é a arte de enredar o real em palavras até que a aparência tenha mais peso que a substância. Desde as praças atenienses até os algoritmos das redes sociais, a retórica se move como um ser mutante, travestido de argumento, disfarçado de lógica, mas com o corpo repleto de intenções. Ela não mente: seduz.

A astúcia da retórica está em sua capacidade de dizer o que queremos ouvir antes mesmo de sabermos o que é isso. O político que promete, o influencer que emociona, o intelectual que encanta — todos, de algum modo, surfam essa arte de envolver sem comprometer, tocar sem transformar. A linguagem vira performance, e o conteúdo se dissolve no espetáculo da forma.

Michel de Montaigne, em seus Ensaios, já desconfiava dos que falam bonito demais. Para ele, a eloquência sem verdade é como um prato bem servido, mas vazio. “O estilo, para mim, nunca deve afastar-se do conteúdo”, escreve. Mas os tempos atuais invertem esse princípio: o estilo virou o próprio conteúdo. Vivemos uma era em que a retórica se descolou do real e se tornou uma estratégia de sobrevivência discursiva.

E não pensemos que a astúcia da retórica é sempre maliciosa. Há retóricas que salvam. Uma mãe que convence o filho a seguir em frente. Um professor que desperta entusiasmo em meio ao cansaço. Um líder que acalma durante o caos. A diferença não está na retórica em si, mas no modo como ela é posta a serviço da verdade ou da manipulação.

Por isso, a filosofia — como lembrava Wittgenstein — deve, entre outras coisas, nos curar do enfeitiçamento da linguagem. Entender as astúcias da retórica é resistir ao fascínio fácil da palavra bem posta. É olhar para além do discurso e perguntar: o que está sendo realmente dito? E, sobretudo, a quem serve essa beleza?

Assim, mais do que temê-la ou exaltar seus encantos, cabe-nos compreender a retórica em sua ambivalência: como ponte e como armadilha. Saber ouvi-la, sabê-la usar — mas sem jamais deixar que ela pense por nós.