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sábado, 10 de janeiro de 2026

Real ou Figurado

Entre a Pedra e o Sinal

Há um momento curioso em toda conversa humana: aquele instante em que precisamos decidir se a frase deve ser acreditada ou interpretada. Quando alguém diz “estou no fundo do poço”, ninguém oferece uma corda literal. Ainda assim, algo ali é profundamente real. Esse pequeno desvio revela um dos jogos mais antigos da linguagem: o vaivém entre o real e o figurado. Após uma conversa com um colega fiquei a pensar sobre isto, ele bastante ansioso em busca de alternativas para enfrentar os problemas naquele momento delicado, o que ele falou me fez refletir a respeito do tanto que falamos com linguagem profunda carregada de sentido emocional.

O sentido real tranquiliza. Ele fixa o mundo, dá contornos, permite medir, pesar, provar. Uma pedra é uma pedra. Um corpo ocupa espaço. O dia começa e termina. Mas o ser humano nunca se contentou com isso. A realidade literal é insuficiente para dar conta da experiência. Sofrimento, desejo, esperança e tempo não cabem inteiros em palavras literais. É aí que o figurado entra como contrabando existencial: ilegal, mas necessário.

Curiosamente, chamamos de “figurado” aquilo que mais se aproxima do vivido. Ninguém sente a dor como um dado técnico; sente como um peso, um vazio, um nó. A linguagem figurada não embeleza a realidade — ela a torna suportável. Talvez por isso as sociedades que tentam expulsar a metáfora acabem empobrecendo o pensamento. Onde tudo precisa ser exato, quase nada é compreendido.

O real, isolado, é mudo. Uma lágrima, em si, é apenas sal e água. Ela só fala quando dizemos que carrega um mundo. O figurado, então, não é fuga do real, mas sua tradução. É a tentativa de dar forma comunicável ao que, de outro modo, permaneceria preso ao silêncio interno.

Mas há um risco: quando esquecemos que o figurado aponta para algo, e não é o algo. Quando metáforas viram dogmas, quando símbolos se solidificam, nasce a confusão. Passamos a defender imagens como se fossem fatos e a negar fatos porque ferem nossas imagens. Nesse ponto, o figurado deixa de iluminar o real e passa a substituí-lo — e toda substituição excessiva gera cegueira.

Talvez viver seja aprender a alternar. Saber quando a pedra é apenas pedra e quando ela pesa como o mundo. Saber quando alguém pede um copo d’água e quando pede, sem saber, um gesto de cuidado. A sabedoria não está em escolher entre o real e o figurado, mas em reconhecer o momento exato de cada um.

No fim, o humano é esse ser que anda com um pé no chão e outro no símbolo. Demasiado real, torna-se bruto. Demasiado figurado, perde-se em névoa. Entre a pedra e o sinal, entre o fato e a imagem, seguimos tentando dizer o indizível — e chamamos isso, modestamente, de linguagem.

sábado, 22 de novembro de 2025

Números Harmônicos

Quando olhamos para o mundo, raramente pensamos em números. Mas eles estão em tudo: nas batidas do coração, na cadência das ondas, nas proporções de um rosto. A vida inteira pulsa em ritmo — e o ritmo é número que ganhou corpo.

A harmonia dos números não é apenas matemática; é estética. Há uma ordem oculta que liga o macro ao micro, o universo à folha, o tempo ao compasso. Tudo vibra em correspondência.

Os números harmônicos me lembram das pequenas somas invisíveis que sustentam o equilíbrio do dia a dia. Assim como cada termo da sequência vai diminuindo, mas nunca desaparece — 1, 1/2, 1/3, 1/4… —, há gestos e esforços que, embora pareçam cada vez menores, continuam contando. Penso nisso quando, ao final de um dia cheio, reúno forças para preparar o jantar ou enviar aquela última mensagem de cuidado a alguém. Sozinhos, esses atos parecem quase nada, mas juntos formam uma harmonia de pequenas partes que, como os números harmônicos, crescem lentamente sem jamais perder o sentido de soma.

Pitágoras via nos números a linguagem do cosmos. Para ele, compreender as proporções era tocar a música secreta da existência. O curioso é que, quando estamos em equilíbrio, também sentimos essa harmonia: o corpo, a mente e o tempo entram no mesmo ritmo.

A beleza, afinal, é quando tudo se encaixa sem esforço — como um número certo no lugar certo, como a vida quando volta a fazer sentido.


sábado, 13 de setembro de 2025

Astúcias da Retórica

A retórica não é apenas a arte de persuadir — é a arte de enredar o real em palavras até que a aparência tenha mais peso que a substância. Desde as praças atenienses até os algoritmos das redes sociais, a retórica se move como um ser mutante, travestido de argumento, disfarçado de lógica, mas com o corpo repleto de intenções. Ela não mente: seduz.

A astúcia da retórica está em sua capacidade de dizer o que queremos ouvir antes mesmo de sabermos o que é isso. O político que promete, o influencer que emociona, o intelectual que encanta — todos, de algum modo, surfam essa arte de envolver sem comprometer, tocar sem transformar. A linguagem vira performance, e o conteúdo se dissolve no espetáculo da forma.

Michel de Montaigne, em seus Ensaios, já desconfiava dos que falam bonito demais. Para ele, a eloquência sem verdade é como um prato bem servido, mas vazio. “O estilo, para mim, nunca deve afastar-se do conteúdo”, escreve. Mas os tempos atuais invertem esse princípio: o estilo virou o próprio conteúdo. Vivemos uma era em que a retórica se descolou do real e se tornou uma estratégia de sobrevivência discursiva.

E não pensemos que a astúcia da retórica é sempre maliciosa. Há retóricas que salvam. Uma mãe que convence o filho a seguir em frente. Um professor que desperta entusiasmo em meio ao cansaço. Um líder que acalma durante o caos. A diferença não está na retórica em si, mas no modo como ela é posta a serviço da verdade ou da manipulação.

Por isso, a filosofia — como lembrava Wittgenstein — deve, entre outras coisas, nos curar do enfeitiçamento da linguagem. Entender as astúcias da retórica é resistir ao fascínio fácil da palavra bem posta. É olhar para além do discurso e perguntar: o que está sendo realmente dito? E, sobretudo, a quem serve essa beleza?

Assim, mais do que temê-la ou exaltar seus encantos, cabe-nos compreender a retórica em sua ambivalência: como ponte e como armadilha. Saber ouvi-la, sabê-la usar — mas sem jamais deixar que ela pense por nós.


sábado, 6 de setembro de 2025

Segurar a Língua

O Ato de Não Dizer

Segurar a língua é mais do que um gesto físico; é um exercício de autocontrole, cálculo e, por vezes, sobrevivência. A decisão de não falar, quando se tem algo pronto na boca, pode ser tanto um sinal de sabedoria quanto um peso que corrói por dentro.

O filósofo brasileiro Rubem Alves, que via a linguagem como ponte e também como abismo, lembrava que o silêncio pode ser mais revelador que qualquer palavra. Para ele, a fala precipitada é como uma flecha lançada: impossível de recolher. Segurar a língua, então, é conter essa flecha antes que ela parta, seja para evitar ferir alguém, seja para evitar ferir a si mesmo.

No cotidiano, a prática é onipresente. No trabalho, diante de uma decisão equivocada do chefe, a língua coça, mas a prudência segura. Em uma discussão de casal, há frases prontas para incendiar a situação, mas que ficam presas entre os dentes. Na fila do banco, diante de um comentário grosseiro, a vontade é retrucar, mas o corpo inteiro decide que é melhor não.

Mas o ato não é neutro. Guardar a palavra pode proteger, mas também pode sufocar. Há quem segure a língua tantas vezes que, aos poucos, vai apagando a própria voz — transformando-se num espectador da própria vida. E há quem não segure nunca, falando como se cada instante fosse uma última chance, acumulando inimigos e desgastes.

Rubem Alves sugeriria que a sabedoria está em saber quando o silêncio é um abrigo e quando é uma prisão. Segurar a língua, nesses termos, não é calar-se por medo, mas por escolha consciente: compreender que o tempo certo da palavra não é sempre o tempo da emoção.

Talvez seja esse o paradoxo: falar exige coragem, mas calar exige uma coragem ainda maior — a de confiar que nem toda verdade precisa ser dita para ser vivida.


sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Incerteza de Indexicais

Entre o Eu, o Aqui e o Agora

A filosofia da linguagem nos deu muitos instrumentos para entender como nomeamos o mundo — mas os indexicais continuam sendo como portas que se movem conforme nos aproximamos. “Eu”, “aqui”, “agora” não apontam para nada fixo; são coordenadas móveis que se deslocam com o próprio sujeito. O que torna esses termos fascinantes é a sua incerteza essencial: só têm sentido no momento em que são proferidos e, imediatamente, esse sentido se dissolve, como se fosse areia escorrendo entre os dedos.

Imagine alguém dizendo “Estou com fome agora”. Essa frase, capturada numa gravação, será verdadeira no instante do registro, mas perde a garantia de verdade no instante seguinte. É um mapa cujo “você está aqui” muda antes que possamos dobrar a esquina. O mesmo vale para “Eu”: a pessoa que diz eu ao amanhecer não é a mesma que dirá eu à noite, mesmo que seja o mesmo corpo.

O filósofo brasileiro Vilém Flusser — ainda que tenha trabalhado mais com comunicação e cultura do que com a semântica formal — oferece um ponto de apoio. Ao discutir a mediação dos signos, Flusser nos lembra que a linguagem é sempre uma projeção de situação. Isso significa que cada indexical não apenas aponta para uma posição no espaço-tempo, mas revela e esconde simultaneamente o sujeito que o profere. Se “eu” muda a cada instante, não se trata apenas de uma limitação da linguagem, mas da própria instabilidade de quem fala.

No cotidiano, essa incerteza é mais comum do que percebemos. Um pai que diz “Volto já” pode estar falando de cinco minutos ou de cinco anos — o tempo indexical “já” depende de contextos invisíveis, expectativas tácitas, histórias partilhadas. Um casal que discute e ouve “Estou aqui” não escuta apenas uma informação geográfica, mas uma afirmação emocional, talvez desesperada. Os indexicais são tanto coordenadas do GPS quanto coordenadas da alma.

A incerteza, portanto, não é defeito — é a marca de que a linguagem vive junto com quem fala. Flusser talvez diria que essa “móvel ambiguidade” é a única forma possível de diálogo verdadeiro, pois força a escuta atenta e a reconstrução do sentido a cada instante.

O perigo está em esquecer essa natureza instável e cristalizar os indexicais como se fossem absolutos. Quando um governante diz “agora é hora de mudança” ou “estamos juntos”, a força retórica vem justamente da suspensão dessa instabilidade — como se o “agora” fosse universal e não apenas um ponto efêmero na corrente do tempo.

A filosofia da incerteza de indexicais nos convida a duas tarefas:

  1. Reconhecer que o sentido de eu, aqui, agora nunca é definitivo, mas se reconfigura a cada enunciação.
  2. Aceitar que entender o outro exige decifrar não apenas as palavras, mas o contexto vivo que as sustenta.

Assim, cada “eu” é um rastro e um prenúncio, cada “aqui” é um lugar e um deslocamento, cada “agora” é instante e memória. E a incerteza não é obstáculo, mas talvez a mais bela prova de que ainda estamos falando — e nos escutando — uns aos outros.


domingo, 17 de agosto de 2025

Substantivações

Transformando Ideias em Coisas

Substantivar é dar corpo àquilo que originalmente é fluido, abstrato ou fugidio. É quando um verbo, uma ação, um sentimento ou até uma experiência se transforma em substantivo, tornando-se “coisa” na linguagem. Essa operação, tão comum na fala e na escrita, não é apenas formal: ela molda a forma como percebemos e organizamos o mundo.

A filósofa brasileira Marilena Chaui, ao tratar da linguagem e do pensamento, observa que as palavras não são neutras. Substantivar algo é, de certa forma, fixar um aspecto da realidade, conferindo-lhe estabilidade e presença. Por isso, “amor” não é apenas o ato de amar; é a cristalização do sentimento em conceito. “Liberdade” não é apenas o exercício de agir, mas uma ideia que podemos discutir, medir, proteger ou violar.

No cotidiano, as substantivações estão em toda parte. Quando alguém diz “preciso de paciência”, transformou uma capacidade dinâmica em algo que se pode “possuir” ou “faltar”. Quando falamos de “felicidade”, “culpa” ou “sucesso”, estamos criando categorias que permitem comparar, julgar ou planejar ações, mas que também limitam a experiência original, sempre mais fluida do que a palavra que a representa.

O problema surge quando a substanciação esmaga a experiência. Reduzir um amor a “um relacionamento” ou uma tristeza a “uma depressão” pode facilitar a comunicação, mas também empobrece a vivência real, como se o nome fosse a própria coisa. Por outro lado, a habilidade de substantivar é essencial para a reflexão, para a arte e para a ciência: é o primeiro passo para analisar, compreender e criar significado.

Chaui sugeriria que reconhecer o poder e o limite das substantivações nos ajuda a viver com mais atenção. A linguagem não apenas descreve a realidade; ela também a estrutura e a constrói. Saber que “justiça”, “medo” ou “criatividade” são substantivações é lembrar que, por trás da palavra, sempre existe algo mais complexo, que escapa à forma que lhe demos.

No fim, substantivar é como esculpir o vento: criamos figuras que podem ser admiradas e compartilhadas, mas nunca capturam completamente a força e a fluidez do que pretendem representar. É um ato de nomear o mundo — com toda a beleza e os limites que isso implica.


sexta-feira, 18 de julho de 2025

O Impessoal

Uma Reflexão sobre o Impessoal em Heidegger

Sabe aquele momento em que a gente está numa conversa, mas parece que quem fala é uma voz que não tem rosto, nem nome, uma voz que fala “por si só”, como se viesse do ar, do vento, do vácuo, ou de algum lugar além de qualquer pessoa? Às vezes, a gente sente que o que importa não é quem está falando, mas o que está sendo dito — como se o sentido existisse num espaço neutro, impessoal, onde todo mundo pode se encontrar. Essa sensação pode parecer meio estranha, até meio fria, mas para o filósofo alemão Martin Heidegger, esse “impessoal” tem um papel fundamental para entender a existência.

 

Heidegger e o Impessoal: O “Da-Sein” para além do Eu

Heidegger não é fácil de ler — e nem quis ser. Ele propôs uma revolução no modo de pensar o ser humano e sua existência no mundo. Em vez de falar do “eu” como uma entidade fechada, ele preferiu um conceito que abre espaço para algo que é ao mesmo tempo “aqui” e “lá”, “alguém” e “ninguém”: o Da-Sein — o “ser-aí”.

O Da-Sein não é uma pessoa, um sujeito com características fixas. Ele é, antes, a existência que sempre está lançada num mundo comum, compartilhado, onde a individualidade só aparece como um momento dentro de algo mais amplo e impessoal. A existência humana, para Heidegger, é primeiramente “ser-no-mundo”, e esse mundo é um campo de sentido aberto, que não pertence a ninguém, mas que é vivido por todos.

Assim, o impessoal não é uma negação do sujeito, mas a condição para que o sujeito apareça. Antes que eu diga “eu”, já existe um “aqui” comum, uma linguagem comum, um modo comum de estar no mundo, um modo impessoal onde a existência humana se desdobra.

 

O Impessoal como Condição de Possibilidade da Autenticidade

Parece contraditório, mas para Heidegger, para eu ser realmente eu, preciso primeiro me reconhecer como parte de algo impessoal, que é o “mundo”, a “comunidade” da linguagem, do tempo e do espaço. O impessoal é a base, o fundo onde minha individualidade pode emergir.

Por exemplo, quando dizemos “o homem é mortal”, não estamos falando de um indivíduo em particular, mas de uma verdade impessoal que vale para todos os seres humanos. Essa “verdade impessoal” revela um aspecto essencial da existência, a finitude, que nenhum “eu” pode escapar.

Quando vivemos de modo autêntico — como Heidegger chama —, aceitamos essa condição impessoal: reconhecemos que não somos donos do mundo, que somos “jogados” nele, e que nossa vida é uma “tarefa” que emerge dentro dessa impessoalidade existencial.

 

A Voz do Impessoal na Linguagem e no Tempo

Outro aspecto fascinante é o modo como Heidegger entende a linguagem como uma manifestação do impessoal. A linguagem não é propriedade privada, ela “fala” antes mesmo de falarmos. É por meio da linguagem que o impessoal se revela e nos convoca para o ser.

Também o tempo, para Heidegger, não é uma sequência objetiva de instantes medidos pelo relógio, mas uma estrutura impessoal que sustenta toda existência. O passado, o presente e o futuro não são “meus”, são modos de ser do tempo que todos partilhamos.

 

Uma Perspectiva Contemporânea: O Impessoal e a Era Digital

Para finalizar essa reflexão, vamos dar um passo para o hoje: o impessoal de Heidegger tem ecos surpreendentes na era digital. Pense nas redes sociais, nos fóruns, nas conversas em grupo onde a autoria se dilui, onde as ideias circulam de forma quase impessoal — as vozes se confundem, ninguém é dono da verdade, mas todos participam da construção do sentido.

Talvez a experiência contemporânea da internet nos ajude a entender, na prática, o que Heidegger queria dizer com o impessoal como condição da existência: estamos todos conectados num mundo comum, onde a individualidade não desaparece, mas se manifesta dentro de uma rede impessoal de relações, linguagens e tempos compartilhados.

O impessoal, para Heidegger, não é um vazio, nem uma perda do eu. É o espaço primordial onde o ser humano aparece, o campo onde a existência ganha sentido e autenticidade. Entender o impessoal é, assim, entender que viver é, antes de tudo, estar inserido num mundo que fala, convoca e sustenta a vida humana — muito além do “eu” e do “meu”.

E você? Já sentiu essa voz impessoal te chamando para além do seu nome?


terça-feira, 8 de julho de 2025

Caminho Órfico

A alma quer voltar pra casa: ecos órficos no corpo moderno

Há dias em que acordamos com o corpo inteiro, mas com a alma ausente. O rosto no espelho está lá, os compromissos também, mas alguma parte nossa parece não ter voltado da noite. Essa sensação estranha, esse deslocamento íntimo, pode ser um resquício órfico — uma memória antiga, talvez mitológica, de que não pertencemos totalmente a este mundo.

O Orfismo, movimento religioso e filosófico surgido na Grécia arcaica, não é apenas uma curiosidade antiga: é uma chave para interpretar uma das maiores inquietações do presente. Segundo seus ensinamentos, estamos divididos: corpo e alma não são a mesma coisa, e a alma, por sua vez, tem sede de um lugar que não é este. Para os órficos, a vida terrena é um exílio, e o corpo é prisão. O objetivo da existência é, portanto, a purificação da alma para que ela não precise mais reencarnar. Em tempos modernos, talvez estejamos longe dos rituais secretos e das lamelas de ouro, mas não do sentimento de estranheza existencial.

Zygmunt Bauman, por exemplo, ao falar da “modernidade líquida”, aponta que vivemos num tempo de instabilidade, onde tudo escapa: relações, crenças, pertencimentos. Nessa liquidez, muitos se sentem suspensos, sem raízes — ou seja, sem casa interior. E não é isso que dizia o Orfismo, ao lembrar que a alma caiu no mundo e esqueceu de onde veio?

Assim como Orfeu desceu ao mundo dos mortos para buscar Eurídice, hoje muitos descem aos porões de si mesmos tentando resgatar algo perdido: sentido, paz, silêncio. Alguns buscam isso na terapia, outros no consumo, outros na fé — outros ainda no colapso. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, descreve a alma contemporânea como exausta, sobrecarregada de positividade, desempenho e estímulos. Ele fala de uma alma que não descansa — mas, se lermos à moda órfica, talvez estejamos diante de uma alma que não se purifica.

Outro autor importante para reflexão é Roberto Assagioli, o psiquiatra italiano foi o criador da Psicossíntese, que entende a alma como um centro que precisa ser reconhecido, integrado e harmonizado com as várias partes do ser humano. A psicossíntese propõe exercícios para essa reconexão interior, como meditação, visualização e auto-observação — formas práticas de buscar a “casa interior” órfica.

A obsessão moderna com o corpo (fitness, dietas, longevidade) pode ser vista, curiosamente, como um eco distorcido do ideal órfico: não mais a negação do corpo como prisão, mas a tentativa de eternizá-lo, controlá-lo, torná-lo invencível. Mas essa tentativa falha, porque a insatisfação profunda continua. E é nesse ponto que o Orfismo reaparece, não como dogma antigo, mas como sensibilidade existencial: o reconhecimento de que algo em nós é maior que a matéria, e que o barulho do mundo não silencia a busca do retorno.

Ao revisitar o mito de Dionísio Zagreu — o deus despedaçado pelos Titãs — percebemos que, segundo os órficos, os humanos nasceram da fusão do divino com o titânico. Somos, portanto, ambíguos: temos dentro de nós uma centelha dos deuses e uma herança de violência e queda. No cotidiano, essa dualidade se revela em nossas contradições: queremos amar, mas também dominar; queremos paz, mas produzimos ruído; buscamos sentido, mas também sabotamos a própria jornada.

Mas é preciso lembrar que essa linguagem órfica — que fala da alma como exilada, do corpo como prisão e da existência como purificação — não nasceu apenas na Grécia. Muitos de seus elementos parecem ter ecoado de tradições mais antigas, como o Egito faraônico, onde já se falava da alma que deveria atravessar o mundo dos mortos e passar por provas antes de alcançar a eternidade. Textos como o Livro dos Mortos orientavam o espírito a declarar sua pureza diante de juízes divinos, em algo que lembra as lamelas órficas enterradas com os iniciados. Também na Mesopotâmia, com os mitos de Inanna, e na Índia védica, com a ideia de samsara (o ciclo de renascimentos), a alma era vista como um princípio que precisava se libertar da repetição e do esquecimento. O Orfismo, nesse sentido, é uma síntese grega de um sentimento espiritual mediterrânico mais antigo, que cruzou desertos, rios e montanhas até ganhar a forma de hinos secretos e ritos iniciáticos atribuídos a Orfeu.

O Orfismo é, assim, uma filosofia do retorno. E o verbo "voltar", hoje, tem ganhado força: voltar para si, voltar para o essencial, voltar para a natureza, voltar a ter tempo. O mundo contemporâneo, ainda que sem confessar, vive à procura de caminhos órficos, mesmo que disfarçados de autocuidado, minimalismo ou espiritualidade pop.

Talvez a pergunta que o Orfismo nos lança hoje não seja religiosa nem metafísica, mas existencial: o que em mim está perdido e quer voltar pra casa? E a casa, nesse caso, não é um lugar geográfico, mas um estado da alma: leve, limpa, em paz.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Falsamente Simples

Sabe aquela ideia que parece óbvia, mas, quando você começa a pensar sobre ela, percebe que é um labirinto? Como tentar explicar para uma criança por que o céu é azul ou por que o tempo parece passar mais rápido quando estamos nos divertindo. Essas perguntas parecem simples, até que tentamos realmente respondê-las. Esse é o terreno do "falsamente simples".

Muitas das questões mais complexas da filosofia e da vida se escondem sob uma aparente simplicidade. A verdade, a liberdade, a felicidade, a justiça — conceitos que usamos diariamente sem pensar muito. Mas basta um pequeno desvio do uso corriqueiro para que essas palavras se tornem armadilhas conceituais. O que é a verdade? Será que liberdade significa apenas a ausência de restrição? Podemos realmente definir felicidade sem cairmos em uma sucessão infinita de perguntas?

No cotidiano, a ilusão do "falsamente simples" se manifesta de várias formas. Pense em um conselho popular como "siga seu coração". Parece fácil, até que nos damos conta de que o coração não fala uma língua clara, e o que sentimos nem sempre está em sintonia com a realidade. Ou então o clássico "conhece-te a ti mesmo", atribuído a Sócrates. Parece um mandamento direto, mas quem já tentou de fato se conhecer sabe que isso envolve camadas de ilusão, autoengano e descobertas que podem ser desconfortáveis.

Filósofos e pensadores sempre desconfiaram do que é aparentemente simples. Ludwig Wittgenstein, por exemplo, mostrou como a linguagem que usamos no dia a dia carrega ambiguidades escondidas, e como ideias que parecem transparentes podem, na verdade, estar cheias de armadilhas lógicas. Já Merleau-Ponty nos lembra que a própria percepção é um fenômeno enganoso — aquilo que vemos como natural e imediato é, na verdade, um processo cheio de interpretações inconscientes.

A armadilha do "falsamente simples" está em todos os lugares. Nos relacionamentos, onde um gesto pequeno pode ter significados ocultos; na política, onde soluções rápidas quase sempre ignoram a complexidade das causas; na ciência, onde até o conceito de um "fato" pode ser discutido em termos filosóficos.

Talvez o verdadeiro sinal de inteligência não seja dar respostas rápidas, mas suspeitar daquilo que parece simples demais. Como dizia Leonardo da Vinci: "A simplicidade é o último grau da sofisticação". Mas até chegar lá, precisamos aprender a navegar o labirinto do falsamente simples.


sábado, 28 de junho de 2025

Silêncio Verdadeiro

Estava num daqueles momentos em que tudo parece parar — uma reunião longa, onde ninguém ousava mais falar, ou talvez uma conversa entre amigos que, de repente, esgotou as palavras. E foi ali, nesse vazio de vozes, que percebi: o silêncio é uma linguagem também. Mas qual linguagem? E o que ela diz, quando ninguém está dizendo nada?

Essa sensação me levou de volta a dois filósofos que, curiosamente, trataram da linguagem em extremos opostos do pensamento: Ludwig Wittgenstein e Martin Heidegger. Um buscava a clareza como um jardineiro paciente que poda os galhos tortos da fala. O outro cavava a terra com as mãos nuas, atrás de uma raiz mais funda — o ser, que fala antes da fala. No centro de ambos, lá estava ele: o silêncio, como uma espécie de verdade que escapa por entre as palavras.

I. O silêncio como fronteira da linguagem

Wittgenstein, no final do Tractatus Logico-Philosophicus, diz: “Do que não se pode falar, deve-se calar.” É uma das frases mais citadas da filosofia moderna. Mas o que significa esse calar? Não é uma desistência — é um reconhecimento. Há limites para o que podemos dizer com sentido. O silêncio, nesse caso, marca a borda do mundo, onde as proposições lógicas já não funcionam.

Heidegger, por outro lado, não vê o silêncio como uma falha da linguagem, mas como seu habitat natural. Em Ser e Tempo, ele sugere que o silêncio não é o oposto do discurso, mas uma forma de escuta mais profunda. Quem silencia verdadeiramente está mais atento ao ser do que aquele que fala sem parar. É um silêncio carregado de escuta, de espera, de abertura.

Assim, para Wittgenstein, o silêncio é um freio; para Heidegger, é uma fonte.

II. Linguagem como morada e como ferramenta

Wittgenstein percebe que falamos em jogos. Os "jogos de linguagem" são atividades humanas — pedir, mandar, agradecer, contar piadas. A linguagem não tem essência fora desses usos. O problema não está no que dizemos, mas no como. Quando usamos a palavra “verdade”, por exemplo, em que jogo estamos? Dizer “é verdade que vai chover” não é o mesmo que “é verdade que ela me ama”. O jogo muda, o critério de verdade também.

Heidegger vê a linguagem como “a casa do ser”. Não jogamos com ela: moramos nela. E o que mora nela não é apenas o que se diz, mas o que se revela. A linguagem, então, é revelação — aletheia, desvelamento. A verdade não é correspondência, mas desocultação.

Wittgenstein quer desfazer os mal-entendidos da linguagem para dissolver os pseudo-problemas filosóficos. Heidegger quer mergulhar na linguagem para escutar o chamado do ser. Em Wittgenstein, a verdade é questão de uso bem feito; em Heidegger, é questão de abertura ao que se mostra.

III. A verdade como silêncio ativo

E então, quando nos calamos diante de algo — diante da beleza de um pôr do sol, do mistério de uma perda, ou mesmo da complexidade de um dilema moral — não estamos fugindo da verdade. Estamos, talvez, deixando que ela se manifeste sem a violência da explicação.

O silêncio, nesses momentos, não é ausência. É presença intensa. É o momento em que não ousamos dizer, mas sentimos que algo é verdadeiro. Verdade que não cabe numa proposição, nem num jogo de linguagem, mas que também não se perde na névoa do ser. É uma verdade vivida, não dita.

Talvez seja esse o ponto de contato entre os dois filósofos. Heidegger abre espaço para o ser falar por si. Wittgenstein mostra que, quando as palavras se esgotam, não é o fim do sentido — é o início de outra forma de compreensão.

Volto ao meu silêncio, agora com mais cuidado. Penso em como ele pode ser uma resposta, um protesto, um luto, uma reverência. O silêncio fala. E às vezes, como dizia Wittgenstein, ele fala justamente porque as palavras já não bastam. Heidegger talvez acrescentasse: é no silêncio que o ser nos sussurra.

Talvez a verdade, afinal, more no espaço entre o que conseguimos dizer e aquilo que ousamos silenciar.


domingo, 8 de junho de 2025

Pensa Porque Fala

Vamos refletir sobre consciência e invenção de si

A gente costuma pensar que primeiro se pensa, depois se fala. Como se as palavras fossem meros mensageiros de um conteúdo pronto, esperando pacientemente para ser dito. Mas, e se for o contrário? E se a fala for, ela mesma, o que nos permite pensar? Aquela conversa no banho, o desabafo com um amigo, até mesmo o murmúrio no trânsito – seriam momentos em que a linguagem constrói a consciência, e não o contrário?

Essa ideia, embora pareça surpreendente, já vinha sendo intuída por alguns pensadores e hoje é retomada por estudos contemporâneos de neurociência e linguística. Neste ensaio, vamos explorar essa inversão provocadora: o sujeito pensa porque fala. A fala não apenas expressa o pensamento – ela o inventa, o organiza, o edita. E mais: ao falar, criamos a nós mesmos.

O pensamento nu não existe

Imagine um bebê que ainda não fala. Seus gestos e emoções são vivos, intensos, mas sua capacidade de pensar sobre o que sente é limitada. É só quando ele começa a adquirir palavras que consegue distinguir o medo da fome, o desejo da dor. O filósofo Vygotsky já dizia que o pensamento e a linguagem se desenvolvem em um entrelaçamento mútuo. O pensamento é uma névoa até que a palavra o condense.

A neurociência contemporânea reforça essa visão: regiões do cérebro relacionadas à linguagem (como a área de Broca e de Wernicke) estão intimamente conectadas com redes de atenção, memória e planejamento. Falar é como esculpir o que estava apenas esboçado em sensação. Pensamos melhor quando escrevemos, quando conversamos, quando argumentamos. O silêncio pode ser fértil, mas é quase sempre a palavra que transforma intuição em ideia.

Falar como forma de se tornar

Cada vez que contamos algo de nós mesmos a alguém, organizamos a narrativa da nossa identidade. Não se trata apenas de informar. Estamos, ali, construindo sentido. “Naquela época eu era muito impulsivo” – ao dizer isso, estamos não só refletindo sobre o passado, mas nos diferenciando dele, assumindo um novo lugar no tempo. A linguagem verbaliza a mudança interior.

A filósofa Hannah Arendt dizia que a ação só se torna política quando é acompanhada da fala. O ser humano se revela ao mundo pelo que diz, mais do que pelo que pensa. Assim, o dizer é um ato de criação subjetiva. Falando, nos tornamos visíveis – e, ao nos ouvirmos falar, também nos vemos.

Linguagem como ferramenta inventiva

A estrutura da linguagem molda a estrutura do pensamento. Idiomas diferentes oferecem visões de mundo distintas. Para os esquimós, existem muitas palavras para “neve”. Para alguns povos indígenas da Amazônia, o tempo não é dividido em passado, presente e futuro. A forma como se fala determina o que se pode pensar.

No cotidiano, isso aparece quando buscamos uma palavra exata para nomear o que sentimos – e, só quando a encontramos, conseguimos agir. O mal-estar vira “ciúme”, ou “angústia”, ou “pressentimento”. Dar nome é mapear o território interno. Wittgenstein já dizia: “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo.”

Pensar com a boca

Existe uma sabedoria na fala espontânea. Às vezes, a gente só entende o que pensa quando começa a explicar. Isso é comum em sessões de terapia, aulas, ou mesmo numa conversa de bar. O pensamento se desdobra conforme a fala se articula. Como se a mente esperasse a boca para ter coragem de se revelar.

Numa perspectiva neurolinguística, esse processo envolve uma retroalimentação entre as zonas cerebrais responsáveis pela formulação verbal e aquelas que coordenam emoções, memória e juízo. O que dizemos influencia o que sentimos, e o que sentimos influencia o que conseguimos dizer. Um circuito vivo.

A fala é o útero do pensamento

Ao contrário do que se pensa, a fala não é filha do pensamento – é sua mãe. Sem linguagem, o pensamento se esvai em intuições fugidias. Com a linguagem, ele ganha corpo, história, direção. Pensamos porque falamos, e falamos para nos tornar.

Talvez por isso conversar seja tão essencial à saúde mental. Ou por isso, quando estamos confusos, dizemos: “preciso botar pra fora.” Ao falar, damos forma ao informe. Ao ouvir a nós mesmos, nos compreendemos melhor. A linguagem é, no fundo, um espelho falante – e talvez seja nela que finalmente nos encontramos.


quarta-feira, 28 de maio de 2025

Infinitas Antinomias

Outro dia, numa conversa despretensiosa, percebi como ainda estamos presos à lógica do "ou é isso, ou é aquilo". Certo ou errado, forte ou fraco, amor ou desilusão. Tudo parece encaixado em pares opostos, como se o mundo fosse um jogo de tabuleiro bem definido. Mas se Jacques Derrida estivesse ali na mesa, talvez ele empurrasse o tabuleiro com um leve sorriso e dissesse: "E se as peças não forem tão diferentes assim?"

Já tratei deste tema outras vezes, mas ele sempre retorna a baila, as noticias e conversas são provocantes e me obrigo a abordar o tema: polaridades, eita palavrinha que incomoda.

Desconstruindo o que parece óbvio

Derrida não se interessava por verdades rígidas. Ele preferia investigar os bastidores da linguagem, onde palavras se contradizem, se repetem, se invertem. A sua proposta, conhecida como desconstrução, não destrói significados — ela revela que o que parece firme costuma estar cheio de rachaduras. O "sim" carrega um "não" implícito, toda "verdade" repousa sobre uma exclusão silenciosa, e os grandes conceitos — justiça, identidade, amor — tremem sob a luz de uma análise cuidadosa.

Antinomias no dia a dia

Nas nossas rotinas, essas antinomias surgem disfarçadas de certezas. Quando alguém é "muito racional", logo se supõe que é pouco sensível. Um relacionamento saudável precisa equilibrar liberdade ou compromisso, dizem — como se não houvesse amor onde há espaço, ou presença onde há escolha. A desconstrução nos convida a ir além dessas oposições e perceber que elas são frágeis, móveis, interdependentes.

Na política: cuidado com os extremos

No debate político, a desconstrução é um respiro necessário. Em tempos de polarização, o discurso se reduz a "nós" contra "eles", "povo" contra "elite", "patriotas" contra "inimigos". Derrida alertaria que todo "nós" exclui uma parte de si mesmo, e que os opostos, muitas vezes, compartilham mais do que querem admitir. Desconstruir o discurso político não é deslegitimar a luta — é entender que cada palavra usada nela carrega escolhas, silêncios e consequências.

Redes sociais e julgamentos instantâneos

Nas redes sociais, as antinomias ganham velocidade e ruído. Curtir ou cancelar, silenciar ou militar, lacrar ou omitir. Tudo vira julgamento rápido, definitivo, sem espaço para ambiguidade. Derrida nos faria parar e perguntar: o que essa frase afirma, e o que ela oculta? O que está sendo calado no excesso de certezas? Talvez, se tivesse uma conta no Twitter, ele escrevesse apenas: “Nem todo sim é sim” — e desaparecesse por semanas.

No amor, entre o sim e o quase

No amor, gostamos de fórmulas: “eu te amo”, “para sempre”, “metade da laranja”. Mas o amor real é cheio de ruídos. Amar não é sempre estar presente, e estar junto não é sempre compreender. Derrida apontaria que o amor carrega ausência, dúvidas e mal-entendidos. E que, talvez, o mais belo do amor seja justamente essa impossibilidade de encaixá-lo num conceito fixo. Quando dizemos “eu te amo”, dizemos o que sentimos — mas também deixamos escapar tudo aquilo que não conseguimos nomear. Lembre-se as palavras são “realidades”, não dá para confiar inteiramente nelas, é preciso olhar o todo.

Pensar com (e contra) as palavras

O filósofo brasileiro Bento Prado Jr. disse que o pensamento contemporâneo “não busca mais a verdade última, mas a multiplicidade dos sentidos”. Derrida se alinha com esse gesto: não negar o sentido, mas desestabilizá-lo, fazendo-o dançar, hesitar, mostrar sua estrutura. Afinal, a linguagem não é uma vitrine limpa — é uma casa com espelhos, portas falsas e corredores que voltam ao mesmo lugar.

Uma linha tênue que une o mundo

Desconstruir não é paralisar. É movimentar-se com consciência. Ao invés de escolher entre um lado ou outro, Derrida nos convida a caminhar pela linha tênue que separa e une ao mesmo tempo. A antinomia, no fundo, é um espelho: o outro lado nunca está tão longe assim.

Se ele ouvisse alguém dizer “não sei se amo ou se gosto”, talvez respondesse: “Mas por que essa diferença importa tanto? E o que há entre o amor e o gosto?”

Talvez... a vida.

Gostou da leitura?

Você já percebeu antinomias no seu cotidiano? Deixe um comentário ou compartilhe esse texto com alguém que vive dividindo tudo entre A ou B — talvez ele (ou ela) descubra que existe um meio do caminho bem mais interessante. Você também pode seguir o blog, há sempre uma ideia ou outra que poderá lhe interessar.


sexta-feira, 11 de abril de 2025

Teoria das Descrições

Imagine que estamos em um bar, e alguém comenta: "O rei da França é careca". O problema surge quando percebemos que a França não tem um rei. O que isso significa? Estamos falando de alguém que não existe? Ou estamos apenas dizendo algo sem sentido? Bertrand Russell resolveu essa questão com sua famosa Teoria das Descrições, que não apenas revolucionou a filosofia da linguagem, mas também influenciou a lógica e a epistemologia.

A Teoria das Descrições foi apresentada por Russell em 1905 no artigo "On Denoting". Seu objetivo era solucionar problemas lógicos gerados por sentenças que pareciam referir-se a entidades inexistentes. Antes de Russell, frases como "O atual rei da França é careca" eram tratadas como proposições que simplesmente falhavam em ter um referente. Isso causava problemas porque significava que deveríamos aceitar que algumas frases aparentemente significativas eram na verdade sem sentido. Russell, por outro lado, propôs uma análise lógica que evitava esse impasse.

Sua solução foi reformular frases que envolvem descrições definidas (como "o rei da França") em termos de quantificação lógica. Assim, em vez de interpretar "O rei da França é careca" como uma proposição simples com um sujeito e um predicado, ele a desdobrou da seguinte forma:

  1. Existe pelo menos um x tal que x é o rei da França.
  2. Existe no máximo um x tal que x é o rei da França.
  3. Esse x é careca.

Se qualquer uma dessas proposições for falsa, então a sentença toda é falsa, mas não sem sentido. Isso resolve o problema da referência a entidades inexistentes sem que a frase perca sua estrutura lógica.

A inovação de Russell não foi apenas um ajuste técnico, mas um verdadeiro marco na filosofia da linguagem. Ele mostrou que o significado de uma frase não depende apenas das palavras isoladas, mas da maneira como essas palavras se conectam logicamente. Isso teve repercussões profundas na filosofia analítica e influenciou pensadores como Wittgenstein e Quine.

No entanto, a teoria não foi imune a críticas. P.F. Strawson, por exemplo, argumentou que Russell confundia lógica com pragmática. Para Strawson, frases como "O rei da França é careca" não são falsas, mas simplesmente inadequadas porque pressupõem a existência do rei da França. Esse embate mostra como a filosofia da linguagem lida não apenas com regras formais, mas com o próprio funcionamento do discurso cotidiano.

Podemos levar essa discussão para o nosso dia a dia. Quantas vezes falamos de coisas que não existem sem perceber? Quando dizemos "o amor verdadeiro sempre vence" ou "a sociedade está em crise", estamos fazendo descrições no estilo de Russell? Nossa linguagem está cheia de atalhos que tornam a comunicação possível, mas, ao mesmo tempo, nos enganam sobre a estrutura lógica do que realmente estamos dizendo.

No fim das contas, a Teoria das Descrições de Russell não é apenas uma ferramenta lógica, mas um convite a pensar sobre a precisão e os limites da nossa linguagem. Se as palavras moldam nosso mundo, então entender como elas operam é essencial para não cairmos em armadilhas conceituais. E, claro, para evitar que discutamos a careca de reis que nunca existiram.


segunda-feira, 7 de abril de 2025

Inteligência Difusa

O Mundo como Mente Expandida

Vi um garoto na praça abraçando uma árvore. Não tinha celular, não falava com ninguém, só encostava o rosto no tronco e fechava os olhos, como se estivesse ouvindo alguma coisa que a gente não escuta. Aquilo me paralisou por uns segundos. Parecia um gesto antigo, mas ao mesmo tempo novo — como se o menino tivesse descoberto um jeito de conversar com o mundo.

Fiquei ali, observando. E me perguntei: será que aquela árvore estava pensando junto com ele? Não no sentido humano de raciocínio, mas num tipo de inteligência que escapa ao que a gente costuma chamar de mente. Uma inteligência que circula entre as coisas, que pulsa nos espaços, nos seres, nos códigos e nos encontros.

Há um pressuposto antigo, cada vez mais redescoberto, de que a inteligência não está confinada ao crânio humano, nem aos algoritmos sofisticados que fabricamos. Ela pulsa em toda parte, como um campo invisível que permeia o real. Os estoicos chamavam isso de Logos, uma razão universal que organiza o mundo. Spinoza, por sua vez, via Deus em tudo — não como um velhinho julgador nos céus, mas como a substância infinita que se expressa em todas as coisas.

A ideia, embora antiga, continua escandalosa para o pensamento moderno, que ainda insiste em separar mente e matéria, humano e natureza, sujeito e objeto. Mas e se estivermos cercados por uma rede de inteligência silenciosa, paciente, que não precisa se manifestar em linguagem articulada para existir? E se a intuição, o pressentimento, o insight repentino, forem modos de conexão com essa teia maior?

Resolvi trocar uma ideia com um dos meus filósofos favoritos, trouxe Wittgenstein para dialogar e logo pensei: É aí que Wittgenstein entra na conversa. Em sua primeira fase, no Tractatus Logico-Philosophicus, ele afirmou que "os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo". Ou seja, só podemos pensar e compreender aquilo que conseguimos nomear. Mas, paradoxalmente, ele termina a obra dizendo que "sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar". De certa forma, ele reconhecia que havia algo para além da linguagem — algo essencial, porém indizível. O silêncio, então, não era ausência de sentido, mas talvez sua plenitude.

Mais tarde, nas Investigações Filosóficas, Wittgenstein muda de rota e passa a ver a linguagem como algo vivo, ligado aos jogos da vida, aos contextos, aos usos múltiplos. Isso abre uma brecha ainda maior para pensarmos que a inteligência está não só nas palavras, mas no gesto, no olhar, no ritual silencioso do cotidiano. Um jogo de linguagem pode ser o jeito que uma mãe embala um filho, ou o modo como alguém encosta a mão numa árvore e sente algo sem saber dizer o quê.

Uma citação marcante de Wittgenstein que expressa bem essa visão mais ampla e viva da linguagem, presente nas Investigações Filosóficas, é:

“Os limites do meu mundo são os limites da minha linguagem.”
(Tractatus Logico-Philosophicus)

Mais tarde, nas Investigações Filosóficas, Wittgenstein muda de rota e passa a ver a linguagem como algo vivo, ligado aos jogos da vida, aos contextos, aos usos múltiplos. Ele escreve:

“Falar uma linguagem é participar de uma forma de vida.”
Isso redefine de forma profunda o que entendemos por comunicação. A linguagem deixa de ser apenas um código racional para transmitir informações e passa a ser uma prática encarnada, vivida, compartilhada no cotidiano. Comunicação não é só o que dizemos, mas o que fazemos com o que dizemos — e até com o que não dizemos.

Quando alguém consola em silêncio, quando um cão abana o rabo, quando duas pessoas se olham e entendem algo sem trocar palavras — tudo isso são jogos de linguagem, no sentido amplo que Wittgenstein propõe. Não existe uma linguagem única; existem muitas, tantas quantas forem as formas de vida possíveis. O gesto, o som, o ritmo, o afeto, o cheiro, o tom — tudo comunica.

Essa visão desestabiliza a ideia de que só é válido o que é lógico, explícito, verbalizado. Ela convida a reconhecer a inteligência que opera nas entrelinhas, nas vibrações sutis, nos modos de estar no mundo. O próprio fato de uma criança falar com uma árvore, como na cena inicial, deixa de ser visto como delírio ou imaginação infantil e passa a ser um outro tipo de comunicação — uma participação em uma forma de vida diferente da nossa, mas nem por isso inferior.

Se aceitamos essa pluralidade da linguagem, então também ampliamos a noção de inteligência: deixamos de restringi-la à lógica formal e passamos a vê-la nos saberes do corpo, nos rituais cotidianos, nos conhecimentos ancestrais, nas emoções que movem decisões sem que saibamos explicar como ou por quê.

E, nesse sentido, conectar-se com a inteligência que está em todos os lugares é também reconhecer que estamos sempre nos comunicando com o mundo — mesmo quando calamos. A folha que cai e nos distrai, o cheiro do café que nos lembra alguém, o toque de uma mão que não diz, mas cura — tudo isso são falas, mensagens, presenças.

Wittgenstein, ao tirar a linguagem de um trono lógico e trazê-la para o chão da vida, nos convida a escutar de um outro jeito. E talvez, ao escutar melhor o mundo, descubramos que ele sempre nos respondeu — só que com outro vocabulário.

Já a física quântica sugere que partículas se entrelaçam a distâncias imensas, como se houvesse um tipo de consciência coordenando o todo. Algumas tradições indígenas falam com as montanhas, escutam os rios, pedem licença às pedras. Não por misticismo puro, mas por reconhecer que há ali uma presença, uma sabedoria que não se expressa como a nossa, mas nem por isso é menor.

A dificuldade está em aceitar que essa inteligência não tem um rosto, nem uma assinatura. Ela não se impõe; ela se insinua. Está na coincidência que parecia acaso, mas era recado. Está na pausa antes de tomar uma decisão, quando algo em você diz “espera mais um pouco”. Está no modo como um animal te olha e parece saber exatamente quem você é, sem que você diga nada.

Talvez o maior desafio não seja encontrar essa inteligência, mas desaprender o ruído que nos impede de reconhecê-la. A pressa, o julgamento imediato, o excesso de racionalização — tudo isso nos desconecta. O retorno à escuta profunda, ao olhar desarmado, ao silêncio fecundo, nos aproxima. Não é preciso fazer muito. Às vezes, basta andar devagar, olhar para o céu como quem pergunta e aguarda, ou conversar com uma árvore sem achar que é loucura.

Wittgenstein diria que certos sentidos não cabem na linguagem, mas ainda assim nos atravessam. Talvez a inteligência que está em todos os lugares seja uma dessas experiências inomináveis, que só se entende quando se vive. O que está fora das palavras, muitas vezes, é exatamente o que dá sentido à vida. Ele nos faz um convite à criatividade comunicacional. 

Talvez seja necessário criar pontes, gestos, rituais, novas formas simbólicas. Wittgenstein, nesse ponto, nos convida menos a uma teoria e mais a uma prática ética da atenção ao outro. Wittgenstein parece sugerir que o entendimento é possível quando há sobreposição suficiente entre formas de vida. Ou seja, comunicação existe, mas não como tradução perfeita — e sim como aproximação sensível, como quando aprendemos um novo idioma “por imersão”.


Ruminações Metafísicas

Quando o pensamento tropeça no silêncio

Outro dia, entre uma bolacha cream cracker e uma chuva que parecia indecisa entre cair ou não, comecei a pensar naquelas perguntas que não têm começo, nem meio, muito menos fim. Aquelas perguntas que não servem pra nada, mas também não deixam a gente em paz: "O que é o real?", "O que existe além do que se pode dizer?", "Por que existe algo e não nada?". São perguntas que a gente escuta no ônibus, na mesa de bar, ou então quando está sozinho demais.

Foi aí que me veio Wittgenstein, não como quem chega com a resposta, mas como quem olha com estranhamento e diz: “Será que essa pergunta faz sentido?”.

O limite do mundo é o limite da linguagem

Wittgenstein, especialmente em sua primeira fase no Tractatus Logico-Philosophicus, joga um balde de água fria nas nossas ruminações metafísicas: "Os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo." E isso muda tudo. De repente, não é mais sobre o que existe ou não existe, mas sobre o que pode ser dito com clareza.

Quer dizer: se eu não consigo colocar em palavras aquilo que estou tentando pensar, talvez o problema não seja o pensamento em si, mas a linguagem que estou usando pra tentar pensar isso. O que escapa à linguagem, escapa ao mundo. E nesse silêncio se esconde a metafísica.

Mas e o cheiro da infância?

Mesmo assim, o ser humano insiste. E eu também. Porque há sensações, intuições, percepções que não cabem na linguagem — mas que nem por isso deixam de parecer reais. O cheiro da casa da minha avó, por exemplo. Eu posso descrever: cheiro de madeira velha, de café passado, de roupa recém lavada... Mas nada disso é o cheiro. É só a moldura.

E aí a pergunta muda: será que o problema está na linguagem... ou na nossa expectativa de que a linguagem consiga dar conta do que sentimos?

Quando a linguagem nos trai

Na segunda fase de Wittgenstein, nos Investigações Filosóficas, ele abandona a ideia de uma linguagem com estrutura rígida e perfeita. Em vez disso, começa a ver a linguagem como um conjunto de "jogos de linguagem" — usos diversos, conforme a situação. Falar de amor não é o mesmo que descrever uma receita de bolo.

Nesse ponto, Wittgenstein começa a rir junto com a gente. A metafísica deixa de ser uma questão de descobrir verdades ocultas e passa a ser uma espécie de mal-entendido. “Filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento do nosso entendimento pela linguagem”, ele diz.

Ou seja, muitas vezes o que a gente chama de "problema metafísico" é só uma palavra que escapou do seu uso comum e foi parar num lugar onde não deveria estar.

A beleza do que não se pode dizer

Mas e se a gente aceitasse o convite do silêncio? Se, em vez de forçar a linguagem a carregar o peso de tudo o que sentimos e intuímos, a gente simplesmente respeitasse o que ela não consegue dizer? Não como fracasso, mas como poesia.

Como quando olhamos pro mar e não dizemos nada. Como quando alguém morre e o silêncio é mais respeitoso do que qualquer explicação. Como quando a gente ama e não sabe dizer por quê — e ainda assim ama.

Considerações finais de um cream cracker filosófico

A metafísica, talvez, não seja um lugar onde se chega, mas um caminho cheio de pegadas confusas. Wittgenstein nos lembra que esse caminho, muitas vezes, é traçado por palavras que tropeçam nelas mesmas. E mesmo assim, continuamos a andar. Porque há algo em nós que deseja mais do que pode ser dito.

Talvez seja como ele mesmo escreve na última frase do Tractatus:

“Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.”

Mas que silêncio bonito, esse.

Silêncio que não responde, mas faz companhia.


quinta-feira, 27 de março de 2025

Desconstrução Incomoda

Se há algo mais difícil do que entender Derrida, talvez seja explicar Derrida. A desconstrução, esse conceito que parece fugir por entre os dedos sempre que tentamos agarrá-lo, já foi interpretada de mil maneiras: como método, como crítica, como filosofia da linguagem, como um jogo interminável de diferenças e adiamentos. Mas, se há algo que Derrida nos ensinou, é que todo conceito que parece sólido está prestes a ruir – e, ironicamente, essa talvez seja a única certeza que ele nos permite ter.

A desconstrução, em seu cerne, não é uma destruição. Derrida nunca quis reduzir textos ou conceitos a ruínas, mas sim revelar as instabilidades que os constituem. Ele desafia a ideia de que há um centro fixo, uma verdade última, uma presença plena. Em seu lugar, propõe um jogo de diferenças e adiamentos, onde os significados nunca se estabilizam completamente. Isso nos leva ao conceito de "différance", um neologismo que combina "diferença" e "adiamento", sugerindo que o significado sempre escapa no próprio ato de significar.

No cotidiano, a desconstrução se manifesta sempre que percebemos que as palavras que usamos não são tão neutras quanto parecem. Pensemos em conceitos como "homem" e "mulher", "civilizado" e "bárbaro", "racional" e "emocional". Derrida nos ensina que esses pares binários não são apenas opostos neutros, mas carregam uma hierarquia implícita. Em cada dicotomia, um termo ocupa uma posição privilegiada enquanto o outro é subordinado. O que a desconstrução faz é abalar essa estrutura, revelando suas assimetrias e mostrando como os termos se definem mutuamente em uma relação instável.

Talvez o maior impacto da desconstrução esteja na filosofia ocidental como um todo. Desde Platão, a metafísica procurou estabelecer um fundamento sólido para o pensamento – seja a Ideia, a Substância, o Cogito. Derrida desafia essa busca ao demonstrar que qualquer tentativa de fixação conceitual está fadada a se contradizer. Assim, ele não propõe um novo fundamento, mas sim um pensamento que opera no limiar, no intervalo, na diferença.

Isso significa que tudo se torna relativo? Derrida jamais defendeu um relativismo puro, pois isso seria simplesmente substituir um dogma por outro. O que ele sugere é uma atenção radical à linguagem e à forma como os conceitos se constroem e se desconstroem continuamente. O mundo não se dissolve no caos, mas se revela muito mais complexo e fluido do que gostaríamos de acreditar.

Se a desconstrução incomoda, é porque ela nos força a abandonar certezas reconfortantes. Ela nos obriga a perguntar: e se aquilo que consideramos natural ou evidente for apenas um efeito de linguagem? E se a verdade que buscamos for sempre adiada, sempre deslocada? Essa angústia, porém, não deve ser vista como um problema, mas como um convite: um convite para pensar sem redes de segurança, para aceitar a instabilidade como parte fundamental do próprio ato de compreender. Derrida não nos dá respostas fáceis – e talvez seja exatamente por isso que ele continua sendo tão essencial.