A retórica não é apenas a arte de persuadir — é a arte de enredar o real em palavras até que a aparência tenha mais peso que a substância. Desde as praças atenienses até os algoritmos das redes sociais, a retórica se move como um ser mutante, travestido de argumento, disfarçado de lógica, mas com o corpo repleto de intenções. Ela não mente: seduz.
A
astúcia da retórica está em sua capacidade de dizer o que queremos ouvir antes
mesmo de sabermos o que é isso. O político que promete, o influencer que
emociona, o intelectual que encanta — todos, de algum modo, surfam essa arte de
envolver sem comprometer, tocar sem transformar. A linguagem vira performance,
e o conteúdo se dissolve no espetáculo da forma.
Michel
de Montaigne, em seus Ensaios, já desconfiava
dos que falam bonito demais. Para ele, a eloquência sem verdade é como um prato
bem servido, mas vazio. “O estilo, para mim, nunca deve afastar-se do
conteúdo”, escreve. Mas os tempos atuais invertem esse princípio: o estilo
virou o próprio conteúdo. Vivemos uma era em que a retórica se descolou do real
e se tornou uma estratégia de sobrevivência discursiva.
E
não pensemos que a astúcia da retórica é sempre maliciosa. Há retóricas que
salvam. Uma mãe que convence o filho a seguir em frente. Um professor que
desperta entusiasmo em meio ao cansaço. Um líder que acalma durante o caos. A
diferença não está na retórica em si, mas no modo como ela é posta a serviço da
verdade ou da manipulação.
Por
isso, a filosofia — como lembrava Wittgenstein — deve, entre outras
coisas, nos curar do enfeitiçamento da linguagem. Entender as astúcias da
retórica é resistir ao fascínio fácil da palavra bem posta. É olhar para além
do discurso e perguntar: o que está sendo realmente dito? E, sobretudo, a quem
serve essa beleza?
Assim,
mais do que temê-la ou exaltar seus encantos, cabe-nos compreender a retórica
em sua ambivalência: como ponte e como armadilha. Saber ouvi-la, sabê-la usar —
mas sem jamais deixar que ela pense por nós.

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