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sábado, 4 de outubro de 2025

Banalidades do Mundo

Situações do cotidiano e um olhar filosófico

Acordamos, tomamos café, pegamos o mesmo ônibus, ouvimos as mesmas piadas no trabalho, respondemos "tudo bem?" sem sequer pensar. A banalidade do mundo se revela não apenas nas repetições, mas também na anestesia que se instala sobre os dias. Tudo vai se tornando automático, como se a existência estivesse no modo piloto, e a vida deixasse de ser vivida para apenas... passar.

Essa banalidade não é ausência de acontecimentos. Pelo contrário: o mundo está cheio deles — notícias, conflitos, memes, brigas de trânsito, aniversários, boletos, séries novas. Mas, em meio a tanta coisa, muitas vezes sentimos que nada realmente nos toca. O excesso se transforma em indiferença. É como se a alma estivesse cheia demais para sentir.

Na fila do banco, no trem lotado, alguém diz "a vida é essa mesmo". No elevador, outro completa: "todo dia a mesma coisa". E no fundo da frase, há um peso, quase um lamento. Não é só rotina: é uma espécie de cansaço de estar no mundo. De se ver sempre em situações onde tudo parece previsível e vazio de sentido.

A filósofa Hannah Arendt falava da banalidade do mal ao analisar a obediência cega de Eichmann no regime nazista. Mas seu conceito nos alerta para algo maior: o perigo de deixar de pensar, de simplesmente seguir ordens, normas, costumes — mesmo que sejam banais. No fundo, ela nos convida a refletir sobre o quanto a banalidade do mundo também pode ser uma forma de crise: a crise de não questionar, de não agir, de não sentir.

Essa banalidade cotidiana pode esconder tanto uma zona de conforto quanto uma zona de alienação. Quando deixamos de perceber o que comemos, o que dizemos, quem somos, estamos empobrecendo a experiência. E a experiência é o que nos mantém humanos.

Mas há uma fresta. Um cachorro que cruza a rua de maneira engraçada, uma criança que canta no ônibus, uma árvore florida onde antes havia só concreto. Esses detalhes têm o poder de furar o véu da banalidade e nos lembrar que o mundo ainda pulsa. Que ainda estamos aqui, e que viver exige presença — mesmo nas coisas mais simples.

Talvez o antídoto para a banalidade do mundo esteja na atenção. Não uma atenção forçada, mas um olhar curioso, um espanto discreto, um interesse renovado. Como diz o poeta Manoel de Barros: "o mundo não foi feito em alfabeto, senão a gente podia saber o que ele diz". Ou seja: talvez ele diga mais do que imaginamos, mesmo quando parece banal.