Situações do cotidiano e um olhar filosófico
Acordamos,
tomamos café, pegamos o mesmo ônibus, ouvimos as mesmas piadas no trabalho,
respondemos "tudo bem?" sem sequer pensar. A banalidade do mundo se
revela não apenas nas repetições, mas também na anestesia que se instala sobre
os dias. Tudo vai se tornando automático, como se a existência estivesse no
modo piloto, e a vida deixasse de ser vivida para apenas... passar.
Essa
banalidade não é ausência de acontecimentos. Pelo contrário: o mundo está cheio
deles — notícias, conflitos, memes, brigas de trânsito, aniversários, boletos,
séries novas. Mas, em meio a tanta coisa, muitas vezes sentimos que nada
realmente nos toca. O excesso se transforma em indiferença. É como se a alma
estivesse cheia demais para sentir.
Na
fila do banco, no trem lotado, alguém diz "a vida é essa mesmo". No
elevador, outro completa: "todo dia a mesma coisa". E no fundo da
frase, há um peso, quase um lamento. Não é só rotina: é uma espécie de cansaço
de estar no mundo. De se ver sempre em situações onde tudo parece previsível e
vazio de sentido.
A
filósofa Hannah Arendt falava da banalidade do mal ao analisar a
obediência cega de Eichmann no regime nazista. Mas seu conceito nos alerta para
algo maior: o perigo de deixar de pensar, de simplesmente seguir ordens,
normas, costumes — mesmo que sejam banais. No fundo, ela nos convida a refletir
sobre o quanto a banalidade do mundo também pode ser uma forma de crise: a
crise de não questionar, de não agir, de não sentir.
Essa
banalidade cotidiana pode esconder tanto uma zona de conforto quanto uma zona
de alienação. Quando deixamos de perceber o que comemos, o que dizemos, quem
somos, estamos empobrecendo a experiência. E a experiência é o que nos mantém
humanos.
Mas
há uma fresta. Um cachorro que cruza a rua de maneira engraçada, uma criança
que canta no ônibus, uma árvore florida onde antes havia só concreto. Esses
detalhes têm o poder de furar o véu da banalidade e nos lembrar que o mundo
ainda pulsa. Que ainda estamos aqui, e que viver exige presença — mesmo nas
coisas mais simples.
Talvez
o antídoto para a banalidade do mundo esteja na atenção. Não uma atenção
forçada, mas um olhar curioso, um espanto discreto, um interesse renovado. Como
diz o poeta Manoel de Barros: "o mundo não foi feito em alfabeto, senão a
gente podia saber o que ele diz". Ou seja: talvez ele diga mais do que
imaginamos, mesmo quando parece banal.
