O que nos rói por dentro
Eu
sempre achei curioso como a palavra rato aparece nas conversas do dia a
dia. No trânsito, no trabalho, na política, no condomínio. “Fulano é um rato”,
alguém diz, geralmente com raiva moral. Rato vira sinônimo de quem sobrevive às
custas dos outros, de quem se esgueira, de quem age no escuro. Homem, por outro
lado, deveria ser o contrário: luz, palavra, responsabilidade. Mas a vida
insiste em misturar tudo. Às vezes, o rato usa gravata. Às vezes, o homem
aprende a roer.
Não
estou falando de zoologia, mas de ética cotidiana.
O
rato que acorda cedo
Todo
dia de manhã, no ônibus lotado ou na fila do café, vejo pequenas cenas de ratice
social. O sujeito que fura a fila fingindo não perceber. O colega que se
apropria de uma ideia alheia na reunião. A empresa que prega valores humanos
enquanto espreme pessoas como se fossem peças descartáveis. Nada disso é
grandioso, épico ou trágico. É miúdo. E justamente por isso, eficaz.
O
rato não quer o mundo, quer sobreviver. Quer o pedaço de queijo mais próximo.
Ele não pergunta se o queijo era de alguém. Ele não reflete. Ele age.
E
aí vem o desconforto: quantas vezes nós também agimos assim?
Quando
aceitamos um privilégio injusto “porque todo mundo faz”. Quando silenciamos
diante de uma injustiça para não perder espaço. Quando escolhemos a
conveniência em vez da consciência. O rato não nasce rato — ele aprende que
roer é mais seguro do que falar.
O
homem que hesita
Ser
homem, no sentido filosófico, não é ser herói. É hesitar. É parar antes do
gesto automático. É perguntar: isso que me beneficia também destrói alguém?
Essa pausa é rara. Dá trabalho. Dá medo.
Aqui
entra Paulo Freire, como um incômodo necessário. Freire insistia
que a desumanização não é destino, é processo histórico. Ninguém acorda um dia
“menos humano” por acidente. A gente vai se adaptando. Vai naturalizando
pequenas violências. Vai chamando sobrevivência de esperteza, e esperteza de
virtude.
Para
Freire, o grande risco não é o oprimido se rebelar, mas se parecer demais com o
opressor. O rato bem-sucedido não quer deixar de ser rato; ele quer um porão
maior, melhor iluminado, com menos concorrência.
Entre
o medo e a escolha
Há
dias em que ser rato parece mais racional. O mundo não recompensa os ingênuos,
dizem. E talvez estejam certos. Mas a pergunta não é sobre recompensa. É sobre
custo interno.
Porque
toda vez que escolhemos roer em silêncio, algo em nós se acostuma a andar
curvado. E depois de um tempo, a coluna moral já não endireita mais. O homem
que abdica da palavra vira especialista em atalhos. O problema é que atalhos
não levam a lugar nenhum — só evitam o confronto.
No
cotidiano, isso aparece em coisas simples:
–
no pai que ensina o filho a “dar um jeitinho” em vez de explicar o porquê das
regras;
–
no profissional que troca sentido por status;
–
no cidadão que chama cinismo de realismo.
Nada
disso é monstruoso. É apenas humano… ou quase.
Na
Politica
Na
política, a metáfora do rato quase se escreve sozinha: não aquele rato de
desenho animado, mas o que rói por baixo, longe da luz, enquanto a casa parece
intacta. Basta lembrar do orçamento secreto, essa engenharia criativa
onde bilhões circularam e circulam por túneis invisíveis, sem critério claro,
sem rosto responsável, enquanto escolas caem aos pedaços e hospitais improvisam
heroísmos com fita adesiva. Não é um assalto explícito — e a roedura contínua.
Um milhão aqui, outro ali, sempre “dentro da lei”, sempre com uma justificativa
técnica que ninguém comum consegue entender. O rato político não derruba a
sociedade de uma vez; ele a enfraquece por dentro, tornando normal que o
público vire privado, que o coletivo vire moeda de troca. E o mais perverso:
quanto mais sofisticada a maracutaia, mais ela parece racional, administrativa,
quase elegante — como se a ética fosse apenas um detalhe dispensável na
planilha. Tem outras coisas horrendas neste sopão do terror tais como
blindagens de poderes, fraude no INSS, Banco Master, o Brasil é um grande ninho
de ratos, algumas maracutaias vem à tona, imaginem o que tem de sujeira escondida
por ai alimentando as barrigas inchadas de vinho, champanhe, caviar, os ratos fumando
seus charutos, fazendo pose de superioridade e olhando o povão com desdém. Existem
poucos homens íntegros, existem mais ratos de colarinho e gravata ocupando cargos
e com poder contaminando tudo que olham, tocam e o ar que respiramos.
Ratos,
homens e a difícil dignidade
Talvez
a fronteira entre ratos e homens não esteja na moralidade perfeita, mas na
capacidade de se perceber roendo. O rato não se pergunta quem ele é. O homem,
sim — mesmo quando falha.
Ser
homem, no fim das contas, é sustentar o desconforto de não caber bem no mundo.
É recusar a naturalização da esperteza como valor supremo. É entender que
sobreviver não basta; é preciso responder pelo modo como se sobrevive.
Freire
diria que a humanização é um verbo, não um estado. Eu diria que é uma escolha
diária, feita em situações pequenas, quase invisíveis. Ninguém vira rato de uma
vez. E ninguém vira homem para sempre.
Entre
o porão e a praça pública, entre o silêncio e a palavra, seguimos escolhendo —
ou sendo escolhidos. O que nos rói por dentro, no fundo, não é a fome. É a
pergunta que evitamos fazer.