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sábado, 24 de janeiro de 2026

Uma Pantomima


Há momentos em que a vida parece um grande palco silencioso. Todos se movem, gesticulam, ensaiam expressões — mas ninguém diz exatamente o que pensa. É uma pantomima: o sentido está no gesto, não na fala; na encenação, não na confissão.

Vivemos cercados por sinais. Um sorriso calculado no trabalho, o aceno automático no elevador, a opinião “segura” repetida em rodas diferentes. Nada disso é mentira no sentido clássico. É outra coisa: uma verdade representada, ajustada ao público. Como no teatro mudo, entende quem sabe ler corpos, ritmos e pausas.

A pantomima não é só social; é também íntima. Fingimos para nós mesmos. Fazemos o gesto de seguir em frente quando, por dentro, ainda estamos sentados. Acreditamos no movimento porque o movimento convence. O corpo faz, e a consciência corre atrás para justificar. Aqui, a ação precede o sentido — e não o contrário.

Há uma estranha ética nisso tudo. A pantomima mantém a convivência. Ela lubrifica o mundo. Se disséssemos tudo, o palco ruiria. Mas o preço é alto: quando o gesto vira hábito, esquecemos o que ele queria dizer. A forma sobrevive; o conteúdo evapora.

Talvez por isso certas obras — livros, filmes, silêncios bem colocados — nos incomodem tanto. Elas interrompem a pantomima. Criam um vazio onde o gesto automático não funciona. Exigem recepção, não repetição. Pedem presença.

Essa pantomima cotidiana encontra fundamentação filosófica em Erving Goffman, que, ao analisar a vida social como uma encenação, mostra que os indivíduos constroem “fachadas” para sustentar a definição da situação diante dos outros. Em A Representação do Eu na Vida Cotidiana, Goffman revela que gestos, posturas e silêncios funcionam como signos cuidadosamente administrados, não para expressar uma verdade interior autêntica, mas para manter a ordem da interação. A pantomima, nesse sentido, não é falsidade moral, mas necessidade estrutural da vida social: representamos papéis para que o mundo continue inteligível. O problema surge quando a encenação deixa de ser um meio e passa a ser um fim — quando o indivíduo se identifica inteiramente com o papel e já não distingue o gesto que comunica do gesto que substitui a experiência. Nesse ponto, a pantomima deixa de organizar o convívio e passa a empobrecer o sujeito.

No fim, a pergunta não é como acabar com a pantomima (isso seria ingenuidade), mas quando ela deixa de ser linguagem e vira anestesia. O gesto pode esconder, mas também pode revelar. Tudo depende se ainda há alguém ali dentro, movendo o corpo — ou se o corpo já aprendeu a se mover sozinho.

Às vezes, o ato mais radical é simples: parar o gesto no meio. E deixar o silêncio falar.