Há
momentos em que a vida parece um grande palco silencioso. Todos se movem,
gesticulam, ensaiam expressões — mas ninguém diz exatamente o que pensa. É uma pantomima:
o sentido está no gesto, não na fala; na encenação, não na confissão.
Vivemos
cercados por sinais. Um sorriso calculado no trabalho, o aceno automático no
elevador, a opinião “segura” repetida em rodas diferentes. Nada disso é mentira
no sentido clássico. É outra coisa: uma verdade representada, ajustada
ao público. Como no teatro mudo, entende quem sabe ler corpos, ritmos e pausas.
A
pantomima não é só social; é também íntima. Fingimos para nós mesmos. Fazemos o
gesto de seguir em frente quando, por dentro, ainda estamos sentados.
Acreditamos no movimento porque o movimento convence. O corpo faz, e a
consciência corre atrás para justificar. Aqui, a ação precede o sentido — e não
o contrário.
Há
uma estranha ética nisso tudo. A pantomima mantém a convivência. Ela lubrifica
o mundo. Se disséssemos tudo, o palco ruiria. Mas o preço é alto: quando o
gesto vira hábito, esquecemos o que ele queria dizer. A forma sobrevive; o
conteúdo evapora.
Talvez
por isso certas obras — livros, filmes, silêncios bem colocados — nos incomodem
tanto. Elas interrompem a pantomima. Criam um vazio onde o gesto automático não
funciona. Exigem recepção, não repetição. Pedem presença.
Essa
pantomima cotidiana encontra fundamentação filosófica em Erving Goffman,
que, ao analisar a vida social como uma encenação, mostra que os indivíduos
constroem “fachadas” para sustentar a definição da situação diante dos outros.
Em A Representação do Eu na Vida Cotidiana, Goffman revela que gestos,
posturas e silêncios funcionam como signos cuidadosamente administrados, não
para expressar uma verdade interior autêntica, mas para manter a ordem da
interação. A pantomima, nesse sentido, não é falsidade moral, mas necessidade
estrutural da vida social: representamos papéis para que o mundo continue
inteligível. O problema surge quando a encenação deixa de ser um meio e passa a
ser um fim — quando o indivíduo se identifica inteiramente com o papel e já não
distingue o gesto que comunica do gesto que substitui a experiência. Nesse
ponto, a pantomima deixa de organizar o convívio e passa a empobrecer o
sujeito.
No
fim, a pergunta não é como acabar com a pantomima (isso seria ingenuidade), mas
quando ela deixa de ser linguagem e vira anestesia. O gesto pode
esconder, mas também pode revelar. Tudo depende se ainda há alguém ali dentro,
movendo o corpo — ou se o corpo já aprendeu a se mover sozinho.
Às
vezes, o ato mais radical é simples: parar o gesto no meio. E deixar o silêncio
falar.
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