Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador vozes. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vozes. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Prosopopeia

Vozes Invisíveis

Há dias em que a casa parece falar. O relógio reclama do tempo que carrega, o sofá suspira sob o peso das rotinas, e a xícara — coitada — parece protestar toda vez que recebe o mesmo café morno. Atribuímos intenções às coisas, emoções aos objetos e vontades às forças da natureza. Fazemos isso desde a infância, quando o brinquedo que deixamos de lado parecia “triste” e o vento “brigava” com as janelas. É o instinto poético que nos resta: o de humanizar o mundo para suportá-lo.

A prosopopeia, ou personificação, é mais do que um recurso literário — é uma forma filosófica de dizer que o humano transborda. Que o sujeito não cabe em si e, por isso, espalha sua alma sobre tudo o que toca. Damos voz às coisas porque elas são extensão do nosso silêncio.

Filosoficamente, esse gesto pode ser lido como uma tentativa de reconciliação entre o sujeito e o mundo. A modernidade separou ambos: o “eu” e o “não-eu”, o observador e o objeto. Mas quando o mar “fala”, ou a cidade “chora”, estamos, de certo modo, devolvendo humanidade àquilo que o racionalismo retirou da existência. É o retorno da alma do mundo — aquilo que os antigos chamavam de anima mundi.

Atribuir voz às coisas é também uma maneira de confessar a solidão. Ao ouvir o murmúrio dos objetos, projetamos neles o eco do que não ousamos dizer. O filósofo Gaston Bachelard, ao estudar a poética do espaço, percebeu que a casa é uma extensão da alma: os cantos guardam lembranças, as escadas sabem dos nossos passos, e o sótão é o abrigo do imaginário. Assim, quando falamos com as coisas, é com partes de nós mesmos que dialogamos.

Há quem veja nisso ingenuidade; há quem veja poesia. Mas talvez seja filosofia em sua forma mais sensível: a que busca sentido não na abstração, mas na vibração das pequenas presenças. A prosopopeia é, afinal, o modo como o ser humano se desculpa com o mundo por tê-lo tornado mudo.

No fundo, as coisas falam — sempre falaram. Somos nós que, distraídos demais, deixamos de escutá-las.

O que diria Mario Sergio Cortella:

“Quando damos voz às coisas, não estamos apenas poetizando o mundo; estamos reconhecendo que o mundo nos devolve o que somos. O silêncio de um objeto pode dizer mais sobre nós do que nossas próprias palavras. A prosopopeia, nesse sentido, é um convite à humildade: lembrar que não somos os únicos a existir — apenas os únicos a falar em voz alta.”