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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Livre Expressão

Entre a promessa emancipadora e os limites invisíveis

A ideia de “livre expressão” costuma soar como algo simples, quase intuitivo: dizer o que se pensa, sem medo. É um daqueles conceitos que parecem naturais, mas que, ao serem observados mais de perto, revelam camadas de complexidade, conflito e até contradição. Afinal, quem pode falar livremente? Em que condições? E com quais consequências?

A liberdade de expressão é frequentemente celebrada como um dos pilares das sociedades modernas. Desde os debates iluministas, pensadores como John Stuart Mill defenderam que a livre circulação de ideias é essencial não apenas para a verdade emergir, mas para o próprio desenvolvimento humano. Para Mill, mesmo ideias erradas têm valor, pois obrigam as ideias corretas a se justificarem e se fortalecerem. Nesse sentido, a liberdade de expressão aparece como um motor do progresso.

No entanto, essa visão clássica assume um terreno relativamente neutro — um “mercado de ideias” onde todos teriam, em tese, condições semelhantes de participação. É exatamente aí que a crítica sociológica se torna indispensável.

Michel Foucault desloca o debate ao sugerir que o discurso nunca é neutro. Ele está sempre atravessado por relações de poder. Não se trata apenas de quem pode falar, mas de quem é ouvido, legitimado e considerado verdadeiro. A livre expressão, sob essa lente, não é simplesmente um direito formal; é uma prática social moldada por instituições, normas e estruturas que silenciam alguns e amplificam outros.

Essa assimetria ganha forma concreta quando observamos o conceito de capital simbólico desenvolvido por Pierre Bourdieu. Não se trata apenas de falar, mas de possuir reconhecimento social para que a fala tenha peso. Assim, a liberdade de expressão não desaparece, mas se distribui de maneira desigual: alguns discursos já nascem com autoridade, enquanto outros precisam lutar para sequer serem considerados.

Essas desigualdades tornam-se ainda mais visíveis no ambiente digital contemporâneo. Plataformas organizam o que vemos por meio de algoritmos que priorizam engajamento, não necessariamente qualidade ou diversidade. Isso cria uma esfera pública mediada por interesses técnicos e econômicos, onde a visibilidade — e não apenas o direito de fala — se torna o recurso mais escasso.

Casos recentes ilustram esse cenário. Usuários têm recorrido a linguagens codificadas para contornar filtros automáticos, demonstrando que a expressão precisa se adaptar às regras invisíveis das plataformas. No Brasil, episódios de suspensão de contas de figuras públicas evidenciam como empresas privadas exercem poder direto sobre o fluxo do discurso público, definindo quem fala e quem desaparece temporariamente do debate.

Outro ponto crítico aparece na circulação de desinformação. Fake news não são apenas opiniões equivocadas; elas produzem efeitos concretos, influenciam decisões políticas e impactam economias. Aqui, a defesa irrestrita da liberdade entra em tensão com a necessidade de proteger o espaço público de distorções sistemáticas.

Além disso, grupos historicamente marginalizados continuam enfrentando formas sutis de silenciamento. Mesmo em ambientes que prometem democratização, conteúdos de minorias podem ter menor alcance ou serem mais facilmente moderados, reproduzindo desigualdades estruturais sob novas formas tecnológicas.

Isso nos leva a uma tensão central: a liberdade de expressão como princípio jurídico versus a liberdade de expressão como experiência real. No plano legal, muitos países garantem o direito de falar. No plano social, entretanto, existem sanções informais — exclusão, ridicularização, perda de oportunidades — que funcionam como mecanismos de controle. A censura moderna raramente se apresenta apenas como proibição estatal; ela se manifesta também como pressão social difusa e arquitetura digital.

A regulação recente das plataformas digitais intensifica esse dilema. Medidas que ampliam a responsabilidade das empresas sobre conteúdos buscam proteger direitos, mas também levantam dúvidas sobre limites, critérios e possíveis excessos. A linha entre moderação e censura torna-se cada vez mais difícil de traçar.

Na contemporaneidade, emerge ainda uma forma paradoxal de restrição: não a escassez de fala, mas o excesso. Nunca se produziu tanto discurso, mas esse volume gera saturação. Quando tudo é dito o tempo todo, a escuta se fragmenta, e a relevância se dilui. A liberdade, nesse contexto, corre o risco de se transformar em ruído.

Talvez, então, seja necessário repensar a própria noção de livre expressão. Em vez de tratá-la como um direito isolado, podemos entendê-la como uma prática relacional. Falar livremente não é apenas emitir palavras, mas participar de um espaço em que vozes possam efetivamente se encontrar.

A verdadeira liberdade de expressão não estaria apenas em poder dizer tudo, mas em construir condições para que diferentes vozes possam existir com dignidade, ser ouvidas com seriedade e confrontadas com responsabilidade. Não é um estado dado, mas um processo em disputa.

A pergunta mais incômoda permanece: estamos defendendo a liberdade de expressão — ou apenas a liberdade de alguns se expressarem mais alto que outros?


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Mediações Invisíveis

Afetos curados, silêncios programados

Começa quase sempre assim: você abre uma tela em busca de distração e encontra, sem procurar, exatamente aquilo que “queria”. Um vídeo que prolonga seu humor, uma opinião que confirma sua suspeita, uma indignação que parece justa demais para ser questionada. Nada disso é inteiramente acaso. Há uma curadoria silenciosa operando — não editorial, mas algorítmica — que aprende a modular seus afetos antes mesmo que você os reconheça como seus.

O que chamamos de mediações invisíveis não é apenas a filtragem de conteúdo, mas um regime de sensibilidade. Os algoritmos não organizam somente informações; eles organizam a experiência. Selecionam o que aparece, calculam o que provavelmente nos deterá, repetem o que produziu uma reação e silenciam, por simples ausência de circulação, aquilo que não corresponde à lógica da retenção.

A questão filosófica, portanto, desloca-se. Já não basta perguntar: “O que estamos vendo?” É preciso perguntar: “Quem — ou o quê — está organizando as condições pelas quais algo pode ser visto, sentido e desejado?”

É nesse ponto que a velha noção de mediação adquire uma dimensão nova. Tradicionalmente, reconhecíamos os mediadores: o jornalista, o professor, o editor, o crítico, o partido, a instituição religiosa, o Estado. Havia alguém ou alguma instituição identificável entre o acontecimento e sua representação. A mediação algorítmica introduz outra situação: o mediador permanece parcialmente invisível. Ele não desaparece; torna-se infraestrutural.

O algoritmo não precisa dizer “pense assim”. Basta organizar o ambiente no qual determinadas coisas aparecem com maior frequência, intensidade e proximidade. Seu poder não consiste necessariamente em proibir, mas em hierarquizar o aparecimento.

É aqui que Michel Foucault continua sendo indispensável. Sua análise do poder mostra que o poder moderno não se limita à repressão. Ele produz comportamentos, saberes, classificações e formas de subjetividade. O poder funciona também através dos dispositivos que tornam certas condutas possíveis, desejáveis ou normais.

A plataforma digital pode ser compreendida, nesse sentido, como um dispositivo contemporâneo: uma rede na qual tecnologia, economia, linguagem, dados e comportamento se articulam. O indivíduo não está simplesmente diante da máquina; está inserido em um sistema que aprende com ele enquanto o influencia.

Mas a especificidade contemporânea aparece quando aproximamos Foucault de Gilles Deleuze. Em seu célebre texto sobre as sociedades de controle, Deleuze percebe uma transformação decisiva: o poder já não depende primordialmente de espaços fechados e instituições disciplinares. Ele passa a operar por modulação contínua.

O algoritmo é uma espécie de máquina de modulação. Não precisa interromper nossa ação; acompanha-a. Não precisa determinar absolutamente nosso comportamento; calcula probabilidades. Não precisa ordenar: recomenda.

A diferença é decisiva.

O poder deixa de aparecer como uma instância exterior que diz “você deve” e passa a funcionar como uma infraestrutura que sugere “você talvez goste disso”.

É justamente nesse “talvez” que a mediação algorítmica encontra uma de suas formas mais sofisticadas.

A passagem da disciplina à sedução

É nesse ponto que Byung-Chul Han pode ser incorporado à discussão sem substituir Foucault ou Deleuze, mas radicalizando uma pergunta que ambos nos ajudam a formular: o que acontece quando o poder deixa de precisar se apresentar como poder?

Para Han, a sociedade contemporânea deslocou-se de um modelo baseado predominantemente na negatividade — proibição, repressão, limite — para um modelo de positividade. Já não somos simplesmente sujeitos que obedecem porque alguém ordena. Somos estimulados a produzir, comunicar, expor, participar e otimizar a nós mesmos.

O poder torna-se mais eficiente quando consegue transformar a liberdade em instrumento de controle.

Essa intuição é particularmente fecunda para compreender as plataformas digitais. O usuário aparentemente escolhe tudo: o vídeo que assiste, a postagem que compartilha, a pessoa que segue, a opinião que comenta, o conteúdo que rejeita. Entretanto, suas escolhas alimentam o sistema que, por sua vez, reorganiza o campo de escolhas futuras.

A liberdade, assim, torna-se circular.

Escolhemos aquilo que o sistema aprende a nos oferecer, e o sistema aprende a nos oferecer aquilo que escolhemos.

Não há aqui uma conspiração secreta nem um controlador absoluto. Há algo talvez mais inquietante: um circuito sem centro evidente.

É nesse sentido que a psicopolítica de Han ilumina a questão. O poder contemporâneo não necessita apenas controlar corpos; ele busca acessar desejos, preferências, emoções e padrões de comportamento. Os dados tornam-se uma espécie de matéria-prima para antecipar condutas.

O sujeito acredita estar se expressando livremente, enquanto sua expressão se converte em dado; o dado torna-se previsão; a previsão retorna como estímulo; e o estímulo influencia novamente sua expressão.

A subjetividade entra no circuito econômico.

A exploração do afeto

Aqui surge uma hipótese mais radical: o algoritmo não explora somente nossa atenção; ele explora nossa capacidade de ser afetados.

A atenção é apenas a superfície econômica de uma dinâmica mais profunda.

A indignação, por exemplo, possui uma qualidade particularmente rentável: interrompe. O medo captura. A surpresa retém. O conflito produz comentários. A identificação estimula compartilhamentos. A confirmação de uma crença produz satisfação. A contradição, quando suficientemente provocativa, pode produzir ainda mais engajamento.

Dessa perspectiva, a curadoria algorítmica não organiza simplesmente conteúdos. Ela organiza intensidades afetivas.

O que importa não é apenas aquilo que pensamos, mas aquilo que nos faz permanecer.

E aqui Han encontra Deleuze de maneira particularmente produtiva. Se Deleuze descreve um poder que modula continuamente os fluxos, Han permite perceber que essa modulação ocorre cada vez mais através da positividade, da participação e do desejo.

Não somos necessariamente obrigados a permanecer na plataforma.

Somos convidados a permanecer.

Essa diferença é filosoficamente enorme.

A porta da prisão foi substituída pela interface.

O paradoxo da transparência

Han também ajuda a compreender outro aspecto fundamental das mediações invisíveis: a transformação da transparência em instrumento de poder.

As plataformas solicitam que revelemos preferências, hábitos, relações, opiniões, deslocamentos, desejos e estados de ânimo. Quanto mais interagimos, mais legíveis nos tornamos para os sistemas.

Mas ocorre uma assimetria radical: nós nos tornamos transparentes para o sistema, enquanto o sistema permanece opaco para nós.

Sabemos cada vez mais sobre nós mesmos como usuários porque vemos nossas métricas, recomendações e históricos. Entretanto, não sabemos plenamente por que determinada coisa apareceu diante de nós naquele momento e outra desapareceu.

A transparência, portanto, não é distribuída igualmente.

O sujeito oferece visibilidade; o sistema conserva opacidade.

É uma assimetria que transforma a própria experiência da liberdade. Posso escolher, mas não vejo integralmente a arquitetura que organiza o campo das minhas escolhas.

A invisibilidade da mediação torna-se, assim, uma forma de poder.

O silêncio também é produzido

Talvez este seja o ponto mais importante.

Quando falamos em censura, imaginamos uma voz sendo retirada. Mas a curadoria algorítmica pode produzir algo muito mais sutil: um discurso pode permanecer disponível e, ainda assim, tornar-se socialmente inaudível.

Não é necessário apagar.

Basta não recomendar.

Não é necessário proibir.

Basta reduzir a circulação.

Não é necessário silenciar uma voz.

Basta colocá-la numa posição em que quase ninguém a encontre.

O silêncio algorítmico não é necessariamente o silêncio da ausência; é o silêncio da irrelevância produzida.

Isso modifica profundamente nossa compreensão da esfera pública. A existência de uma opinião na internet não significa que ela participe efetivamente do espaço público. Entre “estar disponível” e “ser encontrado” existe toda uma arquitetura de mediações.

A democracia digital, nesse sentido, não depende apenas do direito de falar. Depende também das condições técnicas de aparecimento da fala.

Quando o algoritmo aprende nossos afetos

Há ainda uma inversão particularmente inquietante.

O algoritmo começa observando nossos comportamentos. Depois identifica padrões. Em seguida, passa a prever nossas preferências. Finalmente, começa a oferecer estímulos capazes de reproduzir o comportamento previsto.

Nesse momento, a máquina deixa de ser apenas observadora.

Ela participa da formação daquilo que observa.

Se uma pessoa reage frequentemente a conteúdos de indignação, recebe mais indignação. Ao receber mais indignação, reage ainda mais. O sistema interpreta essa reação como confirmação de uma preferência. A preferência reforça a recomendação. A recomendação intensifica a disposição afetiva.

Forma-se um circuito:

afeto → interação → dado → previsão → recomendação → novo afeto.

A mediação torna-se então produtiva. Ela não apenas representa um sujeito que já existia; participa da fabricação de suas disposições.

É aqui que a hipótese das mediações invisíveis alcança sua consequência mais radical: o algoritmo não precisa saber exatamente quem somos para influenciar quem nos tornamos.

Basta reconhecer padrões em nossos comportamentos.

A bolha não é apenas cognitiva

Costumamos falar em “bolhas” como se fossem fenômenos essencialmente intelectuais: pessoas recebem apenas opiniões semelhantes às suas e passam a acreditar cada vez mais nelas.

Mas existe uma dimensão afetiva ainda mais profunda.

Podemos viver dentro de uma bolha emocional.

Não apenas vemos ideias semelhantes; experimentamos repetidamente atmosferas semelhantes. Se o sistema percebe que determinada indignação nos prende, ele pode nos manter dentro de uma atmosfera de indignação. Se percebe que determinado tipo de humor nos satisfaz, pode reproduzir continuamente aquela tonalidade emocional.

Assim, a personalização não personaliza apenas o conteúdo.

Ela pode personalizar o clima afetivo da existência.

É possível que duas pessoas habitem a mesma cidade, atravessem as mesmas ruas e compartilhem o mesmo acontecimento histórico, mas experimentem atmosferas digitais radicalmente diferentes.

Uma vive em permanente emergência.

Outra vive em permanente entretenimento.

Outra em permanente indignação.

Outra em permanente nostalgia.

A cidade é a mesma.

O mundo, não.

O desaparecimento do inesperado

Há algo ainda mais profundo nessa lógica.

Uma experiência humana rica não é feita apenas daquilo que desejamos encontrar. Ela também depende do encontro com aquilo que não sabíamos desejar.

A surpresa possui valor justamente porque não foi antecipada.

O outro é importante porque não coincide conosco.

A descoberta começa muitas vezes quando encontramos algo que não corresponde ao nosso perfil.

Mas a curadoria algorítmica possui uma tendência estrutural à previsibilidade. Quanto melhor consegue prever aquilo que nos prenderá, mais eficiente se torna comercialmente.

O problema é que aquilo que é eficiente para a previsão pode ser empobrecedor para a experiência.

A máquina aprende nosso gosto; o risco é começarmos a viver dentro dele.

Nesse ponto, a crítica às mediações algorítmicas não deve ser reduzida a uma nostalgia de um passado sem tecnologia. O problema não é existir mediação. Toda experiência humana é mediada. Linguagem, cultura, memória, instituições e relações sociais sempre filtraram o mundo.

O problema é uma forma de mediação que se apresenta como neutralidade técnica enquanto realiza escolhas econômicas, políticas e afetivas.

A questão política

A política do século XXI talvez precise deslocar parte de sua atenção.

Não basta perguntar quem controla os governos, os meios de comunicação ou as instituições.

É preciso perguntar:

quem controla as condições de visibilidade?

Quem decide o que aparece primeiro?

O que merece repetição?

O que será recomendado?

O que será esquecido?

Quais afetos são economicamente valiosos?

Quais comportamentos são transformados em padrões?

Quais diferenças são classificadas como ruído?

Essas perguntas indicam que o poder contemporâneo não está apenas no conteúdo das mensagens, mas na arquitetura de sua circulação.

A disputa política desloca-se, então, da propriedade da informação para a governança da atenção e da sensibilidade.

Para além da denúncia

Entretanto, seria insuficiente concluir que estamos simplesmente dominados pelos algoritmos.

A crítica filosófica não deve produzir outro fatalismo.

Foucault nos ensina que onde há poder há também possibilidades de resistência. Deleuze sugere que os dispositivos de controle nunca esgotam completamente os fluxos da vida. Han, apesar de seu diagnóstico sombrio, permite perceber que a liberdade contemporânea precisa ser repensada não apenas como ausência de coerção, mas como capacidade de interromper os circuitos que nos capturam.

A resistência às mediações invisíveis talvez comece por uma prática aparentemente simples: recuperar a capacidade de não responder imediatamente.

Não clicar.

Não compartilhar.

Não transformar toda emoção em publicação.

Não aceitar toda recomendação como descoberta.

Procurar deliberadamente aquilo que o sistema não ofereceu.

Escutar aquilo que não confirma.

Encontrar o que não foi otimizado para nós.

Talvez seja necessário recuperar o direito filosófico à desorientação.

Uma política do desvio

Se a lógica algorítmica procura prever nossos próximos movimentos, uma forma elementar de resistência consiste em produzir movimentos que não sejam facilmente previsíveis.

Não se trata de sabotagem tecnológica, mas de uma ética do desvio.

Ler contra a recomendação.

Conversar com quem pensa diferente.

Abandonar temporariamente o fluxo.

Frequentar espaços onde não existem métricas de engajamento.

Permitir que uma experiência permaneça sem ser transformada imediatamente em dado.

Recuperar o tédio.

Recuperar o silêncio.

Recuperar o tempo não produtivo.

Nesse sentido, a resistência pode começar exatamente onde Han identifica uma das patologias do presente: na recusa da obrigação permanente de produzir, comunicar e expor.

Talvez seja preciso produzir menos sinais para recuperar alguma opacidade.

Conclusão: devolver o mundo ao inesperado

As mediações invisíveis representam uma transformação profunda na relação entre tecnologia e subjetividade. O algoritmo não é apenas uma ferramenta que organiza conteúdos; ele participa da organização das condições de aparecimento do mundo.

Foucault nos permite compreender o poder como produção de subjetividades.

Deleuze nos ajuda a perceber sua passagem para a modulação contínua.

Han mostra como essa modulação pode abandonar a aparência da repressão e penetrar na subjetividade através da liberdade, da exposição, do desejo e da participação.

Juntos, esses autores permitem formular uma hipótese contemporânea:

o poder mais sofisticado talvez não seja aquele que nos impede de ver, mas aquele que faz com que desejemos ver repetidamente aquilo que ele já aprendeu a nos oferecer.

Nesse cenário, a liberdade não desaparece. Ela se torna mais ambígua.

Continuamos escolhendo — mas nossas escolhas acontecem dentro de ambientes previamente modulados.

Continuamos sentindo — mas alguns sentimentos encontram uma infraestrutura muito mais favorável à sua circulação do que outros.

Continuamos falando — mas nem toda fala recebe a mesma possibilidade de aparecer.

E continuamos acreditando que estamos simplesmente encontrando o mundo.

Talvez, entretanto, estejamos encontrando apenas uma versão do mundo que aprendeu a nos encontrar.

A tarefa filosófica do presente, portanto, não é sonhar com uma experiência sem mediações. Isso seria impossível. É tornar perceptíveis as mediações que pretendem permanecer invisíveis.

Pois talvez a liberdade contemporânea comece no instante em que conseguimos perguntar, diante daquilo que aparece em nossa tela:

por que justamente isto?

E, sobretudo:

o que não estou vendo porque aprendeu-se que eu não deveria querer vê-lo?

A primeira pergunta desconfia do algoritmo.

A segunda começa a recuperar o mundo.

terça-feira, 17 de março de 2026

Coincidências Sociais

Quando os encontros parecem obra do acaso

Quase todo mundo já viveu uma situação assim.

Você está caminhando por uma rua de uma cidade grande — talvez até em um bairro onde raramente vai — e de repente escuta alguém chamar seu nome. Ao virar, encontra justamente aquela pessoa que não via há anos.

A primeira reação quase sempre é a mesma:

“Que coincidência!”

E por alguns instantes surge aquela sensação curiosa de que algo improvável acabou de acontecer.

As coincidências sociais — encontros inesperados entre pessoas conhecidas — são um fenômeno cotidiano fascinante. Elas parecem puramente aleatórias, mas dizem muito sobre como percebemos o acaso e o significado na vida social.


O espanto diante do improvável

Quando encontramos alguém inesperadamente, não reagimos como se fosse um evento trivial.

Há surpresa, riso e, muitas vezes, uma breve tentativa de explicar o acontecimento:

  • “Eu quase não venho aqui!”
  • “Que mundo pequeno!”
  • “Justo hoje resolvi passar por aqui.”

Curiosamente, raramente pensamos que esse tipo de encontro seja simplesmente um evento estatístico possível dentro de uma cidade cheia de trajetórias que se cruzam.

Preferimos interpretá-lo como algo especial.


O desejo humano de encontrar sentido

O sociólogo alemão Max Weber observava que os seres humanos tendem a interpretar o mundo atribuindo significados às experiências.

Eventos inesperados muitas vezes são percebidos não apenas como acidentes, mas como sinais ou coincidências carregadas de sentido.

Assim, um encontro casual pode ganhar rapidamente um valor simbólico:

  • “Era para a gente se encontrar.”
  • “O destino quis assim.”

Mesmo pessoas bastante racionais às vezes usam essa linguagem.


As cidades e os encontros improváveis

As coincidências sociais são particularmente intrigantes nas grandes cidades.

Milhares — às vezes milhões — de pessoas circulam diariamente por ruas, praças, metrôs e lojas. A probabilidade de cruzar com alguém conhecido parece pequena.

No entanto, esses encontros acontecem com frequência suficiente para criar a sensação de que o mundo é menor do que imaginamos.

O sociólogo Georg Simmel estudou justamente a experiência da vida urbana e observou como as cidades criam uma mistura curiosa de anonimato e encontros inesperados.

Vivemos cercados por desconhecidos, mas nossas trajetórias continuam se cruzando.


As rotas invisíveis da vida

Uma explicação possível para muitas coincidências está nas rotinas sociais.

Mesmo sem perceber, as pessoas tendem a frequentar certos lugares:

  • cafés
  • supermercados
  • parques
  • caminhos habituais.

Esses trajetos criam uma espécie de rede invisível de circulação.

Assim, quando duas pessoas compartilham ambientes semelhantes — mesmo que ocasionalmente — as chances de encontros inesperados aumentam.

A coincidência às vezes é apenas um cruzamento de rotinas.


Coincidência ou narrativa?

Há também um aspecto narrativo nesse fenômeno.

As coincidências são facilmente lembradas e contadas. Elas viram histórias interessantes:

“Você não vai acreditar em quem eu encontrei hoje.”

Já os milhares de momentos em que não encontramos ninguém conhecido passam despercebidos.

Nossa memória seleciona aquilo que é surpreendente.


O fascínio do acaso

Talvez o fascínio pelas coincidências revele algo profundo sobre a natureza humana.

Vivemos em um mundo cheio de acontecimentos aleatórios, mas temos uma forte inclinação a buscar padrões e significados.

As coincidências sociais funcionam como pequenas interrupções na rotina previsível do dia a dia.

Elas lembram que, mesmo dentro de trajetos aparentemente organizados, o mundo ainda guarda um espaço para o inesperado.


O encontro que interrompe o cotidiano

No fundo, uma coincidência social é uma pequena quebra na linearidade da vida.

Você estava indo de um ponto a outro, pensando em suas próprias preocupações, quando de repente o passado aparece na sua frente na forma de um rosto conhecido.

Por alguns minutos, o tempo parece dobrar sobre si mesmo.

Histórias antigas reaparecem.

Memórias voltam à superfície.

E então, após uma conversa breve, cada um segue novamente seu caminho.

Talvez seja por isso que essas coincidências continuam nos intrigando.

Porque, em meio às rotinas previsíveis da vida moderna, elas nos lembram de algo curioso:
as trajetórias humanas estão sempre se cruzando de maneiras que nunca conseguimos prever completamente.

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Prosopopeia

Vozes Invisíveis

Há dias em que a casa parece falar. O relógio reclama do tempo que carrega, o sofá suspira sob o peso das rotinas, e a xícara — coitada — parece protestar toda vez que recebe o mesmo café morno. Atribuímos intenções às coisas, emoções aos objetos e vontades às forças da natureza. Fazemos isso desde a infância, quando o brinquedo que deixamos de lado parecia “triste” e o vento “brigava” com as janelas. É o instinto poético que nos resta: o de humanizar o mundo para suportá-lo.

A prosopopeia, ou personificação, é mais do que um recurso literário — é uma forma filosófica de dizer que o humano transborda. Que o sujeito não cabe em si e, por isso, espalha sua alma sobre tudo o que toca. Damos voz às coisas porque elas são extensão do nosso silêncio.

Filosoficamente, esse gesto pode ser lido como uma tentativa de reconciliação entre o sujeito e o mundo. A modernidade separou ambos: o “eu” e o “não-eu”, o observador e o objeto. Mas quando o mar “fala”, ou a cidade “chora”, estamos, de certo modo, devolvendo humanidade àquilo que o racionalismo retirou da existência. É o retorno da alma do mundo — aquilo que os antigos chamavam de anima mundi.

Atribuir voz às coisas é também uma maneira de confessar a solidão. Ao ouvir o murmúrio dos objetos, projetamos neles o eco do que não ousamos dizer. O filósofo Gaston Bachelard, ao estudar a poética do espaço, percebeu que a casa é uma extensão da alma: os cantos guardam lembranças, as escadas sabem dos nossos passos, e o sótão é o abrigo do imaginário. Assim, quando falamos com as coisas, é com partes de nós mesmos que dialogamos.

Há quem veja nisso ingenuidade; há quem veja poesia. Mas talvez seja filosofia em sua forma mais sensível: a que busca sentido não na abstração, mas na vibração das pequenas presenças. A prosopopeia é, afinal, o modo como o ser humano se desculpa com o mundo por tê-lo tornado mudo.

No fundo, as coisas falam — sempre falaram. Somos nós que, distraídos demais, deixamos de escutá-las.

O que diria Mario Sergio Cortella:

“Quando damos voz às coisas, não estamos apenas poetizando o mundo; estamos reconhecendo que o mundo nos devolve o que somos. O silêncio de um objeto pode dizer mais sobre nós do que nossas próprias palavras. A prosopopeia, nesse sentido, é um convite à humildade: lembrar que não somos os únicos a existir — apenas os únicos a falar em voz alta.”


quarta-feira, 4 de junho de 2025

Humanidade Esquecida


Você já se perguntou porque há tantas divisões, se os seres humanos são um só, ou tem algum humano mais humano do que o outro?

Essa pergunta, simples na forma, é profunda como um abismo. “Por que tanta divisão, se seres humanos são um só?” — talvez seja uma das grandes dores da humanidade. A gente se vê repetindo, século após século, os mesmos erros: fronteiras, muros, religiões, castas, tribos, cor da pele, partidos, rótulos. Como se houvesse alguém mais humano que outro. Como se houvesse uma régua secreta para medir o grau de humanidade de cada um.

No dia a dia, essas divisões aparecem de forma até sutil: quando alguém diz “gente como a gente”, o que está por trás disso? Quem é esse “a gente”? E quem está fora disso?

Na fila do supermercado, tem quem se incomode com o jeito de falar do outro, com a roupa, com o modo como cuida (ou não cuida) dos filhos. No trânsito, a raiva explode se o outro parece não pertencer à mesma lógica. E nas redes sociais, então — ali, cada bolha vira um pequeno país com hino, bandeira e inimigos declarados.

Mas por que somos assim? Será instinto de autopreservação? Medo do desconhecido? Desejo de controle?

O filósofo francês Emmanuel Levinas dizia que a verdadeira ética começa no rosto do outro. No momento em que nos deparamos com a alteridade — com o outro ser humano em sua diferença —, somos convocados à responsabilidade. Isso significa que não há hierarquia entre humanos, só a constatação radical de que o outro me afeta e me obriga a agir com humanidade.

Ou seja: o mais humano que podemos ser é justamente quando reconhecemos a humanidade do outro, sem medir, comparar ou classificar.

Talvez o problema esteja quando a gente se desliga do simples fato de que “ser humano” não é uma competição, nem um privilégio. É uma condição compartilhada — com alegrias e dores, com dúvidas e medos, com sonhos que se repetem, seja numa favela ou num palácio.

No fim das contas, a pergunta poderia ser invertida: se todos somos humanos, o que nos faz esquecer disso com tanta facilidade?

E mais, não estaríamos nos tornando cada vez mais individualistas, territorialistas e egoístas?

Sim, parece que estamos sim — nos tornando cada vez mais individualistas, territorialistas e egoístas. E o mais estranho é que isso tudo acontece num mundo hiperconectado, onde a promessa era justamente o contrário: que estaríamos mais próximos, mais empáticos, mais solidários.

Mas o que vemos?

Cada um cuidando do seu. Cercas invisíveis (e às vezes bem visíveis) se erguendo entre vizinhos, entre colegas, até dentro da própria família. O “meu espaço”, o “meu tempo”, o “meu direito” viraram lemas. E, claro, é importante ter limites saudáveis, mas há uma linha tênue entre o autocuidado e o isolamento emocional travestido de autonomia.

No trânsito, ninguém cede passagem. No trabalho, o espírito de equipe vira competição. No condomínio, o morador reclama do cachorro do outro, mas não enxerga o barulho que ele mesmo faz. E nas redes sociais, então… ali o território é o ego: cada um no seu palanque, gritando mais alto que o outro.

Parece que, no fundo, temos medo de sermos “invadidos” — não só no espaço físico, mas nas opiniões, nas crenças, nos estilos de vida. Por isso, blindamos tudo. Viramos fortalezas emocionais, com muralhas de desconfiança e trincheiras de indiferença.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han fala sobre isso em A Sociedade do Cansaço e A Sociedade da Transparência. Para ele, o excesso de individualismo e performance nos transforma em sujeitos do cansaço — sempre tentando se destacar, se proteger, se manter produtivos. Perdemos a capacidade de contemplar o outro sem julgamento, de conviver com a diferença, de simplesmente ser junto, sem uma agenda por trás.

Talvez estejamos desaprendendo a conviver.

Mas há um antídoto. Pequeno, quase invisível, mas potente: o gesto gratuito. Quando alguém segura o elevador para o outro, quando escuta sem pressa, quando oferece ajuda sem esperar nada em troca. São nessas brechas que o egoísmo se dissolve, ainda que por instantes.

E aí a gente percebe que ser humano de verdade… é ser com o outro. Não ao lado, mas junto.

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Lógica dos Universais

Outro dia, eu fazia compras no supermercado, e fiquei observando as pessoas tentando escolher um molho de tomate. Tantas marcas, tantos rótulos, tantas promessas: "caseiro", "tradicional", "com manjericão", "premium", "italiano". E de repente me veio essa pergunta estranha: existe um molho de tomate universal? Um que funcione para todos os gostos, todas as receitas, todos os contextos? Claro que não. Mas a pergunta revelou algo mais profundo: por que temos essa vontade de achar o "universal"? O que, afinal, é o universal?

Falamos de “universais” como se fossem entidades invisíveis pairando sobre as coisas, garantindo que duas mesas sejam "mesas", que dois sentimentos de amor sejam “amor”, que duas cores azul sejam “azul”. Mas essa ideia — a de que por trás de cada coisa existe um modelo eterno — é mais velha que Platão. Ele chamava isso de "formas" ou "ideias". A “mesidade” da mesa estaria numa ideia de mesa, fora do tempo, perfeita. E nós aqui, lidando com versões mais ou menos boas dessa forma ideal.

Só que Aristóteles já torceu o nariz. Para ele, os universais estavam nas coisas mesmas, e não num mundo paralelo. A “mesidade” mora na mesa, não no céu das ideias. Já aí começava uma divergência que a filosofia carregaria por séculos: o universal é algo real, algo mental, ou apenas uma palavra?

Na Idade Média, esse debate virou briga de gente grande: realistas contra nominalistas. Pedro Abelardo, por exemplo, tentou fazer uma espécie de meio-termo entre os dois extremos. Para ele, os universais não eram nem puras palavras (como queriam os nominalistas), nem entidades reais separadas (como queriam os realistas mais radicais). Abelardo dizia que os universais existem como conceitos mentais — eles expressam semelhanças reais entre as coisas, mas não têm existência por si sós. Uma tentativa elegante de salvar tanto a razão quanto a experiência.

Mas aí vem Guilherme de Ockham, o famoso franciscano que gostava de navalhas — filosóficas, claro. Ockham radicalizou: para ele, os universais não passam de nomes, convenções linguísticas úteis para comunicar. Se eu digo "cachorro", é só uma forma prática de me referir a vários indivíduos semelhantes. Não há "cachorricidade" flutuando por aí. A realidade, segundo ele, é feita só de indivíduos. O resto é economia mental. E sua navalha cortava firme: “não multiplicar os entes sem necessidade”.

Aqui começa a virar jogo: os universais talvez revelem mais sobre nós do que sobre o mundo. A busca pelo universal é uma tentativa de dar ordem ao caos, de dizer que há uma unidade por trás da diversidade. Como quem olha para todas as formas de amor — maternal, erótico, fraterno, espiritual — e pergunta: o que há de comum entre eles?

A filosofia contemporânea, especialmente com Wittgenstein, começou a relativizar ainda mais essa busca. Ele dizia que não há uma essência única por trás de tudo que chamamos de “jogo”, por exemplo. Há apenas semelhanças de família, fios que se cruzam, padrões que se repetem, mas não um centro fixo.

Será que o universal é só um espelho do nosso desejo de simplificar? De encontrar um padrão no que é múltiplo? Quando dizemos que todo ser humano merece dignidade, estamos apelando a um universal moral. Mas ao mesmo tempo, quando observamos culturas distintas, vemos que essa dignidade pode se manifestar de formas radicalmente diferentes. O universal, nesse caso, não é um ponto de partida, mas talvez um horizonte.

A filósofa brasileira Marilena Chauí chama atenção para a ilusão dos universais como instrumento ideológico. Ela mostra como certas ideias se travestem de universais para impor uma perspectiva única. O "universal" pode ser apenas o ponto de vista de alguém com muito poder e pouca humildade, tentando convencer o mundo de que sua forma de ver é a forma correta.

No fundo, talvez o universal não exista como coisa, mas como tensão: entre o desejo de ver o comum e a necessidade de preservar o singular. Quando digo que todos queremos ser amados, isso pode parecer universal. Mas cada um deseja isso de um jeito, com um tom, um ritmo, uma história.

Talvez os universais não sejam receitas prontas, nem fórmulas fixas, mas pontes. Modos de escutar, de traduzir, de reconhecer a semelhança no meio da diferença — e a diferença no meio da semelhança. Como quem reconhece uma canção tocada em instrumentos diversos: ainda é a mesma melodia, mas nunca do mesmo jeito.

E, voltando ao molho de tomate: talvez não haja um universal para agradar todos os gostos. Mas há um tempero que todos procuram — aquele que faz sentido no seu prato, no seu dia, no seu mundo. E talvez o mais universal de todos seja esse: o desejo de que algo nos sirva de verdade. Mesmo que, para isso, cada um tenha que temperar à sua maneira.