Vozes
Invisíveis
Há dias em que a casa parece falar. O relógio reclama do tempo que carrega, o sofá suspira sob o peso das rotinas, e a xícara — coitada — parece protestar toda vez que recebe o mesmo café morno. Atribuímos intenções às coisas, emoções aos objetos e vontades às forças da natureza. Fazemos isso desde a infância, quando o brinquedo que deixamos de lado parecia “triste” e o vento “brigava” com as janelas. É o instinto poético que nos resta: o de humanizar o mundo para suportá-lo.
A
prosopopeia, ou personificação, é mais do que um recurso
literário — é uma forma filosófica de dizer que o humano transborda. Que o
sujeito não cabe em si e, por isso, espalha sua alma sobre tudo o que toca.
Damos voz às coisas porque elas são extensão do nosso silêncio.
Filosoficamente,
esse gesto pode ser lido como uma tentativa de reconciliação entre o sujeito e
o mundo. A modernidade separou ambos: o “eu” e o “não-eu”, o observador e o
objeto. Mas quando o mar “fala”, ou a cidade “chora”, estamos, de certo modo,
devolvendo humanidade àquilo que o racionalismo retirou da existência. É o
retorno da alma do mundo — aquilo que os antigos chamavam de anima mundi.
Atribuir
voz às coisas é também uma maneira de confessar a solidão. Ao ouvir o murmúrio
dos objetos, projetamos neles o eco do que não ousamos dizer. O filósofo Gaston
Bachelard, ao estudar a poética do espaço, percebeu que a casa é uma
extensão da alma: os cantos guardam lembranças, as escadas sabem dos nossos
passos, e o sótão é o abrigo do imaginário. Assim, quando falamos com as
coisas, é com partes de nós mesmos que dialogamos.
Há
quem veja nisso ingenuidade; há quem veja poesia. Mas talvez seja filosofia em
sua forma mais sensível: a que busca sentido não na abstração, mas na vibração
das pequenas presenças. A prosopopeia é, afinal, o modo como o ser humano se
desculpa com o mundo por tê-lo tornado mudo.
No
fundo, as coisas falam — sempre falaram. Somos nós que, distraídos demais,
deixamos de escutá-las.
O
que diria Mario Sergio Cortella:
“Quando
damos voz às coisas, não estamos apenas poetizando o mundo; estamos
reconhecendo que o mundo nos devolve o que somos. O silêncio de um objeto pode
dizer mais sobre nós do que nossas próprias palavras. A prosopopeia, nesse
sentido, é um convite à humildade: lembrar que não somos os únicos a existir —
apenas os únicos a falar em voz alta.”
