O senso comum tende a conceber a incompreensão do sentido de liberdade, geralmente levando a pensar que liberdade é possibilidade de fazer tudo o que quer fazer, mas será que isto esta correto?
Em sua adolescência, quantas vezes você já se viu em situação de conflito com seus pais ou familiares por querer fazer alguma coisa e eles não concordarem?, ou melhor, não permitirem? Em situações como esta quem não pensou em sair de casa, e tendo saido lá no seu espaço, fazer o que bem entendiam?, Mas será que pensaram em liberdade com suas características, escolhas e conseqüências, alem de apenas desejá-la ou lamentar por não possuí-la?
Fernando Pessoa, consegue expressar com maestria no poema “liberdade”, o que se pode fazer com a liberdade, não pelo simples não cumprimento do dever, mas pelo cumprimento do dever por prazer.
Liberdade
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
Para atual sociedade, o conceito de liberdade esta muito próxima da possibilidade de poder consumir. Para maioria dos cidadãos urbanos, a frase em latim de um poema de Horácio, Carpe Diem, que é popularmente traduzida para colha o dia ou aproveite o momento, esta mais próxima da realidade urbana, distorcendo os valores implícitos do exercício da liberdade com responsabilidade e prazer, a moda de Fernando Pessoa.
A impossibilidade em consumir, causado pelo desemprego, pela baixa remuneração, significa principalmente ao cidadão perder o seu lugar na estrutura social, reconhecimento do eu pelo outro, impossibilidade de preenchimento do vazio causado pelo isolamento mesmo vivendo lado a lado de milhares de pessoas.
O poder econômico, passou a ser o construtor da profundidade das relações do ter para ser, as relações com as coisas e com as pessoas, porque se o que garante a liberdade é a Lógica do “Carpe Diem” relacionada à possibilidade de consumir, tudo que me prende a algo ou alguém é tão fugaz, passageiro e vazio quanto o ato da compra.
Quando se pensa em liberdade, é porque há falta dela, é momento de experimentação de seu oposto, mesmo que pudesse fazer o que bem entende, ainda assim o ser humano seria de fato livre? Na filosofia ao longo da história, a questão foi bastante discutida, surgindo dois grandes grupos.
Um deles afirma a liberdade, outro o determinismo. Se você acredita em destino, é porque acredita que sua vida já esta toda escrita, até mesmo antes de seu nascimento, então você é um partidário do determinismo, é quando afirma que tudo o que fazemos já foi determinado por algo ou alguém, a maioria das religiões estão ai para nos lembrar disto.
Mas, se você não acredita no destino, se acredita que a vida é construída a cada instante, então, é porque para você a liberdade tem um sentido todo especial. Como afirma Silvio Gallo, o sentido é todo especial, pois ela é matéria-prima com a qual a vida é moldada.
O exercício equivocado da razão, a falta de consciência e de uma compreensão clara acerca de nossas origens, da finalidade do nosso existir, do porquê de estarmos aqui e de para onde vamos leva muitas pessoas (a maioria?) a usarem de modo indevido e até mesmo destrutivo o seu arbítrio e acreditando estarem exercendo liberdade acabam se escravizando a hábitos ou condutas nocivas a si, à família ou à sociedade, e a liberdade compreendida pelo poder de consumir é um exercício equivocado da razão e escravidão pelo hábito que contraria a finalidade de nosso existir.
Hegel, filósofo alemão, analisou o paradoxo da liberdade numa passagem de sua obra Fenomenologia do espírito que ficou conhecida como a dialética do senhor e dos escravo. Segundo ele, o senhor, para viver, precisa do trabalho do escravo. Ele só é senhor porque existe um escravo; se o escravo deixa de existir, ele deixa de ser senhor. Essa é, portanto, uma condição negativa. Já o escravo, por sua vez, se o senhor deixa de existir, deixa de ser escravo, ganha a liberdade. É uma condição afirmativa. A liberdade do senhor só é possível com a existência do escravo; a liberdade do escravo só é possível com ausência do senhor. Desse modo, a liberdade do escravo é independente, ao passo que liberdade do senhor é dependente da escravidão.
Liberdade, é viver no paradoxo, o homem esta condenado a ser livre, como afirma Sartre, onde a liberdade é o próprio fundamento do ser do homem, portanto esta na raiz de seu comportamento, porque sempre temos de escolher, nesse sentido, o homem é essencialmente livre, não podendo abdicar de sua liberdade.
As escolhas aprisionam, escravizam e também libertam. Os apegos são escolhas que funcionam como jaulas mentais, estes apegos geralmente nos escravizam até por uma vida inteira. Podemos escolher em manter os apegos ou não, a liberdade é poder escolher entre um ou outro. Quais são seus apegos?
Uma ótima semana a todos.