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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Abjeção

Uma Ideia Incômoda

Outro dia me peguei olhando para algo banal — uma sacola de lixo esquecida num canto. Nada demais. Mas havia ali um leve desconforto, quase físico. Não era só o cheiro, nem a aparência. Era uma sensação mais estranha: como se aquilo não devesse estar ali… ou talvez, como se eu não devesse estar perto daquilo.

Foi aí que me veio à cabeça Julia Kristeva, com sua ideia incômoda de abjeção. E, sinceramente, depois que você começa a enxergar isso no cotidiano, fica difícil “desver”.

Abjeção não é apenas o que causa nojo. Se fosse só isso, resolveríamos com um simples afastar de olhar. O problema é que o abjeto não fica só do lado de fora — ele parece rondar uma fronteira muito íntima, como se ameaçasse algo em nós.

Pense numa situação comum: você está comendo tranquilamente e, de repente, percebe que a comida está estragada. O corpo reage antes do pensamento. Há um recuo imediato, quase violento. Mas o curioso é que aquela comida, segundos antes, fazia parte do seu mundo — talvez até do seu desejo. O que mudou tão rápido?

Kristeva diria: ali surgiu o abjeto. Algo que atravessa a linha entre o que pode fazer parte de você e o que precisa ser expulso.

E isso não fica só na comida. Está em pequenos episódios do dia a dia:

Você já percebeu como ficamos desconfortáveis quando alguém ultrapassa certos limites invisíveis? Aquela pessoa que fala demais sobre a própria intimidade, que expõe detalhes que “não deveriam” ser compartilhados. Não é só falta de educação — é quase uma sensação física de invasão. Como se algo estivesse fora do lugar.

Ou então ambientes. Há lugares que não são apenas sujos — eles parecem “errados”. Você entra e quer sair. Não porque alguém mandou, mas porque algo ali ameaça uma ordem silenciosa que você carrega dentro.

É nesse ponto que a ideia de abjeção começa a ficar interessante — e um pouco perturbadora.

Porque, no fundo, o que está em jogo não é o objeto em si. É você.

A gente costuma pensar que o “eu” é algo sólido, bem definido. Mas, olhando de perto, ele parece mais uma construção frágil, mantida à base de exclusões constantes. Eu sou isso… porque não sou aquilo. Eu permaneço inteiro… porque certas coisas são mantidas do lado de fora.

O problema é que algumas dessas coisas não ficam totalmente fora.

O corpo é o melhor exemplo disso. Sangue, suor, secreções — tudo isso é “nosso”, mas ao mesmo tempo nos causa repulsa quando aparece fora do lugar. Como se o corpo revelasse algo que preferíamos não ver: que essa separação entre “eu” e “não-eu” é muito mais instável do que gostaríamos.

O caso extremo é o cadáver. Não é apenas a morte que incomoda. É o fato de que ali está um corpo que, até pouco tempo atrás, era alguém. O limite se dissolve. E isso é difícil de suportar.

Se a gente puxar um pouco mais para o lado cultural, a coisa se amplia. Regras sociais, normas de convivência, rituais de limpeza — tudo isso parece funcionar como um grande sistema de contenção do abjeto. Uma tentativa coletiva de manter o mundo organizado.

Nesse ponto, dá vontade de imaginar uma provocação no estilo de Friedrich Nietzsche:

“E se tudo isso for só uma forma de você se proteger de algo que não consegue encarar?”

Talvez ele estivesse certo em parte. Mas Kristeva provavelmente responderia que não se trata apenas de fraqueza — é uma necessidade estrutural. Sem essas fronteiras, o “eu” simplesmente se dissolve.

E aí surge uma ideia meio desconfortável, mas honesta:

Talvez a gente precise daquilo que rejeita para continuar sendo quem é.

O abjeto, nesse sentido, não é só o que afastamos. É aquilo que nos ajuda, silenciosamente, a manter alguma forma de identidade.

Voltando àquela sacola de lixo no canto — ela não era só lixo. Era um lembrete. De que existe uma linha invisível organizando tudo: o corpo, a casa, as relações, a própria ideia de quem somos.

E que, de vez em quando, essa linha vacila.

Quando isso acontece, não sentimos apenas nojo.

Sentimos algo mais profundo — uma espécie de vertigem.

Como se, por um instante, o mundo deixasse de estar completamente no lugar.

sábado, 28 de junho de 2025

Ímpeto de olhar

...e ser olhado, vamos falar sobre o desejo de existir aos olhos do outro

Todo mundo já viveu aquela cena banal e desconcertante: você está andando na rua, distraído, e de repente percebe que alguém te observa. No instante seguinte, você também olha de volta. Não há palavra, não há gesto — só a força estranha do encontro entre dois olhares. E isso basta para dar um pequeno nó na alma: por que aquele olhar nos prende? Por que é tão difícil desviar? E por que sentimos, às vezes, a compulsão de também olhar, vigiar, buscar o rosto do outro?

Esse ímpeto antigo — olhar e ser olhado — talvez seja um dos impulsos humanos mais profundos. Ele é anterior à fala, ao gesto, à escrita. Crianças pequenas já procuram os olhos da mãe antes mesmo de dizer qualquer palavra. Namorados trocam olhares mais intensos do que frases. Trabalhadores no escritório observam-se de longe para medir forças ou cumplicidades. Até nas redes sociais, mesmo sem presença física, queremos “olhares digitais”: curtidas, views, reações.

No fundo, não basta existir: queremos que alguém nos veja existir.

O olhar que define o ser: Sartre e Lacan

Jean-Paul Sartre foi quem melhor traduziu esse incômodo: no instante em que o outro me olha, eu deixo de ser puro sujeito e viro objeto na cena alheia. Estou ali, na vitrine do mundo, exposto ao julgamento. A vergonha, diz ele, nasce disso: não da nudez em si, mas de saber que há um outro me vendo nu — seja no corpo, seja nas fraquezas.

Lacan vai além: no “estádio do espelho”, o bebê se reconhece como eu só porque vê uma imagem fora de si. Somos essa distância: um sujeito que só se entende enquanto objeto de visão. O outro nos devolve uma imagem de nós mesmos — e ficamos para sempre presos a ela. A busca de aprovação, a vaidade, o medo de errar em público: tudo nasce desse laço invisível entre ver e ser visto.

O olhar como poder: Nietzsche e Foucault

Nietzsche nos lembraria que olhar é disputar força. Quem vê primeiro domina; quem é visto primeiro revela fraqueza. É uma luta ancestral de predadores e presas — só que agora nos escritórios, nas salas de aula, nos ônibus lotados. Até o flerte amoroso é um jogo de quem sustenta mais tempo o olhar sem ceder.

Michel Foucault estendeu isso à vigilância moderna: hoje o olhar se espalhou, tornou-se técnica. Câmeras, sistemas, redes sociais monitoram tudo. Estamos dentro do “panóptico”, prisão imaginada por Bentham, onde o prisioneiro nunca sabe se está sendo vigiado — e por isso vigia a si mesmo. O ímpeto de olhar e ser olhado virou método de controle social.

O olhar e o desejo de ser

Mas não é só domínio ou medo: é também desejo puro de ser. Roland Barthes escreveu que o amor começa no instante em que alguém nos olha “de maneira singular”. Não qualquer olhar, mas aquele que nos vê como únicos, como ninguém jamais viu. Daí nasce a paixão, o encantamento, o brilho especial de certos encontros.

Em tempos de Instagram, TikTok e selfies, esse desejo explodiu em espetáculo. Como alerta Byung-Chul Han, nunca se exibiu tanto o rosto, o corpo, o cotidiano — e nunca se foi tão cego para o verdadeiro encontro do olhar real. Mostrar virou substituir: em vez de ser visto no olhar do outro, queremos ser exibidos para o mercado das imagens.

O cotidiano do olhar

No trabalho, queremos o reconhecimento do chefe, o respeito dos colegas — ou pelo menos não ser invisíveis. Na amizade, buscamos cumplicidade: um olhar que nos compreenda sem palavras. No amor, queremos ser lidos por inteiro nos olhos do outro, como se ali estivesse a prova de que valemos algo.

Na política, nas ruas, o olhar também pesa: o morador de rua que desvia o olhar para não ser humilhado; o jovem negro parado pela polícia que sente o peso mortal do olhar estatal; a mulher que sente olhares invasivos no transporte público. O olhar é prazer, mas também ameaça.

O risco de perder o olhar verdadeiro

Byung-Chul Han teme que estejamos perdendo o olhar que demora, que escuta, que vê de verdade. No lugar dele, só resta a vitrine de imagens rápidas, o marketing de si mesmo, o consumo do outro como coisa. O ímpeto de ser olhado não é mais para existir — é para ser comprado, curtido, ranqueado.

Mas Emmanuel Lévinas oferece esperança: para ele, o rosto do outro me convoca à ética. No olhar do outro há uma súplica: “não me mates”. Ali nasce a responsabilidade, a humanidade. O olhar autêntico não é controle, mas abertura: permite o outro ser outro.

Concluindo: existir é aparecer?

Talvez a verdade mais incômoda seja esta: não sabemos quem somos sem o olhar alheio. Todo eu se forma no reflexo de algum espelho humano. Mas isso não nos condena: nos liberta. Somos relação, não essência isolada. Por isso o ímpeto de olhar e ser olhado é a nossa mais primitiva oração: "estou aqui, me vê". Não para dominar, não para vender — mas para ser alguém no mundo compartilhado.

Como disse Merleau-Ponty: “o mundo é o campo da visão de todos”. Olhar e ser olhado é só o modo humano de existir nesse campo aberto.

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Obsessão e Filosofia

Vamos das uma olhada em quando a alma fecha os olhos...

Tem dias em que a gente acorda com uma única ideia — um medo recorrente, um desejo sem paz, uma lembrança que insiste em voltar. E então o pensamento gira em torno disso, como mosca em lâmpada, sem saída. O mundo se estreita. O real perde a força e sobra apenas aquilo: a obsessão. Pequena ou gigante, disfarçada de cuidado ou de amor, de zelo ou de perfeccionismo.

No cotidiano, ela é quase banal: quem nunca voltou três vezes para checar se trancou a porta? Quem nunca ficou preso num e-mail mal escrito ou numa mensagem não respondida? Há quem confunda obsessão com persistência — e há quem ache bonito ser obcecado por metas e resultados. No fundo, talvez a obsessão seja só a máscara ocidental de um medo profundo de perder o controle.

Sigmund Freud foi dos primeiros a perceber que a obsessão mora no inconsciente como sintoma: um sinal invertido de desejo reprimido. Para ele, os atos obsessivos — lavar as mãos sem parar, repetir frases mentalmente, ordenar objetos — são defesas contra algo insuportável. O sujeito obcecado tenta controlar o mundo externo porque não suporta o tumulto do mundo interno. Em "O Caso do Homem dos Ratos", Freud mostrou como a obsessão cria um labirinto de rituais inúteis, mas indispensáveis para manter o sujeito em pé. Sem eles, o medo oculto romperia a consciência.

Mas nem toda obsessão se revela como doença clínica. Jacques Lacan, leitor atento de Freud, foi mais longe: a obsessão seria um modo específico de se relacionar com o desejo — um desejo que nunca quer ser satisfeito. O obsessivo, para Lacan, não deseja realmente o objeto que persegue; deseja desejar. Por isso nunca alcança. Sua angústia é estrutural: ele gira em torno do vazio, alimentando uma falta que o define. No fundo, ele quer manter o objeto à distância, como o ciumento que teme perder justamente o que não quer possuir de fato.

Simone Weil, mística e filósofa singular, trouxe uma perspectiva rara: para ela, a obsessão é uma forma de desatenção ao real. Em "A Gravidade e a Graça", ela diz que a alma obcecada está tão fixada em si mesma — em seu desejo, em sua dor — que não consegue ver o outro, nem o mundo, nem Deus. O remédio seria o oposto: a atenção pura, capaz de se abrir ao que é, sem querer tomar ou modificar. A obsessão fecha os olhos da alma; a atenção os reabre.

Esse movimento — fechar-se e abrir-se — é o drama da vida comum. O estudante que não consegue largar uma prova malfeita; o apaixonado que revive cem vezes o fim do namoro; o trabalhador que acorda pensando no chefe e dorme imaginando planilhas. A obsessão é um monólogo interior interminável — um filme em looping que suga a energia vital.

Mas há quem a transforme. Os artistas obsessivos — Kafka, Van Gogh, Glenn Gould — criaram beleza do seu tormento repetitivo. A obsessão pode ser poço sem fundo, mas também mina de ouro. Gaston Bachelard, em "A Poética do Devaneio", lembra: todo criador é, em parte, um obcecado pelo mesmo tema, pela mesma imagem fundante.

Mesmo Schopenhauer, que via o desejo como prisão eterna, admitia um caminho de escape: a contemplação estética — esse raro instante em que o querer cessa e a beleza do mundo se revela sem exigências. Talvez aí a obsessão se dissolva por um momento.

Mas é N. Sri Ram, em "A Sabedoria da Vida", que nos dá um conselho simples: toda fixação mental nos rouba a liberdade de ver o novo. A mente obcecada não aprende, não percebe, não muda. Para ele, a alma livre é aquela que mantém o olhar aberto, curioso, disponível.

Talvez o segredo seja esse: não eliminar a obsessão — ela é humana demais para desaparecer — mas aprender a reconhecê-la como visita incômoda e temporária. Dar-lhe um lugar na sala, ouvir o que ela murmura... e depois abrir a janela. Porque o mundo lá fora continua imenso, cheio de cores, de ruídos, de vida — muito além do círculo estreito da ideia fixa.