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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Ato Puro

Aristóteles: o motor invisível da nossa inquietação

Outro dia me peguei parado diante da geladeira aberta. Não era fome exatamente. Era indecisão. Pão ou fruta? Café ou água? Fechar a porta e ir caminhar?

Ali, entre o queijo e a luz branca do interior da geladeira, estava eu — pura potência.

E foi nesse instante banal que me ocorreu: talvez a nossa vida inteira seja essa dança entre o que podemos ser e o que efetivamente somos. E é aqui que entra Aristóteles com uma das ideias mais ousadas da filosofia: o Ato Puro.

Entre potência e ato: nós somos inacabados

Para Aristóteles, tudo o que existe se move entre duas dimensões:

  • Potência → aquilo que pode vir a ser.
  • Ato → aquilo que já é, plenamente realizado.

A semente é árvore em potência.

O estudante é médico em potência.

Eu, diante da geladeira, sou decisão em potência.

Mas o mundo não é um caos de possibilidades soltas. Ele está em movimento. E movimento, para Aristóteles, não é apenas deslocamento físico. É transformação: é algo deixando de ser apenas possível para se tornar real.

O problema filosófico surge assim:

Se tudo o que se move passa da potência ao ato, o que é que move o movimento?

Quem inicia a cadeia?

O Motor Imóvel: o Ato Puro

Aristóteles responde com uma ideia quase vertiginosa: deve existir algo que seja ato sem potência.

Algo que não possa vir a ser outra coisa.

Algo que não mude.

Algo plenamente realizado.

Esse algo é o que ele chama de Ato Puro — o Motor Imóvel.

Não é um deus criador no sentido bíblico. Não é um artesão do universo. É antes uma perfeição absoluta que move tudo por atração, como o amado move o amante.

O mundo se move porque deseja o que é plenamente realizado.

E aqui a coisa fica interessante.

O cotidiano como metafísica

Pense em alguém que começa a fazer academia. O corpo dói. A disciplina falha. A preguiça vence algumas vezes.

Mas existe uma imagem interior — o “eu saudável”, o “eu forte”.

Essa imagem funciona como um pequeno “ato puro” pessoal. Ela não existe ainda no mundo, mas exerce atração.

Ou pense numa criança aprendendo a ler. As letras embaralham. A frustração aparece. Mas há uma promessa de domínio, de fluência. Essa promessa move o esforço.

Vivemos movidos por formas de plenitude que ainda não somos.

Aristóteles diria que todo movimento do mundo é assim: uma busca pela atualização da própria essência.

Uma interpretação inovadora: o Ato Puro como silêncio

Talvez o mais fascinante seja que o Ato Puro não faz nada no sentido comum. Ele não intervém. Não reage. Não muda.

Ele é pura contemplação. Pensamento que pensa a si mesmo.

E aqui ouso uma leitura mais existencial:

O Ato Puro pode ser pensado como aquele ponto interior onde não estamos fragmentados. Aquele instante raro em que não estamos divididos entre o que queremos ser e o que somos.

Sabe quando você termina algo importante?

Ou quando uma conversa resolve um conflito antigo?


Ou quando você simplesmente aceita quem é?

Por alguns segundos, não há tensão. Não há movimento interior. Não há desejo de ser outra coisa.

Há apenas presença.

Talvez ali experimentemos uma miniatura do Ato Puro.

A inquietação humana

Mas nós não somos ato puro. Somos mistura. Somos potência e ato entrelaçados.

Estamos sempre a caminho.

Sempre incompletos.

Sempre podendo ser mais — ou menos.

E talvez seja essa incompletude que nos salva da estagnação.

Se fôssemos Ato Puro, não desejaríamos nada.

Não amaríamos.

Não criaríamos.

Não erraríamos.

A tragédia e a beleza da condição humana estão em sermos inacabados.

Uma provocação final

E se o Ato Puro não for apenas um princípio cósmico distante, mas também um critério ético?

Não no sentido de perfeccionismo neurótico. Mas no sentido de perguntar:

  • Estou vivendo de acordo com aquilo que posso plenamente ser?
  • Ou estou desperdiçando potência?
  • O que, em mim, pede atualização?

Aristóteles não queria apenas explicar o universo. Ele queria compreender o que significa realizar a própria natureza.

Talvez o Ato Puro não seja algo que possamos nos tornar — mas algo que nos chama.

Como uma música que ainda não tocamos.

Como uma decisão ainda não tomada.

Como a porta da geladeira que, cedo ou tarde, precisa ser fechada.

E então o movimento continua.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Seres Complicados


Outro dia, me peguei pensando em como a gente consegue transformar coisas simples em dilemas existenciais. Era só para escolher uma pizza, mas viramos uma assembleia de crise. Um queria marguerita, outro vegetariana, e teve quem quisesse inventar uma de strogonoff (!). A cena toda parecia banal, mas ali, naquele conflito de gostos e silêncios, estava estampada a complexidade humana. Porque, no fundo, não é sobre a pizza — é sobre o que a gente quer, o que a gente cede, e o que a gente esconde. Somos seres complicados, e não só no cardápio.

Por que somos assim? Por que pensamos tanto, duvidamos tanto, sentimos demais, desejamos o que nos falta e, às vezes, o que nos destrói? Não bastava viver? Os animais parecem tão resolvidos: um cachorro não faz análise existencial às três da manhã. Mas a gente, sim. A gente complica.

Essa complicação talvez não seja defeito. Talvez seja constituição. Como diria o filósofo Emmanuel Levinas, “o ser humano é aquele que é responsável antes de saber.” A gente sente culpa antes de entender o motivo, se emociona antes de racionalizar. Nossa consciência não é só uma ferramenta para organizar a realidade — é também um espelho torto que nos reflete com atraso e distorção.

Como disse Sartre, "o homem está condenado a ser livre". Condenado, veja bem — não agraciado. Porque a liberdade, para o existencialista, não é uma leveza de voar, mas um peso de decidir. Carregamos o fardo de sermos autores da própria existência, sem roteiro prévio ou manual de instruções. Nascemos sem essência, e tudo o que somos será construído nas escolhas que fazemos — mesmo aquelas que evitamos. E é nessa vertigem da liberdade que mora a nossa complicação mais radical: temos que escolher quem ser, sem garantias, sem desculpas. Ao contrário das coisas, que simplesmente são, nós precisamos nos fazer. E talvez esse seja o abismo mais profundo: não há essência esperando ser descoberta, só o vazio que precisamos preencher com atos, quedas, tentativas, e a permanente possibilidade de nos reinventarmos. A complexidade humana não é defeito — é o preço da liberdade.

Mas o budismo, curioso em sua suavidade, sussurra um contraste profundo. Thich Nhat Hanh nos lembra que “você não é uma entidade separada. Você é como uma folha em uma árvore. Quando a folha entende que faz parte da árvore, ela para de sofrer.” Isso é radical: o sofrimento nasce da ideia de separação, de ego endurecido, de um "eu" que quer ser único e eterno. Enquanto o existencialismo nos lança ao peso de criar o próprio sentido, o budismo dissolve a rigidez do “eu” e aponta para a paz que surge quando deixamos de querer controlar tudo. Assim, ser humano é também reconhecer que não somos tão sólidos quanto pensamos — somos corrente, não pedra. E nessa fluidez, talvez esteja uma outra forma de liberdade: a de não ter que sustentar um eu fixo o tempo todo. Um alívio, não?

Por isso, podemos rir e chorar da mesma lembrança. Amar alguém que já não existe mais — ou que nunca existiu de fato. Fugir de nós mesmos e ainda assim carregar nossa sombra por onde formos. Somos contraditórios por natureza: queremos liberdade e rotina, segurança e aventura, solidão e companhia. Queremos ser únicos e, ao mesmo tempo, aceitos por todos. E talvez seja aí que more a nossa beleza: na tentativa sincera de dar conta de tudo isso com os parcos recursos de um coração inquieto.

Nietzsche, que não era exatamente otimista, já dizia que “o homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem — uma corda sobre o abismo.” Vivemos nesse fio, tentando não cair, tentando fazer sentido. E se tropeçamos, não é porque somos fracos, mas porque estamos em movimento. Só quem está em movimento tropeça.

Então talvez a complicação não seja uma falha, mas uma flor selvagem que brota da nossa condição. Um emaranhado de raízes, paradoxos e vontades que nos torna... humanos. E que sorte a nossa: poder chorar num filme bobo, sentir saudade de um cheiro, mudar de ideia no meio de uma frase, amar errado e continuar tentando. Isso é complicação. Mas é também — e profundamente — vida.

Porque, no fim das contas, viver não é resolver. É aprender a dançar com o que não se entende.

domingo, 11 de maio de 2025

Obsessões

As obsessões, essas ideias que grudam na mente como chiclete no sapato, sempre foram um campo fértil para reflexões filosóficas. Nem sempre com esse nome, claro. Às vezes aparecem como paixões, manias, fixações — formas intensas de pensamento ou desejo que se recusam a sair da cabeça e moldam a nossa visão do mundo.

Comecemos com os estoicos. Para eles, obsessões seriam perturbações da alma. Epicteto diria que estamos apegados demais a coisas que não estão no nosso controle — como a aprovação dos outros, o sucesso, ou o medo da morte. Segundo ele, “não são as coisas que nos perturbam, mas os julgamentos que fazemos sobre elas”. Se transformamos um pensamento em obsessão, é porque decidimos que aquilo é essencial — quando, na verdade, não é. A obsessão, nesse caso, seria uma falsa atribuição de valor.

Já Nietzsche, com sua verve provocadora, vê a obsessão de outra forma: como um sinal de vontade de potência. Para ele, as obsessões podem ser expressões intensas da nossa força vital, desde que não nos dominem de maneira destrutiva. Um artista obcecado por sua obra, por exemplo, pode estar realizando uma forma elevada de existência — vivendo com intensidade. Nietzsche não prega equilíbrio, mas transbordamento. O problema, segundo ele, é quando a obsessão vem da fraqueza, da tentativa de compensar algo que falta em nós. Aí ela vira ressentimento ou vício.

Freud, embora não seja exatamente um filósofo, também entra bem nesse papo. Ele trouxe a noção de "neurose obsessiva", onde a mente se prende a rituais e pensamentos repetitivos para controlar angústias inconscientes. A obsessão seria uma tentativa — falha — de controlar o incontrolável. E isso ecoa em nossa vida cotidiana: trancar a porta cinco vezes, revisar mil vezes uma mensagem antes de enviar, revisar o passado como se pudéssemos reescrevê-lo. Tudo isso para acalmar algo mais profundo.

Em Kierkegaard, as obsessões se aproximam da angústia e do desespero. Ele fala sobre o "desespero de não ser si mesmo" — quando a gente se agarra a uma ideia, uma imagem ou uma expectativa como forma de escapar de quem realmente é. A obsessão, nesse contexto, é fuga. É uma âncora ilusória no meio do mar revolto da existência.

E no cotidiano?

Tem a pessoa que checa o celular a cada dois minutos para ver se aquela mensagem chegou. O vizinho que não consegue parar de falar do mesmo problema com o chefe. A amiga que revive todos os dias uma discussão de cinco anos atrás. As obsessões nos cercam — e às vezes, nos conduzem.

Mas talvez a pergunta não seja “como eliminar a obsessão?”, e sim: o que ela está tentando nos dizer?

Como dizia Simone Weil, "a atenção verdadeira é uma forma de amor". Talvez nossas obsessões sejam formas tortas de atenção. E se as ouvirmos com cuidado — sem nos rendermos a elas, mas também sem expulsá-las com brutalidade — possamos transformá-las em algo mais: compreensão, criação, ou, quem sabe, paz.


segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Força Ideoplástica

Você já se pegou pensando tão intensamente em algo que, de repente, as coisas começaram a se alinhar? Aquela vaga de estacionamento que "apareceu" bem na hora em que você precisava ou um encontro casual com alguém que estava nos seus pensamentos? Parece coincidência, mas há quem diga que pode ser mais do que isso — talvez a sua mente esteja influenciando a realidade ao seu redor.

Essa ideia de que nossos pensamentos podem moldar o mundo físico ao nosso redor é algo antigo e, em certas filosofias, se manifesta sob o conceito de força ideoplástica. Na visão espírita, por exemplo, essa força seria a capacidade da mente de moldar a matéria. O pensamento, aqui, não é apenas algo abstrato, mas uma ferramenta que pode, literalmente, criar ou alterar a realidade.

A Ideoplastia no Cotidiano

No dia a dia, podemos pensar na força ideoplástica como uma espécie de "poder mental" que age sobre nossas experiências. Pense no seguinte: você está focado em ter um bom dia. Acorda com uma mentalidade positiva e, curiosamente, as coisas parecem fluir. As pessoas são mais amigáveis, as situações complicadas se resolvem com facilidade e até aquele problema no trabalho não parece tão grande. Seria pura sorte? Talvez, mas muitos diriam que seu estado mental — seus pensamentos, intenções e emoções — influenciaram a forma como o dia se desenrolou.

Agora, imagine o oposto. Você acorda pensando que tudo vai dar errado. A mente já está antecipando os problemas antes mesmo que eles apareçam. Inevitavelmente, as coisas começam a dar errado: o café derrama, o trânsito está terrível, e aquele e-mail importante não chega. Seria possível que sua mentalidade estivesse, de alguma forma, moldando essas experiências? Para os que acreditam na força ideoplástica, a resposta seria sim. Seus pensamentos estão ajudando a moldar a realidade que você experimenta.

Um Olhar Filosófico: N. Sri Ram e o Poder do Pensamento

Esse conceito tem paralelos na filosofia, especialmente na obra de N. Sri Ram, um pensador teosófico. Ele argumenta que o pensamento humano tem um poder intrínseco de criar realidades. Em seus ensaios, como em O Caráter do Ser (The Nature of Our Being), ele discute como a mente não é uma simples espectadora passiva do mundo, mas uma participante ativa que ajuda a moldar tanto a nossa percepção quanto a realidade em si.

Sri Ram acreditava que a qualidade dos nossos pensamentos pode afetar não apenas nossa vida individual, mas também o ambiente ao nosso redor. Ele afirma que o pensamento possui uma força criadora e que, quando direcionado de forma consciente, pode influenciar os resultados de nossas ações e até mesmo as circunstâncias que encontramos.

Por exemplo, se você está buscando uma mudança na sua vida — um novo emprego, um relacionamento melhor, mais saúde —, sua capacidade de visualizar essas mudanças com clareza e de manter essa visão pode ser o catalisador para que elas aconteçam. Para Sri Ram, a mente tem uma influência profunda não só sobre o comportamento, mas sobre as próprias condições externas que enfrentamos.

Pensamento e Realidade

Claro, tudo isso pode parecer um pouco esotérico, mas, na prática, a ideia é simples: o que você pensa tem um impacto na sua vida. Um exemplo prático seria a conhecida "lei da atração", que sugere que aquilo em que você foca sua atenção tende a se manifestar. Embora seja controverso, muitas pessoas encontram evidências disso em pequenas coisas cotidianas, como a resolução de um problema que parecia impossível ou o encontro de uma oportunidade inesperada.

Talvez a força ideoplástica seja, no fim das contas, um lembrete poderoso de que nossas mentes têm um papel muito maior na criação de nossas realidades do que imaginamos. Ao focar nossos pensamentos de maneira construtiva, estamos, conscientemente ou não, moldando o mundo ao nosso redor. Isso não significa que podemos controlar tudo, mas sugere que nossas intenções têm um peso maior do que parece.

O Poder de Moldar o Cotidiano

Então, como podemos usar essa ideia no dia a dia? A força ideoplástica nos convida a prestar mais atenção à qualidade dos nossos pensamentos e ao impacto que eles têm na nossa experiência. Será que estamos sempre nos focando no que pode dar errado, criando uma realidade cheia de obstáculos? Ou será que podemos, com mais consciência, cultivar uma mentalidade mais aberta e positiva, permitindo que as coisas fluam de uma maneira mais harmoniosa?

A partir dessa perspectiva, até as menores escolhas — como como você reage a um problema ou como decide encarar o dia — podem estar moldando, de maneira sutil, a realidade ao seu redor. Ao trazer mais consciência para o que pensamos, talvez estejamos, de fato, exercendo essa força ideoplástica, influenciando o mundo à nossa volta de maneiras que nem sempre conseguimos perceber de imediato. E assim, o conceito de força ideoplástica não fica restrito a fenômenos místicos ou mediúnicos, mas se insere diretamente na forma como escolhemos viver e pensar, nos pequenos atos do dia a dia. 

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Malas de Viagem

Imagine por um momento que as malas de viagem são mais do que simples recipientes para roupas e itens essenciais. Vamos adotar um olhar filosófico sobre esses companheiros de viagem e explorar o que mais elas carregam além do material. Elas são, de fato, transportadoras de histórias e experiências, cada uma contendo um universo único de significado e aventura.

Na superfície, uma mala pode parecer apenas um objeto inanimado, mas dentro dela reside um mundo de possibilidades. Considere uma mala que acompanha um estudante universitário em sua primeira viagem de estudo no exterior. Ela carrega não apenas roupas e livros, mas também sonhos, expectativas e um senso de descoberta. Ela é um símbolo de coragem e crescimento, uma testemunha silenciosa da jornada do estudante para a autoconsciência e amadurecimento.

Agora, pense em uma família que está se preparando para suas férias anuais. Cada membro da família tem sua própria mala, repleta de lembranças de viagens passadas e expectativas para a viagem atual. Essas malas não são apenas recipientes de roupas e brinquedos; elas são vasos que carregam o amor, a alegria e a conexão que a família compartilha enquanto exploram novos lugares juntos.

E o que dizer da mala de um aventureiro solitário, pronto para explorar o mundo sozinho? Dentro dela, não há apenas itens práticos como uma barraca e equipamento de camping, mas também uma sede insaciável por experiências novas e desconhecidas. Essa mala é uma extensão da alma do viajante, refletindo sua busca incessante por significado e aventura em um mundo vasto e maravilhoso.

Até mesmo uma simples mala de negócios pode carregar mais do que apenas ternos e laptops. Para um profissional viajante, ela é um símbolo de ambição, perseverança e a busca pela excelência. Ela contém não apenas documentos e contratos, mas também a dedicação e a determinação necessárias para alcançar o sucesso em um mundo competitivo e em constante mudança.

E o que acontece quando uma mala se perde? É como se uma parte da nossa história desaparecesse junto com ela. As lembranças preciosas, os itens sentimentais, tudo perdido em um instante. Mas talvez essa seja a natureza das malas de viagem - elas nos lembram da impermanência da vida e da efemeridade das coisas materiais. Elas nos ensinam a valorizar o momento presente e a apreciar as experiências que a vida nos oferece.

Agora vejamos, nestes tempos sombrios em que as enchentes e a destruição de estradas nos deixam presos em nossos lares, as malas de viagem assumem um significado ainda mais profundo. Elas se tornam testemunhas mudas de nossa frustração e ansiedade, símbolos de um desejo insaciável por liberdade e aventura que parece estar fora de alcance.

Pense nas malas empoeiradas nos sótãos e porões de nossas casas, esperando pacientemente por sua próxima jornada. Elas são como sentinelas silenciosas de tempos melhores, lembrando-nos de que, apesar da imobilidade atual, o mundo lá fora continua a existir, repleto de maravilhas e experiências esperando para serem descobertas.

Mas enquanto estamos impedidos de viajar, talvez seja hora de reavaliar o papel das malas em nossas vidas. Elas não são apenas veículos para escapar da realidade, mas também receptáculos para nossas esperanças, sonhos e aspirações. Dentro delas, guardamos não apenas roupas e pertences, mas também memórias preciosas de viagens passadas e expectativas para o futuro.

Entretanto, mesmo quando nossas malas permanecem fechadas e negligenciadas, elas continuam a nos lembrar da importância da jornada. Elas nos lembram de que a vida é uma aventura imprevisível, cheia de altos e baixos, desafios e recompensas. E mesmo quando enfrentamos obstáculos intransponíveis, como as enchentes e a destruição das estradas, há uma certa beleza na jornada em si, uma oportunidade de crescimento e autoconhecimento que transcende as fronteiras físicas.

Então, enquanto esperamos pacientemente pelo dia em que poderemos mais uma vez pegar nossas malas e partir em busca de novas aventuras, vamos lembrar que a verdadeira jornada está dentro de nós. Ela está nos momentos que compartilhamos com aqueles que amamos, nas pequenas alegrias do dia a dia, e nas lições que aprendemos ao longo do caminho.

E quando finalmente retomarmos nossas viagens, que nossas malas se tornem mais do que apenas recipientes para nossos pertences. Que elas se tornem símbolos de esperança, resiliência e determinação, lembrando-nos de que, não importa o quão escura a tempestade possa parecer, sempre há luz no fim do túnel, esperando para nos guiar em direção a novos horizontes.

Então, quando você estiver fazendo as malas para uma viagem, lembre-se de olhar além do material. Reconheça o verdadeiro significado por trás das malas de viagem - elas são mais do que simples recipientes; são testemunhas silenciosas de nossas jornadas, guardiãs de nossas histórias e companheiras de aventuras.


terça-feira, 7 de novembro de 2023

Vontade de Desejo: Uma Exploração da Motivação Humana

Você já se pegou em um daqueles dilemas difíceis em que parece impossível escolher entre o que você quer e o que realmente precisa? Bem, você não está sozinho. A motivação humana é como um quebra-cabeça complexo, e um dos pedaços mais intrigantes desse quebra-cabeça é a relação entre a vontade e o desejo. Então, vamos entrar no território da psicologia e da filosofia para explorar o conceito de "vontade de desejo" e como ele molda nossas vidas. E para dar vida a isso, vamos imaginar em uma situação hipotética que muitos de nós podem se relacionar - o dilema de Julia, uma jovem em busca de sucesso profissional, mas também anseia por uma vida pessoal significativa, quantos de nós já entrou nesta viagem pelo labirinto da motivação humana, onde desejos e vontade colidem em uma dança intrigante.

Antes vamos entender a diferença entre "vontade" e "desejo", embora esses termos frequentemente sejam usados de forma intercambiável em algumas situações. Aqui estão as principais distinções entre eles:

Vontade: A vontade se refere à capacidade de uma pessoa de tomar decisões conscientes e agir com base em escolhas racionais. Ela está relacionada à força de caráter e à determinação de uma pessoa para alcançar seus objetivos ou cumprir suas responsabilidades. A vontade muitas vezes envolve o autocontrole e a capacidade de resistir a impulsos ou tentações em prol de objetivos a longo prazo.

Desejo: O desejo é uma expressão de uma preferência ou anseio por algo. Pode ser uma emoção, um sentimento ou um impulso de querer algo específico, como comida, sucesso, amor, prazer, etc. Os desejos podem ser conscientes ou inconscientes e podem ser baseados em impulsos emocionais, instintos ou simples preferências pessoais. Os desejos nem sempre são racionais e podem mudar com o tempo.

A vontade está mais relacionada à tomada de decisões racionais e à capacidade de resistir a impulsos, enquanto o desejo refere-se a preferências e anseios pessoais. No entanto, esses conceitos podem se sobrepor em muitos casos, já que as decisões racionais também podem ser influenciadas pelos desejos pessoais, vivemos num mundo de muitas ilusões, embora ilusões em si não sejam desejos, em algumas situações, as ilusões podem criar a ilusão de que desejos estão sendo realizados ou que algo desejado está acontecendo. Por exemplo, alguém pode experimentar uma ilusão de que encontrou o parceiro perfeito, mas essa percepção distorcida da realidade pode não corresponder à verdade, e o desejo de um relacionamento idealizado pode ser temporariamente satisfeito, criando uma ilusão. Portanto, enquanto ilusões são distorções da percepção da realidade, os desejos são anseios pessoais e aspirações que podem influenciar a forma como percebemos o mundo ao nosso redor. No entanto, nem todas as ilusões estão necessariamente ligadas a desejos passageiros. Elas podem ocorrer devido a processos perceptuais complexos e não necessariamente refletem nossos desejos pessoais.

A motivação humana é um campo complexo e multifacetado, estudado por filósofos, psicólogos e cientistas sociais ao longo da história. Um aspecto intrigante desse tópico é a relação entre a vontade e o desejo. Neste artigo, exploraremos o conceito de "vontade de desejo" e como ele pode moldar nossas escolhas e ações. Para ilustrar essa ideia, apresentaremos uma situação hipotética que exemplifica a interação entre a vontade e o desejo.

A Vontade de Desejo

A vontade de desejo pode ser definida como a força motivadora que nos impulsiona a buscar a realização de nossos desejos e anseios. Ela representa a dimensão da motivação que está profundamente enraizada em nossa psicologia, influenciando nossas escolhas, comportamentos e ações. Enquanto alguns desejos podem ser conscientes e racionais, outros são mais profundos e muitas vezes operam em níveis subconscientes.

Uma abordagem contemporânea desse conceito reconhece que nossos desejos são multifacetados e podem incluir o desejo de prazer, sucesso, segurança, pertencimento, realização pessoal e muito mais. A vontade de desejo é o impulso que nos leva a buscar ativamente a satisfação desses desejos.

Vamos a uma situação hipotética, sempre é interessante levar a teoria até uma possível realidade, “possível” porque já aconteceu, acontece e poderá acontecer: O dilema de Julia

Para entender melhor a vontade de desejo, consideremos a situação hipotética de Julia, uma jovem profissional que enfrenta um dilema em sua vida, assim como ela muitos de nós já experimentamos esta encruzilhada.

Julia trabalha em uma empresa de consultoria de renome e se esforçou para chegar aonde está. Ela tem um desejo profundo de sucesso e reconhecimento profissional, o que a motiva a trabalhar duro e enfrentar desafios com determinação. No entanto, ao longo dos anos, Julia negligenciou sua vida pessoal. Seu desejo de sucesso a levou a sacrificar relacionamentos e momentos de lazer, deixando-a sentindo-se isolada e insatisfeita em sua vida pessoal.

Nesse cenário, a vontade de desejo de Julia é um conflito interno entre seu desejo de sucesso profissional e seu desejo de felicidade e relacionamentos pessoais. Ela se sente dividida entre seguir a rota que a trouxe até aqui e se permitir o tempo para cuidar de sua vida pessoal. Aqui, a vontade de desejo de Julia está em ação. Sua motivação para o sucesso a levou a priorizar sua carreira, mas agora, a satisfação de seus desejos pessoais se tornou uma força motriz igualmente poderosa. Julia está enfrentando o desafio de equilibrar esses desejos concorrentes e decidir como direcionar sua vontade para atender às duas áreas de sua vida.

A situação hipotética de Julia destaca a complexidade da vontade de desejo e sua influência sobre nossas escolhas e ações. O conflito entre desejos concorrentes é uma experiência comum na vida das pessoas e pode ser especialmente desafiador quando se trata de tomar decisões significativas.

Há pessoas que tem maior dificuldade em tomar decisões, sejam quais forem.  Penso que todo mundo conhece alguém que fica "travado" na hora de fazer escolhas. Aquele amigo que leva horas para decidir onde comer, ou a colega que nunca consegue escolher um filme para assistir. É super normal! Às vezes, a dificuldade em tomar decisões está ligada ao jeito de ser da pessoa, tipo os perfeccionistas que querem tudo perfeito. Outras vezes, é por causa de situações passadas ou a ansiedade que fica gritando na cabeça. Mas no final das contas, todo mundo tem seus momentos de incerteza. Eu mesmo já fiquei horas na frente do cardápio de um restaurante sem saber o que pedir. É a vida! Mas, precisamos seguir fazendo escolhas, isto ocorre o tempo todo.

Compreender a interação entre a vontade e o desejo é fundamental para navegar por esses dilemas e alcançar um equilíbrio satisfatório em nossa vida. A vontade de desejo pode ser uma força poderosa que nos leva a perseguir nossos objetivos, mas também é importante lembrar que, em última análise, somos os mestres de nossas escolhas e podemos direcionar nossa vontade para alcançar uma vida equilibrada e significativa. A exploração contínua desses conceitos pode nos ajudar a compreender melhor a motivação humana e aprimorar nossa capacidade de tomar decisões conscientes e satisfatórias.

A exploração do tema "vontade de desejo" envolve uma ampla gama de fundamentações teóricas provenientes da filosofia, da psicologia, da neurociência e de outras disciplinas, a leitura é muito importante em nossas vidas, o tema que abordamos está presente na vida de todos nós, então é relevante que cada um tenha o interesse ou a curiosidade de ler o que outros antes de nós já escreveram e pensaram muito sobre o tema, tais como:

Filosofia da Vontade: Arthur Schopenhauer: Schopenhauer, um filósofo alemão do século XIX, desenvolveu a filosofia da vontade, que enfatiza a importância da vontade na motivação humana. Sua obra "O Mundo como Vontade e Representação" explora a ideia de que a vontade é a força motriz por trás de todos os fenômenos, incluindo desejos e anseios.

Psicanálise: Sigmund Freud: Freud, o fundador da psicanálise, introduziu a ideia de que a motivação humana é impulsionada pelo desejo e pelo prazer. Suas teorias sobre o Id, Ego e Superego, bem como os estágios do desenvolvimento psicossexual, estão intrinsecamente ligadas aos desejos e à motivação.

Teoria da Autodeterminação: Edward L. Deci e Richard M. Ryan: Esses psicólogos desenvolveram a Teoria da Autodeterminação, que explora como as pessoas são motivadas a agir de maneira autônoma. A teoria considera fatores como a realização de desejos, a competência e a conexão social como componentes-chave da motivação.

Neurociência: Neurotransmissores e Circuitos de Recompensa: Pesquisas em neurociência têm identificado neurotransmissores e circuitos cerebrais que desempenham um papel importante na motivação, recompensa e satisfação de desejos. Por exemplo, a dopamina é frequentemente associada à sensação de recompensa.

Teoria da Autodeterminação e Necessidades Humanas Básicas: Richard M. Ryan e Edward L. Deci: Além da Teoria da Autodeterminação, os autores também desenvolveram a ideia de que as pessoas têm necessidades básicas psicológicas, incluindo autonomia, competência e relacionamentos, que influenciam a motivação e a busca de desejos.

Psicologia Positiva: Martin Seligman e Mihaly Csikszentmihalyi: A Psicologia Positiva explora conceitos como a busca da felicidade, a realização de potencial e a importância de experiências positivas na vida. Essa abordagem pode estar relacionada à satisfação de desejos e à busca de significado na vida.

Acredito que diante das teorias desenvolvidas por estes pensadores temos um belo caminho para escolher o que mais se adapta as nossas ideias, olha só a encruzilhada da escolha. Com certeza o que eles disseram e escreveram oferecem uma base sólida para a compreensão da relação entre a vontade e o desejo, bem como para a exploração das motivações humanas, entendo que seja uma abordagem interdisciplinar que combina elementos da filosofia, psicologia, neurociência e teorias contemporâneas da motivação, podem enriquecer ainda mais a análise desse tema complexo.

Quanto mais lemos e estudamos temos de reconhecer que não se sabe quase nada, há um mundo espetacular de conhecimentos a nossa disposição, interesse e curiosidade são importantes na vida de todos nós, cada livro que abrimos é como abrir uma nova janela para um novo vislumbrar de uma nova paisagem, as vezes é um novo vislumbrar de uma mesma paisagem, porem abrimos a possibilidade de uma nova forma de ver e interpretar.

Este mundão é complexo, vivemos numa sociedade terapeutizada. Aprender a gostar é possível, aprender a gostar a ler também é possível, aprender a gostar a ler nos permite aprendermos a nos interpretarmos e a interpretar o mundo, vivemos num mundo onde as terapias proliferam assustadoramente, as pessoas não pensam mais por si mesmas, precisam de intermediários para se interpretarem, abriram espaço para proliferação acentuada de pseudopsicologias e pseudoterapias, isto porque tem muita gente que não lê, e se lê não sabe interpretar ou se interpretar, não diferem vontade de desejo, em tudo há um intermediário, um atravessador, até para chegar a Deus precisam de humanos que se arvoram o poder de intermediação, muitos com seus engodos e fantasias iludindo por verem seu público seres humanos infantilizados, esta é a tal da “boa” democracia onde delegamos a terceiros nos representar.

Existe é claro aconselhamentos psicológicos e terapêuticos de alta qualidade oferecendo ajuda valiosa e soluções viáveis para todos os tipos de perturbações, porem precisamos saber até onde podemos ir e a partir de quando precisamos da ajuda de outro, por isto é importante aprendermos a nos “lermos”, a entender a diferença entre vontade e desejo.
 
#vontadededesejo