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sábado, 29 de agosto de 2026

Despertar a Solidariedade

O paradoxo do desvio

Há algo de desconfortável — quase provocador — na ideia de que o crime não é apenas uma falha da sociedade, mas também um de seus ingredientes. Intuitivamente, queremos um mundo sem desvios, sem violência, sem transgressões. Ainda assim, Émile Durkheim sugeriu o oposto: uma sociedade completamente “sem crime” seria impossível — e, talvez, até indesejável. O crime, para ele, não é um acidente; é um fenômeno normal que cumpre uma função social. A questão então deixa de ser “como eliminar o crime?” e passa a ser “o que o crime faz pela coesão social?”.


O crime como espelho moral coletivo

Durkheim argumenta que o crime ajuda a definir os limites do aceitável. Ao condenarmos um ato, reafirmamos valores compartilhados. Quando a sociedade reage a uma transgressão, ela não apenas pune o infrator, mas reforça sua própria identidade moral. Em outras palavras, o crime atua como um espelho: revela aquilo que somos ao mostrar aquilo que rejeitamos.

Essa ideia dialoga com o conceito de “consciência coletiva”, central em Durkheim. Sem desvios, essa consciência poderia se tornar invisível — como o ar que só notamos quando falta. Assim, o criminoso, paradoxalmente, contribui para a manutenção da ordem ao desafiar seus limites.


A tensão produtiva: conflito e mudança

Se Durkheim vê o crime como funcional, outros pensadores ampliam essa visão ao enfatizar o papel do conflito. Karl Marx, por exemplo, não celebraria o crime, mas o interpretaria como sintoma das desigualdades estruturais. Para ele, a transgressão pode emergir de condições materiais injustas — e, nesse sentido, aponta para a necessidade de transformação social.

Michel Foucault desloca o foco para os mecanismos de controle. Em sua análise, o crime e sua punição fazem parte de uma rede de poder que disciplina corpos e comportamentos. A resposta social ao crime, portanto, não apenas une — ela também normaliza, vigia e molda.

A convergência desses pensadores revela um ponto crucial: o crime não é apenas um ato individual, mas um fenômeno relacional. Ele emerge da tensão entre normas e indivíduos, entre estrutura e agência. E é nessa tensão que a sociedade se redefine continuamente.


Solidariedade por contraste: um mecanismo ambíguo

A ideia de que o crime fortalece a solidariedade pode ser compreendida como um processo de “união por contraste”. Quando um ato considerado inaceitável ocorre, indivíduos que talvez divergiriam em outros aspectos encontram um terreno comum na condenação daquele ato.

Mas essa solidariedade não é neutra. Ela pode ser inclusiva — reforçando valores de justiça e proteção coletiva — ou excludente, criando estigmas e marginalizações. Aqui, a crítica contemporânea se impõe: até que ponto a coesão social construída em torno da punição não reproduz desigualdades?


Uma leitura contemporânea: solidariedade reflexiva

Em sociedades complexas e plurais, talvez seja necessário ir além da solidariedade automática descrita por Durkheim. Em vez de uma coesão baseada apenas na reação ao desvio, podemos imaginar uma “solidariedade reflexiva” — uma forma de vínculo social que reconhece o conflito, mas busca compreendê-lo antes de simplesmente condená-lo.

Essa perspectiva dialoga com a ideia de justiça restaurativa, na qual o crime não é apenas punido, mas analisado em seu contexto, envolvendo vítimas, ofensores e comunidade. Aqui, a solidariedade deixa de ser apenas reativa e passa a ser construtiva.


O incômodo necessário

O pensamento de Durkheim continua provocador porque nos obriga a encarar um paradoxo: a ordem social depende, em certa medida, daquilo que a ameaça. O crime, longe de ser apenas destrutivo, pode desempenhar um papel estruturante — desde que a sociedade seja capaz de refletir sobre suas próprias respostas.

Talvez o verdadeiro desafio não seja eliminar o desvio, mas transformar a maneira como reagimos a ele. Em vez de uma solidariedade que nasce apenas da exclusão do outro, podemos aspirar a uma solidariedade que emerge da compreensão — uma que não precise do crime para existir, mas que saiba aprender com ele.

Penso que temos criminosos demais, além do tolerável, não temos prisões suficientes para prender todos, o número é desproporcional, sinal de uma sociedade doente que ameaça a si mesma.

Ao mesmo tempo penso que seja compreensível sentir que a sociedade está “doente” diante da percepção de corrupção recorrente no Brasil, mas essa leitura é ampla demais e pode distorcer a realidade: a corrupção existe em muitos países e costuma refletir falhas institucionais, incentivos e níveis de impunidade, não um defeito essencial da população; ao mesmo tempo, há grande parcela da sociedade que rejeita essas práticas, além de órgãos de controle, imprensa e investigações — como a Operação Lava Jato — que expõem e combatem irregularidades, o que pode até aumentar a sensação de que o problema é maior do que antes; assim, o quadro é mais bem descrito como um conjunto de problemas estruturais relevantes convivendo com mecanismos de correção, e não como uma “doença generalizada” da sociedade.

Em vez de concluir que a sociedade do Brasil está “doente”, vale encarar a corrupção como um problema estrutural que pode ser enfrentado com pressão por transparência, fortalecimento das instituições e atitudes cotidianas mais íntegras — afinal, se há falhas que se repetem, também existem mecanismos e pessoas dispostas a corrigi-las, e é nesse equilíbrio que reside a possibilidade real de mudança, que ganha força quando se soma à solidariedade entre cidadãos comprometidos com um país mais justo.Parte superior do formulário

 

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domingo, 24 de agosto de 2025

Sorrateiro Ostracismo

A Exclusão pelo Silêncio

Há exclusões que chegam com barulho: uma porta batida, uma ordem explícita, uma palavra cortante. Mas há outras que se instalam como poeira, devagar e sem anúncio. Não se trata de expulsar alguém do espaço comum, mas de apagar sua presença até que ela não incomode mais. É esse o ostracismo sorrateiro, tão enraizado em nosso cotidiano brasileiro que às vezes nem o percebemos — embora doa profundamente em quem o sofre.

Nas relações de trabalho, ele aparece no esquecimento calculado. O funcionário mais velho, ou o colega que pensa diferente, não é demitido, mas também não é convidado para o almoço de equipe, não é chamado para a reunião que decide os rumos do setor. Continua ali, sentado na mesma sala, mas com sua voz abafada por um muro invisível.

Na política, o ostracismo ganha a forma de indiferença coletiva. Povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos — todos ainda habitam o mapa, mas raramente habitam a agenda pública. São lembrados em datas específicas ou quando a tragédia explode, mas logo voltam ao silêncio estrutural. Não há proibição de fala, apenas a recusa em escutar.

Na cultura, a exclusão sorrateira aparece como uma seleção seletiva do que “vale” como arte. O samba de roda, o teatro comunitário, a poesia de periferia — tudo isso sobrevive com força, mas à margem, sem holofotes, sem financiamento. Enquanto isso, a indústria cultural escolhe o que exporta, como se só o que atravessa fronteiras fosse digno de memória.

E nas cidades? Basta andar pelas ruas para notar o pacto social tácito: pessoas em situação de rua não são oficialmente invisíveis, mas passamos diante delas como se fossem parte da paisagem. O silêncio dos passantes constrói uma barreira mais eficaz do que qualquer muro. É exclusão sem decreto, mas não menos cruel.

No espaço digital, o ostracismo sorrateiro encontra uma forma nova: o “vácuo”. Não há bloqueio, não há briga aberta, mas a ausência de resposta, a não-curtida, o comentário ignorado. A exclusão acontece pelo nada — e talvez por isso doa mais, porque a ausência é um buraco difícil de nomear.

O filósofo brasileiro Paulo Freire nos lembra que “calar a palavra do outro” é uma das formas mais profundas de opressão, pois nega ao sujeito o direito de existir no diálogo. E é justamente isso que o ostracismo sorrateiro opera: uma pedagogia silenciosa que corrói, não pelo choque, mas pelo esvaziamento.

Reconhecer esse mecanismo talvez seja o primeiro passo para enfrentá-lo. Pois resistir, aqui, não significa apenas gritar contra quem exclui, mas também romper o pacto do silêncio: olhar de volta, escutar de verdade, reincluir na roda quem foi deixado de fora. No fundo, o ostracismo sorrateiro só triunfa porque muitos aceitam calar junto.

E se há algo que a filosofia nos ensina é que a vida comum se sustenta no reconhecimento mútuo. Sem ele, restamos como sombras num palco iluminado — presentes, mas invisíveis.