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sábado, 24 de outubro de 2026

Inquietante


 

Há algo inquietante na figura do sonâmbulo. Ele caminha, age, às vezes executa tarefas complexas — mas não está plenamente desperto. Não decide no sentido forte da palavra; antes, continua. É como se o corpo soubesse um caminho que a consciência não acompanha. E talvez seja por isso que o sonambulismo nos fascine: ele não é apenas um fenômeno do sono, mas uma metáfora desconfortável da vida desperta.

No sentido clínico, o sonambulismo descreve estados em que o indivíduo realiza ações durante o sono profundo. No sentido filosófico, porém, podemos perguntar: quantas de nossas ações diurnas não têm essa mesma estrutura? Quantas vezes repetimos gestos, discursos, escolhas — sem que haja um verdadeiro “acordar” para o que fazemos?

Aqui, a intuição de René Descartes sobre a dúvida metódica ganha um contorno inesperado. Descartes propôs duvidar de tudo para encontrar um ponto indubitável. Mas e se a dúvida não alcança justamente aquilo que fazemos de modo automático? O sonâmbulo não duvida — e talvez por isso seja eficiente. Ele não hesita, não questiona, não interrompe o fluxo da ação. Sua “lucidez” é funcional, mas não reflexiva.

No cotidiano, isso aparece de forma quase banal. Pense no trajeto diário até o trabalho: muitas pessoas dirigem, caminham ou pegam transporte público e, ao chegar, mal se lembram do percurso. O corpo executou, a mente esteve em outro lugar. Houve ação sem presença. Não é exagero dizer que, por alguns minutos, fomos sonâmbulos acordados.

Outro exemplo: o uso de redes sociais. Quantas vezes alguém abre um aplicativo sem intenção clara, percorre conteúdos por longos minutos e depois se pergunta “por que estou vendo isso?” Há um agir guiado por hábitos, estímulos e algoritmos, mais do que por decisão consciente. O dedo desliza pela tela como os passos do sonâmbulo pelo corredor: com precisão, mas sem consciência plena do trajeto.

Podemos aproximar esse fenômeno da crítica de Karl Marx à alienação. Para Marx, no trabalho alienado o indivíduo não se reconhece naquilo que faz. Ele age, produz, se move — mas como se estivesse separado de si mesmo. O trabalhador, nesse sentido, é um sonâmbulo social: participa de um sistema cujas regras não controla e cujos fins muitas vezes não compreende.

Mas o sonambulismo não é apenas social; ele é também existencial. Martin Heidegger descreveu o cotidiano como um estado de “queda” no impessoal — o domínio do “se” (das Man): “faz-se assim”, “pensa-se isso”, “vive-se dessa forma”. Nesse modo de ser, o indivíduo não decide autenticamente; ele segue. Vive como se estivesse acordado, mas sua existência é guiada por padrões já dados. É um sonambulismo ontológico.

Há também um lado mais sutil e talvez mais perturbador: o sonambulismo moral. Situações em que alguém participa de práticas injustas não por convicção explícita, mas por inércia. Um funcionário que executa ordens sem questionar suas consequências; um consumidor que sustenta práticas nocivas sem refletir sobre elas; um cidadão que repete discursos sem examiná-los. Nesses casos, o problema não é a intenção maligna, mas a ausência de despertar.

No entanto, assim como no ensaio anterior, é preciso cuidado. Nem todo automatismo é negativo. Sem hábitos, a vida seria impraticável. O aprendizado depende da repetição; a ação eficiente muitas vezes exige que não pensemos em cada detalhe. O problema não é agir automaticamente — é nunca interromper o automatismo.

É aqui que a filosofia pode ser entendida como um gesto de despertar. Não um estado permanente de lucidez absoluta — o que talvez seja impossível —, mas a capacidade de interromper o fluxo, de perguntar: “o que estou fazendo?” “por que faço assim?” Nesse ponto, o sonâmbulo hesita — e talvez, por um instante, acorde.

Há momentos em que esse despertar acontece de forma abrupta. Uma crise pessoal, uma perda, uma mudança radical de contexto. Aquilo que antes parecia natural torna-se estranho. O caminho conhecido deixa de fazer sentido. É como se o sonâmbulo abrisse os olhos no meio do percurso e não reconhecesse mais a casa em que caminha.

Mas há também despertares menores, quase imperceptíveis: a decisão de mudar um hábito, de questionar uma rotina, de escutar uma pergunta incômoda — muitas vezes vinda de alguém “de fora”, um profano. Esses pequenos desvios são talvez os únicos antídotos reais contra o sonambulismo contínuo.

Concluindo, o sonâmbulo não é apenas aquele que anda dormindo, mas também aquele que vive sem interrogar o próprio viver. A questão não é eliminar o sono — pois ele é parte da vida —, mas criar brechas de vigília dentro dele. A filosofia, nesse sentido, não nos promete um despertar total, mas nos ensina a reconhecer quando estamos caminhando de olhos fechados — e, se possível, a abrir os olhos antes de cair da escada.

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