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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Diferenciar-se de Si Mesmo


Vou começar assim: quando acordo e, por alguns segundos, ainda sou o mesmo de ontem. O corpo reconhece o caminho até a cozinha, o espelho devolve um rosto familiar, o nome continua colado em mim como um crachá. Mas basta um pensamento fora do roteiro, um incômodo sem nome, para surgir a suspeita — e se eu já não for exatamente quem penso ser? É nesse pequeno desencaixe cotidiano que Deleuze começa a trabalhar. Não para nos devolver uma identidade mais sólida, mas para retirar o chão de vez.

Gilles Deleuze é o filósofo francês que fez da diferença, do devir e da criação conceitos centrais para pensar a vida não como identidade, mas como movimento contínuo.

Diferenciar-se de si mesmo

Para Deleuze, a diferença não é um desvio em relação a uma identidade prévia. Ela não nasce do “eu” como uma variação do mesmo, nem é um erro de cópia. A diferença é primeira. O que chamamos de identidade é apenas um efeito tardio, um congelamento provisório de forças que estão sempre em movimento. Diferenciar-se de si mesmo, portanto, não é uma escolha moral nem um projeto de autossuperação; é a própria condição de existência.

Em Diferença e Repetição, Deleuze desmonta a ideia clássica de que o pensamento começa pelo reconhecimento — “isso é isto”, “eu sou eu”. Para ele, pensar de verdade só acontece quando algo falha nesse reconhecimento, quando o pensamento é forçado por aquilo que não se deixa identificar. Diferenciar-se de si mesmo é ser atravessado por esse choque: algo em mim que não coincide comigo, que não responde ao meu nome, que não obedece à minha história.

O eu como hábito mal compreendido

Aquilo que chamamos de “eu” é, em grande parte, um conjunto de hábitos. Maneiras de reagir, de sentir, de narrar a própria vida. O problema é que o hábito cria a ilusão de continuidade: acreditamos que somos o mesmo porque repetimos gestos, rotinas, opiniões. Mas, para Deleuze, a repetição nunca repete o mesmo. Toda repetição introduz uma diferença, ainda que mínima, ainda que imperceptível.

Assim, diferenciar-se de si mesmo não significa romper dramaticamente com o passado, mas perceber que nunca fomos idênticos nem a nós mesmos. O “eu” é uma superfície onde passam forças impessoais: desejos que não escolhemos, afetos que nos surpreendem, ideias que surgem sem pedir licença. O sujeito não é a origem dessas forças; é apenas o lugar onde elas se cruzam por um instante.

Tornar-se outro sem virar outro

Há aqui um ponto delicado. Diferenciar-se de si mesmo não é “virar outra pessoa” no sentido psicológico ou social. Não se trata de trocar de personalidade, carreira ou discurso. Trata-se de algo mais radical e mais silencioso: permitir que o que em nós é impessoal, pré-individual, continue a agir.

Deleuze fala em devir, e não em transformação. O devir não tem ponto de partida fixo nem ponto de chegada definido. Quem entra em devir não abandona o que é para se tornar algo diferente; ele se desloca, se desalinha, se abre a conexões inesperadas. Diferenciar-se de si mesmo é aceitar esse desalinhamento sem tentar imediatamente traduzi-lo em identidade.

No cotidiano, isso aparece quando percebemos que um pensamento que nos atravessa não “combina” com quem acreditamos ser. Ou quando um desejo surge sem justificativa biográfica. Ou ainda quando sentimos que certas palavras que usamos já não nos representam — mas também não sabemos quais as substituiriam. Esse desconforto não é um erro a corrigir; é o próprio pensamento em ato.

Ética da diferença

Há uma ética implícita nessa concepção. Diferenciar-se de si mesmo exige uma certa coragem: a de não se proteger excessivamente por narrativas fixas sobre quem se é. Em vez de perguntar “quem sou eu?”, a pergunta deleuziana seria: o que pode um corpo? O que pode este corpo, esta mente, este conjunto instável de afetos, quando não está ocupado em se reconhecer o tempo todo?

Essa ética não busca autenticidade, mas potência. Não pede coerência, mas intensidade. Diferenciar-se de si mesmo é permitir que a vida em nós vá além das formas que já conhece. É resistir à tentação de fechar-se em uma identidade confortável só para evitar o risco de não saber.

Um eu em variação contínua

Talvez o gesto mais inovador de Deleuze seja este: retirar da diferença qualquer traço de negatividade. Diferenciar-se de si mesmo não é perda, crise ou fragmentação. É produção. Produção de novos modos de sentir, pensar e existir. O “si mesmo” não é um núcleo a ser preservado, mas um campo de variações possíveis.

No fim, aquilo que chamamos de identidade é apenas uma pausa provisória no fluxo. Um nome dado ao movimento para que possamos continuar. Mas a vida, indiferente aos nomes, segue diferindo — inclusive de nós mesmos. E talvez pensar, no sentido mais forte, seja justamente acompanhar esse movimento sem tentar detê-lo.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Obra Inacabada

O Humano Como Obra Inacabada

Sempre me intrigou essa sensação de que a gente nunca “fica pronto”. Não importa a idade, o diploma pendurado na parede ou a agenda cheia de compromissos: há sempre algo em ajuste, uma dobra por fazer, uma rachadura recém-descoberta. O humano parece mais um rascunho permanente do que uma escultura finalizada.

No cotidiano isso aparece de formas simples. A gente promete mudar um hábito — dormir melhor, ouvir mais, reagir menos — e descobre, algumas semanas depois, que mudou só um pouco. Ou mudou de lugar o problema. No trabalho, achamos que finalmente “aprendemos a jogar o jogo”, até o jogo mudar. Nas relações, acreditamos ter entendido alguém, até que uma frase atravessada revela um território inteiro ainda desconhecido.

Paulo Freire dizia que o ser humano é um ser inacabado, consciente do seu inacabamento. Essa consciência é decisiva. Uma cadeira não sofre por ser cadeira; nós sofremos — e crescemos — porque percebemos que poderíamos ser diferentes. O inacabamento não é defeito: é condição de possibilidade. É o que permite aprender, errar, pedir desculpa, recomeçar.

Há dias em que esse estado cansa. Dá vontade de fechar a obra, colocar a placa de “pronto” e seguir em paz. Mas talvez a paz não esteja no acabamento, e sim no canteiro. A vida acontece entre andaimes: improvisos, correções, desvios. Quem exige de si mesmo uma versão definitiva costuma endurecer; quem aceita o inacabamento ganha mobilidade.

Gosto de pensar que somos como textos em revisão contínua. Algumas frases precisam ser cortadas, outras reescritas; certas ideias só fazem sentido depois de um tempo. E tudo bem. O perigo não é ser inacabado — é achar que já terminou. Quando alguém se declara pronto, fecha as janelas por onde o mundo poderia entrar.

No fundo, viver é isso: trabalhar na própria obra sabendo que ela nunca será final, mas pode ser cada vez mais honesta, mais justa, mais humana. E talvez seja exatamente aí que mora a beleza.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Originalidade da Reação


Às vezes eu me pego pensando — geralmente numa fila de supermercado, lugar sagrado para epifanias de quinta categoria — como é curioso que a gente se repete. As situações mudam, os cenários se rearranjam, as pessoas entram e saem, mas nossas reações... ah, essas parecem sair do mesmo molde. Como se cada um de nós carregasse um pequeno “roteiro automático” no bolso, pronto para ser reproduzido sem muito questionamento. E é justamente nesse ponto que a questão aparece: é possível reagirmos de modo verdadeiramente original?

Entre o impulso e o hábito

Reagir é, antes de tudo, uma ação que nasce do encontro entre algo que vem de fora e algo que já está em nós. Esse “algo que já está em nós” costuma ser um combo de memórias, medos, crenças, cansaços, expectativas e até vícios emocionais. Não se trata apenas de escolha: muito do que reagimos é quase pré-escolhido por anos de repetições.

Pense em coisas simples:

  • alguém te corta no trânsito → irritação imediata;
  • você recebe uma crítica inesperada → defensiva automática;
  • um elogio sincero → desconforto engraçado, como se você não soubesse onde guardar as mãos.

Nessas horas, a originalidade passa longe. Somos mais previsíveis que aplicativos que completam frases.

A pergunta filosófica: o que é ser original na reação?

A originalidade aqui não significa extravagância, e muito menos teatralidade. Não é reagir de modo estranho para parecer diferente. Originalidade é a capacidade de reagir a partir da própria origem — do que é verdadeiramente seu, não do que é herdado, treinado ou esperado.

Em filosofia moral, existe uma distinção interessante entre:

  • ação heterônoma: quando reagimos porque algo externo determina;
  • ação autônoma: quando a reação nasce de um centro interno, lúcido.

Ser original, nesse contexto, é tentar operar mais pela autonomia do que pela heteronomia. Ou, dito no idioma do cotidiano: pausar antes de reagir. A pausa é o espaço onde se insere a liberdade.

O intervalo que devolve a autoria

Se tem algo que a vida moderna detesta é intervalo. Tudo é imediato — respostas, mensagens, opiniões, cancelamentos. Mas é justamente esse “micro intervalo” entre estímulo e resposta que cria a possibilidade de originalidade.

Como exemplo vamos a uma cena cotidiana:

Você está prestes a responder uma mensagem atravessada e digitou algo meio ácido. Aí você respira, lê novamente e pensa: “isso sou eu ou é só o meu cansaço de terça-feira às 14h?”
Esse breve gesto já é originalidade em ação. Não no sentido de genialidade, mas de autoridade sobre si mesmo.

Como dizia N. Sri Ram, pensador que muito aprecio, a verdadeira ação nasce do “ponto silencioso da consciência”, aquele lugar onde não estamos repetindo nada — nem o mundo, nem os outros, nem os nossos próprios hábitos. Reagir a partir desse ponto é dar ao acontecimento uma resposta não automática, quase inédita, porque é feita agora, não reciclada do passado.

O cotidiano como laboratório

Alguns momentos do dia são ótimos para testar a originalidade da reação:

  • Quando alguém é seco com você: em vez de replicar a secura, tentar ver se é possível responder com neutralidade — não como bondade protocolar, mas como escolha consciente.
  • Quando um plano dá errado: perceber o impulso de culpar alguém e substituí-lo por uma curiosidade leve: “ok, o que faço com isso agora?”
  • Quando um medo antigo aparece: notar que ele é velho, mas você não precisa reagir como antes.

Esses exercícios não nos transformam em santos (aliás, nem é o objetivo), mas nos fazem notar algo precioso: ser original é não ser prisioneiro de antigas versões de si mesmo.

A arte de não repetir a alma

A originalidade da reação não é um talento, mas uma vigilância serena. Ela nasce quando a gente se permite ser menos automático, menos condicionado, menos previsível até para nós mesmos. Quando paramos de usar a vida para confirmar velhas narrativas internas e começamos a viver a partir do que realmente sentimos agora, e não do que sentimos anos atrás.

No fundo, reagir de modo original é um ato de presença. É uma declaração silenciosa de que estamos ali — inteiros, atentos, donos do que fazemos. E talvez seja essa, entre todas, a forma mais discreta e mais profunda de liberdade humana. Então, fica aqui esta reflexão para o novo ano, cheio de possibilidades e oportunidades.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Tempo de Despertar

O Despertar que Desnuda o Tempo: Ensaio Filosófico sobre Tempo de Despertar, de Oliver Sacks

Resumo introdutório:

Em Tempo de Despertar (1973), o neurologista britânico Oliver Sacks narra a extraordinária experiência clínica com pacientes vítimas da encefalite letárgica, uma misteriosa epidemia que os mergulhou, durante décadas, num estado catatônico sem saída. O advento do medicamento L-DOPA, no fim dos anos 1960, trouxe um aparente milagre: o retorno súbito desses indivíduos à consciência, à linguagem, ao movimento. Mas o que prometia ser redenção revelou-se, muitas vezes, tragédia: o despertar foi também um encontro cruel com o tempo perdido, com um mundo irreconhecível e com a fragilidade do próprio "eu".

O livro é mais que um relato médico: é uma meditação viva sobre o enigma da existência, do tempo, da identidade — uma obra que ultrapassa a neurologia e toca a metafísica.

Ensaio filosófico:

I. Despertar não é acordar: é nascer de novo num mundo estranho.

Sacks nos convida a uma ideia incômoda: o despertar radical não é retorno, é estranhamento. Quem desperta após quarenta anos de ausência não reencontra seu mundo: encontra outro mundo — outro corpo, outro tempo, outra história. O "milagre" é, em parte, uma violência.

Aqui, o despertar se aproxima do conceito de unheimlich (estranho-familiar) de Freud: algo que deveria ser íntimo — meu corpo, meu tempo — torna-se irreconhecível. Os pacientes de Sacks não voltam à vida que conheciam; despertam num mundo que os traiu com o envelhecimento, com a morte dos entes queridos, com o progresso tecnológico que os excluiu. A continuidade do eu foi quebrada. Quem são eles agora?

II. O tempo não passa — ele devora.

O livro desmascara um dos grandes consensos do senso comum: o de que o tempo "passa" suavemente, de forma linear. Não: o tempo rói, consome, altera os contornos do real e do imaginário. Quando os pacientes voltam à consciência, não o fazem no tempo em que adormeceram: o relógio do mundo não esperou.

Henri Bergson já advertia: o tempo vivido (durée) não se mede em números, mas em fluxo de consciência. Os pacientes de Sacks perderam sua durée pessoal; suas consciências congelaram enquanto o mundo externo seguiu outro ritmo. O abismo entre esses dois tempos produziu monstros existenciais: corpos envelhecidos com almas jovens, espíritos perdidos num presente que não reconhecem.

III. A identidade não é um dado — é uma narrativa que o tempo costura.

O maior escândalo filosófico de Tempo de Despertar é este: não existe "eu" fora da história que tece um sentido para o tempo vivido. Os pacientes acordaram sem narrativa — suas biografias tinham um buraco negro de décadas. Como se reconstruir sem lembrança, sem continuidade? A ruptura é tamanha que a própria noção de "pessoa" se desfaz.

Paul Ricoeur escreveu que "somos o tempo contado, narrado". O sujeito que desperta sem história é um estranho para si mesmo — é um corpo presente sem enredo passado. A L-DOPA reanimou músculos e sinapses, mas não devolveu a ponte do sentido. Por isso muitos adoeceram de angústia e desespero: não sabiam mais quem eram.

IV. O milagre moderno é o fracasso metafísico.

A medicina realizou o milagre técnico: devolveu o movimento e a fala. Mas a metafísica do sentido — esse campo onde a alma encontra seu lugar no tempo e no mundo — falhou. O preço do despertar foi o colapso do sentido.

Este paradoxo é um alerta para toda utopia tecnológica: não basta restaurar a função biológica; é preciso restaurar o enraizamento no mundo, o pertencimento simbólico. Sacks, sábio humanista, percebeu isso: seu livro não celebra uma vitória da ciência — lamenta uma derrota da alma.

V. O verdadeiro despertar é filosófico, não neurológico.

A lição secreta de Tempo de Despertar é que todos nós corremos o risco de viver letargicamente — mesmo saudáveis. Quem segue hábitos mecânicos, quem repete papéis vazios, quem não interroga seu lugar no tempo... está adormecido no existir.

O despertar real, diz Sacks sem dizê-lo, é o despertar filosófico: o instante em que o sujeito vê a estranheza da própria vida, percebe o enigma do tempo e ousa perguntar: "Quem sou eu agora? Para onde fui nos anos que passaram?". Esse despertar pode ser doloroso — mas é o começo de uma vida consciente.

Aí vai uma sugestão de leitura complementar: Um Antropólogo em Marte

Para aprofundar essa jornada entre neurologia e existência, vale a leitura do também brilhante Um Antropólogo em Marte (1995), onde Sacks retrata sete histórias clínicas que desafiam a ideia de normalidade.

Em vez de tragédias, muitos dos relatos de Um Antropólogo em Marte são adaptações criativas à diferença: um pintor que perde a capacidade de ver cores e reinventa seu mundo em tons de cinza; um cirurgião com síndrome de Tourette que encontra na medicina uma forma de domar seus impulsos; um autista que interpreta a vida como se fosse, de fato, um observador de outro planeta.

Se Tempo de Despertar mostra o drama do retorno à vida sem enredo, Um Antropólogo em Marte apresenta a beleza de construir novas narrativas a partir da diferença. Ambos os livros são espelhos distorcidos da condição humana — e, juntos, nos fazem perguntar não "o que é normal?", mas "o que é ser humano diante da falha, da adaptação e da consciência?"

Concluindo: O drama de ser tempo

Tempo de Despertar revela uma verdade incômoda: não somos senhores do tempo — somos feitos de tempo. Ele nos atravessa, nos molda, nos perde e nos reencontra. Não há cura médica para isso. Mas há uma vigilância filosófica possível: aquela que aceita o tempo como abismo e ainda assim inventa sentido.

Como disse o pensador brasileiro Vilém Flusser:

"Viver é buscar sentido no sem-sentido do tempo."

Os pacientes de Sacks pagaram o preço extremo dessa busca. E nós, que lemos sua história, somos também convidados a acordar.


quarta-feira, 4 de junho de 2025

Tudo Tão Vago

 

Outro dia, num intervalo qualquer, alguém comentou: “tá tudo tão vago ultimamente”. Ninguém respondeu, mas todos pareceram entender. A frase ficou flutuando no ar como fumaça de cigarro em sala fechada — sem forma, sem pressa, incômoda e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar.

A vaguidão virou paisagem.

As mensagens não dizem nada, mas estão cheias de palavras. Os compromissos não se sustentam, mas continuam agendados. As certezas andam frágeis, como cadeiras de plástico ao sol. Vivemos uma época em que o mundo ainda está aqui, mas a nitidez dele parece ter sido desligada, como quando o óculos embaça ou o farol do carro apaga num túnel.

Mas afinal, o que é esse vago que paira sobre tudo?

O vago como forma de sobrevivência

Viver com tudo muito claro pode doer. Por isso, o vago pode ser um escudo. Quando dizemos que “tá tudo meio estranho”, adiamos um enfrentamento. “Meio estranho” é menos agressivo do que “insuportável”. “Meio cansado” protege da vergonha de admitir que estamos exaustos de viver assim.

Há uma política do vago nas relações humanas: diz-se “vamos marcar algo” no lugar de dizer “não quero mais te ver”. Diz-se “tá em aberto” quando, na verdade, não se quer decidir nada. Vaguidão vira uma estratégia de convivência social, como se manter as coisas sem foco evitasse conflitos — e talvez evite mesmo.

Há quem diga que prefere tudo claro, mas some quando o WhatsApp mostra dois tiques azuis. Essa é a geração do “vamos conversar” que na prática se resume a “me deixa em paz, mas me elogia de longe”.

Vaguidão e excesso

O mundo contemporâneo está cheio de tudo: de informações, de imagens, de vozes, de convites, de cobranças. Quando tudo é demais, nada se fixa. A mente se enche, mas não se nutre. O resultado é esse cansaço flutuante, essa apatia educada, essa sensação de estarmos sempre por um fio sem saber qual.

A vaguidão não é ausência. É excesso mal digerido.

Poeticamente falando, somos folhas ao vento. Ironicamente falando, somos planilhas com burnout.

Vivemos entre notificações e devaneios. Queremos férias espirituais, mas o máximo que conseguimos é ativar o “modo avião” por dez minutos — até bater a culpa de não responder ao grupo da firma.

Filosofia do vago: o que nos escapa também é real

O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty falava da “ambiguidade essencial da experiência”. Para ele, o mundo nunca nos é dado totalmente, e a consciência está sempre num jogo de revelar e esconder. Nesse sentido, o vago não é erro, é condição. Ver claramente tudo seria uma ilusão. O que escapa, o que não se define, o que não se encaixa — isso também faz parte da realidade.

Quando sentimos que “tá tudo vago”, talvez seja um chamado da alma pedindo por um tempo mais lento, por menos respostas prontas, por pausas que nos devolvam à pergunta.

Mas vai explicar isso para o chefe que quer clareza no e-mail até quando você só queria dizer: “não sei se quero continuar nesse cargo ou fugir para Minas e virar ceramista.”

O risco do vago como vício

Mas há um risco. Quando o vago vira hábito, perde-se o compromisso com o real. Começamos a viver como quem assiste a um filme com o brilho do celular ligado — estamos ali, mas não estamos. Evitamos o incômodo de decidir, de nomear, de assumir. E aos poucos, vamos deixando de ser protagonistas da própria vida.

O vago pode proteger, mas também pode anestesiar.

Numa era de escolhas infinitas, a maior ousadia é escolher algo de fato. É preciso coragem pra dizer "é isso", quando a moda é dizer "depende" e passar o dia escolhendo entre delivery japonês, pizza vegana ou um jejum existencial.

Da névoa à forma

Nem tudo precisa ser nítido. Há beleza no indeterminado, no que ainda está por nascer. Mas talvez seja preciso reaprender a conviver com o vago não como fuga, e sim como passagem.

Como quem entra num nevoeiro e, em vez de parar, segue com passos firmes, sabendo que mesmo sem ver muito, ainda caminha.

E se a vida parecer muito vã, muito vaga, muito líquida — que ao menos seja um café bem passado. Porque viver mal já basta, mas viver sem aroma é demais.

domingo, 25 de maio de 2025

Construção Social

Vamos falar sobre suas possibilidades...

Quando o que parece natural, na verdade, foi ensinado — e pode ser reinventado

Tem certas ideias que a gente carrega como se fossem verdades absolutas. Tipo "homem que é homem não chora", "sucesso é ter dinheiro", "menina não gosta de matemática". Mas e se eu te dissesse que muita coisa que parece natural é, na verdade, uma construção social?

Sim, muitas das nossas certezas foram aprendidas — e não nasceram com a gente. E é justamente aí que mora a boa notícia: se foi construído, pode ser reconstruído.

O que é uma construção social?

Imagina que você cresceu num mundo sem espelhos. Nunca se viu. Tudo o que sabe sobre si mesmo veio das falas dos outros. Um diz que você é bonito, outro que é desajeitado, outro que você fala demais. Com o tempo, você começa a acreditar nessas ideias e repeti-las: “sou assim”, “sou assado”.

A construção social funciona desse jeito. A sociedade molda comportamentos, gostos, papéis e identidades. A gente vai absorvendo tudo isso como se fosse parte da natureza humana — mas é cultura, hábito, costume. E por isso mesmo, pode mudar.

Três possibilidades que se abrem

1. Identidades que se reinventam

Você não precisa ser a mesma pessoa a vida toda. Se identidade é construção, então ela pode ser revista. Pode-se ser mãe e continuar artista. Pode-se gostar de tecnologia e de filosofia. Pode-se ser homem e usar saia. Não existe mais um "jeito certo" de existir — só o jeito que faz sentido pra você.

2. Novas formas de viver juntos

Se certos papéis sociais são construídos, eles não são eternos. O cuidado com os filhos não é só tarefa materna. A liderança no trabalho não precisa ser dura e fria. O sucesso pode ser medido em tempo livre, saúde mental ou vínculos profundos. A construção social nos permite inventar outras formas de viver em sociedade.

3. Menos preconceitos, mais consciência

Quando entendemos que categorias como “raça”, “beleza” ou “masculinidade” são construídas socialmente e não biologicamente, começamos a perceber o preconceito como uma distorção coletiva — e não algo natural. O racismo, por exemplo, é aprendido. E tudo o que é aprendido, pode ser desaprendido.

E na vida real?

  • No trabalho: a ideia de que chefe bom é chefe durão está sendo revista. Hoje, muitos líderes escolhem a empatia e a escuta.
  • Na escola: meninas que se sentem capazes em ciências e meninos que gostam de cuidar dos outros desafiam os velhos estereótipos.
  • No amor: não existe só uma forma de amar. A ideia de que a felicidade depende de “encontrar a metade da laranja” já parece coisa de outro século.

Bourdieu e o poder invisível do hábito

O sociólogo francês Pierre Bourdieu chamou atenção pra isso com o conceito de habitus — aquele nosso jeito de ser, pensar e agir que parece natural, mas foi moldado pelas experiências sociais. Segundo ele, a sociedade age dentro de nós sem que a gente perceba. Mas, ao perceber, a gente ganha poder de escolha.

No fim das contas...

Reconhecer as construções sociais não é viver no mundo das ideias. É justamente o contrário: é abrir os olhos para o que está por trás do cotidiano. E mais do que isso — é enxergar que o mundo pode ser diferente, e que a gente pode participar dessa transformação.

É um convite à liberdade, com responsabilidade. Nem tudo precisa ser desconstruído. Mas tudo pode ser reavaliado. O que serve à dignidade humana? O que aprisiona? O que nos torna mais inteiros?

Essa reflexão é uma chave. E a porta está logo ali.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Costume Descartado

Tem uma coisa curiosa no jeito como lidamos com hábitos e costumes. Aquilo que um dia foi um pilar da vida cotidiana pode, de repente, virar uma peça de museu. Tomemos, por exemplo, a formalidade no vestir: já foi impensável sair à rua sem chapéu, e hoje quem usa um Fedora sem ironia parece saído de outra época. Mas será que tudo que é costume precisa ser descartado só porque se tornou um costume? E mais: será que o fato de algo se consolidar como hábito não significa justamente que possui um valor profundo, ainda que velado?

O problema da modernidade é a pressa em jogar fora o que vem do passado. Como se costumes fossem roupas que envelhecem, e nós tivéssemos que renovar constantemente o guarda-roupa da cultura. O filósofo Alasdair MacIntyre nos alertaria para esse perigo: ao descartar tradições, podemos perder não só práticas, mas também a ética e a sabedoria embutidas nelas. Um costume pode ser banal, mas pode também carregar um significado que só compreendemos depois de perdido.

Pensemos nos rituais familiares que desaparecem porque parecem "fora de moda". Sentar-se juntos à mesa, escrever cartas à mão, cumprimentar com reverência... Eram apenas costumes, mas não seriam também formas de estruturar laços, dar peso ao cotidiano, trazer um sentido que hoje nos escapa? O hábito muitas vezes esconde uma verdade invisível: ele organiza a vida. A questão, então, não é se devemos descartar costumes apenas por serem costumes, mas se ao fazê-lo não estamos jogando fora uma peça essencial do quebra-cabeça humano.

Talvez devêssemos reaprender a olhar para os hábitos não como meros reflexos automáticos, mas como vestígios de uma inteligência cultural que opera silenciosamente. Afinal, o costume pode ser apenas repetição, mas também pode ser memória. E quem joga fora a memória pode acabar se esquecendo de si mesmo.


domingo, 15 de dezembro de 2024

Adiamento e Crença

Adiamento e crença são duas faces de uma mesma moeda que se entrelaçam de maneiras sutis e complexas no cotidiano. Adiar é uma prática comum, muitas vezes resultado de crenças profundamente enraizadas que moldam nossas decisões e ações. Vamos analisar esse tema através de algumas situações do dia a dia, destacando como esses conceitos caminham juntos.

Procrastinação no Trabalho

Imagine uma segunda-feira típica no escritório. Você tem uma apresentação importante na sexta-feira, mas ao invés de começar a prepará-la, passa a manhã respondendo e-mails e organizando sua mesa. A crença de que você "trabalha melhor sob pressão" ou que "ainda tem tempo suficiente" pode estar alimentando essa procrastinação. O adiamento se justifica por essa crença, criando um ciclo vicioso difícil de quebrar.

Vida Pessoal e Metas de Saúde

No âmbito pessoal, considere o exemplo clássico de quem decide começar uma dieta ou um programa de exercícios "na próxima segunda-feira". A crença subjacente aqui pode ser a de que "amanhã será um novo dia" e que as circunstâncias serão mais favoráveis no futuro. Essa mentalidade adia continuamente a ação necessária para alcançar os objetivos de saúde, muitas vezes resultando em frustração e desânimo.

Estudos e Desenvolvimento Pessoal

Estudantes são mestres em procrastinação, muitas vezes adiando a preparação para provas até a noite anterior. A crença de que "ainda há tempo" ou que "o estudo intensivo de última hora será suficiente" leva a adiamentos frequentes. Essa prática, além de aumentar o estresse, pode comprometer a qualidade do aprendizado e os resultados acadêmicos.

Relações Interpessoais

Em relacionamentos, o adiamento pode se manifestar de várias formas. Pense naquelas conversas importantes que muitas vezes adiamos por medo do confronto ou por acreditar que "não é o momento certo". A crença de que as coisas se resolverão por si mesmas ou que "é melhor esperar" pode prolongar conflitos e ressentimentos, afetando negativamente a dinâmica do relacionamento.

Sonhos e Projetos Pessoais

Finalmente, muitos de nós temos sonhos e projetos pessoais que continuamente adiamos. Seja escrever um livro, aprender um novo idioma ou iniciar um negócio, a crença de que "não estamos prontos ainda" ou que "as condições ideais virão no futuro" pode nos paralisar. Esse adiamento constante impede a realização de nossos desejos e o crescimento pessoal.

Adiamento e crença andam de mãos dadas, criando padrões de comportamento que podem ser difíceis de quebrar. Reconhecer essas crenças subjacentes é o primeiro passo para mudar esses hábitos. Ao questionar e reformular nossas crenças, podemos reduzir a procrastinação e tomar ações mais proativas em direção aos nossos objetivos. No fim das contas, o poder de transformar nosso cotidiano está em nossas mãos, e a escolha de agir hoje, ao invés de adiar para amanhã, pode fazer toda a diferença.