Há algo inquietante na figura do sonâmbulo. Ele caminha, age, às vezes executa tarefas complexas — mas não está plenamente desperto. Não decide no sentido forte da palavra; antes, continua. É como se o corpo soubesse um caminho que a consciência não acompanha. E talvez seja por isso que o sonambulismo nos fascine: ele não é apenas um fenômeno do sono, mas uma metáfora desconfortável da vida desperta.
No
sentido clínico, o sonambulismo descreve estados em que o indivíduo realiza
ações durante o sono profundo. No sentido filosófico, porém, podemos perguntar:
quantas de nossas ações diurnas não têm essa mesma estrutura? Quantas vezes
repetimos gestos, discursos, escolhas — sem que haja um verdadeiro “acordar”
para o que fazemos?
Aqui,
a intuição de René Descartes sobre a dúvida metódica ganha um contorno
inesperado. Descartes propôs duvidar de tudo para encontrar um ponto
indubitável. Mas e se a dúvida não alcança justamente aquilo que fazemos de
modo automático? O sonâmbulo não duvida — e talvez por isso seja eficiente. Ele
não hesita, não questiona, não interrompe o fluxo da ação. Sua “lucidez” é
funcional, mas não reflexiva.
No
cotidiano, isso aparece de forma quase banal. Pense no trajeto diário até o
trabalho: muitas pessoas dirigem, caminham ou pegam transporte público e, ao
chegar, mal se lembram do percurso. O corpo executou, a mente esteve em outro
lugar. Houve ação sem presença. Não é exagero dizer que, por alguns minutos,
fomos sonâmbulos acordados.
Outro
exemplo: o uso de redes sociais. Quantas vezes alguém abre um aplicativo sem
intenção clara, percorre conteúdos por longos minutos e depois se pergunta “por
que estou vendo isso?” Há um agir guiado por hábitos, estímulos e algoritmos,
mais do que por decisão consciente. O dedo desliza pela tela como os passos do
sonâmbulo pelo corredor: com precisão, mas sem consciência plena do trajeto.
Podemos
aproximar esse fenômeno da crítica de Karl Marx à alienação. Para Marx,
no trabalho alienado o indivíduo não se reconhece naquilo que faz. Ele age,
produz, se move — mas como se estivesse separado de si mesmo. O trabalhador,
nesse sentido, é um sonâmbulo social: participa de um sistema cujas regras não
controla e cujos fins muitas vezes não compreende.
Mas
o sonambulismo não é apenas social; ele é também existencial. Martin
Heidegger descreveu o cotidiano como um estado de “queda” no impessoal — o
domínio do “se” (das Man): “faz-se assim”, “pensa-se isso”, “vive-se dessa
forma”. Nesse modo de ser, o indivíduo não decide autenticamente; ele segue.
Vive como se estivesse acordado, mas sua existência é guiada por padrões já
dados. É um sonambulismo ontológico.
Há
também um lado mais sutil e talvez mais perturbador: o sonambulismo moral.
Situações em que alguém participa de práticas injustas não por convicção
explícita, mas por inércia. Um funcionário que executa ordens sem questionar
suas consequências; um consumidor que sustenta práticas nocivas sem refletir
sobre elas; um cidadão que repete discursos sem examiná-los. Nesses casos, o
problema não é a intenção maligna, mas a ausência de despertar.
No
entanto, assim como no ensaio anterior, é preciso cuidado. Nem todo automatismo
é negativo. Sem hábitos, a vida seria impraticável. O aprendizado depende da
repetição; a ação eficiente muitas vezes exige que não pensemos em cada
detalhe. O problema não é agir automaticamente — é nunca interromper o
automatismo.
É
aqui que a filosofia pode ser entendida como um gesto de despertar. Não um
estado permanente de lucidez absoluta — o que talvez seja impossível —, mas a
capacidade de interromper o fluxo, de perguntar: “o que estou fazendo?” “por
que faço assim?” Nesse ponto, o sonâmbulo hesita — e talvez, por um instante,
acorde.
Há
momentos em que esse despertar acontece de forma abrupta. Uma crise pessoal,
uma perda, uma mudança radical de contexto. Aquilo que antes parecia natural
torna-se estranho. O caminho conhecido deixa de fazer sentido. É como se o
sonâmbulo abrisse os olhos no meio do percurso e não reconhecesse mais a casa
em que caminha.
Mas
há também despertares menores, quase imperceptíveis: a decisão de mudar um
hábito, de questionar uma rotina, de escutar uma pergunta incômoda — muitas
vezes vinda de alguém “de fora”, um profano. Esses pequenos desvios são talvez
os únicos antídotos reais contra o sonambulismo contínuo.
Concluindo,
o sonâmbulo não é apenas aquele que anda dormindo, mas também aquele que vive
sem interrogar o próprio viver. A questão não é eliminar o sono — pois ele é
parte da vida —, mas criar brechas de vigília dentro dele. A filosofia, nesse
sentido, não nos promete um despertar total, mas nos ensina a reconhecer quando
estamos caminhando de olhos fechados — e, se possível, a abrir os olhos antes
de cair da escada.
