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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Indivisível e Impassível


Escrevo sobre o indivisível e o impassível porque comecei a perceber o quanto o mundo insiste em nos fragmentar. Em papéis, funções, opiniões, versões editadas de nós mesmos. E, ao mesmo tempo, o quanto ele exige que sintamos tudo, o tempo todo, como se a sensibilidade fosse uma obrigação pública. Entre a fragmentação e a exposição, algo essencial parecia se perder. Foi desse desconforto que nasceu a necessidade de pensar aquilo que não se parte e aquilo que não se deixa ferir.

O indivisível no cotidiano

Ser indivisível não é ser rígido. É ser inteiro. É quando aquilo que se pensa, se sente e se faz não vivem em guerra permanente. O indivisível aparece quando alguém recusa agir contra a própria consciência, mesmo quando isso custa aceitação. Ele se manifesta na coerência silenciosa, não na perfeição.

Uma pessoa indivisível pode errar, mas não se vende em pedaços.

O impassível não é indiferença

Ser impassível não é ser frio. É não permitir que qualquer vento governe o centro. O impassível sente, mas não se dissolve. Chora, mas não se perde. Ama, mas não se anula. Ele não é impermeável à dor — apenas não se deixa definir por ela.

Os estóicos chamavam isso de apatheia: não ausência de emoção, mas soberania sobre ela.

Marco Aurélio escreveu que a alma humana pode tornar-se inexpugnável quando aprende a não se deixar ferir por aquilo que não depende dela. Para ele, a verdadeira força não está em endurecer, mas em manter a integridade diante do caos. O indivisível e o impassível, em sua filosofia, não são virtudes de isolamento, mas de liberdade interior: ninguém pode quebrar aquilo que não se entrega em fragmentos.

A fragmentação como doença moderna

Vivemos em uma cultura que nos divide: trabalho de um lado, afeto de outro, imagem pública de um lado, vazio privado de outro. Essa divisão contínua gera exaustão. O indivisível é um gesto de resistência contra essa esquizofrenia cotidiana.

Ser inteiro hoje é um ato revolucionário.

Indivisível e impassível — mas humano

Essas palavras não falam de deuses. Falam de tentativas. De pessoas que aprendem, aos poucos, a não se romper para caber. A não se violentar para agradar. A não se abandonar para sobreviver.

Porque, no fundo, o indivisível não é quem nunca se parte.

É quem, mesmo ferido, se recompõe sem se trair.

E o impassível não é quem não sente.

É quem sente sem deixar que o mundo decida quem ele é.