Escrevo
sobre o indivisível e o impassível porque comecei a perceber o quanto o mundo
insiste em nos fragmentar. Em papéis, funções, opiniões, versões editadas de
nós mesmos. E, ao mesmo tempo, o quanto ele exige que sintamos tudo, o tempo
todo, como se a sensibilidade fosse uma obrigação pública. Entre a fragmentação
e a exposição, algo essencial parecia se perder. Foi desse desconforto que
nasceu a necessidade de pensar aquilo que não se parte e aquilo que não se
deixa ferir.
O
indivisível no cotidiano
Ser
indivisível não é ser rígido. É ser inteiro. É quando aquilo que se pensa, se
sente e se faz não vivem em guerra permanente. O indivisível aparece quando
alguém recusa agir contra a própria consciência, mesmo quando isso custa
aceitação. Ele se manifesta na coerência silenciosa, não na perfeição.
Uma
pessoa indivisível pode errar, mas não se vende em pedaços.
O
impassível não é indiferença
Ser
impassível não é ser frio. É não permitir que qualquer vento governe o centro.
O impassível sente, mas não se dissolve. Chora, mas não se perde. Ama, mas não
se anula. Ele não é impermeável à dor — apenas não se deixa definir por ela.
Os
estóicos chamavam isso de apatheia: não ausência de emoção, mas
soberania sobre ela.
Marco
Aurélio escreveu que a alma humana pode tornar-se
inexpugnável quando aprende a não se deixar ferir por aquilo que não depende
dela. Para ele, a verdadeira força não está em endurecer, mas em manter a
integridade diante do caos. O indivisível e o impassível, em sua filosofia, não
são virtudes de isolamento, mas de liberdade interior: ninguém pode quebrar
aquilo que não se entrega em fragmentos.
A
fragmentação como doença moderna
Vivemos
em uma cultura que nos divide: trabalho de um lado, afeto de outro, imagem
pública de um lado, vazio privado de outro. Essa divisão contínua gera
exaustão. O indivisível é um gesto de resistência contra essa esquizofrenia
cotidiana.
Ser
inteiro hoje é um ato revolucionário.
Indivisível
e impassível — mas humano
Essas
palavras não falam de deuses. Falam de tentativas. De pessoas que aprendem, aos
poucos, a não se romper para caber. A não se violentar para agradar. A não se
abandonar para sobreviver.
Porque,
no fundo, o indivisível não é quem nunca se parte.
É
quem, mesmo ferido, se recompõe sem se trair.
E
o impassível não é quem não sente.
É
quem sente sem deixar que o mundo decida quem ele é.