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terça-feira, 6 de outubro de 2026

O Conservador


Entre a Memória e o Medo do Futuro

Tem uma coisa curiosa sobre o conservador: quase sempre ele começa dizendo que não é contra mudanças — só contra mudanças “rápidas demais”, “mal pensadas” ou “sem raiz”. Parece razoável, até prudente. Afinal, ninguém gosta de ver tudo ruir de uma vez. Mas, se a gente olha mais de perto, percebe que o conservador não está apenas defendendo cautela; ele está, muitas vezes, defendendo uma forma específica de ver o mundo: aquela em que o passado tem mais autoridade do que o futuro.

Em As Ideias Conservadoras, João Pereira Coutinho, nesta obra ele apresenta o conservadorismo não como uma ideologia rígida ou um programa político fechado, mas como uma atitude intelectual marcada pela prudência, pela desconfiança em relação a utopias e pela valorização das instituições construídas historicamente. Dialogando com autores como Edmund Burke, o autor defende que a política deve ser guiada pela consciência dos limites da razão humana e pela importância da tradição como acúmulo de experiência social. Nesse sentido, o conservadorismo não se define pela rejeição absoluta à mudança, mas pela recusa de transformações abruptas que desconsiderem a complexidade do tecido social e as consequências imprevistas da engenharia política. Essa perspectiva serve como ponto de partida para compreender o conservadorismo não apenas como posição ideológica, mas como uma forma de interpretar o tempo histórico, tema desenvolvido no ensaio a seguir a partir de suas expressões filosóficas e sociológicas no contexto brasileiro.

Então, pós resumo do livro que li, me roguei a refletir a minha maneira e com ajuda de alguns pensadores, penso que o conservador é, antes de tudo, um guardião da memória. Mas não qualquer memória — uma memória selecionada, organizada, muitas vezes idealizada. Aqui podemos dialogar com Claude Lévi-Strauss, que via as sociedades como sistemas simbólicos estruturados por mitos e narrativas. O conservador, nesse sentido, atua como um curador desses mitos sociais: ele preserva narrativas que dão sentido à ordem existente.

No Brasil, essa preservação aparece de forma muito concreta. Um exemplo emblemático é a transição do trabalho escravo para o trabalho livre após a Abolição de 1888. Como mostrou Florestan Fernandes, não houve ruptura estrutural real: as elites conservaram seu poder enquanto a população negra permaneceu marginalizada. O conservadorismo, aqui, operou como continuidade disfarçada de mudança.

Outro caso é a Proclamação da República em 1889 — uma ruptura conduzida “por cima”, que manteve as estruturas sociais. Esse padrão reaparece ao longo da história: mudanças institucionais que preservam desigualdades profundas.

No século XX, o Estado Novo de Getúlio Vargas e, mais tarde, o golpe de 1964 mostram o conservadorismo como reação ao medo da desordem. Em ambos os casos, a justificativa foi a defesa da estabilidade — ainda que ao custo da democracia.

Mas é no Brasil recente que essa lógica se torna ainda mais visível.

A crise política que se intensifica após 2023 revela um país dividido entre projetos de futuro e a tentativa de restaurar ordens passadas. A polarização entre campos políticos, especialmente nas eleições de 2026, mostra o conservadorismo como força mobilizadora. A disputa acirrada entre projetos distintos ocorre em meio a desconfiança institucional, crise fiscal e tensões sociais.

Esse cenário não surge do nada. Em 2025, a condenação de um ex-presidente por tentativa de golpe e os desdobramentos dos eventos de 8 de janeiro evidenciaram um conservadorismo que ultrapassa a defesa de tradições e passa a questionar as próprias regras do jogo democrático. Aqui, o conservador deixa de ser apenas um guardião do passado e se torna, em certos momentos, um agente de ruptura — mas uma ruptura paradoxal, que visa restaurar uma ordem idealizada.

Ao mesmo tempo, o debate sobre anistia, redução de penas e propostas como a chamada “PEC da Blindagem” revela um conservadorismo institucional: a tentativa de proteger estruturas de poder diante de ameaças judiciais e políticas. Não se trata apenas de preservar valores, mas de preservar posições.

Outro elemento central é a relação entre conservadorismo e economia. A alternância entre políticas de privatização e modelos de concessão nos governos recentes mostra diferentes formas de lidar com o Estado, mas também evidencia algo comum: a dificuldade de romper com estruturas históricas de desigualdade e dependência. Mesmo quando há mudança de orientação, há continuidade estrutural.

Além disso, crises institucionais envolvendo o Judiciário, debates sobre interferência e desinformação política apontam para um conservadorismo que se manifesta também como desconfiança nas instituições. Nesse contexto, o apelo à ordem pode facilmente se transformar em questionamento das próprias regras democráticas.

Zygmunt Bauman ajuda a entender esse momento: em um mundo de incertezas, o conservadorismo oferece segurança simbólica. No Brasil, essa segurança muitas vezes assume a forma de nostalgia política — o desejo de retornar a um tempo percebido como mais estável, mesmo que esse tempo nunca tenha existido de fato.

Mas o conservador não é apenas um obstáculo. Edmund Burke lembraria que mudanças sem base social podem gerar instabilidade — algo que o Brasil conhece bem. Reformas econômicas, crises fiscais e políticas públicas mal implementadas frequentemente alimentam reações conservadoras.

Ainda assim, a crítica de Marilena Chauí permanece atual: o discurso da ordem pode mascarar desigualdades. Quando a defesa da tradição impede o enfrentamento de problemas estruturais — como desigualdade social, violência ou exclusão — o conservadorismo deixa de ser prudência e se torna bloqueio histórico.

Darcy Ribeiro oferece uma contraposição poderosa: o Brasil como projeto inacabado. Exemplos recentes — como políticas de inclusão social, expansão educacional ou debates sobre justiça social — mostram tentativas de romper com o passado. Mas cada avanço encontra resistência, revelando que o conservadorismo não é apenas uma ideologia, mas uma força estrutural.

Roberto DaMatta sintetiza essa tensão: o Brasil vive entre a “casa” e a “rua”. O conservador privilegia a casa — o conhecido, o seguro, o hierárquico. Mas a democracia exige a rua — o conflito, o debate, a transformação.

No fim, o conservador não é apenas uma figura política, mas uma presença constante na história brasileira — do passado escravocrata às disputas eleitorais contemporâneas. Ele aparece tanto na defesa da ordem quanto no medo da mudança, tanto na preservação da memória quanto na resistência ao futuro.

A questão central permanece: o que estamos tentando preservar — e por quê?

Entre a memória e o medo do futuro, o conservador caminha. No Brasil de hoje, esse caminho passa por crises institucionais, disputas narrativas e incertezas profundas. E talvez o maior risco não seja conservar o passado, mas permitir que ele continue decidindo, sozinho, os limites do que o futuro pode ser.