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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Escalas de Subjetividade


Entre o Eu, o Outro e as Estruturas Invisíveis

A subjetividade nunca foi um território estático. Ao contrário do que supõe o senso comum — que imagina o “eu” como uma unidade coesa, autônoma e transparente a si mesma —, a experiência subjetiva se revela, sob análise filosófica e sociológica, como um campo dinâmico, estratificado e atravessado por múltiplas forças. Falar em “escalas de subjetividade” é, portanto, reconhecer que o sujeito não existe em um único plano, mas em gradações que oscilam entre o íntimo e o coletivo, entre o consciente e o inconsciente, entre a autonomia e a determinação social.

No nível mais imediato, a subjetividade se apresenta como experiência individual: pensamentos, emoções e percepções que parecem emergir de um núcleo interno. Essa dimensão foi profundamente explorada por René Descartes, que buscou no “cogito” uma base indubitável para o conhecimento. No entanto, essa aparente centralidade do eu logo se revela insuficiente. A crítica de Immanuel Kant desloca o problema ao demonstrar que o sujeito não acessa o mundo diretamente, mas através de estruturas cognitivas que organizam a experiência. Assim, o que chamamos de “realidade” já é, em alguma medida, uma construção subjetiva mediada.

Essa mediação, contudo, não se limita ao plano cognitivo. A psicanálise de Sigmund Freud introduz uma ruptura ainda mais radical ao revelar que o sujeito não é sequer senhor de si. O inconsciente, com seus desejos reprimidos e suas formações simbólicas, constitui uma camada profunda da subjetividade que escapa ao controle consciente. Surge, então, uma escala interna: o sujeito dividido entre o que sabe de si e aquilo que o determina sem que ele perceba. A subjetividade deixa de ser unidade para tornar-se conflito.

No entanto, reduzir a subjetividade ao interior psíquico seria ignorar sua dimensão social. É nesse ponto que a contribuição de Claude Lévi-Strauss se torna fundamental. Ao analisar as estruturas simbólicas das sociedades, ele demonstra que aquilo que pensamos como individual é, em grande parte, moldado por sistemas culturais que precedem o sujeito. Linguagem, mitos e classificações sociais organizam o pensamento humano de forma invisível, situando a subjetividade em uma escala que vai do pessoal ao estrutural. O sujeito, nesse sentido, é menos um criador e mais um efeito das estruturas.

Essa perspectiva é radicalizada por Michel Foucault, que desloca o foco das estruturas simbólicas para as relações de poder. Para ele, a subjetividade é produzida historicamente por dispositivos sociais — escolas, prisões, hospitais, discursos científicos — que disciplinam corpos e moldam comportamentos. Surge, então, uma nova escala: da subjetividade disciplinada à subjetividade resistente. O sujeito não apenas é formado, mas também pode reagir, criando fissuras nos sistemas que o constituem.

Ao longo dessas escalas, percebe-se que a subjetividade não é um ponto fixo, mas um campo de tensões. Entre o eu cartesiano e o sujeito fragmentado de Freud, entre as estruturas de Lévi-Strauss e os dispositivos de Foucault, emerge uma compreensão mais complexa: o sujeito é simultaneamente produto e produtor, condicionado e criador, individual e coletivo. Essa multiplicidade revela que não há uma essência única da subjetividade, mas uma rede de relações que se atualiza continuamente.

Por fim, pensar em escalas de subjetividade é reconhecer que a experiência humana se dá em camadas interdependentes. O que sentimos como mais íntimo é atravessado por forças históricas, culturais e inconscientes. O “eu” não é um ponto de partida, mas um ponto de convergência. E talvez seja justamente nessa instabilidade — nesse trânsito constante entre níveis — que reside a condição propriamente humana: ser, ao mesmo tempo, autor e efeito de si mesmo.


terça-feira, 6 de outubro de 2026

O Conservador


Entre a Memória e o Medo do Futuro

Tem uma coisa curiosa sobre o conservador: quase sempre ele começa dizendo que não é contra mudanças — só contra mudanças “rápidas demais”, “mal pensadas” ou “sem raiz”. Parece razoável, até prudente. Afinal, ninguém gosta de ver tudo ruir de uma vez. Mas, se a gente olha mais de perto, percebe que o conservador não está apenas defendendo cautela; ele está, muitas vezes, defendendo uma forma específica de ver o mundo: aquela em que o passado tem mais autoridade do que o futuro.

Em As Ideias Conservadoras, João Pereira Coutinho, nesta obra ele apresenta o conservadorismo não como uma ideologia rígida ou um programa político fechado, mas como uma atitude intelectual marcada pela prudência, pela desconfiança em relação a utopias e pela valorização das instituições construídas historicamente. Dialogando com autores como Edmund Burke, o autor defende que a política deve ser guiada pela consciência dos limites da razão humana e pela importância da tradição como acúmulo de experiência social. Nesse sentido, o conservadorismo não se define pela rejeição absoluta à mudança, mas pela recusa de transformações abruptas que desconsiderem a complexidade do tecido social e as consequências imprevistas da engenharia política. Essa perspectiva serve como ponto de partida para compreender o conservadorismo não apenas como posição ideológica, mas como uma forma de interpretar o tempo histórico, tema desenvolvido no ensaio a seguir a partir de suas expressões filosóficas e sociológicas no contexto brasileiro.

Então, pós resumo do livro que li, me roguei a refletir a minha maneira e com ajuda de alguns pensadores, penso que o conservador é, antes de tudo, um guardião da memória. Mas não qualquer memória — uma memória selecionada, organizada, muitas vezes idealizada. Aqui podemos dialogar com Claude Lévi-Strauss, que via as sociedades como sistemas simbólicos estruturados por mitos e narrativas. O conservador, nesse sentido, atua como um curador desses mitos sociais: ele preserva narrativas que dão sentido à ordem existente.

No Brasil, essa preservação aparece de forma muito concreta. Um exemplo emblemático é a transição do trabalho escravo para o trabalho livre após a Abolição de 1888. Como mostrou Florestan Fernandes, não houve ruptura estrutural real: as elites conservaram seu poder enquanto a população negra permaneceu marginalizada. O conservadorismo, aqui, operou como continuidade disfarçada de mudança.

Outro caso é a Proclamação da República em 1889 — uma ruptura conduzida “por cima”, que manteve as estruturas sociais. Esse padrão reaparece ao longo da história: mudanças institucionais que preservam desigualdades profundas.

No século XX, o Estado Novo de Getúlio Vargas e, mais tarde, o golpe de 1964 mostram o conservadorismo como reação ao medo da desordem. Em ambos os casos, a justificativa foi a defesa da estabilidade — ainda que ao custo da democracia.

Mas é no Brasil recente que essa lógica se torna ainda mais visível.

A crise política que se intensifica após 2023 revela um país dividido entre projetos de futuro e a tentativa de restaurar ordens passadas. A polarização entre campos políticos, especialmente nas eleições de 2026, mostra o conservadorismo como força mobilizadora. A disputa acirrada entre projetos distintos ocorre em meio a desconfiança institucional, crise fiscal e tensões sociais.

Esse cenário não surge do nada. Em 2025, a condenação de um ex-presidente por tentativa de golpe e os desdobramentos dos eventos de 8 de janeiro evidenciaram um conservadorismo que ultrapassa a defesa de tradições e passa a questionar as próprias regras do jogo democrático. Aqui, o conservador deixa de ser apenas um guardião do passado e se torna, em certos momentos, um agente de ruptura — mas uma ruptura paradoxal, que visa restaurar uma ordem idealizada.

Ao mesmo tempo, o debate sobre anistia, redução de penas e propostas como a chamada “PEC da Blindagem” revela um conservadorismo institucional: a tentativa de proteger estruturas de poder diante de ameaças judiciais e políticas. Não se trata apenas de preservar valores, mas de preservar posições.

Outro elemento central é a relação entre conservadorismo e economia. A alternância entre políticas de privatização e modelos de concessão nos governos recentes mostra diferentes formas de lidar com o Estado, mas também evidencia algo comum: a dificuldade de romper com estruturas históricas de desigualdade e dependência. Mesmo quando há mudança de orientação, há continuidade estrutural.

Além disso, crises institucionais envolvendo o Judiciário, debates sobre interferência e desinformação política apontam para um conservadorismo que se manifesta também como desconfiança nas instituições. Nesse contexto, o apelo à ordem pode facilmente se transformar em questionamento das próprias regras democráticas.

Zygmunt Bauman ajuda a entender esse momento: em um mundo de incertezas, o conservadorismo oferece segurança simbólica. No Brasil, essa segurança muitas vezes assume a forma de nostalgia política — o desejo de retornar a um tempo percebido como mais estável, mesmo que esse tempo nunca tenha existido de fato.

Mas o conservador não é apenas um obstáculo. Edmund Burke lembraria que mudanças sem base social podem gerar instabilidade — algo que o Brasil conhece bem. Reformas econômicas, crises fiscais e políticas públicas mal implementadas frequentemente alimentam reações conservadoras.

Ainda assim, a crítica de Marilena Chauí permanece atual: o discurso da ordem pode mascarar desigualdades. Quando a defesa da tradição impede o enfrentamento de problemas estruturais — como desigualdade social, violência ou exclusão — o conservadorismo deixa de ser prudência e se torna bloqueio histórico.

Darcy Ribeiro oferece uma contraposição poderosa: o Brasil como projeto inacabado. Exemplos recentes — como políticas de inclusão social, expansão educacional ou debates sobre justiça social — mostram tentativas de romper com o passado. Mas cada avanço encontra resistência, revelando que o conservadorismo não é apenas uma ideologia, mas uma força estrutural.

Roberto DaMatta sintetiza essa tensão: o Brasil vive entre a “casa” e a “rua”. O conservador privilegia a casa — o conhecido, o seguro, o hierárquico. Mas a democracia exige a rua — o conflito, o debate, a transformação.

No fim, o conservador não é apenas uma figura política, mas uma presença constante na história brasileira — do passado escravocrata às disputas eleitorais contemporâneas. Ele aparece tanto na defesa da ordem quanto no medo da mudança, tanto na preservação da memória quanto na resistência ao futuro.

A questão central permanece: o que estamos tentando preservar — e por quê?

Entre a memória e o medo do futuro, o conservador caminha. No Brasil de hoje, esse caminho passa por crises institucionais, disputas narrativas e incertezas profundas. E talvez o maior risco não seja conservar o passado, mas permitir que ele continue decidindo, sozinho, os limites do que o futuro pode ser.


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Etimologias Estapafúrdias

Linguagem, absurdo e a arqueologia do sentido

Vamos começar sem muita formalidade: você já parou para pensar que, quando diz “trabalho”, está evocando, sem saber, uma máquina de tortura? Pois é. A palavra vem de tripalium, um instrumento romano usado para imobilizar — e, ao que tudo indica, torturar — corpos. E, no entanto, usamos “trabalho” para falar da rotina, do salário, da dignidade. Se isso não é uma etimologia estapafúrdia, o que seria?

Esse tipo de deslocamento não é exceção; é a regra. E é justamente aí que a filosofia encontra um campo fértil. Claude Lévi-Strauss, ao analisar os mitos, mostrou que as estruturas simbólicas não obedecem a uma lógica linear ou transparente, mas a rearranjos, inversões e repetições que escapam ao controle consciente. A linguagem, nesse sentido, funciona como um mito cotidiano: herdamos palavras como herdamos narrativas — sem saber exatamente o que carregam, mas repetindo-as como se fossem naturais.

Mas há algo ainda mais inquietante. Se seguimos Jacques Derrida, o significado nunca está plenamente presente em uma palavra; ele é sempre adiado, deslocado, diferido — o que ele chamou de différance. A etimologia, longe de revelar uma essência original, escancara esse adiamento infinito. Quando voltamos à “origem” de uma palavra, não encontramos um ponto fixo, mas outra camada de linguagem, igualmente instável. A origem, portanto, é uma espécie de ficção retroativa.

Ludwig Wittgenstein, por sua vez, nos oferece outra chave: o significado de uma palavra é o seu uso. Isso parece simples, mas é devastador. Significa que não há garantia metafísica por trás da linguagem — apenas práticas, contextos, jogos. Quando alguém diz “isso não faz sentido”, muitas vezes está apenas dizendo: “isso não se encaixa no jogo que eu conheço”.

Agora, pense em um exemplo banal. Você está numa cafeteria e pede um “café expresso”. A palavra “expresso” sugere algo rápido, comprimido, direto — e de fato é isso que chega: um pequeno gole concentrado. Mas o termo italiano espresso significa literalmente “pressionado para fora”. O que você bebe, então, é algo “espremido”. A experiência sofisticada da cafeteria moderna carrega, escondida, a imagem quase mecânica de extração sob pressão. O refinamento e a brutalidade coexistem na mesma palavra, sem que percebamos.

Outro exemplo ainda mais cotidiano: “salário”. A palavra vem de salarium, uma quantia paga aos soldados romanos para comprar sal — um bem essencial na época. Hoje, quando alguém reclama do salário baixo, dificilmente pensa em sal. No entanto, a ideia de sobrevivência básica ainda ecoa ali, fossilizada. O dinheiro que parece abstrato e digital carrega, em sua origem, o gosto concreto de um mineral.

Essas etimologias não apenas informam; elas desestabilizam. Mostram que aquilo que tratamos como evidente é, na verdade, o resultado de sedimentações históricas arbitrárias. O sentido não nasce puro — ele se acumula, se deforma, se esquece de si mesmo.

É aqui que o “estapafúrdio” ganha estatuto filosófico. Ele deixa de ser apenas o estranho ou o ridículo e passa a ser o sintoma de algo mais profundo: a impossibilidade de fixar o significado. O absurdo não é um acidente na linguagem; é sua condição de possibilidade. Se as palavras fossem perfeitamente coerentes, talvez não pudessem mudar — e, sem mudança, não haveria linguagem viva.

Há também uma implicação existencial difícil de ignorar. Se pensamos por meio de palavras, e se as palavras são esse emaranhado de histórias incoerentes, então nosso próprio pensamento é atravessado por essa instabilidade. Nossas convicções, nossos valores, nossas identidades — tudo isso pode ser visto como uma espécie de “etimologia em andamento”, um processo contínuo de reinterpretação.

Talvez seja por isso que certas descobertas etimológicas provocam riso. Não é apenas humor; é vertigem. Rimos porque percebemos que o chão do sentido não é tão firme quanto imaginávamos. Rimos porque a linguagem, que deveria organizar o mundo, revela-se ela mesma desorganizada.

Levar a sério as etimologias estapafúrdias é aceitar uma espécie de humildade filosófica. É reconhecer que o sentido não nos pertence — nós é que pertencemos a ele, ou melhor, ao seu fluxo instável. Como sugeriria Derrida, nunca chegamos ao ponto final do significado; estamos sempre no meio do caminho.

E talvez isso não seja um problema, mas uma possibilidade. Porque, se o sentido nunca está fechado, ele também nunca está esgotado. A linguagem, com todas as suas estranhezas, continua sendo um campo aberto — onde até o mais estapafúrdio pode, de repente, fazer sentido.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Perseu e Medusa

Entre a espada e o espelho


Tem dias em que eu sinto que a vida me coloca diante de pequenas Medusas invisíveis. Não monstros de serpentes na cabeça, claro, mas aquelas situações que, se eu encarar direto, me paralisam: uma conversa difícil, uma decisão adiada, um medo que vai crescendo em silêncio.

Na mitologia, Perseu não derrota Medusa com força bruta. Ele vence com estratégia — usando o escudo como espelho, olhando indiretamente para aquilo que poderia petrificá-lo. Isso sempre me pareceu menos uma história de batalha e mais uma aula prática sobre como lidar com o que nos assusta.

O perigo de olhar direto demais

Medusa transforma em pedra quem a encara. E, curiosamente, quantas vezes não fazemos isso conosco?

  • Olhamos diretamente para nossos erros e nos congelamos na culpa.
  • Encaramos um problema gigante e ficamos paralisados pela ansiedade.
  • Observamos o julgamento alheio e endurecemos por dentro.

É como se certas verdades, vistas sem mediação, nos imobilizassem. Perseu ensina outra postura: nem fugir, nem confrontar de forma imprudente, mas usar reflexão — literalmente um reflexo.

No cotidiano, isso aparece quando:

  • pensamos antes de reagir numa discussão,
  • analisamos um medo em vez de negá-lo,
  • ou olhamos para nossas próprias falhas com alguma distância, sem transformar tudo em sentença definitiva.

O espelho como sabedoria

Gosto de imaginar uma conversa com um filósofo antigo sobre isso, talvez alguém como Sócrates, que diria algo simples: “o perigo não está apenas no monstro, mas na forma como você o encara”.

O escudo de Perseu é quase simbólico do autoconhecimento. Não é evasão; é lucidez indireta. Às vezes, para compreender algo pesado, precisamos de mediação: uma pausa, um café, uma caminhada, um diálogo honesto.

Eu já percebi isso em coisas pequenas. Quando encaro um problema emocional de frente, com pressa e intensidade, fico rígido. Mas quando reflito sobre ele aos poucos, como quem observa o reflexo em vez do impacto direto, consigo agir sem me petrificar.

Cortar a cabeça do medo (sem virar pedra)

O detalhe mais curioso: depois de derrotar Medusa, Perseu ainda usa a cabeça dela como ferramenta — não para destruir indiscriminadamente, mas como recurso em momentos necessários. Ou seja, aquilo que antes paralisava passa a ser integrado à vida.

Isso lembra algo profundamente humano:

nossos medos não desaparecem completamente; eles se transformam em experiência.

No fundo, a história não fala só de monstros. Fala de maturidade.

De aprender que certas batalhas não se vencem com confronto impulsivo, mas com inteligência emocional, distância reflexiva e coragem silenciosa.

E talvez seja por isso que, nas batalhas mais íntimas do dia a dia, a pergunta não seja “como destruir minhas Medusas?”, mas sim:

“como olhar para elas sem me transformar em pedra?”