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sábado, 6 de dezembro de 2025

Preconceito Intelectual


Eu sempre achei curioso como, na vida cotidiana, a gente convive com um tipo de preconceito que ninguém gosta de admitir que pratica: o preconceito intelectual. Ele não aparece com insultos explícitos, não deixa marcas visíveis e raramente alguém aponta o dedo dizendo “olha, isso aí é preconceito”. Ele é mais sutil, quase elegante, um preconceito que anda de gravata, óculos de armação grossa e uma certa pose de “eu sei das coisas”.

Ele surge quando alguém tenta explicar um assunto simples usando palavras difíceis só para marcar território. Ou quando uma pessoa, diante de algo que nunca leu, afirma com convicção que “não presta” — não porque analisou, mas porque não é do seu repertório. Surge também no trabalho, quando alguém desacredita a ideia do colega “menos instruído”, mesmo antes que a proposta seja apresentada. Preconceito intelectual não julga a ideia: julga quem está pensando.

No fundo, é uma maneira de hierarquizar pessoas por aquilo que supostamente sabem — ou parecem saber. Mas saber não é ostentação; saber é convivência, movimento, curiosidade. Só que, muitas vezes, o conhecimento vira uma arma simbólica para excluir, para humilhar, para diminuir.

A raiz do preconceito: saber como poder

Michel Foucault, em sua eterna briga com as estruturas de poder, lembrava que “todo saber é uma forma de poder”. Não por causa do conhecimento em si, mas porque a sociedade transforma certos saberes em legitimadores de autoridade. E, quando um conhecimento ganha prestígio, automaticamente os que não dominam esse saber são tratados como inferiores. É aí que nasce o preconceito intelectual: não da inteligência, mas do uso social que fazemos dela.

É interessante observar como isso aparece nas profissões. No escritório, a opinião da pessoa com diploma é considerada naturalmente mais válida do que a do funcionário que “só terminou o ensino médio”. O engraçado é que, muitas vezes, o segundo sabe mais da prática e enxerga soluções que o primeiro nunca imaginaria — mas a voz dele vale menos. Não por falta de capacidade, mas por falta de “cartório cultural”.

No cotidiano, pequenas situações mostram esse viés:

– quando alguém ri do sotaque que entrega origem humilde, como se pronúncia anulasse argumento;
– quando olhares de desprezo surgem em mesas onde o “intelectualizado” não admite que o conhecimento popular também é sabedoria;

– quando a pessoa que sabe pouco se cala por medo de parecer “burra”, como se a ignorância fosse uma sentença, e não uma etapa de aprendizado.

O mito da superioridade cognitiva

O preconceito intelectual também impede encontros. Ele cria muros invisíveis entre mundos sociais. Quem se acha intelectualmente superior vive como se estivesse em uma torre, olhando o restante da sociedade de cima — mas sem perceber que a vista lá de cima é limitada, porque só enxerga a perspectiva própria.

A filósofa brasileira Marilena Chaui já alertava que nossa cultura carrega uma “ideologia da competência”: a crença de que só quem domina certos códigos tem direito de falar, participar, ser ouvido. É a ideia de que existe um tipo de pessoa autorizada a ter opinião — e o resto deve obedecer.

Essa crença é perigosa porque transforma conhecimento em um clube exclusivo. E ninguém aprende nada novo dentro de um clube exclusivo; aprende-se na troca, na conversa, no encontro. O preconceito intelectual, portanto, não atrapalha apenas o outro — ele empobrece quem o praticou.

O outro lado: a vergonha intelectual

Existe também o outro lado desse fenômeno: a vergonha de demonstrar conhecimento. É o medo de parecer “metido”, “sabichão”, “intelectual demais”. É como se pensar profundamente fosse um ato proibido, um exagero. Assim, a sociedade cria um paradoxo: despreza quem sabe pouco, mas também reprime quem sabe muito. No meio do caminho, ficamos todos empobrecidos.

Caminhos para romper o ciclo

Lidar com o preconceito intelectual exige uma humildade muito específica: a humildade cognitiva. Não é fingir que não sabe nada, mas admitir que ninguém sabe tudo. Que conhecimento é fluxo. Que toda pessoa — da mais instruída à mais simples — carrega um pedaço do mundo que você não conhece.

A quebra desse preconceito começa quando olhamos para a inteligência do outro sem impor hierarquias. Quando entendemos que existem muitas formas de saber: o saber do livro, o saber da experiência, o saber intuitivo, o saber emocional, o saber artesanal. Nenhum é menor. Nenhum é dispensável.

Aprender é habitar o mundo com menos arrogância

O preconceito intelectual é uma forma silenciosa de violência simbólica. Ele humilha, exclui e diminui, quase sempre sem que percebamos. Mas, ao reconhecê-lo, abrimos espaço para um mundo mais plural, onde o conhecimento deixa de ser instrumento de poder e volta a ser aquilo que deveria ser desde o início: uma forma de convivência.

No fim, talvez a verdadeira inteligência seja esta: a capacidade de aprender sem se sentir superior, e de ensinar sem fazer o outro se sentir menor.

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Passos Constantes

Vou falar sobre persistência, repetição e transformação

 

Tem dias em que parece que nada acontece. Acordamos, fazemos o café, respondemos mensagens, voltamos ao trabalho — e o mundo continua igual. Mas, se olharmos de perto, veremos que o chão sob nossos pés já não é o mesmo. Mesmo o passo repetido sobre a calçada de sempre carrega algo de diferente, mesmo que sutil: uma sensação nova, um pensamento que brota, uma dor que antes não existia. É sobre isso que vou falar aqui — sobre os passos constantes, essas batidas ritmadas que desenham nossa vida sem alarde, mas com profundidade. Então, por que não retornar a este tema como alguém que também observa o passar do tempo, e cada vez que escreve alguma coisa que já escreveu, sinto que muda e/ou já mudou como teria dito Heráclito.

 

A Constância como Ato Filosófico

A modernidade nos ensinou a valorizar a mudança brusca, a inovação disruptiva, os saltos que transformam tudo da noite para o dia. No entanto, há uma filosofia silenciosa que emerge do que permanece. Não do que estagna, mas do que insiste. O passo constante, nesse sentido, não é um hábito automático, mas uma postura de resistência e maturação.

Nietzsche dizia que nos tornamos quem somos através de longas repetições — e não por rupturas. Para ele, o “eterno retorno” não é punição, mas oportunidade: repetir não é apenas repetir, é reencontrar a si mesmo sob novas luzes.

 

Exemplos Cotidianos: Onde Moram os Passos Constantes

1. A mãe que repete gestos silenciosos

Ela acorda antes de todos, prepara o café, organiza a lancheira, põe o uniforme na cadeira. Ninguém vê esse roteiro como algo heroico, mas é nele que se constrói o vínculo, a presença, a sustentação da casa. Ela repete porque ama — e amar, nesse nível, é insistir.

2. O trabalhador que pega o mesmo ônibus

Todos os dias, o mesmo trajeto, o mesmo banco da janela, as mesmas ruas. E, ainda assim, há algo novo: uma música diferente nos fones, uma pessoa nova que senta ao lado, uma paisagem que muda com a luz do dia. O passo constante não é sempre igual — ele permite o surgimento do novo.

3. O terapeuta que escuta as mesmas dores

Em sessões semanais, durante meses ou anos, o psicólogo ouve relatos que parecem repetir-se. Mas nesse movimento de repetição, algo amadurece — uma palavra que antes não era dita, um gesto de compreensão que antes não vinha. A constância aqui é o solo da escuta verdadeira.

4. O estudante que não desiste

Ele não tem talento fácil, não entende rápido, mas continua. Refaz provas, busca ajuda, estuda quando ninguém mais acredita. O mundo gosta dos gênios relâmpago, mas é esse que caminha devagar que carrega uma sabedoria silenciosa: a de não desistir de si.

 

Quando a Constância se Torna Coragem

Seguir em frente, mesmo sem grandes recompensas imediatas, exige coragem. Num mundo de estímulos instantâneos, manter o passo é uma espécie de ato subversivo. É negar a pressa imposta e confiar num tempo mais orgânico, em que os frutos não brotam por exigência, mas por amadurecimento.

Como nos lembra Simone Weil, “a atenção prolongada é a forma mais rara e pura de generosidade”. E atenção é isso: manter-se presente, passo a passo, mesmo quando tudo nos distrai ou convida à fuga.

 

O Olhar de Rubem Alves: Constância como Espera Fecunda

Rubem Alves, educador e pensador brasileiro, falava da educação como um ato de “esperança paciente”. Em seus textos, ele recorria à metáfora do jardineiro: quem planta não tem poder sobre o tempo da colheita, apenas sobre o cuidado diário. A constância, portanto, não é controle — é confiança.

Em seu livro Ostra Feliz Não Faz Pérola, Alves escreve:

“O que nos transforma não são os grandes acontecimentos, mas as repetições pequenas e silenciosas, como o trabalho do tempo sobre a pedra.”

Para ele, os passos constantes são também uma forma de amar: só ama de verdade quem é capaz de permanecer, de repetir gestos aparentemente inúteis, de continuar quando não há aplausos.

 

Filosofia dos Ciclos

Os passos constantes têm a sabedoria das estações. São como as ondas do mar que esculpem a pedra, como o vento que molda a montanha ao longo dos séculos. É por isso que não devemos desprezar o que se repete: ele guarda dentro de si a potência de tudo o que muda.

Se há uma revolução verdadeira, talvez ela esteja menos nos gritos e mais na persistência de quem faz o que precisa ser feito, mesmo quando ninguém vê.

 

Epílogo: O Poder de Continuar

Se o mundo de hoje celebra o instantâneo, talvez devêssemos reaprender o valor do demorado. Dos processos. Das escadas em vez dos elevadores. Dos livros relidos, das amizades cultivadas, das ideias maturadas com o tempo.

A vida não é feita apenas de clímax — mas de passagens discretas, de pequenos avanços quase invisíveis. E talvez a filosofia dos passos constantes seja essa: viver não como quem corre atrás de tudo, mas como quem caminha fielmente com aquilo que importa.

Há uma beleza modesta e poderosa em continuar. Em não desistir. Em repetir os passos, não como quem gira em círculos, mas como quem sobe uma espiral invisível. Os passos constantes não são estáticos — eles são discretamente ascendentes.
E é neles que mora a verdadeira transformação.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Blindagem do Poder

Reflexões Sobre a PEC e a Responsabilidade Coletiva

A sensação é estranha: ligar o noticiário e descobrir que aqueles que deveriam ser os guardiões da lei estão discutindo como criar um escudo contra ela. A PEC da Blindagem, recém-aprovada na Câmara, promete ser um divisor de águas — mas talvez não do jeito que gostaríamos. Não é preciso ser um especialista para perceber que algo se move quando o Legislativo decide quem pode ou não ser processado, e ainda faz isso atrás de um voto secreto. É como se os bombeiros, antes de apagar o fogo, se reunissem para decidir se o incêndio merece ser combatido.

Do ponto de vista filosófico, essa é uma excelente oportunidade para revisitar uma velha questão: o poder deve proteger quem o exerce, ou proteger a sociedade de quem o exerce mal? Jean-Jacques Rousseau, no Contrato Social, nos lembra que o soberano (o povo) delega poder aos representantes não para que estes se blindem, mas para que cumpram a vontade geral. Quando a blindagem vira excesso, o contrato é rompido e a confiança coletiva se esgarça.

A PEC, portanto, nos coloca diante de um dilema moral: queremos instituições fortes ou representantes intocáveis? Quem defende a proposta diz que ela impede perseguições políticas — argumento válido, especialmente em tempos de radicalização e instrumentalização do Judiciário. Mas o problema está na amplitude: a blindagem não distingue bem o ato político do ato criminoso. Se um parlamentar comete um crime comum, como corrupção ou homicídio, é razoável que seus pares decidam se ele será julgado?

Aqui entra um ponto que gosto de chamar de ética do espelho. Quanto mais perto alguém está do poder, mais visível deve ser sua conduta. Uma democracia saudável não teme a luz: ela precisa dela. Quando o voto para autorizar investigações é secreto, a relação se inverte — o cidadão passa a viver no escuro, e quem deveria ser transparente se oculta. É o que Michel Foucault chamaria de “inversão do panóptico”: o vigiado passa a vigiar o vigilante.

Críticos da PEC têm razão ao temer a impunidade. No Brasil, onde a confiança nas instituições já é frágil, criar mais barreiras ao julgamento de autoridades pode gerar cinismo social e afastar ainda mais o povo da política. A democracia se sustenta na participação, mas também na prestação de contas. Se os representantes se tornam inalcançáveis, o contrato social se desgasta.

Em última análise, o que a PEC da Blindagem revela é que o Legislativo se sente acuado — e reage criando fortificações. Mas talvez a solução não seja erguer muros, e sim abrir as janelas. Rousseau provavelmente diria que uma sociedade livre não teme processar quem erra, desde que o processo seja justo. A verdadeira blindagem do Parlamento deveria ser a sua legitimidade, não o seu isolamento.


domingo, 14 de setembro de 2025

Servidão Voluntária

O paradoxo da liberdade consentida

É um enigma inquietante da condição humana: por que tantos se submetem sem coação física, entregando sua autonomia a líderes, sistemas ou ideias que os limitam? A “servidão voluntária” parece uma contradição — como pode a escravidão ser uma escolha? Étienne de La Boétie, ainda no século XVI, enxergou com clareza esse fenômeno. Em seu Discurso da Servidão Voluntária, ele observa que o poder de um tirano depende apenas da obediência de seus súditos: “Se nada lhes for dado, se não forem obedecidos, sem combate, sem violência, ele fica nu e despido, e se dissolve.”

A inovação desse pensamento repousa no deslocamento da crítica: o problema não está só no tirano, mas na disposição coletiva de se submeter. La Boétie antecipa o que hoje vemos em tantas formas de dominação consentida — do culto às celebridades ao consumismo, das bolhas ideológicas à dependência de plataformas digitais. É a liberdade transformada em performance, onde escolhemos a submissão para evitar o desconforto da responsabilidade de decidir por nós mesmos.

Espiritualmente, esse paradoxo já havia sido intuído por São Francisco de Assis, quando dizia que “o homem só é verdadeiramente livre quando nada mais possui”. A servidão voluntária nasce, muitas vezes, do medo de perder — prestígio, conforto, identidade. Preferimos acorrentar-nos a garantias frágeis do que enfrentar o vazio libertador da escolha.

Reverter a servidão voluntária não exige revoluções externas, mas um despertar interno: perceber que obedecer é, antes de tudo, um ato — e, portanto, uma escolha. Como propôs La Boétie, basta “não querer mais” para que o poder opressivo se esvazie.

Essa é a subversão mais radical: descobrir que a liberdade não se conquista, mas se recusa a servidão.


quinta-feira, 31 de julho de 2025

Leviatã e o Poder

Quando o monstro nos representa

 

Há dias em que basta assistir a uma sessão do parlamento ou a uma reunião de condomínio para que a gente entenda por que alguém, em algum momento da história, pensou ser melhor concentrar o poder nas mãos de um único soberano do que deixar todo mundo decidir tudo junto. Em meio ao caos cotidiano, à gritaria dos interesses e à vontade desencontrada das pessoas, surge a pergunta: quem vai nos proteger de nós mesmos? Foi com esse dilema que Thomas Hobbes criou a imagem do Leviatã, uma espécie de monstro político formado pela soma de todos nós.

 

O monstro necessário

O nome vem de uma criatura bíblica, um ser gigantesco das profundezas, incontrolável, assustador. Mas Hobbes não o invoca para aterrorizar — ao contrário, para proteger. Em seu livro Leviatã (1651), ele defende que, sem um poder soberano que concentre as decisões, a humanidade mergulha no estado de natureza, onde todos vivem em guerra contra todos. Ali, segundo ele, a vida é “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”.

Hobbes parte de um princípio pessimista, mas realista: os seres humanos são movidos pelo medo, pela autopreservação e pelo desejo de poder. Nesse cenário, um contrato social é necessário — um pacto em que todos abrem mão de parte de sua liberdade em troca de segurança. E o Leviatã, o soberano absoluto, é quem garante a ordem e o cumprimento desse pacto. Ele não é eleito para ser simpático, mas para impedir que o mundo vire um campo de batalha de interesses.

 

O Leviatã nos dias de hoje

O problema é que, ao longo da história, o Leviatã cresceu. Em vez de ser apenas um protetor contra o caos, muitas vezes se tornou um opressor. O que era para proteger, passou a sufocar. E o que era para unir, passou a dividir. A crítica contemporânea aponta: quando o Estado concentra demais, torna-se também o autor da violência — e não seu antídoto. Pensadores como Michel Foucault vão mostrar que o Leviatã moderno não só reprime, mas molda, disciplina, define quem somos. O monstro já não nos protege apenas: ele nos fabrica.

Mas o mais inquietante talvez seja pensar que o Leviatã não é um ser externo. Ele é composto pelos corpos dos cidadãos. Cada decisão nossa, cada medo que temos, cada vez que pedimos mais segurança e menos liberdade, estamos alimentando o monstro. Ele cresce com a nossa delegação. E é aqui que o pensamento de Hobbes se atualiza de forma perturbadora: o Leviatã é o espelho do nosso desejo de ordem — mesmo quando isso nos custa autonomia.

 

Nietzsche, o Leviatã e a vontade de poder

Nietzsche, que rejeitava tanto o Estado quanto qualquer instância que se colocasse como verdade absoluta, provavelmente olharia para o Leviatã com desprezo e ironia. Em Assim falou Zaratustra, ele escreve: “O Estado é o mais frio de todos os monstros frios. Ele mente friamente; e esta é a mentira que escapa de sua boca: 'Eu, o Estado, sou o povo'.” Para Nietzsche, o Leviatã hobbesiano representa a negação da vontade individual, da potência criadora de cada ser humano. É uma máquina de mediocridade, de nivelamento, de obediência.

Se Hobbes acha que o Leviatã é a salvação contra o caos, Nietzsche vê no caos a chance de criação, de superação, de liberdade autêntica. O Leviatã, com sua promessa de segurança, paralisa o impulso vital. Ele evita o pior, sim, mas também impede o melhor.

 

E se o Leviatã estiver dentro de nós?

A grande virada filosófica pode estar em perceber que o Leviatã não é só uma metáfora do Estado. Ele também representa nossa própria tentativa de nos dominar. Criamos regras internas, repressões, identidades rígidas para dar conta do medo que temos de nós mesmos. Talvez o maior Leviatã não seja o governo nem a autoridade externa, mas aquela voz que diz “seja produtivo”, “seja normal”, “obedeça”.

Por isso, pensar o Leviatã hoje é refletir sobre o equilíbrio entre proteção e liberdade, ordem e potência, segurança e criação. E talvez, mais importante ainda, é perceber que o monstro que nos governa também é feito de nossas escolhas, nossos silêncios e nossas entregas.


terça-feira, 22 de julho de 2025

Armadilha dos Fracos

...segundo Nietzsche

 

Você já reparou como, às vezes, as pessoas mais frágeis são as que mais manipulam? Não com força, não com argumentos, mas com uma espécie de chantagem emocional que prende os outros em culpa, dever ou piedade. É aquela tia que vive doente e sempre faz você se sentir mal por não visitá-la mais. É o colega de trabalho que parece inofensivo, mas sabota silenciosamente todo projeto que o faz se sentir ameaçado. Essas pessoas não são más no sentido clássico. Mas criam armadilhas. Nietzsche as conhecia bem. E talvez tenha sido um dos primeiros a nomear essas estratégias com a clareza de quem entende que a moral também pode ser uma tática de guerra — dos fracos contra os fortes.

 

A armadilha como invenção da fraqueza:

Nietzsche, especialmente em obras como A Genealogia da Moral e Além do Bem e do Mal, faz uma distinção fundamental entre a moral dos senhores e a moral dos escravos. Para ele, os fortes — aqueles que criam valores a partir de sua potência vital — são espontâneos, afirmativos, agem. Já os fracos, ressentidos pela impossibilidade de exercer sua vontade de poder, constroem valores reativos: negam, condenam, moralizam.

A armadilha dos fracos, portanto, é um sistema de valores baseado no ressentimento. Ao não poderem ser fortes, erguem como virtudes aquilo que os protege: humildade, obediência, piedade, sofrimento. E mais: fazem com que os fortes se sintam culpados por sua própria força. Criam uma moral que aprisiona. E quem não se enquadra, é tido como cruel, egoísta, “sem compaixão”.

 

Ressentimento e poder invertido:

Nietzsche vê com clareza: o fraco não quer igualdade, quer inversão. Quer que o forte se curve, peça desculpas, peça permissão para viver sua potência. O ressentido — diz ele — é perigoso porque sua alma gira em torno da vingança. E sua vingança é moral. A religião, segundo Nietzsche, foi uma das formas mais eficazes dessa armadilha: “Bem-aventurados os pobres de espírito”, diz o Sermão da Montanha. Mas, no fundo, essa beatitude é uma inversão rancorosa: como não posso ser grandioso, direi que os grandiosos são pecadores. E esperarei, com fervor disfarçado, que caiam.

 

A compaixão como faca de dois gumes:

Nietzsche não condena a compaixão como emoção ocasional, mas sim como moral organizada. Uma moral baseada na compaixão constante aprisiona. “Cuidado com os que sofrem demais”, diria ele, “porque eles usam o sofrimento como cetro”. A armadilha está no uso estratégico da dor. Quem sofre vira santo, e quem vive intensamente vira monstro.

Isso se reflete em muitos contextos contemporâneos. A política do vitimismo, os discursos que transformam todo conflito em opressão unilateral, o uso da dor como moeda social. Tudo isso são formas modernas da armadilha dos fracos. E mais: são formas de capturar a energia dos fortes, culpabilizando-os por simplesmente existirem com potência.

 

O filósofo comenta: Clóvis de Barros Filho

Clóvis de Barros, ao refletir sobre o pensamento de Nietzsche, alerta: “O que Nietzsche nos convida é a assumir nossa responsabilidade ética sem delegar isso a códigos prontos”. Isso significa que, ao identificar a armadilha dos fracos, não devemos cair na armadilha oposta — do desprezo puro e simples. O desafio é maior: viver com autenticidade sem cair na culpa, ajudar sem ser manipulado, reconhecer o sofrimento alheio sem torná-lo centro moral absoluto.

 

A armadilha dos fracos, segundo Nietzsche, não é apenas uma denúncia — é um chamado à lucidez. Viver exige força, mas também exige clareza sobre as forças que nos cercam. Nem todo fraco é vil, mas quando a fraqueza se organiza como poder moral, ela se torna uma prisão. E escapar dessa prisão talvez seja o maior desafio ético do nosso tempo. Porque ser livre, como Nietzsche diria, é também ter coragem de carregar o peso da própria grandeza — sem se curvar às pequenas morais do ressentimento.


quinta-feira, 10 de julho de 2025

Éthos e Hegemonia

Quando o jeito de ser vira lei

Já parou para pensar por que, em certos grupos, um jeito de falar, vestir, agir ou até mesmo pensar parece “natural”, enquanto outros modos são vistos como estranhos ou errados? Por que certas ideias, valores e estilos de vida dominam a cena social, como se fossem a única forma “correta” de existir?

É aqui que entram dois conceitos poderosos — éthos e hegemonia — que, juntos, explicam como o poder se infiltra no cotidiano, moldando não só nossas instituições, mas a própria alma das comunidades.

Éthos vem do grego e significa algo como “caráter” ou “modo de ser”. Não é apenas um traço individual, mas o espírito coletivo que orienta o comportamento e as crenças dentro de um grupo. É o pano de fundo que faz com que certas atitudes pareçam “normais” ou até “virtuosas” para quem está dentro daquele universo.

Já hegemonia é uma ideia central na obra do pensador italiano Antonio Gramsci. Para ele, a hegemonia não é apenas dominação por força, mas o domínio cultural e ideológico — quando uma classe ou grupo social consegue fazer com que sua visão de mundo seja aceita como universal e legítima. Essa hegemonia se espalha pelo éthos coletivo, naturalizando o poder e ocultando as relações de opressão que o sustentam.

Na prática, pense nas escolas, na mídia, nas redes sociais. Elas ajudam a construir o éthos dominante: a “forma correta” de ser cidadão, consumidor, trabalhador, jovem, mulher ou homem. O que Gramsci mostra é que o poder não depende só da repressão, mas da capacidade de convencer as pessoas a “querer o que é necessário” para manter a ordem vigente.

Essa dinâmica aparece claramente nas narrativas sobre meritocracia, por exemplo — a ideia de que quem trabalha duro sobe na vida e merece seu lugar. Quem não consegue, supostamente, falhou por incompetência própria. Essa crença está tão entranhada no éthos social que poucas vezes é questionada, mesmo que esconda desigualdades estruturais.

O éthos hegemonicamente construído também pode ditar padrões de beleza, comportamento e até mesmo linguagem, criando grupos de exclusão e marginalização. Quem foge desses padrões pode ser visto como “fora do lugar”, “anormal” ou “rebelde”. Mas, justamente aí reside a possibilidade da transformação social: contestar o éthos dominante é um passo para desestabilizar a hegemonia.

Hoje, um campo onde o éthos hegemônico aparece de forma cristalina é nas redes sociais. Plataformas como Instagram e TikTok estabelecem padrões estéticos, estilos de vida e formas de comunicação que rapidamente se tornam “normais” e desejáveis. Influenciadores e marcas moldam gostos e comportamentos, fazendo com que milhões sigam tendências sem perceber que estão reproduzindo um modo de ser imposto — um éthos digital que valoriza a performance, o consumo e a aprovação social.

Mas também surgem resistências: movimentos sociais, como o Black Lives Matter ou os coletivos LGBTQIA+, desafiam os éthos dominantes ao reivindicar novos modos de ser e existir que rompem com padrões tradicionais. Eles buscam criar uma contra-hegemonia, propondo um éthos mais plural, inclusivo e crítico das desigualdades.

No ambiente corporativo, o éthos hegemônico é visível nas culturas organizacionais que valorizam competitividade, produtividade e conformidade. A ideia do “funcionário ideal” muitas vezes se traduz num padrão de comportamento que exclui quem não se encaixa, seja por gênero, raça, estilo ou crenças. A contestação a esses padrões internos pode gerar conflitos, mas também impulsiona debates sobre diversidade e inclusão — justamente um esforço para alterar o éthos dominante e, com isso, a hegemonia cultural dentro das empresas.

Gramsci acreditava que os grupos subalternos precisavam criar sua própria “contra-hegemonia” — uma nova cultura e um novo éthos que questionem o status quo e ampliem o sentido de liberdade e justiça. Essa luta é constante, feita nas pequenas batalhas diárias de percepção, linguagem e comportamento.

Por isso, pensar em éthos e hegemonia é olhar para o poder não só como algo que impõe de fora, mas que vive e se reproduz dentro de cada um de nós. É um convite para refletir sobre quais modos de ser estamos adotando e por quê — e se eles realmente nos pertencem ou foram impostos.

No fim das contas, o éthos é o palco onde a hegemonia dança — e só compreendendo essa dança é que podemos escolher se queremos ser os dançarinos oficiais ou inventar uma nova coreografia.


quarta-feira, 2 de julho de 2025

Essencialismo

 

Estava aqui pensando: ainda somos o que nascemos para ser?

A gente costuma ouvir desde pequeno que certas pessoas "nasceram para aquilo". Tem gente que "já nasceu líder", "tem o dom do cuidado", ou "é artista desde o berço". E o curioso é que, às vezes, a própria pessoa acredita nisso também. Mas será mesmo que existe algo em nós que já vem pronto, desde sempre? Algo essencial que define quem somos, o que queremos, e como devemos viver? Foi pensando em uma conversa sobre profissões que não combinam com a pessoa, sobre jeitos de ser que "não têm nada a ver com ela", que o tema do essencialismo me voltou à cabeça.

Na filosofia, o essencialismo é essa ideia de que as coisas — inclusive as pessoas — têm uma essência fixa e imutável. Que há algo dentro de nós, anterior a qualquer escolha, que determina o que somos de verdade. É uma noção antiga, com raízes em Platão e Aristóteles. Para Platão, existiria um mundo das ideias perfeitas, e tudo que vemos é uma cópia imperfeita daquilo. Para Aristóteles, cada ser tem uma essência que define seu propósito: a semente tem a essência da árvore, o cavalo tem a essência de correr, o ser humano, a de pensar.

Mas o essencialismo não ficou lá na Grécia Antiga. Ele atravessa os séculos e se esconde nas frases que repetimos no dia a dia: "mulher que é mulher cuida da casa", "homem que é homem não chora", "você não nasceu pra isso". Ou seja, usamos a ideia de essência pra justificar o que as pessoas podem ou não podem ser. E isso pode ser bem limitador.

O essencialismo também aparece com força nos debates sobre cultura, imigração e emigração. Quando se diz, por exemplo, que “o brasileiro é naturalmente caloroso” ou que “o europeu é frio por essência”, estamos usando uma lente essencialista para descrever comportamentos que, na verdade, são históricos, sociais e aprendidos. Esse tipo de visão pode ser perigoso, pois congela culturas em estereótipos e dificulta o acolhimento de quem migra. Um imigrante é, muitas vezes, visto como alguém que “não pertence”, como se fosse impossível ele se adaptar sem “trair sua essência”. Já quem emigra pode sofrer cobranças para “não esquecer suas raízes”, como se fosse errado mudar. O essencialismo cultural alimenta fronteiras invisíveis, mesmo quando os passaportes dizem que a viagem foi feita. Entender que identidades culturais são flexíveis e híbridas permite que pessoas vivam o que são hoje, sem serem prisioneiras do que se espera que sejam.

As questões de gênero também são fortemente atravessadas pelo pensamento essencialista. Quando se diz que homens são naturalmente racionais e mulheres, naturalmente emocionais, está se ignorando o papel das construções sociais e das expectativas culturais. Crianças são criadas com brinquedos, roupas e ideias diferentes desde o berço, e depois essas diferenças são lidas como “naturais”. Pior: pessoas trans ou não-binárias muitas vezes são vistas como “contra a natureza” simplesmente porque não se encaixam nos padrões fixos do que se supõe ser um homem ou uma mulher. Mas o gênero, como tantas outras dimensões da vida humana, pode ser visto como uma experiência vivida, múltipla e fluida, e não como algo pré-definido por um manual biológico. Questionar o essencialismo de gênero é abrir espaço para mais liberdade, mais respeito e mais possibilidades de ser.

O existencialismo, especialmente com Jean-Paul Sartre, vai criticar essa visão. Para ele, a existência vem antes da essência. Ou seja, nós não temos uma essência pronta — nós a construímos com nossas escolhas. Não há um “ser mulher” ou “ser homem” dado por natureza, mas um tornar-se. Simone de Beauvoir diria: “Não se nasce mulher: torna-se mulher”. Aqui, a liberdade entra em cena. Somos responsáveis pelo que fazemos com o que fizeram de nós.

No cotidiano, pensar fora do essencialismo significa permitir que uma menina queira ser mecânica e que um menino possa gostar de balé sem que ninguém diga que “isso não combina com ele”. É aceitar que alguém pode mudar de carreira aos 50 anos, ou que uma pessoa tímida pode se tornar uma excelente oradora. O perigo do essencialismo é que ele parece inocente, mas acaba sustentando preconceitos, desigualdades e até violências.

O filósofo contemporâneo brasileiro Vladimir Safatle chama atenção para como o essencialismo serve muitas vezes para conservar estruturas de poder:

“Toda vez que alguém disser que algo é da ‘natureza humana’, é bom desconfiar — essa frase costuma ser o fim da conversa e o início da dominação.”

Nas redes sociais, o essencialismo ganha uma vitrine global e um microfone potente — ali, traços individuais ou culturais são frequentemente reduzidos a rótulos rápidos e julgamentos prontos: “isso é típico de mulher”, “isso é coisa de latino”, “fulano tem alma de artista”, como se um vídeo curto ou uma frase de efeito revelasse a essência profunda de alguém. Nesse palco planetário, onde bilhões se observam em tempo real, o essencialismo é reforçado pelos algoritmos que preferem identidades fixas e previsíveis, fáceis de segmentar e vender. O perigo é que, sob o pretexto da autenticidade, muitos acabam encenando versões de si mesmos que se encaixem nas expectativas do público — virando personagens de uma essência construída para ser consumida.

Desconfiar do essencialismo não significa negar que temos traços, preferências, temperamentos. Mas significa entender que isso tudo é matéria viva, que muda com o tempo, com os encontros, com as experiências. Talvez não sejamos aquilo que nascemos para ser — talvez sejamos aquilo que ousamos construir em nós mesmos.

E isso é tão mais libertador, não?

domingo, 29 de junho de 2025

Sem Escrúpulos

Estas são reflexões de muitos domingos! Parece até uma colcha de retalhos, mas pensamento é assim mesmo! Os retalhos das notícias do cotidiano vão sendo guardados no Palácio da Memória, lembrei de Santo Agostinho em sua jornada de reforma intima, sem deixar de olhar para o mundo em que vivia!

Então, vamos lá!

...quando a moral deixa a mesa de decisões!

Há governos que governam, e há governos que operam — friamente, como máquinas calculistas. A diferença entre um e outro não está apenas na eficiência ou no carisma dos líderes, mas, sobretudo, na presença ou ausência de escrúpulos. Um governo sem escrúpulos é aquele que já não sente o incômodo do erro, não hesita diante do injusto, não recua diante do sofrimento causado. É como se sua bússola moral estivesse desmagnetizada. O governo muda de mão, mas não muda.

No cotidiano, vemos sinais disso nos pequenos absurdos: filas intermináveis nos hospitais públicos, salários atrasados de professores, licitações misteriosas, orçamento secreto, fraudes na previdência. Mas a falta de escrúpulo se revela, sobretudo, na forma como o poder se blinda da dor alheia. A máquina segue funcionando, mesmo quando passa por cima de pessoas.

Há governos que se movem com base em ideias, e outros que se arrastam empurrados por interesses. Mas os mais perigosos são aqueles que já não sentem mais incômodo moral — governos sem escrúpulos, que perderam a capacidade de hesitar diante do erro, que naturalizaram o injusto, que blindaram a consciência. O problema não é só de política: é de alma.

A política cotidiana nos mostra isso nos detalhes: a escola que não tem teto, o hospital sem médico, a comida que não chega ao prato. E no entanto, os recursos existem — só estão presas em orçamentos secretos (se é secreto é imoral), verbas bilionárias a título de fundo partidário, direcionados por parlamentares que se comportam como donos do país. Essa prática é talvez o retrato mais cristalino de um governo sem escrúpulos: verbas públicas distribuídas longe dos olhos do povo, guiadas não pela necessidade social, mas por conveniências eleitorais e alianças silenciosas. O dinheiro, que deveria ir para o bem comum, é canalizado como moeda de poder. Sem falar na centralização de impostos nas mãos de governos corruptos e incompetentes.

O filósofo Immanuel Kant, em sua ética do dever, falava que devemos tratar os outros sempre como fins, nunca como meios. Um governo sem escrúpulos faz exatamente o contrário: transforma vidas em estatísticas, pessoas em obstáculos, comunidades em ruídos. O cálculo utilitário substitui o juízo moral. Há um descolamento entre o poder e o povo — como se governar fosse uma ciência fria, livre de dilemas.

Maquiavel, no O Príncipe, descreve uma política onde a virtude está na manutenção do poder, não na bondade. Mas mesmo ele, tão associado à frieza política, reconhecia que o governante deveria parecer virtuoso. O problema do governo sem escrúpulos é que ele não se dá mais ao trabalho de parecer justo — ele apenas exerce o poder como quem está acima de qualquer lei moral.

A ética da responsabilidade, defendida por Max Weber, desaparece quando não há transparência. Quando os joelhos que se dobram diante de Deus, o fazem apenas para rezar pelos próprios interesses, estamos diante de uma espiritualidade esvaziada. Uma encenação sagrada ao serviço do poder profano. Dobra-se o joelho, mas não o orgulho; faz-se o sinal da cruz, mas não se cruza com o outro.

Esse uso político de Deus, comum em governos sem escrúpulos, não é fé — é estratégia. É como se até a religião fosse incorporada ao orçamento secreto da consciência. A sacralidade vira cenário, a oração vira retórica, e a humildade dá lugar ao marketing. Tudo se torna instrumento.

Hannah Arendt, ao refletir sobre o mal burocrático, nos alerta sobre o “mal sem maldade” — aquele que age sem pensar, que cumpre ordens, que se esconde por trás de normas e processos. O governo sem escrúpulos se nutre dessa mesma lógica: tira o rosto do mal, apaga a assinatura das injustiças, e nos diz que “é assim mesmo”.

Talvez o mais preocupante seja o acostumar-se com esse tipo de governo. Quando a população começa a achar normal a injustiça, quando o cinismo toma o lugar da esperança, o escrúpulo vira fraqueza. A política vira espetáculo, e a moral, um incômodo a ser ridicularizado.

Mas é exatamente aí que a filosofia resiste. Escrúpulo não é fraqueza — é humanidade. Um governo sem escrúpulos pode até parecer eficiente por um tempo, mas constrói ruínas invisíveis: o medo, o silêncio, a indiferença. Governar com escrúpulos é ouvir as consequências antes de tomar a decisão. É lembrar que por trás de cada lei, há vidas.

Além do orçamento secreto, outro sintoma de um governo sem escrúpulos é o aumento constante de impostos sem qualquer esforço real para cortar despesas públicas. A conta recai, como sempre, sobre quem trabalha e produz, enquanto os privilégios permanecem intocados. Não há coragem para enfrentar os gastos inchados do Estado, nem vontade política para cortar na própria carne. Em vez disso, o Executivo se curva à lógica do "toma-lá-dá-cá" do Congresso, alimentando uma classe parlamentar viciada em emendas, cargos e favores. A máquina pública segue ineficiente, mas o cidadão é quem paga a conta — sem direito a indignação, como se financiar a inércia fosse um dever patriótico. A submissão do governo a esse sistema corrupto de trocas silenciosas revela não apenas fraqueza administrativa, mas uma renúncia ética: governar já não é enfrentar os interesses, mas servi-los em silêncio.

O suor do trabalhador é como água benta do sacrifício, vidas vem e vão, numa circularidade interminável e insuportável, até Sísifo não aguentaria tamanha crueldade desta cobrança interminável de impostos injustos. Quando ainda conseguimos empurrar a pedra montanha acima é porque ainda a suportamos, mas e quando o esforço estiver além de suas forças? Seremos atropelados pela pedra, esmagados pela insensibilidade, corrupção e incompetência daqueles (governos) que entregam as pedras para serem movidas montanha acima.

No fim das contas, o escrúpulo — esse pequeno desconforto da consciência — é o que ainda nos humaniza. Ele nos faz pensar duas vezes, recuar, questionar. Um governo que não tem escrúpulos não erra menos: erra mais, e com orgulho. E o mais perigoso: passa a ensinar que o erro é o caminho normal.

Talvez seja hora de lembrar que governar é, antes de tudo, um ato moral. E que joelho que se dobra apenas por conveniência jamais sustentará de pé uma nação justa.

E quando em meio à impopularidade crescente, os governos recorrem a esforços populistas pontuais, como reajustes de benefícios, programas emergenciais e discursos inflamados, tudo cuidadosamente cronometrado para melhorar os índices de aceitação às vésperas das eleições. Não se trata de política pública estruturada, mas de marketing disfarçado de sensibilidade social. O povo vira plateia de um teatro onde o foco não é o bem comum, mas a manutenção do poder a qualquer custo.

Muitas vezes penso no episódio dos 40 anos de caminhada do povo judeu no deserto após a saída do Egito, é um dos mais poderosos símbolos de renovação através do sacrifício. Deus não levou o povo diretamente à Terra Prometida; antes, permitiu que uma geração inteira morresse no deserto, para que apenas os nascidos na liberdade pudessem entrar na nova terra. Foi uma purificação histórica e espiritual: os que haviam sido formados na lógica da escravidão não estavam preparados para a responsabilidade da liberdade. Assim, o deserto se tornou metáfora da travessia dolorosa que separa o velho do novo, e o sacrifício, condição para que um povo inteiro se reconstruisse com valores diferentes dos que o oprimiam. É um lembrete de que mudanças verdadeiras muitas vezes exigem tempo, perdas e desapego do passado — inclusive daqueles que, embora libertos, ainda pensavam como servos. Será preciso todos irmos para o deserto?

Este texto nasceu de um desabafo diante do cansaço cívico — da sensação de estar preso em um ciclo repetitivo onde a injustiça se organiza, a corrupção se adapta e a moral se cala. Não é apenas indignação com um governo, mas com um sistema que normalizou o erro, premia a esperteza e pune a consciência. Falar sobre isso é uma tentativa de não adoecer em silêncio.

E como dizia Simone Weil:

“A atenção verdadeira é rara e é um ato de amor.”

Um governo escrupuloso é aquele que ainda presta atenção.

Afinal, O governo muda de mãos, mas ele não muda. Que país é esse?

Link no Youtube da música “Que país é esse” do lendário Legião Urbana:

https://www.youtube.com/watch?v=CqttYsSYA3k

sábado, 31 de maio de 2025

O Príncipe Eletrônico

O Príncipe na Era dos Espelhos: Ensaio filosófico-sociológico

Vivemos em um tempo em que as sombras projetadas na caverna platônica não são mais criadas pelo fogo, mas pelas telas. A alegoria do conhecimento foi invertida: sair da caverna não significa mais encontrar a luz, mas perder audiência. É nesse mundo invertido que o sociólogo Octavio Ianni publica, em forma de livro, O Príncipe Eletrônico (1996), uma das suas obras mais instigantes.

Não se trata apenas de um texto, mas de um livro ensaístico e provocador, que propõe uma releitura da clássica obra O Príncipe, de Maquiavel, sob a luz das transformações tecnológicas e midiáticas da modernidade tardia. Aqui, Ianni não fala de um governante renascentista, mas de um novo soberano: o líder midiático, moldado e mantido por sua presença nas telas.

O novo Príncipe: entre Maquiavel e o marketing

Ianni não é apenas um sociólogo. Ele é um leitor de Maquiavel em tempos de TV, um cartógrafo da metamorfose do poder. Em vez de espada ou tinta, o novo príncipe governa por pixel. A pergunta central de Maquiavel — "como o príncipe deve agir para manter o poder?" — é transformada por Ianni em: "como o príncipe deve se mostrar para não desaparecer do imaginário coletivo?"

A mídia, para Ianni, não é apenas um canal. É o novo terreno da política. Se Maquiavel escreveu para um tempo em que o poder era construído no campo de batalha, Ianni escreve para uma era em que o poder se decide no intervalo comercial, na construção de uma imagem palatável, reciclável e viralizável. O príncipe, hoje, precisa mais de um marqueteiro do que de um estrategista militar.

Política como espetáculo, poder como imagem

Mas há algo de profundamente filosófico nesse diagnóstico sociológico. Quando Ianni afirma que a imagem precede a essência, ele se aproxima de Baudrillard e da ideia de simulacro. O príncipe eletrônico não representa mais nada; ele é a representação. Ele não precisa ter virtù nem fortuna, como queria Maquiavel — precisa ter ibope.

O cidadão também muda de papel. Não é mais o súdito que teme, nem o cidadão que delibera. Ele se torna o telespectador, o "curtidor", o "engajador", o "compartilhador". Sua relação com o poder é mediada por afeto e espetáculo, não por ideologia. O príncipe eletrônico seduz, emociona, diverte — e por isso governa. A política vira performance; a crítica, desmonetização.

No fundo, o que Ianni nos mostra é a estetização do poder. E isso, como lembrava Walter Benjamin, é um prenúncio do fascismo: a substituição da participação política pelo consumo estético da política.

O pensamento de Ianni: poder, cultura e subjetividade

Ianni é inovador porque pensa o poder como forma cultural. Ele mostra que não se trata apenas de quem manda, mas de como se conta quem manda, e em que linguagem se faz essa contagem. O poder torna-se narrativa, o Estado torna-se estúdio, e a política, uma série de episódios cuja continuidade depende da aprovação do público.

Há, então, um paradoxo: quanto mais democrático o acesso à imagem, mais concentrado o poder de sua manipulação. Os muitos podem produzir, mas poucos conseguem emplacar. O príncipe é eletrônico, mas seu trono ainda é reservado.

Entre Maquiavel e os algoritmos

Octavio Ianni não escreveu um tratado de fim de época, mas de início de outra. Sua leitura é um convite a repensar não só a política, mas também a subjetividade e o desejo de reconhecimento em tempos digitais. O príncipe eletrônico não governa apenas sobre a polis, mas sobre a psique. E seu reinado persiste enquanto confundirmos presença com prestígio, visibilidade com verdade, e curtida com convicção.

Talvez, mais do que nunca, precisemos reler Maquiavel com Ianni ao lado — e o controle remoto bem longe.

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Espelho Lógico

“E se a máquina estivesse pensando em mim?” — sobre cafés, lógica e o nascimento da IA

Outro dia, sentei em um café, como quem só quer um intervalo entre dois e-mails urgentes. Na mesa ao lado, uma moça digitava freneticamente, provavelmente lutando com um chatbot do banco. O atendente se confundiu no pedido: café descafeinado com expresso extra. Vai entender. E foi nesse momento banal que a pergunta me cutucou:

Será que essa máquina está pensando em mim?

Não o robô do banco, claro. Mas o algoritmo do aplicativo, o sistema que ajusta a playlist, a IA que "adivinha" meu humor. E, mais do que isso: quando foi que demos à máquina esse tipo de poder? A resposta, por incrível que pareça, começa com filosofia.

A IA nasceu num berço de ideias, não de chips

Antes de qualquer computador acender uma luzinha, havia um punhado de filósofos quebrando a cabeça com perguntas estranhas. Aristóteles, por exemplo, já brincava com a ideia de raciocínio automático: “Se todos os homens são mortais e Sócrates é homem... então Sócrates é mortal.” Isso parece uma linha de código, não?

Lá no século XIX, George Boole criou um sistema de lógica binária (sim, o mesmo 0 e 1 dos computadores) para expressar pensamentos humanos. Ele achava que o raciocínio podia ser uma equação. Veja só: ele não estava programando, mas filosofando com números.

E quando Alan Turing, em 1950, propôs que se uma máquina conseguisse conversar com um humano sem que ele percebesse a diferença... talvez ela estivesse pensando — ele estava mais próximo de Platão do que da IBM.

O barista da realidade

A vida cotidiana agora se mistura com isso tudo. O atendente do café anota meu pedido numa tela que já sabe, por estatística, o que um cara de camiseta preta vai querer numa segunda-feira. O GPS prevê que vou passar pela padaria só porque é sexta. A IA parece me conhecer mais do que eu.

Mas... quem programou essas previsões? Quem decidiu que eu sou previsível?

A resposta, de novo, é filosófica: somos nós que criamos modelos do pensamento humano para tentar duplicá-lo. Em outras palavras: filosofamos sobre como pensamos, transformamos isso em lógica, e a lógica virou software.

Um espelho de silício

O mais curioso é que, ao tentarmos fazer a máquina pensar, fomos forçados a refletir sobre o que significa “pensar” de verdade.

Se ela finge sentir, ela sente?

Se ela erra, ela decide?

Se ela me emociona... ela me entende?

John Searle, um filósofo, disse que uma IA pode simular entender chinês, sem saber chinês. Ou seja, pode parecer inteligente sem ser. Mas será que isso também não vale para alguns humanos em reuniões de Zoom?

E o pensamento continua

Enquanto a IA aprende a escrever poemas, responder mensagens e corrigir sua pontuação — ela carrega no peito um coração filosófico disfarçado de código. Todo algoritmo nasceu de um pensamento sobre o pensamento. Toda previsão foi antes uma pergunta.

No fim, talvez a pergunta mais filosófica seja esta:

“Será que, ao ensinar a máquina a pensar, não estamos apenas tentando nos entender melhor?”

“A máquina me respondeu, mas... e se fosse eu?” — sobre ética, algoritmos e culpas invisíveis

Outro dia, um amigo me contou que foi recusado para uma vaga de emprego por um “sistema automático de triagem”. Ele nem chegou a conversar com um ser humano. A IA olhou o currículo, julgou com olhos invisíveis e disse: “não.”

Ele não ficou bravo com a empresa. Nem com o computador. Só ficou quieto. E eu pensei: quem é o culpado quando ninguém está presente?

O novo dilema de Pilatos: lavar as mãos com um clique

Vivemos rodeados por decisões automatizadas: o banco nega crédito, o aplicativo te bloqueia, o vídeo que você postou some. Ninguém te explicou, ninguém assinou. A IA apenas “decidiu”. E isso muda tudo.

No passado, quando um porteiro barrava alguém, ele tinha um rosto. Agora, quem nega é um número. E você nem sabe se ele entendeu por que você veio.

É aqui que a filosofia grita:

“Não basta pensar como uma máquina. É preciso pensar sobre a máquina.”

Kant, cookies e responsabilidade

Se Immanuel Kant estivesse hoje no seu notebook, talvez surgisse um alerta:

“Você aceita que os algoritmos decidam sua vida com base em padrões de consumo?”

Kant defendia que a moral está em agir de acordo com um princípio que você aceitaria como universal. Em outras palavras: se eu crio uma IA que escolhe sem empatia, eu aceitaria ser tratado por ela?

Muita gente responde: “Não.”

Mas... assina os termos de uso mesmo assim.

Quando a IA erra, quem corrige?

Imagine: uma IA médica erra o diagnóstico. Um carro autônomo atropela. Um sistema de segurança identifica um rosto errado. Quem se levanta da cadeira para pedir desculpas?

A filosofia chama isso de lacuna moral: uma zona onde a responsabilidade desaparece, porque ninguém foi o autor direto da ação.

Mas os efeitos são reais. A dor é real. E mais assustador: as decisões invisíveis moldam nossas vidas reais.

A ética virou código

Hoje, engenheiros escrevem linhas de código que contêm, na prática, valores morais disfarçados:
– “Quem deve ser priorizado?”

– “O que deve ser censurado?”

– “O que é aceitável mostrar para uma criança?”

– “Como identificar um risco?”

Essas não são perguntas técnicas. São decisões éticas.

Como diria o filósofo brasileiro Marcos Nobre, vivemos um tempo em que os sistemas automatizados são tão potentes que se tornam estruturas invisíveis de poder. E onde há poder... precisa haver filosofia.

E o café segue quente

Volto ao café, dessa vez com o celular na mão. O algoritmo me recomenda uma nova música, um vídeo curto, um texto motivacional.

Mas recuso tudo.

Peço um expresso forte, abro um caderno e escrevo, como se fosse um desabafo silencioso:

“A máquina me respondeu... mas será que eu perguntei certo?”

Talvez o futuro dependa disso: ensinar a IA a pensar bem — mas ensinar a nós mesmos a perguntar melhor.

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Força Subversiva

Sabe aquele momento em que você está lendo as notícias e tudo parece um grande absurdo, uma sucessão de eventos negativos que desafiam qualquer lógica? Pois é, foi exatamente num desses instantes, em que a indignação bateu forte, que surgiu a ideia de escrever sobre a força subversiva. Afinal, diante de tantas injustiças e absurdos, não dá para simplesmente aceitar tudo passivamente. Precisamos questionar, desafiar e, quem sabe, subverter. Porque se o mundo insiste em ser incompreensível, a gente tem todo o direito de ser rebelde e transformar essa realidade de formas inesperadas.

A subversão é um conceito que muitas vezes é visto com desconfiança. No entanto, ela é essencial para a evolução da sociedade, desafiando normas, questionando o status quo e propondo novas maneiras de pensar e agir. A subversão pode estar presente nas pequenas ações do dia a dia e nas grandes revoluções. Vamos analisar como a força subversiva se manifesta no cotidiano e o que pensadores como Michel Foucault têm a dizer sobre isso.

A Subversão no Cotidiano

Imaginemos uma manhã comum: você acorda, se prepara para o trabalho, enfrenta o trânsito e chega ao escritório. Até aqui, nada de subversivo, certo? No entanto, pequenos atos de resistência podem ocorrer ao longo desse trajeto.

Moda e Identidade: Escolher uma roupa que foge do padrão corporativo pode ser um ato subversivo. Usar uma camiseta com uma mensagem política ou um estilo que desafia a norma é uma forma de expressar sua individualidade e questionar regras implícitas.

Transporte Alternativo: Optar por ir ao trabalho de bicicleta ou transporte público, em vez do carro, pode ser um ato de resistência contra a cultura do automóvel e uma declaração a favor da sustentabilidade.

Consumo Consciente: Decidir comprar de pequenos produtores ou escolher produtos orgânicos e sustentáveis é uma maneira de subverter a lógica do consumismo desenfreado e apoiar práticas mais éticas e responsáveis.

Comunicação: No trabalho, utilizar uma linguagem inclusiva e combater micro agressões é uma forma de subversão no ambiente corporativo, promovendo um espaço mais justo e acolhedor.

Michel Foucault e a Subversão

Michel Foucault, um dos grandes pensadores do século XX, explorou como o poder se manifesta nas relações sociais e como a subversão pode ser uma ferramenta para desafiar esse poder. Para Foucault, o poder não é apenas algo que oprime, mas também algo que circula e se manifesta em todos os níveis da sociedade.

Poder e Resistência

Foucault argumenta que onde há poder, há resistência. A subversão, nesse sentido, é uma forma de resistência que pode ocorrer em qualquer lugar: nas instituições, nas práticas cotidianas e até mesmo nas relações pessoais. Ele não vê a subversão como algo grandioso ou heroico, mas muitas vezes como pequenos atos que, cumulativamente, podem provocar mudanças significativas.

A Microfísica do Poder

Foucault introduziu o conceito de "microfísica do poder" para descrever como o poder opera em níveis microscópicos, através de normas, disciplinas e regulamentações que moldam o comportamento dos indivíduos. A subversão, então, pode ser vista como a ruptura dessas pequenas disciplinas, questionando e desafiando as regras estabelecidas.

Exemplos Práticos

Educação: Professores que adotam métodos de ensino alternativos, que incentivam o pensamento crítico e a criatividade, estão subvertendo a tradicional educação padronizada e preparando alunos para questionarem o mundo ao seu redor.

Arte e Cultura: Artistas que criam obras que provocam e desafiam as convenções sociais estão utilizando a arte como uma ferramenta de subversão, inspirando o público a refletir sobre questões importantes.

Tecnologia: Hackers éticos que expõem falhas em sistemas de segurança e lutam pela privacidade dos dados estão subvertendo o uso opressivo da tecnologia e promovendo a transparência.

A força subversiva é uma parte essencial do progresso social. Ela pode ser encontrada em atos cotidianos e em grandes movimentos, e é fundamental para questionar e redefinir o que consideramos normal. Michel Foucault nos lembra que o poder está em todos os lugares, mas onde há poder, também há a possibilidade de resistência. Ao abraçar a subversão, podemos encontrar novas maneiras de viver e conviver, promovendo uma sociedade mais justa e equitativa.

Referências:

FOUCAULT, Michel. "Vigiar e Punir". Rio de Janeiro: Vozes, 1987.

FOUCAULT, Michel. "A História da Sexualidade- A Vontade de Saber". São Paulo: Paz e Terra, 2014.