Sem solenidade demais
Sempre
desconfiei um pouco das ideias que só funcionam no papel. Aquelas que ficam
lindíssimas no livro, mas travam quando precisam atravessar a fila do banco, a
reunião de condomínio ou a conversa atravessada no almoço de domingo. O
pragmatista nasce exatamente dessa impaciência: ele não pergunta primeiro se
algo é verdadeiro em si, mas se funciona na vida.
Ser
pragmatista não é ser superficial, nem oportunista, como às vezes se pensa. É,
antes, uma filosofia com os pés sujos de chão. O pragmatista mede as ideias
pelo que elas fazem conosco, pelo tipo de mundo que constroem quando saem da
cabeça e entram no cotidiano. Verdade, aqui, não é um espelho do real, mas uma
ferramenta. E ferramenta boa é a que resolve problema — ou pelo menos muda a
forma como lidamos com ele.
A
base filosófica — quando a verdade vira ação
William
James: a verdade que acontece
William
James, talvez o mais humano dos pragmatistas, dizia algo desconcertante: a
verdade não é, ela acontece. Uma ideia se torna verdadeira quando
produz efeitos vitais satisfatórios. Isso muda tudo.
No
cotidiano, isso aparece quando alguém diz:
—
“Pensar positivo funciona.”
O
pragmatista não responde perguntando se o pensamento positivo corresponde à
estrutura metafísica do universo. Ele pergunta: isso ajuda a pessoa a
levantar da cama, enfrentar o dia, agir melhor? Se ajuda, então há aí um
tipo de verdade em operação.
James
nos ensina que viver é um laboratório permanente. Crenças não são relíquias
sagradas, são hipóteses de trabalho.
Charles
Sanders Peirce: clareza nasce da consequência
Peirce,
mais rigoroso, quase um engenheiro da filosofia, propõe um critério simples e
radical: para entender o significado de uma ideia, observe suas consequências
práticas. Se duas ideias não produzem diferenças na ação, então discutir qual é
“mais verdadeira” é perda de tempo.
No
cotidiano isso aparece em discussões morais intermináveis. Duas pessoas
discordam ferozmente sobre “o sentido da vida”, mas vivem de modo quase
idêntico: trabalham, cuidam de quem amam, sentem medo da morte. O pragmatista
suspeita: talvez a divergência seja mais verbal do que real.
Peirce
nos lembra que clareza filosófica não nasce do refinamento infinito dos
conceitos, mas do impacto concreto deles no comportamento.
John
Dewey: pensamento como instrumento social
Dewey
dá um passo além e traz o pragmatismo para o campo social. Pensar não é
contemplar o mundo, é tentar resolver situações problemáticas. Ideias são
ferramentas coletivas, não tesouros individuais.
Na
escola, por exemplo, Dewey rejeita o ensino que apenas transmite verdades
prontas. Aprender, para ele, é experimentar, errar, ajustar. A criança que
entende matemática resolvendo um problema real aprende mais do que aquela que
apenas decora fórmulas.
No
cotidiano adulto, isso aparece quando improvisamos soluções: mudar o jeito de
trabalhar, adaptar rotinas, negociar conflitos. O pragmatista confia mais no
ajuste contínuo do que em regras absolutas.
O
pragmatista no dia a dia — cenas comuns, filosofia invisível
No
trabalho:
O
pragmatista não pergunta se um método é “o melhor em teoria”, mas se melhora a
cooperação, reduz retrabalho, torna o ambiente menos tóxico. Se funciona, fica.
Se não, muda — sem drama ideológico.
Nos
relacionamentos:
Em
vez de discutir quem está “certo”, o pragmatista observa: essa forma de falar
aproxima ou afasta? Resolve ou acumula ressentimento? Muitas verdades morrem
quando percebemos que vencer a discussão custa perder o vínculo.
Na
vida interior:
Até
crenças sobre si mesmo entram no teste pragmático. Pensar “sou incapaz” produz
o quê? Paralisia. Pensar “posso tentar” produz movimento. O pragmatista escolhe
a ideia que gera vida, não a que soa mais objetiva.
Um
risco e uma virtude
O
risco do pragmatismo é virar cinismo: vale tudo que funciona. Mas os
próprios pragmatistas alertam que “funcionar” não significa vantagem imediata,
e sim consequências mais amplas, duráveis, humanas. Uma mentira pode funcionar
hoje e destruir tudo amanhã — logo, não funciona de verdade.
A
virtude do pragmatismo é sua humildade. Ele não promete verdades eternas,
apenas boas apostas existenciais. Ele aceita corrigir o rumo, abandonar ideias
queridas, ajustar o mapa quando o território muda.
Concluindo
— uma filosofia para quem vive
O
pragmatista não é o dono da verdade; é alguém disposto a testá-la. Ele não
pergunta apenas “isso é verdadeiro?”, mas “isso torna a vida mais
habitável?”
Num
mundo saturado de discursos, o pragmatismo é quase um gesto de silêncio: menos
declarações grandiosas, mais atenção aos efeitos. Menos fidelidade a ideias,
mais compromisso com a experiência.
No
fim, talvez o pragmatista seja apenas isso: alguém que acredita que pensar
serve para viver melhor — e não o contrário.