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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Licenciosidade do Abandono


A licenciosidade do abandono começa quase sempre de modo discreto. Não é um gesto teatral, nem uma decisão anunciada. É quando a gente deixa passar uma mensagem sem responder, adia um cuidado consigo mesmo, tolera um desconforto que antes não toleraria. No início parece descanso. Depois, vira hábito. E o hábito, silenciosamente, pede licença para se instalar.

Abandonar como quem pede permissão

Há um tipo de abandono que não nasce da impossibilidade, mas da concessão. Não é que não dê mais — é que deixamos. Deixamos o corpo ir ficando cansado, as ideias repetirem, as relações perderem espessura. A licenciosidade está justamente aí: no pequeno acordo interno que diz “tudo bem assim”, mesmo quando algo em nós sabe que não está.

Esse abandono é licencioso porque não se impõe à força; ele seduz. Oferece alívio imediato: menos esforço, menos confronto, menos responsabilidade por si. Como se a vida pudesse ser colocada em modo econômico sem custos futuros.

O abandono de si no cotidiano

Ele aparece em cenas banais. No trabalho, quando alguém aceita uma rotina que já não faz sentido só para evitar o risco de mudar. Nas relações, quando se permanece por inércia, não por presença. Em si mesmo, quando se troca curiosidade por distração contínua — rolar a tela em vez de sustentar um pensamento.

A licenciosidade do abandono não destrói de uma vez; ela desgasta. É um desinvestimento lento, quase educado. Não quebra nada, apenas vai deixando cair.

Entre liberdade e fuga

Há uma confusão perigosa entre abandonar e libertar-se. Nem todo abandono é emancipação. Às vezes, abandonar é apenas fugir do trabalho de sustentar algo vivo. A liberdade exige escolha; o abandono licencioso exige apenas desistência.

Filosoficamente, isso toca num ponto sensível: a diferença entre deixar ir e largar mão. Deixar ir pode ser um gesto ativo, lúcido, até necessário. Largar mão, quando licencioso, é recusar-se a responder pelo próprio desejo. É quando a vida vai sendo entregue ao automático, ao “tanto faz”.

A falsa paz do abandono

O abandono licencioso costuma vir acompanhado de uma paz enganosa. Menos conflito, menos tensão, menos perguntas. Mas também menos intensidade, menos presença, menos sentido. É uma tranquilidade morna, que anestesia mais do que descansa.

Com o tempo, essa paz cobra seu preço: uma sensação difusa de esvaziamento, como se algo importante tivesse sido deixado para trás — e foi, ainda que não saibamos dizer exatamente o quê.

Resistir sem endurecer

Resistir à licenciosidade do abandono não significa abraçar o controle excessivo ou a rigidez moral. Significa reaprender a sustentar: sustentar o cuidado, o desconforto criativo, a atenção. É escolher, repetidamente, não abandonar o que ainda pulsa — mesmo quando cansa.

Talvez viver com algum rigor não seja ser duro, mas ser fiel ao movimento da própria vida. Não permitir que o abandono se disfarce de descanso, nem que a desistência se venda como sabedoria.

No fim, a pergunta não é “do que posso abrir mão?”, mas outra, mais incômoda e mais honesta: do que não posso me abandonar sem deixar de ser atravessado pela vida?

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Memória com Significado


Eu já percebi que não guardo o que aconteceu. Guardo o que aquilo fez comigo.

Datas se apagam. Frases se embaralham. Rostos mudam. Mas certas experiências permanecem intactas, não porque foram precisas, e sim porque foram decisivas. A memória, no fundo, não é um arquivo — é uma curadoria.

Outro dia, tentando lembrar um momento específico da infância, percebi que só restava a sensação: um fim de tarde, uma luz amarela, um silêncio confortável. Não sei mais quem estava ali. Mas sei como eu me sentia. E talvez isso seja o que realmente importa.

No cotidiano, é assim:

– A gente esquece a conversa, mas lembra do constrangimento.

– Esquece o conselho, mas lembra da coragem que ele provocou.

– Esquece o nome, mas lembra do acolhimento.

A memória com significado não é fiel aos fatos. Ela é fiel à transformação.

Bergson já dizia que lembrar não é reproduzir o passado, é recriá-lo a partir do presente. Cada lembrança é um diálogo entre quem fomos e quem somos agora. Por isso, toda memória é um pouco invenção — e, ainda assim, profundamente verdadeira.

Eu começo a achar que o valor de uma lembrança não está em sua nitidez, mas em sua utilidade interior. Se ela me ajuda a compreender melhor, ela permanece. Se só me prende, ela vai se dissolvendo com delicadeza.

Memória com significado não pesa. Ela orienta.

É aquela lembrança que não nos puxa para trás, mas nos endireita por dentro. Que não nos paralisa, mas nos oferece uma espécie de chão invisível.

No fim, talvez a alma não seja feita de tudo o que viveu — mas apenas daquilo que soube transformar em sentido.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Vozes Diferentes


As caminhadas pela manhã são diferenciadas, estou mais relaxado e com expectativas para as novidades do dia, as vozes que habitam minha mente estão mais calmas e atentas dando ouvidos ao mundo exterior, esperando o momento para entrarem em ação, elas são muitas. Há vozes que querem convencer. Outras só querem existir. Algumas explicam, outras confundem, e há aquelas que apenas acompanham — como se caminhassem ao nosso lado sem pedir nada.

A voz da infância ainda fala baixo dentro de nós, usando palavras simples. A da juventude fala rápido, como se o tempo estivesse sempre acabando. A da maturidade aprende a fazer silêncio entre uma frase e outra. E a do cansaço… essa não fala: suspira.

Também há vozes que não são nossas. A voz da cidade, feita de buzinas e anúncios. A voz da família, que ecoa mesmo quando ninguém está por perto. A voz da internet, que fala em coro. E, no meio de todas elas, tentamos reconhecer qual ainda nos pertence.

As vozes diferentes não brigam apenas entre si — elas disputam a nossa atenção. Uma pede coragem. Outra pede prudência. Uma diz “vai”. A outra diz “espera”. E quase nunca concordam.

Fernando Pessoa escreveu que “viver é ser outro”. Talvez por isso sejamos um pequeno coral ambulante, afinado e desafinado ao mesmo tempo, tentando transformar ruído em melodia.

No cotidiano, aprender a viver não é escolher uma única voz. É aprender quando cada uma deve ser escutada.

Porque algumas vozes nos empurram. Outras nos protegem. E algumas só existem para lembrar que ainda estamos vivos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Ser e Não Ser


Outro dia, parado na fila do café, num insight percebi que meu corpo estava ali — carteira no bolso, celular na mão — mas minha mente vagava em outro lugar. Eu era e, ao mesmo tempo, não era. Aquela cena banal, quase ridícula, me lembrou da velha pergunta que atravessa séculos: ser ou não ser? Só que, fora dos palcos de Shakespeare, essa questão não aparece em forma de drama grandioso; ela se infiltra na vida miúda, nos instantes em que existimos pela metade.

Este ensaio nasce dessa estranheza cotidiana: como podemos estar tão presentes e tão ausentes ao mesmo tempo? E o que isso diz sobre o que chamamos de “ser”?

O Ser como presença viva

Na filosofia clássica, ser costuma significar aquilo que existe de modo pleno, estável, afirmado. Mas, numa leitura espiritualista, o ser não é um objeto fixo — é uma presença consciente. Ser é estar inteiro no que se vive.

Pense numa conversa sincera, daquelas raras, em que alguém nos fala algo importante e nós realmente escutamos, sem ensaiar respostas, sem olhar o relógio. Nesse instante, há uma espécie de alinhamento: corpo, atenção e sentido. Ali, somos. Não porque fazemos algo extraordinário, mas porque estamos inteiros.

Espiritualmente, o ser não se define pelo papel social, pelo nome ou pela função. Ele se manifesta quando há coerência entre o que sentimos, pensamos e fazemos. O ser é um acontecimento, não um rótulo.

O Não Ser como ausência disfarçada

Já o não ser raramente se apresenta como vazio absoluto. Ele costuma vestir fantasias respeitáveis: rotina, produtividade, adaptação. Não ser é viver no automático.

No cotidiano, isso aparece quando:

  • dizemos “tudo bem” sem sequer consultar o que sentimos;
  • cumprimos tarefas o dia inteiro e, à noite, temos a sensação de não ter vivido nada;
  • repetimos opiniões que não são nossas, apenas para evitar atrito.

O não ser, nesse sentido, não é inexistência, mas desconexão. É estar fisicamente presente e espiritualmente ausente. Uma espécie de vida em modo economia de energia.

A tensão criadora entre Ser e Não Ser

O ponto inovador talvez esteja aqui: ser e não ser não são inimigos absolutos. Eles formam uma tensão criadora. O não ser revela onde estamos fragmentados; o ser aponta a possibilidade de integração.

Há dias em que o cansaço nos domina e tudo o que conseguimos fazer é funcionar. Isso não nos condena. O problema surge quando esse estado vira regra, quando esquecemos que há algo em nós que pede mais do que sobreviver.

Espiritualmente, o não ser pode funcionar como um chamado silencioso. Ele incomoda, esvazia, gera aquela pergunta incômoda: “é só isso?” E essa pergunta já é um primeiro gesto de ser.

Pequenas cenas de escolha

A vida não nos pergunta “ser ou não ser?” em tom trágico. Ela pergunta em detalhes:

  • Responder ou reagir?
  • Escutar ou apenas esperar a vez de falar?
  • Viver para parecer ou parecer para viver?

Cada escolha dessas, por menor que seja, desloca-nos um pouco mais para o ser ou para o não ser. Não se trata de pureza espiritual, mas de grau de presença.

Um olhar espiritualista final

Do ponto de vista espiritual, o ser não se conquista de uma vez por todas. Ele se relembra. Há algo em nós que sabe quando estamos sendo verdadeiros e quando estamos apenas representando.

Ser é lembrar-se de si mesmo no meio do mundo.

Não ser é esquecer-se, ainda que temporariamente.

Talvez a sabedoria não esteja em eliminar o não ser, mas em reconhecê-lo rapidamente — como quem percebe que se distraiu durante uma caminhada e, sem culpa, retorna ao caminho.

Concluindo...(quase um sussurro)

Ser e não ser não são estados fixos, mas movimentos. Oscilamos entre eles todos os dias. A espiritualidade, longe de prometer uma resposta definitiva, nos oferece algo mais simples e mais difícil: atenção.

Onde há atenção, o ser começa a respirar.

Onde ela falta, o não ser se instala.

E talvez viver seja isso: aprender, mil vezes, a voltar.


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Reconciliação Com os Limites


Demorei para entender que limite não é derrota. No começo, ele aparece como frustração: o corpo que cansa, o tempo que falta, a inteligência que não alcança tudo, o dinheiro que impõe fronteiras, o outro que diz “não”. A sensação inicial é sempre a mesma — se eu me esforçasse mais, isso não estaria aqui. Mas os limites insistem. Eles não vão embora.

A reconciliação começa quando percebo que o limite não está ali para me humilhar, mas para me situar. Ele é como a borda da mesa: não serve para impedir o jantar, mas para que ele aconteça sem que tudo caia no chão. No cotidiano isso é claro, embora a gente finja não ver. O profissional que aceita que não dá conta de tudo trabalha melhor. O pai ou a mãe que reconhece a própria falha educa com mais humanidade. O amigo que assume que não sabe ouvir em certos dias evita ferir sem querer.

Há algo profundamente moderno na recusa dos limites. Vivemos como se tudo fosse possível, o tempo todo. Resultado: exaustão, comparação infinita, culpa crônica. A reconciliação é quase um ato de rebeldia silenciosa. É dizer: isso eu posso, isso não posso — e está tudo bem. Não como desistência, mas como clareza.

Lembro de uma ideia muito simples, mas poderosa, de Rubem Alves: a de que maturidade não é acumular possibilidades, mas aprender a escolher — e toda escolha implica perda. Só quem aceita perder consegue, de fato, habitar o que escolheu. O limite, então, deixa de ser muro e vira moldura. É ele que dá forma ao sentido.

Reconciliação com os limites não é resignação amarga. É amizade. É parar de lutar contra o que não sou para finalmente cuidar do que sou. Curiosamente, é nesse ponto que algo se expande. Quando aceito o tamanho da minha casa, começo a arrumá-la melhor. Quando aceito minha finitude, o tempo ganha peso. Quando aceito meus limites, a vida fica menos ruidosa — e mais verdadeira.

No fundo, talvez crescer seja isso: parar de sonhar em ser infinito e começar a viver bem dentro do possível, principalmente quando passamos dos sessenta!


quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Amarras Íntimas

 

Entrou dezembro, vem chegando o final do ano e vou ficando mais introspectivo, reflexivo, sinto que preciso me soltar mais, às vezes, sem perceber, acordo já meio amarrado por dentro. Não é corda, não é nó — é uma sensação de que algo me segura, mesmo quando tudo ao redor parece livre. Pode ser uma lembrança que insiste em reaparecer, um medo antigo que se esconde atrás de um sorriso que dou por educação, ou até uma expectativa que alguém plantou em mim e que, por preguiça ou afeto, nunca tive coragem de arrancar. São essas pequenas forças invisíveis que dão forma ao meu, ao nosso jeito de caminhar no mundo. E, num café da manhã qualquer, entre goles de chimarrão ou um pão na chapa apressado, a gente sente o peso dessas amarras íntimas mexendo com o rumo do dia.

Mas o curioso é que, ao contrário das prisões externas — as que podemos apontar e nomear —, as amarras íntimas se camuflam. São feitas de material emocional, simbólico, psicológico. E é exatamente por isso que são tão resistentes.

 

O que são as amarras íntimas?

Do ponto de vista filosófico, podemos entender as amarras íntimas como condicionamentos internos que moldam o comportamento, governam escolhas e delimitam horizontes de ação. Elas são produzidas por:

  • experiências passadas que deixaram marcas duradouras;
  • expectativas coletivas internalizadas;
  • afetos mal resolvidos;
  • idealizações do que “deveríamos ser”;
  • narrativas pessoais que nos contemos tantas vezes que passaram a funcionar como destino.

Sartre diria que essas amarras são formas de má-fé: maneiras de fugir da própria liberdade, adotando identidades prontas e desculpas convenientes. Já Jung chamaria isso de sombras não integradas, aspectos do eu que, rejeitados, passam a atuar involuntariamente. E Foucault lembraria que ninguém se vigia tão bem quanto quem internalizou o olhar do outro; isto é, as amarras íntimas também são dispositivos disciplinares que atravessam o corpo, a fala e até o desejo.

 

O paradoxo das amarras

As amarras íntimas são contraditórias: protegem e aprisionam.

Algumas nos evitam recaídas emocionais, funcionam como aviso de perigo, preservam identidade. Outras nos limitam, impedem movimento, sabotam relações, sufocam a espontaneidade — aquilo que Bergson chamaria de élan vital, a força da vida que quer crescer em direção ao novo.

É como usar uma mochila antiga e pesada porque, de certa forma, ela guarda tudo que somos. Soltar a mochila seria, de algum modo, soltar um pouco de nós mesmos.

 

Cotidiano: onde elas aparecem

  • O colega de trabalho que sempre diz “sim” para tudo, porque teme desapontar e, no fundo, teme ser esquecido.
  • A pessoa que revisa mil vezes a mensagem antes de enviar, presa à expectativa de ser impecável.
  • Quem evita se apaixonar de novo porque carrega a velha cicatriz como se fosse sentença.
  • Aquela escolha profissional que não faz sentido algum, mas que mantém viva a aprovação dos pais — mesmo que os pais já nem se lembrem disso.
  • A mania de não pedir ajuda, como se vulnerabilidade fosse falha e não ponte.

Em todos esses casos, a amarra não é visível, mas opera com eficiência.

 

De onde vem tanta força?

As amarras íntimas têm força porque se apoiam em três pilares:

  1. Afeto – o laço emocional é o que mais fixa, para o bem e para o mal.
  2. Repetição – o hábito cria autoridade, e o familiar se torna confortável.
  3. Narrativa – quando contamos muitas vezes a mesma versão de nós mesmos, ela vira identidade.

Paul Ricoeur descreve a identidade como narrativa, não como essência. Logo, as amarras íntimas são capítulos que repetimos a ponto de virarem enredo principal, mesmo quando já não nos representam.

 

Como soltá-las — ou, ao menos, afrouxá-las

Soltar amarras íntimas não é um ato heróico, mas um processo delicado:

  • Reconhecer: nomear a amarra é permitir sua visibilidade.
  • Interrogar: perguntar se ela ainda serve a algo, ou se virou automatismo.
  • Reescrever: substituir a narrativa que nos prende por uma que nos mova.
  • Praticar: a liberdade exige treino; romper velhos hábitos pede paciência.
  • Aceitar: algumas amarras são parte constitutiva da história — não se cortam, mas se transformam.

Como diz N. Sri Ram em A Natureza do Ser, “o ser humano floresce quando reconhece aquilo que o prende e, com serenidade, transforma a prisão em passagem”. A amarra, vista com consciência, vira portal.

Quando a amarra vira direção

No fim das contas, as amarras íntimas não são apenas obstáculos: são também mapas. Revelam onde fomos feridos, onde fomos moldados, onde fomos amados, onde ainda precisamos aprender. São lembranças de que a alma tem peso, mas também tem movimento.

Quando olhamos para elas com honestidade, descobrimos que algumas podem ser deixadas para trás. Outras pedem diálogo, cuidado, transfiguração.

E então, no meio de um dia comum — na fila do mercado, no intervalo do trabalho, num silêncio inesperado — percebemos que aquela velha amarra já não aperta tanto. É o começo de uma forma nova de caminhar: menos pesada, mais nossa.

domingo, 16 de novembro de 2025

Labirinto Profissional


Quando começamos a vida profissional, imaginamos um caminho reto, feito de esforço e recompensa. Mas logo percebemos que é um labirinto. As portas que pareciam abertas se fecham, e as que não esperávamos se escancaram. A profissão, às vezes, parece ter vontade própria. Lembro quando comecei no primeiro emprego, a partir daí aprendi a seguir pelo labirinto de oportunidades, elas surgiam como recompensas pelo meu empenho e dedicação, me trouxeram longe, levaram onde jamais poderia ter imaginado ir.

No início, há entusiasmo e curiosidade. Depois, surgem metas, prazos, pressões. A rotina vai tomando o espaço do sonho — e é aí que muitos se perdem de si mesmos. Trabalham muito, mas já não sabem por quê.

O labirinto profissional é mais do que o cansaço do trabalho: é o desafio de manter o sentido em meio às exigências. É lembrar que o ofício, quando vivido com presença, ainda pode ser um espaço de criação, não apenas de sobrevivência.

Hannah Arendt dizia que “trabalhar é humanizar o mundo”. Mas isso só acontece quando o trabalho também nos humaniza. O perigo é transformar a vocação em função, o talento em tarefa. O labirinto só se revela saída quando a gente volta a se escutar.

No fim, o trabalho não é o que fazemos para viver, mas o que fazemos para existir com propósito.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Embarque para Citera

“Embarque para Citera” — essa expressão carrega um perfume antigo de sonho, desejo e promessa. Citera (ou Kythira), a ilha grega de Afrodite, deusa do amor, era para os poetas e artistas o lugar simbólico onde se chega para encontrar a beleza, a sedução e o mistério da existência.

"Embarque para Citera", de Antoine Watteau, é uma pintura do século XVIII que retrata um grupo de elegantes casais embarcando (ou talvez desembarcando) rumo à mítica ilha de Citera, berço de Afrodite, deusa do amor. A cena é envolta em uma atmosfera de sonho e delicadeza, típica do estilo rococó, onde a natureza, com árvores graciosas e céu suave, envolve os personagens em um clima de desejo, hesitação e melancolia. Não se sabe ao certo se os amantes estão chegando ao reino do amor ou deixando-o para trás — essa ambiguidade dá à obra um ar poético e reflexivo sobre a transitoriedade dos sentimentos e o instante fugidio da felicidade.

Mas quem embarca para Citera, hoje? Talvez todos nós, sem saber.

Quando alguém atravessa a rua para rever um amor antigo, é um embarque para Citera.
Quando um jovem decide largar o emprego seguro para tentar viver daquilo que ama, ele também parte, hesitante, para essa ilha incerta.

Quando uma mulher já madura compra um vestido novo sem ocasião específica — só porque se sentiu bonita — ela também se deixa levar por esse barco silencioso.

Citera não tem placas, não tem aeroporto. O bilhete não se compra em reais ou euros — custa coragem, desejo e talvez um pouco de loucura. Como no quadro de Watteau, ninguém sabe se o navio está chegando ou partindo de Citera. É esse o jogo: a viagem é interna, é o movimento da alma.

O filósofo Gaston Bachelard diria que embarcar para Citera é acolher a imaginação poética como forma de vida. “A imaginação é o verdadeiro lugar do real”, escreveu ele. Não se chega à ilha sem sonhar. E quem não sonha, perde o barco.

Há quem evite esse embarque. Medo do mar revolto. Medo de não encontrar nada do outro lado — ou, pior, de encontrar exatamente aquilo que desejou. Mas é inevitável: em alguma madrugada, em alguma esquina, a alma se distrai e embarca sem avisar. Às vezes numa música antiga, num perfume esquecido, numa mensagem inesperada.

E assim seguimos todos: passageiros da travessia mais secreta. De vez em quando avistamos Citera no horizonte, com suas brumas douradas. Nem sempre a tocamos. Mas só de ver a linha de sua costa, o coração já desperta.

Talvez seja isso viver: estar sempre, de algum modo, embarcando para Citera.


domingo, 2 de novembro de 2025

Tempo Produtivo

Vivemos a era da pressa. O tempo virou mercadoria, e a ociosidade, pecado. Mas há uma diferença enorme entre usar o tempo e ser usado por ele.

Fazer muito não é o mesmo que viver bem. O tempo produtivo é aquele que produz sentido — e isso nem sempre cabe em planilhas. Às vezes, uma tarde de silêncio rende mais do que uma semana de correria.

Tempo produtivo nem sempre é aquele cheio de tarefas riscadas na agenda, mas o que realmente nos nutre. Outro dia, desliguei o celular por uma hora e fui caminhar sem rumo, apenas observando o movimento da rua, o cheiro do pão saindo da padaria, o sol se inclinando devagar. No início, me senti culpado por “não estar fazendo nada”, mas logo percebi que aquele intervalo me devolvia clareza e ânimo — coisas que nenhuma planilha teria oferecido. Percebi que produtividade não é empilhar ações, e sim dar sentido ao tempo. Às vezes, o momento mais produtivo do dia é justamente aquele em que paramos para respirar.

Sêneca, em Da Brevidade da Vida, escreveu: “Não é que tenhamos pouco tempo, mas o perdemos demais.” E ele estava certo. O problema não é o tempo que temos, é o quanto deixamos de estar presentes nele.

No fim, o tempo não precisa render. Precisa apenas valer.


segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Crise Banal


Você já se sentiu inquieto mesmo vivendo uma rotina aparentemente comum e sem grandes problemas? Essa sensação revela algo curioso: a vida banal também pode ser um tipo de crise. Não é a crise de grandes mudanças externas, mas aquela que surge silenciosa, dentro de nós, questionando sentido, escolhas e prioridades. Para muitos a segunda-feira carrega esta sensação, estão enganados, pois a segunda-feira é renovação mesmo que pareça repetição.

Muitas vezes, seguimos o fluxo diário — trabalho, tarefas, compromissos — acreditando que estar ocupado é sinônimo de estar vivendo plenamente. Mas a monotonia pode esconder insatisfação, frustração ou sensação de estagnação. É como se estivéssemos cumprindo um roteiro pronto, sem nos perguntar se ele realmente nos representa.

O interessante é que essa crise não precisa ser negativa. Ela é, na verdade, um chamado à consciência. Um alerta de que é hora de refletir sobre o que realmente importa, quais caminhos desejamos trilhar e onde queremos investir nossa energia. Pequenas mudanças, reflexões e escolhas conscientes podem transformar essa sensação de vazio em oportunidade de crescimento.

Como apontava Søren Kierkegaard, filósofo da existência, “a vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente”. Reconhecer a crise banal é o primeiro passo para reencontrar significado, mesmo nas atividades mais rotineiras.

No fim, não é necessário esperar grandes catástrofes para despertar. Até a rotina mais comum pode nos desafiar a refletir, ajustar o rumo e viver de forma mais plena. A crise, por menor que pareça, é um convite à atenção e à transformação.


quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Era do Vazio

O eco do nada nas ruas cheias

Se você andar por um shopping de domingo à tarde, vai entender Gilles Lipovetsky sem precisar abrir o livro. O corredor parece uma passarela sem desfile oficial: gente olhando vitrines como se olhasse a própria vida — esperando que algo brilhe, que algo preencha, que algo aconteça. Mas quase sempre, nada acontece. Só o cartão de crédito que, discretamente, se endivida.

O livro publicado em 1983, A Era do Vazio é o diagnóstico cultural que Lipovetsky fez das sociedades ocidentais no final do século XX. Segundo ele, vivemos a passagem de um mundo movido por grandes causas coletivas e ideologias transformadoras para um individualismo hedonista e desengajado, onde o sentido coletivo se dissolve em pequenas experiências pessoais, voltadas para o prazer e o bem-estar imediato.

Esse “vazio” não é um buraco no sentido de falta absoluta, mas um vazio preenchido de distrações. Um silêncio com música ambiente. Um tédio mascarado de opções infinitas. As grandes narrativas políticas e sociais, que antes mobilizavam multidões, perderam espaço para causas rápidas, “compartilháveis” e de preferência fotogênicas. Hoje, a revolução cabe num post — e amanhã já não está mais no feed.

No trabalho, a mudança é clara: deixou-se de perguntar “o que vamos construir juntos?” para perguntar “o que eu ganho com isso?”. As relações afetivas também se transformaram — as cartas eternas deram lugar a figurinhas de WhatsApp, as declarações viraram stories de 15 segundos. O romance não acabou, mas assumiu formato “express”, adaptado à pressa do cotidiano.

Para Lipovetsky, isso não significa que vivamos pior, mas que vivemos de outro jeito. Há mais liberdade individual, mais espaço para ser quem se quer, mais autonomia nas escolhas. Ao mesmo tempo, há mais fragilidade nos vínculos, mais leveza nos compromissos e um culto constante ao “eu” como projeto principal. Tornamo-nos gestores da nossa própria vitrine, sempre atentos à iluminação, ao enquadramento e à reação do público.

O curioso é que, mesmo nesse cenário, ninguém é totalmente cínico. Ainda esperamos sentido — só que agora ele precisa caber na agenda e não pode exigir muito esforço. Queremos o amor sem sofrimento, o sucesso sem suor, a política sem conflito. Um mundo que quer tudo… sem querer pagar o preço de nada.

Se estivesse hoje rolando o Instagram ou passeando por um shopping, Lipovetsky talvez não se surpreendesse. Apenas sorriria de canto e diria:

— Eu avisei.


domingo, 24 de agosto de 2025

Mapas e Filtros

O Que Vemos e o Que Escolhemos Não Ver

Outro dia, olhava um mapa turístico da cidade. As ruas eram corretas, os pontos famosos estavam lá, mas algo me chamou atenção: não havia becos, terrenos baldios ou lugares “sem interesse”. O mapa não mentia — apenas não dizia tudo. E percebi que, no fundo, a vida funciona do mesmo jeito. Cada um de nós carrega um mapa próprio, que não é a realidade em si, mas a versão filtrada que conseguimos (ou queremos) suportar.

O sociólogo brasileiro Muniz Sodré, ao tratar da mediação cultural, lembra que qualquer representação do mundo é sempre filtrada. Isso vale para o jornal que escolhe quais notícias publicar, para o fotógrafo que enquadra uma cena e até para a memória, que apaga ou suaviza episódios difíceis. O mapa é a ordem que damos ao caos; o filtro é a escolha — consciente ou não — de quais pedaços do caos entram nesse desenho.

No cotidiano, mapeamos e filtramos o tempo todo. Ao contar como foi o dia para alguém, omitimos o que não parece relevante (ou conveniente). Ao lembrar de uma viagem, destacamos momentos felizes e deixamos de lado o desconforto da fila no aeroporto. Até na conversa interna que temos com nós mesmos, fazemos cortes: certas dores ficam de fora do relato porque não sabemos ainda como lidar com elas.

Mas há um risco: quando confundimos o mapa com o território, passamos a acreditar que a realidade é só aquilo que cabe na nossa versão filtrada. É como viver olhando o mundo através de óculos com lentes coloridas e esquecer que o céu não é daquela cor. Muniz Sodré diria que isso é perigoso porque empobrece a experiência, reduzindo a vida ao que se encaixa no desenho já conhecido.

Por outro lado, não há como viver sem filtros. Um mapa sem seleção seria ilegível; uma vida sem escolhas de foco seria insuportável. A questão talvez não seja eliminar filtros, mas revisá-los de tempos em tempos, para que não virem grades invisíveis. Afinal, um mapa é útil não por mostrar tudo, mas por indicar caminhos — e às vezes o melhor caminho é justamente aquele que antes não aparecia.

Talvez a filosofia dos mapas e filtros nos ensine que viver bem é alternar entre seguir o traçado e se permitir caminhar fora dele. Porque há becos que não estão no mapa, mas que levam a lugares onde a vida finalmente parece inteira.


sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Coisas pela Essência


Às vezes a gente se perde no excesso de verniz. Olhamos para um celular novo e vemos status; para um prato caro no restaurante e vemos sofisticação; para um discurso político e vemos a performance. Mas o que sobra quando tiramos essas camadas? O que é que fica quando o brilho passa? Talvez o exercício mais difícil do cotidiano seja justamente esse: perceber as coisas pela essência.

Na correria, reduzimos a vida ao imediato. Compramos o pão sem lembrar que ali existe o trabalho do padeiro, o trigo que brotou de uma terra, a água que atravessou rios, a paciência do tempo de fermentação. O pão é pão — mas também é uma história comprimida em miolo macio. O mesmo vale para as relações: não basta o sorriso rápido ou a frase bonita dita no grupo de mensagens. A essência está no cuidado, na presença silenciosa, no gesto simples que sustenta a confiança.

O problema é que a superfície grita mais alto do que a essência. É mais fácil medir alguém pelo carro que dirige do que pela serenidade com que enfrenta as dificuldades. É mais simples classificar um trabalho pelo salário do que pela contribuição que ele dá ao bem comum. A essência pede olhos treinados e paciência, pede coragem para atravessar as aparências.

Rubem Alves lembrava que “o essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração”, ecoando Saint-Exupéry, mas trazendo para o chão do nosso dia a dia. Ele dizia ainda que a essência das coisas está ligada ao encantamento: aquilo que não pode ser comprado, mas que, uma vez percebido, muda a forma como vivemos. Ver a essência é escutar a música que há por trás da letra, é saborear o silêncio entre as palavras, é reconhecer no outro não só um rosto, mas um universo.

Olhar para as coisas pela essência não é um exercício místico, é um hábito de humanidade. É perceber que a vida não se esgota na embalagem — e que o melhor da existência não se mede pelo que aparece, mas pelo que permanece.

Fernando Pessoa, em um dos fragmentos de seus escritos, dizia que “o valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem”. Essa intensidade é justamente o toque da essência: não se mede em quantidade, mas em profundidade.

Então, olhar as coisas pela essência exige desacelerar, desmontar as camadas de aparência e chegar ao núcleo — como quem descasca uma fruta até encontrar o sabor mais puro.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Espirito Pitagórico

Os números como essência do real em Pitágoras

Quando falamos em número, pensamos em símbolos rápidos que usamos todos os dias: 1, 2, 3… Essa linguagem, no entanto, é tardia. Pitágoras, que viveu no século VI a.C., jamais viu um “algarismo arábico”. Para ele, o número não era um sinal gráfico, mas a própria essência que dava ordem ao mundo. Era mais próximo da experiência sensível do que da escrita: podia ser mostrado com pedras colocadas em triângulo, com linhas desenhadas na areia ou com cordas que vibravam em diferentes tons musicais.

Segundo a tradição pitagórica, o número era a chave para compreender o cosmos. “Tudo é número”, diziam seus discípulos. Não no sentido de que tudo pode ser contado, mas de que tudo possui uma medida, uma proporção, uma harmonia interna que se deixa revelar por relações numéricas. Pitágoras teria descoberto, por exemplo, que os intervalos musicais mais agradáveis correspondiam a razões simples entre comprimentos de cordas. A música, que parecia arte, era também matemática. O belo era, em última instância, proporção.

Cada número possuía ainda uma qualidade própria, quase uma personalidade. O um representava o princípio, a unidade original. O dois, a dualidade, o contraste. O três, a forma estável, a tríade que se vê em tantas manifestações da vida. O quatro, o quadrado, símbolo de justiça e equilíbrio. O dez — a sagrada tétraktis — era o número perfeito, soma dos quatro primeiros e imagem da totalidade. Para Pitágoras, o número não era apenas quantidade, mas também qualidade, valor e forma.

Se olharmos com atenção, ainda hoje carregamos essa herança. Quando organizamos quatro cadeiras ao redor de uma mesa, sentimos equilíbrio, não por acaso, mas porque obedecemos a uma intuição geométrica antiga. Quando assistimos a uma peça musical, somos conduzidos pelo compasso que ordena o ritmo em dois, três ou quatro tempos — os mesmos que Pitágoras ligava a figuras geométricas e proporções. Até na arquitetura das cidades, quando admiramos a simetria de uma praça ou a repetição de janelas em uma fachada, reconhecemos a beleza da ordem numérica.

O pensamento pitagórico também tinha uma dimensão ética e espiritual. Se o universo era número, viver bem significava alinhar-se a essa ordem. O excesso, a desmedida, o desequilíbrio eram vistos como erros não apenas práticos, mas ontológicos. Assim, a justiça se associava ao número quatro, por ser quadrado perfeito, e a perfeição moral se comparava ao dez, símbolo de completude. Para Pitágoras, compreender o número era compreender a si mesmo, pois o homem era parte do cosmos ordenado.

Essa visão parece distante da nossa vida moderna, tão cheia de cálculos, estatísticas e algoritmos. No entanto, talvez Pitágoras tivesse razão em um ponto essencial: não são os símbolos que usamos — os algarismos arábicos ou as telas digitais — que fazem o número, mas a ordem que eles apontam. O número é anterior à escrita, anterior à tecnologia; está na forma como o coração pulsa em intervalos regulares, na maneira como o dia se sucede à noite, no ciclo de estações que organiza a vida no planeta.

Em última instância, Pitágoras nos lembra que viver é também encontrar proporção. O excesso de trabalho rompe a harmonia, assim como o excesso de ócio. Uma vida justa é como uma figura geométrica bem desenhada: cada parte tem sua medida. Nisso, os números não são apenas abstrações matemáticas, mas conselhos silenciosos sobre como encontrar equilíbrio.

Assim, se hoje olhamos para um simples “3” e pensamos apenas em contagem, Pitágoras o veria como triângulo, como forma, como estabilidade. Quando usamos um “4” para fechar um cálculo, ele o leria como quadrado, justiça, equilíbrio. A diferença revela o quanto nossa linguagem se afastou da experiência original, mas também mostra como ainda podemos recuperar esse olhar. Ao lembrar de Pitágoras, percebemos que os números não estão presos às páginas de um caderno: eles são parte do tecido invisível que sustenta o real.


sábado, 9 de agosto de 2025

Crise Social

Um colapso que começa nas rachaduras invisíveis

A crise social não é uma explosão repentina. É mais como uma infiltração lenta por entre as frestas da convivência — uma torneira que pinga por anos até que o teto desabe. Ela começa pequena: na indiferença ao outro, na desigualdade aceita como natural, no preconceito travestido de piada, no desânimo com a política, na desconfiança generalizada.

No cotidiano, sentimos seus sintomas quando a violência aumenta, mas também quando os vizinhos deixam de se cumprimentar. Quando os ônibus atrasam por dias e ninguém mais reclama. Quando o jovem olha para o futuro e vê apenas um emprego instável e um aluguel caro. Quando a escola pública perde professores porque adoeceram — não do corpo, mas da alma.

A crise social é, em grande parte, a consequência de vínculos rompidos. Não só entre pessoas, mas entre pessoas e instituições. Quando as regras do jogo não valem para todos, a sociedade adoece. Quando o mérito substitui a solidariedade como único critério de valor, muitos são deixados para trás.

O sociólogo Zygmunt Bauman dizia que vivemos tempos líquidos — nada é feito para durar, nem os relacionamentos, nem os empregos, nem os compromissos com o outro. E uma sociedade sem estruturas sólidas se torna vulnerável ao colapso. A crise social, portanto, é menos um terremoto e mais uma erosão.

Mas nem tudo é ruína. Crises também revelam. Revelam injustiças que precisam ser vistas, e abrem espaço para novas formas de organização. Muitos coletivos, movimentos sociais, redes de solidariedade surgem justamente nesses períodos, mostrando que, mesmo diante do abismo, ainda podemos escolher construir pontes.

Em tempos de crise social, a pergunta mais urgente talvez seja: como queremos viver juntos? Porque a saída — se houver — não será individual. Será, necessariamente, coletiva.


domingo, 3 de agosto de 2025

Mecânica das Paixões

O motor secreto do existir

A paixão sempre foi tratada como excesso, desvio ou desordem. Desde os estoicos até Freud, passando por Descartes, ela aparece como algo que nos arrasta, algo a ser contido ou interpretado. Mas e se pensarmos a paixão não como desvio, mas como engrenagem? Não como obstáculo da razão, mas como sua condição de movimento?

A “mecânica das paixões” propõe ver o desejo, a atração, a fúria, o encantamento, não como perturbações, mas como forças motoras — semelhantes aos pistões que impulsionam uma máquina. Elas não apenas nos afetam: elas nos colocam em curso. Nada começa sem uma paixão: seja uma briga, uma descoberta científica, um poema, ou o início de um amor. Por que, então, insistimos em tratar a paixão como doença, e não como mecanismo vital?

O filósofo francês Gilles Deleuze oferece uma chave potente para essa reviravolta. Em Mil Platôs, ele e Guattari falam de “máquinas desejantes”: o desejo não como falta, mas como produção. A paixão, nesse caso, não seria algo que vem de fora, nos invade e nos perturba, mas uma função interna, criadora, produtiva. Uma engrenagem. Um dispositivo.

Imagine o ciúme. Normalmente visto como negativo, ele também revela o quanto algo (ou alguém) importa. Ele aciona a percepção, liga alarmes internos, reconfigura prioridades. É incômodo, sim — como todo motor barulhento —, mas também revelador. Ou pense na paixão estética: aquela emoção diante de um quadro ou uma música, que não serve para nada “prático”, mas nos reorganiza por dentro. Como diria Deleuze, o afeto é um modo de conexão. Uma linha que traça o mapa do que somos.

Nessa mecânica, o sujeito não é o centro de controle. Ele é parte da máquina, engrenado nela. Somos feitos das paixões que nos atravessam. A cada giro, nos transformamos. Ao contrário da racionalidade cartesiana que separa alma e corpo, a paixão nos junta. Ela é a liga da experiência humana. Por isso, talvez, o termo “paixão” vem do latim passio, que significa “sofrer” ou “ser afetado”. Sofrer, aqui, no sentido de sofrer uma ação, ser tocado. Sem isso, estaríamos parados.

Assim, a paixão deixa de ser inimiga da liberdade. Pelo contrário: é o que a move. A paixão como movimento involuntário que nos lança em novas direções. Uma espécie de motor secreto do existir.

Conclusão? Não reprima a paixão: escute-a como quem escuta o ronco de um motor. Talvez ela esteja dizendo para onde você precisa ir.

Acomismo

O mundo que se desfez de seu centro

Na correria do dia a dia, às vezes parece que tudo está acontecendo ao mesmo tempo e em nenhum lugar. A mesa do café virou escritório, o celular virou praça pública, e o que antes era sagrado, como o silêncio, virou luxo raro. A vida moderna parece viver um esvaziamento sutil, como se algo central tivesse sido removido. É aí que entra o conceito de acomismo — um estado em que o mundo já não é mais compreendido como cosmos, ou seja, como um todo ordenado, com centro, direção ou sentido.

O termo "acomismo" pode ser entendido como a ausência de cosmos, ou a perda da ideia de um mundo organizado por princípios compartilhados. O cosmos, para os gregos, era beleza, ordem e harmonia. Era o mundo visto como uma jóia que reluz com sentido. Acomismo, por contraste, é o mundo sem narrativa comum, fragmentado, onde cada um vive em sua bolha algorítmica, onde até os afetos são customizados.

O filósofo francês Michel Foucault nos ajuda a pensar essa condição quando afirma que o homem moderno é um ser "descentrado". Em suas palavras, no prefácio de As Palavras e as Coisas, ele diz que talvez o homem moderno esteja próximo de seu fim — “como uma figura desenhada na areia à beira-mar”. Para Foucault, as estruturas que sustentavam o saber e o sujeito foram implodidas. O acomismo seria, então, a vida no pós-terremoto, quando o chão já não dá mais garantias.

Na prática, vivemos o acomismo quando percebemos que não há mais autoridade comum que organize a convivência — a verdade virou questão de gosto, a política virou torcida, a ética virou marca pessoal. Em vez de compartilharmos um mundo, nos conectamos por afinidades imediatas, mas nos desencontramos no essencial. Acomismo é essa sensação de viver numa realidade que perdeu o contorno do real.

Mas há uma possibilidade nesse esvaziamento: ao percebermos o acomismo, podemos desejar reconstituir algum tipo de centro — não o antigo, hierárquico e imposto, mas um centro construído a partir do encontro, da escuta e da responsabilidade comum. Pode ser um reencantamento silencioso, uma busca modesta, talvez, por uma nova forma de cosmos — menos cósmica, mais cotidiana.

No fundo, talvez o acomismo não seja apenas a ruína, mas o intervalo em que decidimos se vamos continuar como poeira flutuando… ou se vamos, juntos, desenhar novamente a figura do mundo.


sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Amálgama de Dramas

Você está esperando o ônibus, celular na mão, olhos cansados. De repente, recebe uma mensagem da sua irmã dizendo que o avô caiu e foi levado ao hospital. Enquanto tenta processar isso, alguém atrás de você grita no telefone: “Ela me traiu, cara!”. À sua frente, um casal se abraça como se fosse a última vez. E ali está você, tentando ir ao trabalho. Num ponto de ônibus comum, o mundo inteiro virou palco de um amálgama de dramas.

Essa cena cotidiana revela uma verdade profunda: a vida humana é feita de sobreposições emocionais. Não vivemos histórias separadas em gavetas organizadas. Vivemos tudo junto — e de preferência, ao mesmo tempo. Cada um carrega seu próprio enredo, com personagens, pausas dramáticas, reviravoltas. E tudo isso acontece ao nosso redor sem pedir licença, como se o mundo fosse um palco girando sem direção única.

Imagine agora uma mulher fazendo uma apresentação importante no trabalho. Ela ensaiou por dias, está confiante, sorridente. Mas seu filho ficou doente de madrugada, ela mal dormiu, e enquanto fala sobre resultados trimestrais, está com a mente presa na febre do menino. No mesmo escritório, o colega ao lado acabou de saber que vai ser pai, e está radiante — quase flutuando. E no outro canto, alguém acabou de ser demitido. Nenhuma dessas histórias se anula. Todas coexistem, se atravessam. E ninguém tem como sair ileso desse entrelaçamento de mundos emocionais.

No supermercado, uma senhora chora discretamente no corredor dos enlatados. Perdeu o marido recentemente e ainda não aprendeu a fazer compras para uma só pessoa. Enquanto isso, um adolescente reclama alto do preço do energético, e uma mãe tenta entreter o filho que berra porque quer um pacote de salgadinhos. Todos ali parecem travar uma batalha invisível, mas real. E todos estão, de alguma forma, em cena — mesmo que ninguém aplauda.

Nas redes sociais, o drama ganha uma nova camada: a da performance. Alguém posta uma taça de vinho com a legenda “recomeço”, mas está tentando sobreviver a um fim traumático. Outro exibe a chegada à academia com emojis de fogo, tentando esconder a dor do diagnóstico de depressão. Há quem poste paisagens serenas tentando convencer o mundo (e a si mesmo) de que está em paz. A amálgama continua existindo — só que editada. Com filtro.

O filósofo francês Edgar Morin, ao pensar a complexidade, dizia que não se pode isolar uma parte da vida e achar que isso explica o todo. A realidade é feita de redes, de entrelaçamentos. O drama de um indivíduo nunca é apenas dele. Ele respinga, reverbera, se mistura ao dos outros. Walter Benjamin também observava que a experiência moderna é fragmentária — vivemos em pedaços, justapostos, sobrepostos. Somos, todos nós, camadas de histórias em conflito.

A vida, assim, não é um roteiro limpo. É uma tapeçaria com fios soltos, bordados interrompidos, linhas que mudam de cor no meio do ponto. Tentar dar coesão total ao próprio enredo é ignorar que, muitas vezes, o drama do outro é o que altera o rumo da nossa história. E isso não é fraqueza — é condição humana.

Cada pessoa se torna, assim, um ponto de convergência de múltiplas histórias. O drama pessoal já é por si só uma construção simbólica: o que chamamos de “drama” geralmente é um acontecimento que rompe com o ritmo esperado, que exige reposicionamento. Mas quando isso se mistura com o sofrimento dos outros, cria-se uma atmosfera emocional espessa. A amálgama surge aí: no entrelaçamento de experiências que não respeitam hierarquias de importância. A morte de um gato pode conviver no mesmo espaço mental que uma crise existencial sobre o sentido da carreira.

A amálgama de dramas pode parecer um fardo. Mas talvez seja ela o que nos mantém humanos. Viver no meio do excesso emocional dos outros, sentir o peso e a vibração de histórias que não são nossas, nos ensina a ter cuidado, a reconhecer o outro para além da superfície. O drama, no fim, é uma forma de conexão. É quando o sofrimento de um desconhecido nos toca que percebemos: estamos todos entrelaçados.

No café da manhã de um casal em crise, no olhar distante de um motorista de aplicativo, na ansiedade disfarçada de uma piada no elevador — ali está a amálgama. E cabe a nós aceitar que viver bem talvez seja menos sobre controlar a narrativa e mais sobre aprender a conviver com os roteiros que atravessam o nosso.

Porque se cada um carrega dentro de si um romance inacabado, então o mundo é uma biblioteca viva de histórias cruzadas. E a amálgama de dramas é o que torna tudo isso — confuso, intenso, absurdo — profundamente real.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

As Dores do Mundo

Por que viver dói tanto? Uma conversa com Schopenhauer no meio do caos

Tem dias que a gente acorda já cansado. O despertador toca, o corpo obedece, mas a alma hesita. Vai trabalhar, estuda, sorri socialmente — mas lá dentro algo pesa. Não é drama, nem frescura. É só a vida sendo... vida. E aí surge a pergunta silenciosa: por que viver dói tanto?

Se você já sentiu isso (e quem não?), pode sentar ao lado de Arthur Schopenhauer. Ele não vai tentar te consolar. Não vai dizer que tudo vai melhorar. Na verdade, ele vai te dizer o oposto: a dor é o núcleo da existência. A vida não é um parque de diversões, é uma espera no consultório da realidade. E é aí que ele começa a sua obra mais direta e crua: As Dores do Mundo.

Mas antes de fugir, fique um pouco. Porque, estranhamente, há algo libertador em entender que a dor não é um erro, mas uma chave para enxergar o mundo de outro jeito.

 

A vida como vontade cega

Para Schopenhauer, tudo o que vive é movido por uma força interior que ele chama de vontade. Não é a vontade racional, tipo "quero café com leite", mas uma vontade irracional, incessante, impessoal — que nos empurra a desejar, buscar, lutar, sofrer... e repetir tudo isso.

Essa vontade está em tudo: nos instintos, nos amores, nas guerras, nas carências, nos medos. A dor surge porque desejar é sofrer. E quando o desejo é satisfeito, logo surge outro — e outro, e outro. Uma sede que nunca termina.

A vida, para ele, é como um mendigo que ganha uma moeda e, no segundo seguinte, sente fome outra vez.

 

A versão 2.0: a dor no século das notificações

Se Schopenhauer vivesse hoje, talvez As Dores do Mundo começasse com um celular vibrando às 4 da manhã, um boleto vencido e uma timeline cheia de vidas felizes que não são a sua. Ele diria: o mundo moderno não eliminou o sofrimento — ele só o sofisticou.

A gente não sente fome de comida como antes, mas sente fome de sentido, de pertencimento, de curtidas. O desejo virou algoritmo. A frustração, mercadoria. E a dor... bom, ela continua lá. Só que disfarçada de ansiedade, burnout ou um vazio sem nome.

 

E agora? Existe saída?

Schopenhauer não é um otimista, mas também não é um niilista total. Ele acredita que é possível diminuir o sofrimento, mesmo que ele nunca desapareça.

Como?

  • Pela contemplação estética (a arte, a música, a beleza desinteressada).
  • Pela compaixão, que é quando a gente reconhece a dor do outro como nossa.
  • E, mais profundamente, pela negação da vontade — um estado de desprendimento, quase budista, onde o querer cede lugar ao ser.

A salvação, para ele, não está em ter tudo, mas em querer menos. Em silenciar a vontade, ainda que por instantes.

 

Aceitar a dor é começar a viver

As Dores do Mundo não é um convite ao desespero, mas à lucidez. Schopenhauer não quer que a gente sofra mais — quer que a gente pare de fingir que não está sofrendo.

Reconhecer que a vida é difícil não é fraqueza, é coragem. E talvez, ao aceitar a dor como parte da jornada, possamos encontrar momentos de paz mais sinceros, mais profundos, mais humanos.

Porque, no fim, o mundo pode até ser um lugar de dor — mas nós ainda podemos ser lugares de compaixão.