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terça-feira, 26 de maio de 2026

Ísis Sem Véu

Falar de Ísis Sem Véu é como abrir uma janela para um tempo em que ciência, religião e filosofia ainda não tinham sido completamente separadas — ou, talvez, em que alguém ousou juntá-las novamente. Publicado em 1877 por Helena Petrovna Blavatsky, esse livro monumental não é apenas uma obra: é um gesto de desafio. Um desafio à visão estreita do conhecimento e à arrogância de pensar que já sabemos o suficiente sobre o mundo.

A ambição de revelar o invisível

Ísis Sem Véu nasce dentro do contexto da Sociedade Teosófica, fundada pela própria Blavatsky junto com Henry Steel Olcott. O título já diz muito: Ísis, a deusa egípcia associada ao mistério e ao conhecimento oculto, aparece “sem véu” — ou seja, revelada. Mas aqui há um paradoxo interessante: ao tentar revelar, Blavatsky também nos lembra que o mistério nunca desaparece completamente.

A obra é dividida em dois volumes principais: um dedicado à ciência (“Ciência”) e outro à religião (“Teologia”). Mas não espere uma divisão tranquila. Blavatsky escreve como quem atravessa fronteiras: critica o materialismo científico emergente do século XIX e, ao mesmo tempo, ataca o dogmatismo religioso. Para ela, ambos haviam se afastado de uma verdade mais profunda, uma “sabedoria antiga” que estaria na origem de todas as tradições.

Entre laboratório e templo

Há algo quase desconcertante na leitura. Em um momento, ela discute fenômenos psíquicos, magnetismo e experiências mediúnicas; em outro, mergulha em textos antigos, símbolos egípcios, tradições hindus e filosofia neoplatônica. A intenção é clara: mostrar que existe uma unidade por trás de todas essas expressões.

Blavatsky parece nos dizer: o erro moderno não é ignorar o sobrenatural, mas fragmentar o conhecimento. Ao separar radicalmente ciência e espiritualidade, perdemos a capacidade de compreender o humano em sua totalidade.

Nesse sentido, Ísis Sem Véu antecipa debates que hoje reaparecem em outras formas: a busca por interdisciplinaridade, o interesse por estados de consciência, e até certas críticas ao reducionismo científico.

O tom polêmico — e necessário

Não dá para ignorar o estilo da autora. Blavatsky escreve com intensidade, às vezes com ironia, frequentemente com dureza. Ela não tenta agradar. Pelo contrário, confronta. Questiona cientistas, teólogos, filósofos — ninguém escapa.

Isso pode incomodar, e talvez deva mesmo. Porque o livro não quer apenas informar; quer provocar uma mudança de perspectiva. É como se ela estivesse constantemente perguntando: “E se tudo o que você considera sólido for apenas uma parte muito pequena da realidade?”

A ideia de uma tradição primordial

Um dos eixos mais importantes da obra é a noção de uma prisca theologia — uma sabedoria primordial comum a todas as culturas. Essa ideia não é nova, mas Blavatsky a radicaliza. Para ela, as religiões e filosofias são como fragmentos de um mesmo espelho quebrado.

Aqui, o livro toca algo profundamente filosófico: a relação entre unidade e multiplicidade. Será que as diferenças culturais são realmente diferenças fundamentais, ou apenas variações de uma mesma verdade? E mais: será que o conhecimento verdadeiro é algo que se acumula, ou algo que se recorda?

Um livro que exige o leitor

Ler Ísis Sem Véu não é fácil. Não é um livro linear, nem didático no sentido moderno. Ele exige paciência, abertura e, sobretudo, disposição para conviver com a dúvida.

E talvez esse seja seu maior mérito.

Num mundo que valoriza respostas rápidas, Blavatsky oferece uma obra que nos empurra para o desconforto — aquele espaço onde o pensamento realmente começa. Não se trata de aceitar tudo o que ela diz, mas de permitir que o texto desorganize nossas certezas.

No fim, o véu permanece

Há uma ironia sutil no título. Ao terminar a leitura, temos a sensação de que Ísis não foi completamente desvelada. E isso não é um fracasso — é a própria mensagem.

O conhecimento, parece sugerir Blavatsky, não é um ponto de chegada, mas um processo de revelação contínua. Cada véu retirado revela outro por baixo.

E talvez seja justamente isso que torna Ísis Sem Véu uma obra duradoura: ela não entrega uma verdade pronta. Ela nos coloca em movimento — entre o visível e o invisível, entre o saber e o mistério.

Como se dissesse, em silêncio: o verdadeiro enigma não está no mundo, mas na forma como insistimos em olhar para ele.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Hábitos Atômicos

de James Clear

Resenha do livro Hábitos Atômicos

Hábitos Atômicos é um livro que se apresenta como manual prático, mas funciona também como uma pequena teoria do comportamento humano aplicada ao cotidiano. James Clear parte de uma premissa simples — mudanças mínimas, quando sustentadas no tempo, geram transformações profundas — e constrói a partir daí uma narrativa clara, acessível e progressiva.

O autor se afasta do discurso motivacional clássico e aposta em algo mais sólido: sistemas. Para Clear, o fracasso recorrente em manter resoluções não está na falta de força de vontade, mas na maneira como estruturamos nossos ambientes e rotinas. Metas, por si só, são frágeis; hábitos, quando bem desenhados, tornam o progresso quase inevitável.

Um dos pontos centrais do livro é a explicação do ciclo do hábito — deixa, desejo, resposta e recompensa — que ajuda o leitor a compreender por que certos comportamentos persistem mesmo quando são claramente prejudiciais. A partir dessa estrutura, Clear propõe as quatro leis da mudança de comportamento, que funcionam como princípios operacionais: tornar o hábito óbvio, atraente, fácil e satisfatório. A clareza com que essas ideias são apresentadas é um dos grandes méritos da obra.

Outro aspecto relevante é a inversão de perspectiva que o autor sugere: a verdadeira mudança não começa nos resultados desejados, mas na identidade. Em vez de perguntar “o que quero alcançar?”, o livro convida o leitor a refletir “quem quero me tornar?”. Cada hábito passa a ser visto como um pequeno voto a favor de uma identidade em construção, o que confere profundidade psicológica à proposta e evita o imediatismo típico de livros de autoajuda.

A escrita é direta, pontuada por exemplos cotidianos, estudos científicos e histórias breves, o que torna a leitura fluida e acessível a um público amplo. Em alguns momentos, essa repetição de exemplos pode soar excessiva para leitores mais experientes, mas cumpre bem a função pedagógica do livro.

Como limitação, Hábitos Atômicos pouco aborda contextos sociais mais complexos — desigualdades, restrições materiais ou condições emocionais profundas — o que pode dar a impressão de que todo comportamento é plenamente controlável. Ainda assim, essa ausência não invalida a proposta; apenas delimita seu alcance.

No conjunto, Hábitos Atômicos é uma obra eficaz, honesta e prática. Não promete mudanças espetaculares nem transformações instantâneas, mas oferece algo mais plausível: um método para alinhar pequenas ações diárias a uma vida mais coerente. É um livro que não exige heroísmo, apenas atenção, repetição e paciência — virtudes discretas, porém decisivas.

Hábitos Atômicos pode ser lido como uma filosofia do imperceptível: uma ontologia em que o ser não se decide nos grandes atos conscientes, mas nas repetições quase automáticas que moldam o corpo antes mesmo da reflexão. James Clear desloca o foco da vontade para o tempo, mostrando que a identidade não é um projeto pensado, mas um acúmulo silencioso de gestos — uma metafísica do cotidiano em que cada hábito é uma inscrição mínima naquilo que somos. Nesse sentido, o livro subverte a ideia moderna de liberdade como decisão soberana e a aproxima de uma ética da arquitetura da vida: somos menos livres quando escolhemos e mais livres quando organizamos as condições que nos escolherão amanhã.

 

Fonte:

Clear, James. Hábitos Atômicos (recurso eletrônico) Um Método Fácil e Comprovado de Criar Bons Hábitos e Se Livrar dos Maus – Rio de Janeiro. - Alta Books: 2019.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Os Demônios de Dostoievsky


Imagine-se embarcando em uma jornada literária que te leva a explorar as complexidades da alma humana e a desvendar os enigmas de uma sociedade em ebulição. Foi exatamente assim que me encontrei ao iniciar a leitura de "Os Demônios" de Dostoievsky. Cativado pela promessa de uma narrativa que transcende o tempo, me vi imerso em um mundo de personagens intrigantes e debates intensos sobre ideologias, liberdade e as sombras que habitam nossas próprias naturezas. Poucas obras têm o poder de capturar a essência da condição humana de maneira tão profunda, e é com entusiasmo que compartilho as reflexões inspiradas por este clássico literário que, mesmo escrito há mais de um século, continua a ressoar nas complexidades do nosso cotidiano.

"Os Demônios" (ou "Os Possessos"), escrito por Fyodor Dostoievsky e publicado em 1872, é uma obra complexa e profunda que mergulha nas complexidades da sociedade russa do século XIX, explorando temas como revolução, niilismo e a luta entre o bem e o mal. A narrativa, rica em personagens intrigantes, oferece uma visão penetrante das tensões políticas e ideológicas da época, ao mesmo tempo em que mergulha nas profundezas da psique humana.

O enredo se desenrola em uma pequena cidade russa onde um grupo de intelectuais radicais, liderados por Piotr Verkhovensky, busca instigar a revolução como uma resposta à decadência moral e social percebida. Os personagens representam diferentes facetas da sociedade, e suas interações complexas lançam luz sobre as contradições e os conflitos inerentes à condição humana. Nikolai Stavrogin, um personagem enigmático e central na trama, é retratado como um "demônio" em uma perspectiva metafórica, simbolizando a corrupção moral e espiritual. Sua presença influencia o curso dos eventos de maneiras imprevisíveis, e sua complexidade psicológica adiciona camadas profundas à narrativa.

Dostoievsky utiliza "Os Demônios" como uma plataforma para explorar a natureza da liberdade, a responsabilidade individual e as consequências sociais das ideologias extremas. Ele tece um retrato crítico das ideias niilistas e radicais que estavam em ascensão na Rússia, alertando sobre os perigos de seguir cegamente utopias políticas sem considerar as implicações morais e éticas. A escrita de Dostoievsky é caracterizada por sua riqueza psicológica, diálogos intensos e observações perspicazes sobre a condição humana. "Os Demônios" desafia os leitores a refletirem sobre questões profundas relacionadas à sociedade, à moralidade e à busca do significado na vida. Esta obra magistral continua a ser uma leitura relevante e provocativa, oferecendo uma visão inesquecível da complexidade da natureza humana e das tensões sociais que moldam o destino das nações.

"Os Demônios" de Dostoievsky, apesar de situado em uma Rússia do século XIX, oferece analogias intrigantes com aspectos do nosso cotidiano atual. A obra aborda temas universais que transcendem o tempo e o espaço, permitindo-nos encontrar paralelos com questões contemporâneas. Aqui estão algumas analogias que podem ser traçadas:

Extremismo Ideológico e Polarização Política: Assim como no livro, onde personagens extremistas buscam instigar a revolução com base em ideologias radicais, podemos observar paralelos com a polarização política e o extremismo ideológico em nosso tempo. A ascensão de movimentos radicais, debates acalorados e a busca por mudanças sociais muitas vezes refletem as tensões políticas e ideológicas descritas por Dostoievsky.

Consequências das Ideologias Extremas: A obra alerta sobre as consequências imprevisíveis e perigosas das ideologias extremas. Isso pode ser relacionado a movimentos ou ideias contemporâneas que, quando seguidos sem questionamento crítico, podem resultar em consequências não desejadas e, por vezes, prejudiciais para a sociedade.

Corrupção Moral e Espiritual: A representação de Nikolai Stavrogin como um "demônio" simbolizando corrupção moral e espiritual pode ser associada a figuras públicas ou a questões sociais que desafiam os valores éticos fundamentais. A corrupção, seja ela moral, política ou institucional, é uma preocupação constante em várias sociedades.

Desafios da Liberdade Individual: A discussão sobre a natureza da liberdade e a responsabilidade individual é relevante em nosso cotidiano, especialmente em meio a debates sobre direitos individuais, liberdade de expressão e o equilíbrio entre a autonomia pessoal e o bem comum.

Impacto da Tecnologia e Comunicação: Embora não seja um tema central na obra, a dinâmica da comunicação e da tecnologia pode ser associada à forma como as ideias se espalham e ganham força na sociedade contemporânea. A influência das redes sociais e da mídia na formação de opiniões pode ser comparada à disseminação de ideias no contexto do romance.

Ao fazer essas analogias, é importante reconhecer que as comparações são sempre simplificações e que as obras literárias podem ser interpretadas de várias maneiras. No entanto, encontrar conexões entre "Os Demônios" e nosso cotidiano permite uma reflexão mais profunda sobre os desafios sociais e éticos que persistem ao longo do tempo. A literatura tem destas coisas, carregam mensagens, ensinamentos, histórias que a posteridade se apropria e a partir delas faz leituras e analogias da realidade e do cotidiano. Realmente é uma bela obra, vale muito a pena ler e desfrutar da beleza literária.

Fonte:

Dostoievski, Fiódor. Os Demônios. Tradução Paulo Bezerra. Editora 34 Ltda. São Paulo.Ed. 2013

 

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Resenha do livro A Cor Purpura de Alice Walker

A primeira vez que tive contato com esta história foi a muitos anos atrás quando assisti ao filme “A Cor Púrpura” de Steven Spielberg, um dos filmes mais aclamados nos anos 80, estrelado por Whoopie Goldberg, Danny Glover e Oprah Winfrey, foi inspirado no livro de Alice Walker, muitos anos depois li o livro pela primeira vez e a poucos dias reli o livro, a história é tocante e ao mesmo tempo violenta, mostra a realidade de muitas mulheres abusadas em seu ambiente familiar, independentemente da cor da pele, infelizmente a história se repete anos após ano como uma praga mesmo com a existência da importantíssima Lei da Maria da Penha estabelecendo limites e penalidades dirigidos aos monstros que habitam muitos lares, a questão é saber se o monstro por ser monstro ciente da lei o impediria de fazer o que faz, mas ai já é outro papo. Voltemos ao livro.

 

Tanto o filme como o livro, ambos conseguem emocionar quem vê ou lê, quem lê tem a vantagem da imaginação, a história terá um colorido particular, a sensibilidade de cada um dará profundidade a luta uma constante e recorrente, seja ela física, moral ou espiritual.

Ao mesmo tempo a história é portadora de ternura, de amor e de personagens que demonstram sua capacidade de reinvenção e, sobretudo, de muito afeto, a vida de cada personagem está entrelaçada, tendo as mulheres personalidades de superação e luta, lutando cada uma a sua maneira evoluindo à medida que a vida vai lhes proporcionando vivencias e experiências que as tornaram resilientes e maduras.

 

Em 2016, o selo José Olympio republicou “A cor púrpura” de Alice Walker – um livro que marcou época quando foi publicado originalmente, na década de 80. A história foi ambientada no sul dos Estados Unidos antes da Segunda Guerra (e antes do movimento pelos direitos civis), a obra nos apresenta a vida das pessoas negras que viviam no limbo entre a escravidão e a liberdade, um povo sem terra e sem pátria, seja na África, onde nasceram e de onde vieram, seja nos Estados Unidos, onde eram considerados cidadãos de segunda classe, situação que para nós brasileiros é fato histórico bastante conhecido, infelizmente ainda há o repugnante preconceito racial.

 

A história possui pontos cruciais que a elevam de algo simples e triste a uma análise de uma época onde explicitam o feminismo intrínseco, o racismo histórico, questionamento sobre religião, gênero e o papel das mulheres na sociedade, é um retrato que traz à baila muitos aspectos até hoje alvos de lutas sociais.

 

“Celie, fala a verdade, você alguma vez encontrou Deus na igreja? Eu nunca. Eu só encontrei um bando de gente esperando ele aparecer. Se alguma vez eu senti Deus na igreja foi o Deus queu já tinha levado comigo. E eu acho que todo o pessoal também. Eles vão pra igreja para repartir Deus, não para achar Deus.”

 

O livro é um compilado de várias cartas, a maioria escrita por Celie. Celie a personagem principal endereça as cartas, no começo, para o “Querido Deus” – a única “pessoa” que ela acredita que a escutaria, escreve a Ele somente para desabafar, não pede clemencia, inclusive diz que Ele, “talvez estivesse dormindo” por não ver tudo o que estava acontecendo. É nessas cartas e em suas próprias palavras mal escritas (já que ela é semianalfabeta e escreve com dificuldade) que descobrimos que a vida de Celie, desde muito cedo, foi de tristeza e sofrimento, no decorrer da trama vai se construindo uma forte empatia com a anfitriã e muita aversão as situações de sofrimento que envolve aquelas mulheres. Celie é a mais velha entre vários irmãos, órfã de mãe, ela é constantemente estuprada pelo pai e engravida duas vezes. As duas crianças desaparecem e ela acredita que o pai matou o filho e deu a menina para alguém.

 

Celie na tentativa de proteger a irmã mais nova, sofreu constantes abusos sexuais do pai, quando sua mãe morre, o pai decide tirá-la terminantemente de casa, na tentativa de afastá-la da irmã mais nova, Nessie, dando-a em casamento para Albert, um fazendeiro da região que também cortejava sua irmã, que decide fugir em busca de uma vida diferente.

 

Celie é obrigada pelo pai a casar com o seu vizinho fazendeiro Albert, ele é um homem violento e bate nela para que ela “o obedeça”, a trata como um animal desobediente. Isso acontece até aparecer a amante que irá morar com eles, Shug Avery – uma cantora de má reputação que fica doente. O marido de Celie, Albert, é apaixonado por Shug e eles tiveram um caso e três filhos antes dele ser forçado pelo pai a casar com uma “moça de família” que é Celie. Ele traz Shug Avery para casa para que possa cuidar dela.

 

Celie tem dificuldade de reagir a esta nova situação, entre os abusos do pai e os maus tratos do marido, ela afunda na depressão, concentrada em trabalhar na roça e cuidar dos filhos do primeiro casamento de Albert, segue assim neste sofrimento, suas palavras resumem seu sentimento:

“Mas eu num sei como brigar. Tudo o queu sei fazer é cuntinuar viva.”

A situação e reação de Celie surpreendentemente começam a mudar com a chegada de Avery Shug, a amante de Albert. No começo, as duas se estranham. Avery diz para Celie que “ela é mesmo feia”, e Celie se sente pouco à vontade em sua insignificância perto da exuberância de Shug, que emana rebeldia, alta autoestima, segurança e decisão, ela representa tudo que Celie não é.

A relação entre as duas se torna mais próxima, inclusive se tornam amigas, uma se apoia na outra, Shug vai contribuir para a reviravolta na vida de Celie, lhe garantindo autonomia e independência, esse caminho tortuoso, torna a leitura mais empolgante a cada passo dado por Celie em direção à autonomia e liberdade, felicidade é outra coisa que levará muito tempo para ela conquistar, pois as marcas em sua vida são muito profundas, vem desde sua infância até a idade adulta.

 

Ela falou, Dona Celie, é melhor você falar baixo. Deus pode escutar você. Deixa ele escutar, eu falei. Se ele alguma vez escutasse uma pobre mulher negra o mundo seria um lugar bem diferente, eu posso garantir.

 

Toda minha vida eu tive que brigar. Eu tive que brigar com meu pai. Tive que brigar com meus irmão. Tive que brigar com meus primo e meus tio. Uma criança mulher num tá sigura numa família de homem. Mas eu nunca pensei que ia ter que brigar na minha própria casa.” (Celie transcrevendo fala de Sofia)

 

Os demais personagens também são importantes contam boas histórias, simbolizando cada um a embates específicos. Em seu entorno, os negros também sofrem preconceito de raça. Aqueles que ousam se levantar, como Sofia, a esposa de um dos filhos de Albert, acabam tendo um destino ainda pior. Sofia, que não aceitou as agressões gratuitas da esposa do prefeito e a agrediu, acabou atrás das grades, em uma prisão de condições subumanas, que quase a mataram, ficando com graves sequelas.

Trata-se de uma leitura cativante e emocionante, o que fica ao final é uma lição de amor, e também uma sensação de mais narrativas de momentos de felicidade na vida Celie, pois é muito tempo narrando sofrimento, no entanto os sofrimentos foram duras lições na vida de Celie, que aprende a amar a si mesma e aos outros, como após o aprendizado tivesse uma segunda chance, numa outra caminhada, até mesmo Albert tem uma segunda chance, quando fica sozinho e tem que aprender, aos trancos e barrancos, como se cuidar.

 

Fonte:

Walker, Alice. A cor púrpura; tradução Betúlia Machado , Maria José Silveira, Peg Bodelson. - 1. ed. - Rio de Janeiro: José Olympio, 2016.