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sábado, 20 de dezembro de 2025

Paraíso Perdido

Há livros que não pedem pressa. Paraíso Perdido é um deles. Não é leitura de metrô nem de intervalo curto: é livro para ser atravessado como um território — com pausas, retornos, estranhamentos. John Milton escreveu um épico, mas o que ele entrega não é apenas uma história bíblica em versos: é um grande laboratório sobre liberdade, orgulho, obediência e queda.

Uma história conhecida, contada de um jeito inquietante

À primeira vista, o enredo é simples e familiar: a rebelião de Lúcifer, a expulsão do céu, a criação do homem, a tentação, a queda de Adão e Eva. Mas Milton faz algo desconcertante: ele dá espessura psicológica ao mal. Satanás não aparece como uma caricatura, mas como um personagem eloquente, ferido, orgulhoso, consciente de sua perda.

A famosa frase — “É melhor reinar no Inferno do que servir no Céu” — não é apenas uma bravata demoníaca; é uma declaração radical sobre autonomia. E é aí que o texto começa a nos incomodar, porque essa lógica não está tão distante do cotidiano.

Liberdade: dom ou armadilha?

Milton insiste numa ideia central: sem liberdade, não há amor verdadeiro nem virtude real. Deus cria o homem livre, e exatamente por isso a queda é possível. Adão e Eva não caem por ignorância total, mas por escolha.

No dia a dia, isso aparece de forma menos grandiosa, mas igualmente trágica. Quando alguém sabe que determinada decisão vai trazer consequências ruins — e mesmo assim escolhe — estamos diante da mesma tensão: liberdade versus responsabilidade. Não é o erro em si que pesa, mas o fato de termos escolhido.

O orgulho como motor da queda

Satanás não cai por fraqueza, mas por excesso de certeza. Ele não aceita ocupar um lugar que não seja o centro. E isso torna o poema surpreendentemente atual: quantas rupturas nascem não da necessidade, mas do orgulho ferido?

No trabalho, por exemplo, quantas vezes alguém prefere romper uma equipe, sabotar um projeto ou “ir embora batendo a porta” apenas para não admitir um limite? Milton parece dizer: a queda começa quando o “eu” se torna absoluto demais.

Adão, Eva e a banalidade do erro

Eva não é apresentada como uma vilã rasa. Ela erra por desejo de ampliação: quer saber mais, quer ser mais. Adão, por sua vez, erra por amor — prefere cair junto a Eva do que permanecer sozinho no paraíso. Aqui Milton é quase cruel: o erro não nasce sempre de intenções más, mas de afetos mal orientados.

No cotidiano, isso ecoa quando abrimos mão de critérios, valores ou limites “por amor”, “para não perder alguém”, “para manter a paz”. O resultado, muitas vezes, é a perda de algo mais profundo: a integridade.

O paraíso não é apenas um lugar

Talvez o ponto mais silencioso do livro seja este: o paraíso não se perde apenas por um ato grandioso, mas por pequenas concessões internas. Ele se desfaz quando a ordem interior se rompe.

Milton não escreve apenas sobre um jardim perdido no passado, mas sobre um estado de alma. O paraíso, nesse sentido, é uma harmonia frágil — e a queda acontece quando confundimos liberdade com soberba, desejo com direito, autonomia com isolamento.

No fim

Paraíso Perdido não é um livro para confirmar certezas morais fáceis. Ele nos força a olhar para aquilo que preferimos justificar: nossas escolhas, nossos discursos internos, nossas quedas “bem argumentadas”. Talvez por isso continue atual. Não porque fale do céu e do inferno, mas porque entende profundamente o ser humano — esse estranho ser que, mesmo avisado, ainda escolhe cair.

Paraíso Perdido (Paradise Lost) foi publicado pela primeira vez em 1667, no século XVII, por John Milton. Ou seja, trata-se de um clássico da literatura inglesa, escrito há mais de 350 anos, não é um livro recente.

Mas isso abre um ponto interessante:

Ele não é recente no tempo, porém continua atual no conteúdo. Milton discute temas que atravessam séculos sem envelhecer:

  • liberdade e responsabilidade
  • orgulho intelectual
  • obediência versus autonomia
  • escolhas conscientes que levam à queda
  • a tentativa de justificar os próprios erros

É por isso que, mesmo sendo um livro antigo, ele ainda dialoga tão bem com dilemas contemporâneos — do ambiente de trabalho às relações pessoais.