Há livros que não pedem pressa. Paraíso Perdido é um deles. Não é leitura de metrô nem de intervalo curto: é livro para ser atravessado como um território — com pausas, retornos, estranhamentos. John Milton escreveu um épico, mas o que ele entrega não é apenas uma história bíblica em versos: é um grande laboratório sobre liberdade, orgulho, obediência e queda.
Uma
história conhecida, contada de um jeito inquietante
À
primeira vista, o enredo é simples e familiar: a rebelião de Lúcifer, a
expulsão do céu, a criação do homem, a tentação, a queda de Adão e Eva. Mas
Milton faz algo desconcertante: ele dá espessura psicológica ao mal. Satanás
não aparece como uma caricatura, mas como um personagem eloquente, ferido,
orgulhoso, consciente de sua perda.
A
famosa frase — “É melhor reinar no Inferno do que servir no Céu” — não é
apenas uma bravata demoníaca; é uma declaração radical sobre autonomia. E é aí
que o texto começa a nos incomodar, porque essa lógica não está tão distante do
cotidiano.
Liberdade:
dom ou armadilha?
Milton
insiste numa ideia central: sem liberdade, não há amor verdadeiro nem virtude
real. Deus cria o homem livre, e exatamente por isso a queda é possível. Adão e
Eva não caem por ignorância total, mas por escolha.
No
dia a dia, isso aparece de forma menos grandiosa, mas igualmente trágica.
Quando alguém sabe que determinada decisão vai trazer consequências ruins — e
mesmo assim escolhe — estamos diante da mesma tensão: liberdade versus
responsabilidade. Não é o erro em si que pesa, mas o fato de termos escolhido.
O
orgulho como motor da queda
Satanás
não cai por fraqueza, mas por excesso de certeza. Ele não aceita ocupar um
lugar que não seja o centro. E isso torna o poema surpreendentemente atual:
quantas rupturas nascem não da necessidade, mas do orgulho ferido?
No
trabalho, por exemplo, quantas vezes alguém prefere romper uma equipe, sabotar
um projeto ou “ir embora batendo a porta” apenas para não admitir um limite?
Milton parece dizer: a queda começa quando o “eu” se torna absoluto demais.
Adão,
Eva e a banalidade do erro
Eva
não é apresentada como uma vilã rasa. Ela erra por desejo de ampliação: quer
saber mais, quer ser mais. Adão, por sua vez, erra por amor — prefere cair
junto a Eva do que permanecer sozinho no paraíso. Aqui Milton é quase cruel: o
erro não nasce sempre de intenções más, mas de afetos mal orientados.
No
cotidiano, isso ecoa quando abrimos mão de critérios, valores ou limites “por
amor”, “para não perder alguém”, “para manter a paz”. O resultado, muitas
vezes, é a perda de algo mais profundo: a integridade.
O
paraíso não é apenas um lugar
Talvez
o ponto mais silencioso do livro seja este: o paraíso não se perde apenas por
um ato grandioso, mas por pequenas concessões internas. Ele se desfaz quando a
ordem interior se rompe.
Milton
não escreve apenas sobre um jardim perdido no passado, mas sobre um estado de
alma. O paraíso, nesse sentido, é uma harmonia frágil — e a queda acontece
quando confundimos liberdade com soberba, desejo com direito, autonomia com
isolamento.
No
fim
Paraíso
Perdido não é um livro para confirmar certezas morais fáceis.
Ele nos força a olhar para aquilo que preferimos justificar: nossas escolhas,
nossos discursos internos, nossas quedas “bem argumentadas”. Talvez por isso
continue atual. Não porque fale do céu e do inferno, mas porque entende
profundamente o ser humano — esse estranho ser que, mesmo avisado, ainda
escolhe cair.
Paraíso
Perdido (Paradise Lost) foi publicado pela
primeira vez em 1667, no século XVII, por John Milton. Ou
seja, trata-se de um clássico da literatura inglesa, escrito há mais de 350
anos, não é um livro recente.
Mas
isso abre um ponto interessante:
Ele
não é recente no tempo, porém continua atual no conteúdo. Milton
discute temas que atravessam séculos sem envelhecer:
- liberdade e responsabilidade
- orgulho intelectual
- obediência versus autonomia
- escolhas conscientes que levam à
queda
- a tentativa de justificar os próprios
erros
É por isso que, mesmo sendo um livro antigo, ele ainda dialoga tão bem com dilemas contemporâneos — do ambiente de trabalho às relações pessoais.
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