Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador abuso. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador abuso. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Ética da Hipocrisia

A palavra “hipocrisia” costuma vir carregada de desprezo. É o que se diz quando alguém prega uma coisa e faz outra, quando aparenta virtude mas age por interesse, quando encena uma moral que não pratica. E, de fato, a hipocrisia pode ser um modo sorrateiro de manipular. Mas e se, por um instante, a gente a olhasse por outro ângulo? Existe uma ética — ainda que incômoda — na hipocrisia?

Na vida em sociedade, todos interpretamos papéis. Cumprimentamos pessoas que não gostamos, fingimos paciência onde há irritação, sorrimos em situações que nos desagradam. Não se trata apenas de falsidade, mas de convivência. A hipocrisia, nesse nível mínimo, funciona quase como um lubrificante social. Evita atritos constantes, preserva aparências que facilitam o diálogo e permitem a coexistência.

É claro que existe a hipocrisia cruel — aquela que prega virtude para oprimir, que se reveste de ética para esconder o abuso. Mas também existe uma hipocrisia que é, paradoxalmente, civilizatória: aquela que mascara os instintos mais egoístas em nome de um convívio menos selvagem. Como dizia La Rochefoucauld, “a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude.” Ou seja, até quem não é virtuoso precisa fingir que é — o que, por si só, revela um ideal ainda em vigor.

Pensemos na escola: o professor exige respeito, mesmo que não goste de todos os alunos. O aluno finge atenção, mesmo que esteja entediado. Mas esse jogo mantém a sala funcionando. Ou nas relações profissionais: ninguém gosta de uma reunião, mas todos comparecem, fazem comentários positivos, elogiam os esforços. Hipocrisia? Sim. Mas também um modo de manter a paz, de evitar o caos.

O filósofo esloveno Slavoj Žižek comenta que a hipocrisia, ao menos, reconhece uma norma. O verdadeiro perigo, diz ele, é o cinismo total, quando já não se finge sequer um ideal — quando se age com crueldade ou desrespeito, dizendo: “é isso mesmo, e daí?” Nesse caso, a hipocrisia desaparece, mas o vínculo ético também.

Portanto, a ética da hipocrisia está em sua função de mediação. Ela é feia, desconfortável, mas talvez inevitável. O problema começa quando a hipocrisia se torna tão refinada que esquece sua função inicial — aí, sim, vira disfarce para o abuso, escudo para a injustiça.

O desafio está em reconhecer quando ela nos protege do conflito... e quando nos afasta da verdade.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Bullying

A dor invisível e o peso do olhar alheio

Outro dia, ouvi uma conversa no café. Um grupo de jovens falava sobre a escola, e um deles disse: “Ah, mas isso sempre existiu! No nosso tempo era normal zoar os outros.” O tom era quase nostálgico, como se as humilhações cotidianas fossem parte de um rito de passagem, um treino para a dureza da vida adulta. Será mesmo? Será que a crueldade repetida ensina alguma coisa além do medo? E, mais ainda: por que algumas pessoas sentem prazer em diminuir as outras?

Entre o riso e a dor

O bullying sempre esteve presente na vida em sociedade, mas sua percepção mudou ao longo do tempo. No passado, era visto como “brincadeira”, e os danos emocionais que causava eram desconsiderados. No entanto, filósofos como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir já apontavam para a forma como o olhar do outro pode moldar a nossa identidade e, muitas vezes, aprisionar-nos em categorias degradantes.

Sartre falava da “Vergonha” como um reconhecimento de que o outro nos vê de um modo que não controlamos. O bullying opera exatamente nessa lógica: ele rotula, fixa, faz do outro um objeto da própria crueldade. A vítima não escolhe ser vista de forma humilhante, mas não pode impedir que isso aconteça.

Já Beauvoir, em O Segundo Sexo, analisa como a sociedade muitas vezes define o outro como inferior para reafirmar seu próprio poder. Isso se aplica perfeitamente ao bullying: quem pratica busca se afirmar, nem sempre por maldade pura, mas por uma necessidade de se sentir superior dentro da hierarquia social.

O paradoxo da força e da fraqueza

Nietzsche, em Genealogia da Moral, faz uma reflexão interessante sobre a relação entre força e fraqueza. Para ele, os fortes não precisariam humilhar os outros—o verdadeiro poder vem de dentro. Mas, no bullying, vemos algo curioso: o agressor muitas vezes não é forte, mas frágil. Ele precisa diminuir o outro para se sentir grande.

Esse paradoxo é evidente no ambiente escolar e profissional. O bullying acontece não apenas entre crianças, mas também entre adultos. O chefe que humilha o funcionário, o grupo que exclui o colega, a cultura da piada que disfarça o desprezo. A lógica é sempre a mesma: uma falsa demonstração de poder que esconde insegurança.

O antídoto: o olhar que acolhe

Se o bullying é um problema do olhar que destrói, talvez a solução esteja no olhar que acolhe. Emmanuel Levinas, filósofo da alteridade, sugere que a verdadeira ética nasce do reconhecimento do outro como sujeito, não como objeto. O rosto do outro nos interpela, nos obriga a sair da nossa bolha de indiferença.

Isso significa que combater o bullying não é apenas uma questão de políticas educacionais ou regras mais rígidas. É uma mudança na forma como enxergamos o outro. Um convite a um olhar menos hostil e mais humano.

No fim, o jovem no café pode estar certo sobre uma coisa: isso sempre existiu. Mas talvez já esteja na hora de deixar de existir.