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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Aspecto Autoritário

Quando o mando se disfarça de cuidado

Outro dia me peguei obedecendo sem perceber. Não era um policial, nem um chefe gritando ordens. Era uma voz calma, razoável, quase pedagógica. “É melhor assim”, dizia. E eu aceitei. Foi aí que me ocorreu: o autoritarismo raramente chega de botas e punhos cerrados. Ele costuma vir de camisa passada, tom de especialista e um leve sorriso de quem “sabe mais”.

Quando falamos em aspecto autoritário, geralmente pensamos em ditaduras, censura, violência explícita. Mas o autoritarismo mais eficaz é o que se infiltra no cotidiano, no discurso bem-intencionado, nas pequenas hierarquias que naturalizamos. Ele não precisa mandar — basta convencer que não há alternativa.

O aspecto autoritário não é apenas um regime político; é, antes de tudo, uma forma de relação. Ele aparece sempre que o outro é reduzido à condição de alguém que deve apenas cumprir, adaptar-se ou concordar. Nesse sentido, o autoritarismo não vive só no Estado, mas também na família, na escola, no trabalho e até nas amizades.

Hannah Arendt falava da banalidade do mal: não é preciso um monstro para produzir violência, basta alguém que pare de pensar e passe a executar. Mas podemos ir além: o autoritarismo cotidiano se sustenta quando paramos de dialogar. Quando a pergunta é vista como afronta, e não como busca de sentido.

Paulo Freire, mais próximo de nós, foi ainda mais direto: toda relação em que um sabe tudo e o outro nada sabe já carrega um germe autoritário. Para ele, o autoritarismo não está apenas no conteúdo da fala, mas na estrutura da comunicação. Onde não há escuta, há dominação — mesmo que educada.

O aspecto autoritário, portanto, não grita: ele encerra o debate. Não ameaça: ele define o que é “normal”, “maduro” ou “responsável”. Seu poder está menos na força e mais na legitimação.

 

Situações do cotidiano: onde o autoritarismo se esconde

 

No trabalho

“Não é o momento de questionar.”

Essa frase, tão comum, é um clássico autoritário. Ela não nega a ideia por ser ruim, mas por ser inconveniente. Aqui, o autoritarismo se apresenta como gestão eficiente: alguém pensa, os outros executam. Questionar vira sinônimo de “dar trabalho”.

Na família

“Enquanto você morar aqui, as coisas são assim.”

Não se trata de limites (que são necessários), mas da ausência de explicação. O aspecto autoritário aparece quando a autoridade não se justifica, apenas se impõe. O poder se ancora no medo da perda — de afeto, de abrigo, de pertencimento.

Na escola

“Decora para a prova, depois você entende.”

Aqui, o autoritarismo se mascara de método. O estudante aprende cedo que compreender é secundário; o importante é repetir. Forma-se, assim, um hábito perigoso: aceitar sem digerir.

Nas relações afetivas

“Estou fazendo isso para o seu bem.”

Talvez uma das frases mais traiçoeiras. O cuidado vira controle, e o amor se converte em tutela. O aspecto autoritário surge quando um decide o que o outro deve sentir, querer ou escolher.

Na vida digital

“Todo mundo pensa assim.”

A multidão vira argumento. O autoritarismo contemporâneo adora estatísticas vagas e consensos artificiais. Quem discorda não é apenas diferente — é “problemático”.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Ética da Hipocrisia

A palavra “hipocrisia” costuma vir carregada de desprezo. É o que se diz quando alguém prega uma coisa e faz outra, quando aparenta virtude mas age por interesse, quando encena uma moral que não pratica. E, de fato, a hipocrisia pode ser um modo sorrateiro de manipular. Mas e se, por um instante, a gente a olhasse por outro ângulo? Existe uma ética — ainda que incômoda — na hipocrisia?

Na vida em sociedade, todos interpretamos papéis. Cumprimentamos pessoas que não gostamos, fingimos paciência onde há irritação, sorrimos em situações que nos desagradam. Não se trata apenas de falsidade, mas de convivência. A hipocrisia, nesse nível mínimo, funciona quase como um lubrificante social. Evita atritos constantes, preserva aparências que facilitam o diálogo e permitem a coexistência.

É claro que existe a hipocrisia cruel — aquela que prega virtude para oprimir, que se reveste de ética para esconder o abuso. Mas também existe uma hipocrisia que é, paradoxalmente, civilizatória: aquela que mascara os instintos mais egoístas em nome de um convívio menos selvagem. Como dizia La Rochefoucauld, “a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude.” Ou seja, até quem não é virtuoso precisa fingir que é — o que, por si só, revela um ideal ainda em vigor.

Pensemos na escola: o professor exige respeito, mesmo que não goste de todos os alunos. O aluno finge atenção, mesmo que esteja entediado. Mas esse jogo mantém a sala funcionando. Ou nas relações profissionais: ninguém gosta de uma reunião, mas todos comparecem, fazem comentários positivos, elogiam os esforços. Hipocrisia? Sim. Mas também um modo de manter a paz, de evitar o caos.

O filósofo esloveno Slavoj Žižek comenta que a hipocrisia, ao menos, reconhece uma norma. O verdadeiro perigo, diz ele, é o cinismo total, quando já não se finge sequer um ideal — quando se age com crueldade ou desrespeito, dizendo: “é isso mesmo, e daí?” Nesse caso, a hipocrisia desaparece, mas o vínculo ético também.

Portanto, a ética da hipocrisia está em sua função de mediação. Ela é feia, desconfortável, mas talvez inevitável. O problema começa quando a hipocrisia se torna tão refinada que esquece sua função inicial — aí, sim, vira disfarce para o abuso, escudo para a injustiça.

O desafio está em reconhecer quando ela nos protege do conflito... e quando nos afasta da verdade.


quarta-feira, 18 de junho de 2025

Bicho Estranho

... e o trabalho na contemporaneidade: O que Viramos?

Você já notou que quase ninguém mais sabe direito o que é "trabalhar"? Não no sentido simples — de bater ponto, cumprir tarefa, entregar resultado. Isso ainda existe. Mas no sentido maior: de construir sentido, sustentar o mundo, definir quem se é por meio do que se faz.

Antigamente (digamos: na época de nossos avós e no meu é claro, pois sou sexagenário), o trabalho parecia ter um lugar fixo: era o emprego, a carteira assinada, o ofício herdado ou aprendido, o ganha-pão previsível. Hoje, ele é móvel, líquido, múltiplo — às vezes demais. Tem gente com cinco empregos e nenhuma profissão. Influencers que vivem de si mesmos. Motoristas que são também designers freelancers nas horas vagas. Professores que vendem bolo no Instagram.

Zygmunt Bauman chamaria isso de “trabalho líquido” — como tudo no mundo líquido-moderno, ele escapa da forma, da fixidez. O sujeito não é mais "o padeiro do bairro", "o professor da escola", "o advogado da cidade". Ele é um amontoado de tarefas em rede, um prestador de serviço perpétuo, uma promessa de produtividade nunca cumprida.

E o cansaço? Ah... Byung-Chul Han falou bonito disso: vivemos na "sociedade do desempenho", onde o chefe virou interno. O sujeito se explora sozinho — acorda cedo, faz curso online, melhora a performance, lê sobre inteligência emocional... e desaba à noite com crise de ansiedade. Porque no fundo, o trabalho se colou à identidade: "sou o que produzo".

E o ócio criativo, que Domenico De Masi prometia? Virou privilégio raro — como férias em lugar sem wi-fi.

Mesmo assim, há beleza nesse caos: nunca foi tão possível inventar ofícios novos, misturar saberes, reinventar-se aos 40, aos 60. A contemporaneidade tem dessas contradições: cansa, mas dá chance de fuga. Precariza, mas liberta de velhas jaulas.

Talvez seja como aquele personagem de Ítalo Calvino em O Barão nas Árvores: viver entre galhos instáveis, nunca tocando o chão firme — mas vendo o mundo de um ângulo novo.

Porque trabalhar hoje não é mais só sustento. É sobrevivência simbólica. É procurar sentido. Ou, no mínimo, manter o vazio longe por mais uma tarde.

Mas talvez o exemplo mais gritante da mutação do trabalho na contemporaneidade seja a figura do "empreendedor de si mesmo" — um sujeito que, no fundo, não empreende nada além da própria força de trabalho precarizada. Empresas como Uber, iFood, Rappi, Amazon transformaram o antigo trabalhador assalariado em "parceiro", "colaborador", "motorista autônomo", como se o sujeito tivesse aberto uma microempresa quando, na prática, só perdeu direitos: sem férias, sem décimo terceiro, sem seguro contra acidente, sem previdência garantida.

É o velho truque do capital disfarçado de modernidade: transferir os riscos para o indivíduo e manter os lucros com a plataforma. Como bem analisou Ricardo Antunes, no capitalismo digital de plataformas o trabalho se esconde atrás de palavras bonitas — flexibilidade, autonomia, liberdade — enquanto esmaga o tempo de descanso e a segurança mínima. O trabalhador, que antes era explorado sob contrato formal, agora é explorado sem contrato algum.

Postagem no Instagram da análise do sociólogo Ricardo Antunes:

https://www.instagram.com/reel/DH67w1FPGBi/?utm_source=ig_web_copy_link

Parece liberdade, mas é servidão voluntária. Parece escolha, mas é necessidade. Afinal, quem pode realmente escolher quando não há alternativas?

Pierre Dardot e Christian Laval chamam essa lógica de "nova razão do mundo": um neoliberalismo que não precisa mais mandar — basta ensinar cada um a explorar a si mesmo. O sujeito virou empresa de si mesmo, gerente da própria miséria, responsável por seu sucesso ou fracasso num mercado onde quase ninguém vence. Até o desempregado, nessa lógica cruel, é culpado por não ter se reinventado o suficiente.

O paradoxo da era é este: nunca se falou tanto em "ser dono do próprio nariz" e nunca tantos trabalharam sem qualquer poder real sobre o próprio destino laboral. O trabalhador virou um "empreendedor compulsório", jogado no mercado sem rede de proteção — uma engrenagem descartável na grande máquina do capital global.

E ainda assim, no meio desse cenário duro, pulsa a velha pergunta: é possível um outro trabalho? Um outro modo de viver e produzir sentido, fora dessa engrenagem? A resposta talvez esteja nos pequenos gestos de fuga — na recusa, na solidariedade, na invenção coletiva. Porque trabalho, no fundo, é também aquilo que escolhemos fazer do tempo e da vida.