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sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Burlesco e Aterrorizante

O Riso no Abismo

Às vezes, o mundo parece uma grande peça de teatro mal ensaiada: o palhaço tropeça, a plateia ri, mas ninguém percebe que ele está sangrando de verdade. O burlesco e o aterrorizante, quando olhados de perto, são irmãos siameses — unidos pelo umbigo do absurdo. Enquanto um nos faz rir até perder o fôlego, o outro nos paralisa com um grito mudo. E, entre um riso nervoso e um calafrio inesperado, segue a vida, como se fosse normal viver nesse vaivém de máscaras.

Na arte, no noticiário e até na cozinha da tia do bairro, o ridículo e o macabro se abraçam sem cerimônia. Uma dança entre o que parece cômico e o que deveria nos assustar. Tomemos como exemplo uma reunião de condomínio: alguém propõe cercar o prédio com arame farpado para evitar que pombos “invadam com más intenções”. Todos riem. Mas aprovam a ideia. A piada se concretiza e, de repente, o absurdo ganha poder de decisão. É o burlesco se tornando aterrorizante com ata assinada.

O filósofo francês Georges Bataille, que tinha certa fascinação pelo grotesco, dizia que “o riso é a coincidência entre a angústia e a liberdade”. Isso talvez explique por que rimos diante do horror: é o nosso sistema nervoso tentando escapar da jaula da realidade. Ao rir de algo absurdo, aliviamos a tensão de sua verdade oculta. O meme do esqueleto dançando enquanto o mundo pega fogo é, ao mesmo tempo, cômico e apocalíptico — como uma gargalhada no fim dos tempos.

No cotidiano, isso se manifesta de formas banais: um chefe elogia o funcionário chamando-o de “escravo eficiente”. Todos riem. Ninguém vê o abismo que se abriu. Ou pior: veem, mas fingem que é só piada. O humor serve como anestesia social, mas também pode ser um bisturi. Quando bem afiado, ele revela o que há de mais medonho nos bastidores do riso.

O burlesco e o aterrorizante são, no fundo, duas formas de lidar com o insuportável. O palhaço trágico sabe disso: pinta o rosto de alegria para que ninguém veja o pânico em seus olhos. E talvez sejamos todos assim — maquiados de memes, ensaiando sorrisos no espelho enquanto o cenário desaba.

No fim das contas, rir pode ser o mais sério dos gestos. E talvez o mais humano. Afinal, só quem entende o horror pode rir dele com propriedade. Mas que seja um riso consciente — não o riso alienado que dança com o fascismo ou assina contratos com o grotesco institucional.

Então, da próxima vez que rir de algo que te assusta… pare. Talvez o abismo esteja rindo de volta.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Bullying

A dor invisível e o peso do olhar alheio

Outro dia, ouvi uma conversa no café. Um grupo de jovens falava sobre a escola, e um deles disse: “Ah, mas isso sempre existiu! No nosso tempo era normal zoar os outros.” O tom era quase nostálgico, como se as humilhações cotidianas fossem parte de um rito de passagem, um treino para a dureza da vida adulta. Será mesmo? Será que a crueldade repetida ensina alguma coisa além do medo? E, mais ainda: por que algumas pessoas sentem prazer em diminuir as outras?

Entre o riso e a dor

O bullying sempre esteve presente na vida em sociedade, mas sua percepção mudou ao longo do tempo. No passado, era visto como “brincadeira”, e os danos emocionais que causava eram desconsiderados. No entanto, filósofos como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir já apontavam para a forma como o olhar do outro pode moldar a nossa identidade e, muitas vezes, aprisionar-nos em categorias degradantes.

Sartre falava da “Vergonha” como um reconhecimento de que o outro nos vê de um modo que não controlamos. O bullying opera exatamente nessa lógica: ele rotula, fixa, faz do outro um objeto da própria crueldade. A vítima não escolhe ser vista de forma humilhante, mas não pode impedir que isso aconteça.

Já Beauvoir, em O Segundo Sexo, analisa como a sociedade muitas vezes define o outro como inferior para reafirmar seu próprio poder. Isso se aplica perfeitamente ao bullying: quem pratica busca se afirmar, nem sempre por maldade pura, mas por uma necessidade de se sentir superior dentro da hierarquia social.

O paradoxo da força e da fraqueza

Nietzsche, em Genealogia da Moral, faz uma reflexão interessante sobre a relação entre força e fraqueza. Para ele, os fortes não precisariam humilhar os outros—o verdadeiro poder vem de dentro. Mas, no bullying, vemos algo curioso: o agressor muitas vezes não é forte, mas frágil. Ele precisa diminuir o outro para se sentir grande.

Esse paradoxo é evidente no ambiente escolar e profissional. O bullying acontece não apenas entre crianças, mas também entre adultos. O chefe que humilha o funcionário, o grupo que exclui o colega, a cultura da piada que disfarça o desprezo. A lógica é sempre a mesma: uma falsa demonstração de poder que esconde insegurança.

O antídoto: o olhar que acolhe

Se o bullying é um problema do olhar que destrói, talvez a solução esteja no olhar que acolhe. Emmanuel Levinas, filósofo da alteridade, sugere que a verdadeira ética nasce do reconhecimento do outro como sujeito, não como objeto. O rosto do outro nos interpela, nos obriga a sair da nossa bolha de indiferença.

Isso significa que combater o bullying não é apenas uma questão de políticas educacionais ou regras mais rígidas. É uma mudança na forma como enxergamos o outro. Um convite a um olhar menos hostil e mais humano.

No fim, o jovem no café pode estar certo sobre uma coisa: isso sempre existiu. Mas talvez já esteja na hora de deixar de existir.