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quinta-feira, 21 de maio de 2026

Grimório Interior

Anotações para quem suspeita que a realidade também escreve de volta

Há quem imagine o grimório como um objeto raro, escondido em bibliotecas poeirentas ou protegido por símbolos indecifráveis. Mas talvez o verdadeiro grimório não seja um livro — seja um modo de ler. Um modo de perceber que a vida cotidiana também conjura, também invoca, também responde.

Pense no seguinte: toda vez que você nomeia algo — “isso é um problema”, “isso é amor”, “isso sou eu” — você não está apenas descrevendo. Está lançando um pequeno feitiço sem perceber. A linguagem não é neutra; ela organiza o mundo como um ritual silencioso. Nesse sentido, cada pessoa carrega um grimório invisível: o conjunto de palavras, crenças e símbolos com os quais interpreta a própria existência.

O erro dos aprendizes apressados é achar que a magia está nos objetos — velas, círculos, fórmulas. Mas o operador real é a consciência. Um antigo ocultista diria que o poder está na intenção; um filósofo diria que está na interpretação. Talvez estejam dizendo a mesma coisa com alfabetos diferentes.

Há uma estranha semelhança entre um ritual mágico e uma decisão cotidiana. Ambos exigem foco, ambos implicam risco, ambos reorganizam a realidade a partir de dentro. Quando alguém decide mudar de vida — trocar de trabalho, terminar um relacionamento, recomeçar — isso não deixa de ser uma forma de evocação: convoca-se um futuro que ainda não existe e, de algum modo, começa-se a habitá-lo.

Mas aqui entra a parte menos confortável do grimório: toda invocação cobra um preço. Não necessariamente em moedas ou sacrifícios dramáticos, mas em transformação. Você não sai o mesmo depois de chamar algo à existência. O que você deseja também o redesenha.

Por isso, o verdadeiro cuidado não está em “se proteger de forças externas”, como sugerem certos manuais esotéricos, mas em discernir o que você está constantemente invocando sem perceber. Ansiedade repetida vira atmosfera. Ressentimento cultivado vira lente. Esperança disciplinada vira direção.

Talvez seja isso que alguns pensadores brasileiros intuíram de forma discreta. Huberto Rohden, por exemplo, sugeria que a realidade externa é, em grande parte, reflexo de um estado interno mal compreendido. Em linguagem de grimório: o mundo responde ao tipo de energia simbólica que você sustenta.

Mas não se trata de um “pensamento mágico simplista”. Não é desejar e pronto. É alinhar percepção, ação e significado — como quem desenha um sigilo ao longo do tempo, não num papel, mas na própria vida.

E talvez o maior segredo — aquele que não costuma ser escrito nos grimórios — seja este: você não é apenas o mago. Também é o texto sendo escrito.

Há dias em que a vida parece ilegível, como uma página cheia de símbolos desconexos. Outros dias, algo se organiza, como se uma frase começasse a fazer sentido. O impulso é querer controlar a narrativa inteira, mas isso é como tentar dominar um livro vivo: quanto mais você força, mais ele se fecha.

A alternativa não é passividade, mas participação lúcida. Agir como quem escreve, mas também como quem escuta. Como quem conjura, mas também como quem responde ao que foi conjurado.

No fim, penso que talvez um grimório verdadeiro não seja aquele que ensina a dominar o mundo, mas aquele que revela uma coisa mais sutil:

que viver já é um ato mágico — só que sem garantias, sem instruções completas, e com a estranha beleza de nunca sabermos exatamente quem está invocando quem.


sábado, 18 de janeiro de 2025

Bom e Ruim

Outro dia, durante uma conversa despretensiosa, alguém perguntou: "Mas, afinal, o que é realmente bom ou ruim?" Parecia uma questão simples, daquelas que você responde sem pensar muito. Só que, quanto mais tentávamos responder, mais nos enredávamos. Uma comida que eu achava deliciosa era apenas "ok" para o outro. Um filme que um amigo adorava, outro considerava uma perda de tempo. E, de repente, me peguei pensando: será que "bom" e "ruim" são mesmo coisas concretas? Ou será que são palavras que usamos para nos orientar, mesmo sem saber ao certo o que significam?

O que é bom? O que é ruim? As perguntas parecem simples, mas basta um instante de reflexão para percebermos que essas palavras, tão presentes no nosso vocabulário diário, carregam uma indefinição essencial. No fundo, "bom" e "ruim" são conceitos metafisicamente vagos, atravessados por subjetividades, circunstâncias e contextos históricos. Mais do que categorias fixas, eles são prismas pelos quais filtramos nossas experiências no mundo.

A Raiz Metafísica do Problema

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche já apontava que as noções de "bom" e "ruim" não são universais, mas construções culturais. Em A Genealogia da Moral, ele descreve como a moralidade nasce de relações de poder e da imposição de valores por certos grupos sobre outros. O que chamamos de "bom" e "ruim" não é, portanto, um reflexo de uma essência universal, mas um jogo de forças históricas.

Por outro lado, na tradição aristotélica, "bom" é aquilo que realiza a finalidade de uma coisa. Um martelo "bom" é aquele que preenche bem sua função de martelar. No entanto, essa visão teleológica não escapa da indefinição quando aplicada ao ser humano. Qual é a nossa função essencial? Buscar a felicidade, como Aristóteles sugeriu? Mas a felicidade, por si só, é um conceito ainda mais fluido, variando entre indivíduos e culturas.

A Vaguidão e o Cotidiano

No dia a dia, usamos "bom" e "ruim" de forma quase automática. Dizemos que uma comida está "boa", que um filme é "ruim", que uma pessoa é "boa". Mas o que exatamente queremos dizer com isso? O gosto de uma comida é "bom" para quem? O filme é "ruim" porque não nos emocionou, ou porque desafia nossas expectativas? Quando chamamos alguém de "bom", estamos nos referindo a sua moralidade, à sua generosidade, ou simplesmente à sua capacidade de nos agradar?

Esses exemplos triviais revelam o quão dependentes de contexto estão os conceitos de bom e ruim. Algo "bom" em um momento pode ser "ruim" em outro, dependendo de quem observa e da situação envolvida. Imagine uma chuva repentina: é "boa" para o agricultor que precisa de água para as plantas, mas "ruim" para quem planejava um piquenique ao ar livre.

A Subjetividade e a Ética

A subjetividade complica ainda mais a questão. Para o filósofo existencialista Jean-Paul Sartre, os valores não estão dados; somos nós que os criamos. Em sua visão, o ser humano é condenado à liberdade, forçado a fazer escolhas e atribuir significados em um mundo sem essências pré-determinadas. "Bom" e "ruim" tornam-se, assim, expressões de nossa liberdade, mas também de nossa angústia diante da responsabilidade de decidir.

Por outro lado, filósofos como Emmanuel Levinas sugerem que a ética não pode ser reduzida à subjetividade. Para Levinas, a relação com o outro é o fundamento do ético: o "bom" é aquilo que reconhece e respeita a alteridade do outro. Aqui, "bom" e "ruim" adquirem um sentido que ultrapassa o indivíduo, mas ainda assim permanecem indefinidos, já que cada encontro humano é singular.

A Incerteza Como Condição Humana

Talvez a maior lição filosófica que podemos tirar da análise de "bom" e "ruim" seja a aceitação da incerteza. Como apontou o filósofo brasileiro Vilém Flusser, a linguagem é sempre uma aproximação da realidade, nunca sua captura definitiva. Assim, as palavras "bom" e "ruim" são ferramentas imperfeitas, metáforas que usamos para tentar ordenar um mundo essencialmente caótico e ambíguo.

Essa vaguidão não é um problema a ser resolvido, mas uma característica fundamental da condição humana. Ao invés de buscar definições absolutas, podemos encarar "bom" e "ruim" como conceitos que nos convidam a dialogar, a refletir e a questionar. No fundo, é a própria fluidez desses termos que nos mantém abertos à experiência e ao outro.

"Bons" e "ruins" são conceitos tão antigos quanto a linguagem, mas permanecem sempre novos e incertos. Sua força está justamente na sua indefinição, que nos obriga a pensar, a escolher e a criar sentidos. Em última análise, talvez "bom" e "ruim" não sejam categorias que descrevem o mundo, mas sim ferramentas que usamos para navegar por ele. Afinal, o que seria da vida sem a ambiguidade que nos desafia a interpretá-la continuamente?