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domingo, 25 de janeiro de 2026

Abnegação Apropriada


Eu demorei para entender que nem toda renúncia é virtude. E que nem todo apego é fraqueza. Há uma forma de abnegação que nos empobrece — e outra que nos devolve a nós mesmos.

A abnegação apropriada não é desaparecer para que o outro exista. É saber até onde ir sem se abandonar no caminho.

No cotidiano, ela é silenciosa.

É quando eu cedo sem me ressentir.

É quando eu ajudo sem precisar me anular.

É quando eu fico, mas também sei ir.

Existe uma abnegação que nasce do medo: de perder, de desagradar, de ficar só. Essa não liberta — ela adoece. E existe outra que nasce da lucidez: eu escolho abrir mão porque não preciso mais segurar. Essa é leve.

Simone Weil dizia que a atenção verdadeira é uma forma de generosidade absoluta. Mas atenção não é submissão. É presença sem servidão.

A abnegação apropriada é aquela que não pede aplauso, nem deixa cicatriz. Ela não é sacrifício teatral; é equilíbrio íntimo. É o gesto que não grita “olhem o que deixei”, mas sussurra “ainda estou inteiro”.

Eu começo a achar que amadurecer é aprender a distinguir:

o que eu entrego por amor,

do que eu entrego por medo.

Porque só a primeira forma constrói. A segunda apenas nos esvazia.

No fim, a abnegação apropriada não é perder-se pelo outro — é encontrar um modo de continuar sendo, mesmo ao se oferecer.