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sábado, 19 de setembro de 2026

Escolhas Afetivas


Escolher quem amar parece, à primeira vista, um gesto íntimo, quase espontâneo — como se o coração fosse um território livre de regras. Mas basta observar com um pouco mais de atenção para perceber que nossas escolhas afetivas raramente são tão livres quanto imaginamos. Elas se movem entre forças invisíveis: cultura, linguagem, história, desejo e até mesmo aquilo que não sabemos nomear.

Começo pelo incômodo: por que nos atraímos por certos tipos de pessoas e não por outras? A resposta imediata costuma recorrer ao “gosto pessoal”. Mas o gosto, longe de ser puramente individual, é uma construção. Aqui, o pensamento de Claude Lévi-Strauss ilumina o debate: para ele, as estruturas sociais moldam profundamente aquilo que percebemos como natural. Assim como sistemas de parentesco organizam relações familiares, também há estruturas simbólicas que orientam o desejo — ainda que não as percebamos conscientemente.

Isso significa que o amor não é livre? Não exatamente. Significa que ele é atravessado por padrões. Escolhemos dentro de um repertório que nos foi, em grande parte, dado. O “tipo” que alguém tem — seja de aparência, comportamento ou status — não surge do nada. Ele é sedimentado por narrativas culturais, experiências passadas e expectativas sociais. Em outras palavras, o desejo é parcialmente herdado.

Mas essa não é toda a história. Se ficarmos apenas nisso, corremos o risco de reduzir o afeto a um determinismo frio. É aqui que surge a tensão fundamental: entre estrutura e liberdade. Enquanto Lévi-Strauss aponta para os sistemas invisíveis que nos moldam, filósofos como Jean-Paul Sartre insistem na responsabilidade radical do indivíduo. Para Sartre, mesmo condicionados, somos condenados a escolher — inclusive no amor. Não há desculpa final na cultura ou no passado: amar alguém é, em última instância, um ato.

Essa tensão cria um paradoxo fértil. Por um lado, somos influenciados por padrões que não escolhemos; por outro, somos responsáveis pelas escolhas que fazemos dentro desses padrões. Isso explica por que, muitas vezes, repetimos relações que nos fazem mal. Não é apenas azar ou destino — é também a reprodução inconsciente de estruturas afetivas aprendidas. Amar pode ser, nesse sentido, uma repetição.

Mas repetir não é inevitável. A consciência abre uma fissura na estrutura. Quando começamos a perceber nossos padrões — aquilo que buscamos, evitamos, idealizamos — algo muda. A escolha afetiva deixa de ser apenas reação e passa a conter reflexão. E nesse momento, o amor deixa de ser apenas algo que “acontece” e passa a ser algo que também se constrói.

Talvez o ponto mais inovador seja este: escolhas afetivas não são nem totalmente livres, nem totalmente determinadas. Elas são negociações. Negociações entre o que fomos ensinados a desejar e o que decidimos transformar. Entre o conforto do conhecido e o risco do novo.

E há ainda uma dimensão ética nisso tudo. Escolher alguém não é apenas satisfazer um desejo, mas também assumir um compromisso com a alteridade. O outro não é um espelho de nossas carências nem um objeto de projeção. Aqui, a reflexão de Simone de Beauvoir se torna crucial: o amor autêntico não anula a liberdade do outro, mas a reconhece e a afirma. Escolher alguém, portanto, é também escolher respeitar sua liberdade.

Há, porém, uma camada mais silenciosa nas escolhas afetivas — aquela que escapa às estruturas sociais e às decisões racionais, tocando algo que muitos chamariam de espiritual. Nesse horizonte, o encontro com o outro não é apenas um evento psicológico ou cultural, mas uma espécie de reconhecimento profundo, quase como se algo em nós já soubesse. O pensamento de Martin Buber oferece uma chave sensível: ao distinguir a relação “Eu-Isso” da relação “Eu-Tu”, ele sugere que o verdadeiro encontro afetivo ocorre quando deixamos de ver o outro como objeto de desejo ou projeção e passamos a nos abrir à sua presença plena. Nesse instante, o amor se torna mais do que escolha ou impulso — torna-se um espaço de revelação, onde duas existências se encontram sem se reduzir. Assim, escolher alguém pode ser também acolher um chamado silencioso à transcendência, onde o afeto se aproxima do sagrado não por idealização, mas pela intensidade da presença compartilhada.

Talvez a pergunta mais honesta não seja “por quem eu me apaixono?”, mas “por que eu escolho amar desta forma?”. Essa mudança de perspectiva desloca o amor do campo do destino para o campo da responsabilidade.

As escolhas afetivas revelam quem somos — mas também quem estamos dispostos a nos tornar.


domingo, 25 de janeiro de 2026

Abnegação Apropriada


Eu demorei para entender que nem toda renúncia é virtude. E que nem todo apego é fraqueza. Há uma forma de abnegação que nos empobrece — e outra que nos devolve a nós mesmos.

A abnegação apropriada não é desaparecer para que o outro exista. É saber até onde ir sem se abandonar no caminho.

No cotidiano, ela é silenciosa.

É quando eu cedo sem me ressentir.

É quando eu ajudo sem precisar me anular.

É quando eu fico, mas também sei ir.

Existe uma abnegação que nasce do medo: de perder, de desagradar, de ficar só. Essa não liberta — ela adoece. E existe outra que nasce da lucidez: eu escolho abrir mão porque não preciso mais segurar. Essa é leve.

Simone Weil dizia que a atenção verdadeira é uma forma de generosidade absoluta. Mas atenção não é submissão. É presença sem servidão.

A abnegação apropriada é aquela que não pede aplauso, nem deixa cicatriz. Ela não é sacrifício teatral; é equilíbrio íntimo. É o gesto que não grita “olhem o que deixei”, mas sussurra “ainda estou inteiro”.

Eu começo a achar que amadurecer é aprender a distinguir:

o que eu entrego por amor,

do que eu entrego por medo.

Porque só a primeira forma constrói. A segunda apenas nos esvazia.

No fim, a abnegação apropriada não é perder-se pelo outro — é encontrar um modo de continuar sendo, mesmo ao se oferecer.

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Primeira Selfie

Estava assistindo a publicação do Instagram do jacobpetry e após assistir pensei sobre o que disse faz todo o sentido, e por que não trazer o que ele falou e mais um pouco para nossas reflexões, fica ai o link, vale a pena seguir o “cara”.

(https://www.instagram.com/reel/DNIVNVZunFt/?utm_source=ig_web_copy_link)

Podemos pensar o mito de Narciso como uma das primeiras narrativas sobre a fascinação com a própria imagem — e talvez a “primeira selfie” da história não tenha sido capturada por uma câmera, mas por um lago silencioso. Hoje, a tela do celular substituiu a superfície da água; o reflexo deixou de depender da natureza para ser produzido por um dispositivo portátil que cabe na palma da mão. Mas a essência do gesto — parar para se olhar e eternizar esse momento — continua surpreendentemente semelhante. Não é fantástico o que a filosofia faz com nossos pensamentos? Quanto mais nos aventuramos em seu território, mais somos atraídos a nos aprofundarmos em seu labirinto.

No mito, Narciso não se reconhece como quem olha e é olhado. Ele vê um outro, mas é ele mesmo. A selfie repete esse paradoxo: embora saibamos que a foto é nossa, ela vem com a ilusão de ser um “objeto” separado de nós, algo que podemos manipular, filtrar, enquadrar, repetir até que o reflexo agrade. O gesto de segurar o celular na frente do rosto é, de certa forma, um ritual moderno de afirmação: “eu sou assim” — ou, mais exatamente, “eu quero ser visto assim”.

O filósofo francês Jean Baudrillard nos alertou sobre o risco do “hiper-real” — um mundo em que a imagem já não representa, mas sim substitui a realidade. Nesse sentido, a selfie não é apenas registro, é também construção. Ela cria uma versão editada do eu que pode, com o tempo, rivalizar com o que realmente somos. Se Narciso se perdeu no reflexo, hoje há quem se perca na imagem filtrada que publica, vivendo mais na superfície digital que na presença concreta.

Já Byung-Chul Han observa que, na sociedade da transparência e da exposição constante, a autoimagem torna-se um capital social. O que era fascínio íntimo com o próprio rosto, como no lago de Narciso, agora é moeda de troca: curtidas, seguidores, relevância. Olhar-se não é apenas um prazer estético, mas uma necessidade estratégica.

Curiosamente, no mito, Narciso morre ao tentar se fundir com o reflexo. No mundo contemporâneo, não morremos fisicamente por tirar selfies — mas há uma morte simbólica possível: a perda de contato com a complexidade interna, reduzida a poses. Como advertiu Sêneca, “nenhum vento é favorável para quem não sabe a que porto se dirige” — e quando navegamos apenas pelo mar das aparências, corremos o risco de nunca ancorar.

Talvez o que falte à “primeira selfie” moderna seja o gesto que Narciso não conheceu: o afastar-se do reflexo para mergulhar na vida. Porque, ao contrário da água imóvel, o mundo se move, e nele há mais beleza do que qualquer câmera pode capturar.