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domingo, 25 de janeiro de 2026

Abnegação Apropriada


Eu demorei para entender que nem toda renúncia é virtude. E que nem todo apego é fraqueza. Há uma forma de abnegação que nos empobrece — e outra que nos devolve a nós mesmos.

A abnegação apropriada não é desaparecer para que o outro exista. É saber até onde ir sem se abandonar no caminho.

No cotidiano, ela é silenciosa.

É quando eu cedo sem me ressentir.

É quando eu ajudo sem precisar me anular.

É quando eu fico, mas também sei ir.

Existe uma abnegação que nasce do medo: de perder, de desagradar, de ficar só. Essa não liberta — ela adoece. E existe outra que nasce da lucidez: eu escolho abrir mão porque não preciso mais segurar. Essa é leve.

Simone Weil dizia que a atenção verdadeira é uma forma de generosidade absoluta. Mas atenção não é submissão. É presença sem servidão.

A abnegação apropriada é aquela que não pede aplauso, nem deixa cicatriz. Ela não é sacrifício teatral; é equilíbrio íntimo. É o gesto que não grita “olhem o que deixei”, mas sussurra “ainda estou inteiro”.

Eu começo a achar que amadurecer é aprender a distinguir:

o que eu entrego por amor,

do que eu entrego por medo.

Porque só a primeira forma constrói. A segunda apenas nos esvazia.

No fim, a abnegação apropriada não é perder-se pelo outro — é encontrar um modo de continuar sendo, mesmo ao se oferecer.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Verdadeiras Escolhas


A gente diz “escolhi” com uma facilidade suspeita. Escolhi o café, escolhi a profissão, escolhi ficar ou ir embora. Mas, se formos honestos por cinco minutos — aqueles cinco minutos raros em que não estamos correndo — surge um incômodo: será que escolhemos mesmo? Ou apenas concordamos com o que já estava mais ou menos decidido ao nosso redor? Verdadeiras escolhas não costumam ser confortáveis. Elas não pedem aplauso, nem confirmação imediata. Pelo contrário: quase sempre chegam acompanhadas de silêncio, perda e um certo medo de errar.

Este ensaio é uma tentativa de pensar a escolha não como liberdade abstrata, mas como um gesto concreto, situado, cotidiano — e, justamente por isso, profundamente filosófico.


Desde a filosofia clássica, escolher nunca foi apenas optar entre alternativas. Para Aristóteles, a prohairesis (a escolha deliberada) envolvia caráter, hábito e responsabilidade. Não escolhemos no vácuo: escolhemos a partir de quem somos — e quem somos foi sendo moldado por escolhas anteriores.

Séculos depois, o existencialismo radicalizou essa ideia. Para Sartre, estamos “condenados à liberdade”. Mesmo quando dizemos que não escolhemos, já escolhemos: escolhemos não escolher. Mas aqui surge um ponto decisivo para falar de verdadeiras escolhas: nem toda decisão é igualmente livre. Muitas são apenas reações automáticas a pressões invisíveis — sociais, afetivas, econômicas.

Paulo Freire, trazendo essa discussão para um chão mais concreto, ajuda a dar um critério importante. Ele distingue adaptação de decisão. Adaptar-se é ajustar-se ao mundo tal como ele se impõe. Decidir é intervir conscientemente nesse mundo, assumindo riscos. Verdadeiras escolhas, nesse sentido, são sempre atos de conscientização: nelas, o sujeito percebe as forças que o empurram — e, mesmo assim, decide responder de outro modo.

Assim, uma escolha verdadeira não se define pelo resultado, mas pela lucidez do processo. Ela nasce quando alguém reconhece: “posso seguir o fluxo, mas não sou apenas o fluxo.”

Exemplos do cotidiano

No trabalho, por exemplo. Há quem “escolha” ficar em um emprego que odeia, repetindo para si mesmo que não há alternativa. Às vezes, de fato, não há muitas. Mas a verdadeira escolha pode não ser sair — pode ser admitir o conflito, nomeá-lo, deixar de romantizar a própria resignação. Há uma diferença ética enorme entre ficar por consciência e ficar por anestesia.

Nos relacionamentos, isso fica ainda mais claro. Permanecer com alguém por medo da solidão não é o mesmo que escolher permanecer. A verdadeira escolha, aqui, costuma doer: ela exige encarar a própria carência, assumir perdas simbólicas e abandonar a narrativa confortável de vítima das circunstâncias.

Até em coisas banais isso aparece. Escolher descansar num mundo obcecado por produtividade pode ser uma escolha radical. Não porque descansar seja heroico, mas porque implica dizer “não” a uma lógica que transforma valor pessoal em desempenho. Essa escolha quase nunca é celebrada — e talvez aí esteja um sinal de sua autenticidade.

Concluindo minhas reflexões: Verdadeiras escolhas não são as mais visíveis, nem as mais elogiadas. Elas costumam acontecer longe do palco, no território discreto da consciência. Não prometem felicidade imediata, mas coerência. E talvez seja isso que as torna tão raras: escolher de verdade é aceitar que nem toda decisão nos salvará — algumas apenas nos tornarão mais honestos.

No fim, talvez a pergunta mais filosófica não seja “o que você escolheu?”, mas outra, bem mais incômoda: quanto de você estava presente quando essa escolha foi feita?

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Inabalável Percepção

Às vezes, no meio da confusão do dia a dia — trânsito parado, notificações sem fim, opiniões que chegam como ondas quebrando uma depois da outra —percebo que a única coisa que de fato sustenta o nosso equilíbrio não é o silêncio do mundo, mas a firmeza da nossa percepção. Não aquela percepção apressada, meio impulsiva, que fazemos quando julgamos alguém pela primeira impressão. Mas a percepção que fica de pé mesmo quando tudo ao redor balança. A inabalável.

Comecei a pensar nisso outro dia, quando uma senhora no mercado, em plena pressa das férias de dezembro, derrubou sem querer uma pilha de panetones. A cena foi caótica: embalagens rolando, gente reclamando, funcionário correndo. Mas a senhora permaneceu calma, recolhendo um por um com uma serenidade que parecia deslocada da realidade. Não era indiferença — era percepção. Ela sabia o que realmente importava naquele instante: resolver o problema com tranquilidade. E aquilo, curiosamente, estabilizou até quem estava ao redor.

A percepção inabalável é algo que filósofos, especialmente os estoicos, valorizavam profundamente. Epicteto dizia que “não são as coisas que nos perturbam, mas os juízos que fazemos sobre elas”. Em outras palavras: o mundo não vai parar de jogar panetones pelo chão — mas a forma como percebemos e interpretamos esses eventos define a qualidade da nossa experiência.

No cotidiano, percebemos a diferença entre quem reage pela percepção firme e quem reage pela percepção instável:

  • No trabalho, quando aquele e-mail atravessado chega, há quem responda imediatamente, inflamado. E há quem pause, perceba o contexto, leia o que não foi dito, e escolha a resposta mais sensata.
  • Na vida familiar, sempre tem o parente que solta uma opinião que parece deslocada da mesa de jantar. Alguns explodem, outros percebem que aquilo fala mais sobre o mundo interno do parente do que sobre a realidade presente.
  • Nos relacionamentos, um comentário inocente pode ser interpretado como crítica — ou como apenas um modo torto de preocupação. A percepção é o filtro que define o rumo da conversa.

Mas não se trata apenas de autocontrole. A percepção inabalável é, antes de tudo, clareza: a capacidade de distinguir aparência e essência, ruído e sinal. É ver o que realmente está acontecendo, não o que nosso medo, ansiedade ou ego querem que esteja.

N. Sri Ram — um pensador que aprecio — dizia que o ser humano só encontra lucidez quando olha para o mundo com “a mente quieta e o coração aberto”, pois é assim que se percebe o que é verdadeiro além das ilusões que projetamos. Essa mente quieta não é ausência de movimento; é estabilidade interior para que a percepção não seja distorcida por tempestades internas.

Percepção inabalável é como uma bússola num bolso: não impede que o vento sopre, nem que o caminho seja tortuoso, mas garante que nunca percamos completamente o norte. E, curiosamente, quanto mais firme é a percepção, menos rígida se torna a pessoa. Porque a firmeza que interessa aqui não é dureza — é discernimento.

E talvez seja isso que falta na maior parte das nossas pequenas tragédias cotidianas: perceber melhor antes de agir pior. Ver antes de julgar. Cuidar antes de reagir.

A inabalável percepção não é um dom — é um hábito, cultivado aos poucos, entre um panetone que cai, uma palavra mal interpretada e um instante de lucidez que, quando aparece, muda tudo. Com o final de ano as famílias se reencontram e com isto confusões á vista. Então, muita calma nesta hora, é chegado momento de praticar nossa inabalável percepção.


quinta-feira, 11 de setembro de 2025

Humana Imbecilidade

Um ensaio filosófico breve, mas sem panos quentes

Há dias em que basta andar pela rua, abrir um aplicativo ou participar de uma reunião para sentir um certo desespero: como chegamos até aqui com tanto conhecimento acumulado e, ao mesmo tempo, tanta burrice em circulação? Essa contradição lateja no cotidiano. Parecemos capazes de construir foguetes, mas incapazes de atravessar uma conversa sem mal-entendidos grotescos, preconceitos rasos e decisões autodestrutivas. Há algo de estrutural na imbecilidade humana — e talvez ela seja menos exceção e mais sintoma.

Nietzsche já dava sinais dessa inquietação. Para ele, “o homem é o animal que se engana”, não só por ignorância, mas porque quer se enganar. A ilusão conforta mais do que a verdade. A burrice, nesse caso, não seria ausência de inteligência, mas uma inteligência desviada, posta a serviço do autoengano e da manutenção do ego. O idiota, então, é aquele que sabe, mas prefere não saber.

Cornelius Castoriadis vai além ao tratar da heteronomia, ou seja, da tendência humana de deixar que os outros — instituições, mitos, algoritmos — pensem por nós. A imbecilidade moderna se traveste de “opinião própria”, quando na verdade é apenas repetição maquinal de fórmulas prontas. Não é falta de acesso à informação — é a preguiça de pensar com autonomia, de elaborar, de duvidar.

Essa é a imbecilidade voluntária: um tipo de recusa ativa da complexidade. Um cansaço intelectual travestido de convicção. Guy Debord, ao falar da sociedade do espetáculo, já denunciava esse fenômeno: o mundo vira imagem, consumo e slogans, e pensar se torna um esforço inútil. A burrice, nesse cenário, deixa de ser falha e se torna escolha. E o mais assustador é que ela vem acompanhada de uma sensação de triunfo moral — como se o simplismo fosse virtude.

Mais grave ainda é a instrumentalização política da imbecilidade. Líderes e grupos de poder já entenderam há tempos que não precisam educar o povo, apenas alimentá-lo com versões digeríveis da realidade. Hannah Arendt, ao estudar os regimes totalitários, mostrou como a banalidade do mal não depende de monstros brilhantes, mas de engrenagens humanas medíocres, obedientes, que não pensam. A imbecilidade politizada se transforma em fervor, em doutrina, em patriotismo cego — e aí ela mata, persegue, elege.

Não se trata aqui de um desprezo elitista pela massa, mas de um alerta ético: a imbecilidade humana não é apenas cômica, ela é perigosa. Porque o imbecil, quando protegido por números, vira multidão. E multidões imbecis fazem história — ou melhor, tragédia.

Como resistir? Talvez retomando a humildade socrática: saber que não sabemos, duvidar com coragem e reaprender a pensar com os outros, e não apenas contra eles. Porque se a imbecilidade é uma tendência coletiva, a lucidez também pode ser. Mas exige trabalho. E, infelizmente, nem todo mundo está disposto.

sábado, 2 de agosto de 2025

Desver

O gesto de desfazer os enganos

Ver não é apenas enxergar. É interpretar, filtrar, significar. Quando olhamos o mundo, não vemos o mundo em si, mas a nossa versão dele: atravessada por crenças, feridas, desejos, esperanças. O conceito de desver, então, propõe algo radical: não é ver mais, mas ver de novo — ou melhor, ver sem os enganos.

Desver é desfazer as distorções. É quando nos damos conta de que aquilo que parecia certo era apenas conveniente; que aquilo que chamávamos de amor era apego; que o medo que chamávamos de prudência era só fuga. Desver é um ato filosófico porque exige coragem para questionar as lentes pelas quais olhamos a realidade.

O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty dizia que a percepção é sempre situada, ou seja, não existe olhar puro, neutro. Nossa experiência é encarnada, histórica, subjetiva. E, por isso mesmo, a tarefa de desver é uma pedagogia do corpo e da mente. É desaprender para ver com mais verdade — ou com menos ilusão.

No cotidiano, desver pode significar perceber que o colega de trabalho que considerávamos indiferente, na verdade, era tímido — e não rude. Ou entender que aquele sonho antigo de ser médico não era seu, mas um desejo projetado da família. Às vezes, desver é acordar de um casamento onde confundimos rotina com amor. Outras vezes, é olhar para o espelho e perceber que o corpo que rejeitamos por tanto tempo não era feio — apenas diferente do padrão.

Há também o desver político: aquele momento em que alguém percebe que sua visão de mundo vinha sendo moldada mais por medo do que por valores. Ou o desver espiritual: quando percebemos que a fé que tínhamos era medo de errar, e não confiança no mistério.

Desver é um gesto espiritual, no sentido de que implica purificação da visão. No Bhagavad Gita, há um trecho em que Krishna concede a Arjuna uma “visão divina” para que ele veja a realidade como ela é, além da forma. Esse "terceiro olho" talvez não esteja no meio da testa, mas sim na capacidade de desfazer os enganos que criamos sobre o mundo e sobre nós mesmos.

Desver não é negar o que se viu, mas perceber que se viu através de véus. E que a lucidez, como uma lâmina de vento, pode retirar esses véus com delicadeza — ou com brutalidade. Às vezes, desver dói. Porque nos obriga a sair da zona de conforto e encarar que muito do que tomamos como verdade era só conveniência, medo ou costume.

No fim, talvez não vejamos mais do que antes. Mas vemos melhor.

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Pedagogia da Lucidez

Ensaiando a Consciência como Caminho

Há uma pedagogia silenciosa que não se aprende em livros, mas se revela nos momentos em que a mente, cansada de ruídos, faz silêncio para escutar o que importa. Chamemos isso de pedagogia da lucidez: um processo de formação não apenas do intelecto, mas da consciência. Não ensina a saber mais, mas a ver melhor.

Lucidez, aqui, não é só clareza mental, mas transparência de alma. É quando os véus caem e o mundo aparece como é — sem os filtros da vaidade, do medo ou da pressa. Um momento de lucidez pode valer mais que anos de estudo, se nos leva a enxergar aquilo que estava diante de nós o tempo todo: a verdade simples, cotidiana, escondida no gesto, no olhar, no silêncio.

Para Simone Weil, “a atenção pura é oração”. Atentar, no sentido radical, é se oferecer por inteiro ao real. A pedagogia da lucidez se constrói nesse gesto de atenção desarmada, que não quer controlar, mas compreender. O professor, aqui, não é o que fala alto, mas o que guia com o exemplo da presença.

Sri Ram, em O Ideal Teosófico, dizia que o verdadeiro conhecimento só acontece quando o ego se aquieta. Enquanto o eu busca brilhar, o saber se esconde. A lucidez, portanto, é filha da humildade: ela nasce quando paramos de querer ter razão para, enfim, tocar o que é real.

Mas como ensinar isso? A pedagogia da lucidez não se impõe, não tem currículo fixo. Ela se vive. Está no modo como atravessamos o cotidiano, no cuidado com as palavras, no respeito pelo tempo do outro. Talvez esteja, como pensava Paulo Freire, em "ensinar com o corpo e com o ser", e não só com palavras.

Lucidez não é iluminação final, mas clareza possível. E como toda pedagogia, precisa ser cultivada com paciência. A cada instante em que preferimos a escuta ao julgamento, o gesto à explicação, estamos praticando essa nova forma de educar: não para formar especialistas, mas para despertar consciências.

É uma pedagogia revolucionária, porque transforma o mundo a partir do ser. Não nos prepara apenas para o trabalho, mas para a vida. Afinal, como disse o filósofo Jiddu Krishnamurti, “não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente”. A lucidez, nesse contexto, é o primeiro passo para a liberdade.

Ensinar a ver — eis o desafio.

E talvez, para isso, seja preciso antes desver: desfazer os enganos, dissolver ilusões e reaprender a estar no mundo como quem acaba de chegar. Essa é a pedagogia da lucidez: simples, exigente e infinitamente humana.


quarta-feira, 30 de julho de 2025

Cegueira ou Denegações

Quando não ver é escolher não saber

Tem horas em que a gente finge que não viu. Passa batido por uma cena injusta, uma palavra atravessada, um silêncio que grita. “Deixa quieto”, dizemos, como se a quietude não fosse, muitas vezes, o berço da violência. Há uma diferença entre não ver e não querer ver — e é nessa fresta que se instala um tipo de cegueira escolhida, uma negação da realidade que, com o tempo, se torna hábito.

Chamemos isso de denegação, como propôs Freud: o sujeito reconhece o que é, mas recusa-se a aceitá-lo como verdadeiro. Vê, mas diz a si mesmo que não é bem assim. Não é ignorância pura, é um mecanismo de defesa, uma forma de manter intacta a imagem que temos de nós mesmos, do mundo, das pessoas próximas. A denegação protege — mas também anestesia, torna o real um borrão onde o incômodo é suavizado até se dissolver.

O filósofo francês Jacques Rancière, ao refletir sobre o partilhamento do sensível, nos ajuda a pensar esse fenômeno. Segundo ele, aquilo que percebemos como real, visível ou audível está condicionado por uma partilha — uma divisão do que pode ser dito, visto, sentido. A cegueira, nesse contexto, não é ausência de visão, mas resultado de um regime de percepção. Não vemos o que não fomos ensinados a ver. Ou pior: escolhemos não ver o que ameaça nossa ordem interna, emocional ou política.

No cotidiano, isso aparece nas pequenas covardias: a piada preconceituosa que deixamos passar, a solidão do colega de trabalho que ignoramos, o comportamento autoritário que justificamos como “jeito dele”. A denegação permite que continuemos a funcionar, a produzir, a sorrir. Mas ela cobra seu preço: a realidade volta, quase sempre, pelo lado do sintoma.

Talvez o maior gesto de coragem hoje seja reaprender a ver — e aceitar o que se vê. Porque a lucidez, ainda que dolorosa, pode ser libertadora. Como diz a escritora portuguesa Lídia Jorge: “a cegueira é a maneira como o mundo escolheu não ver a sua própria desordem”.

Então, diante de cada escolha de ignorar, vale perguntar: isso é cegueira — ou apenas mais uma denegação disfarçada de paz?


terça-feira, 22 de julho de 2025

Armadilha dos Fracos

...segundo Nietzsche

 

Você já reparou como, às vezes, as pessoas mais frágeis são as que mais manipulam? Não com força, não com argumentos, mas com uma espécie de chantagem emocional que prende os outros em culpa, dever ou piedade. É aquela tia que vive doente e sempre faz você se sentir mal por não visitá-la mais. É o colega de trabalho que parece inofensivo, mas sabota silenciosamente todo projeto que o faz se sentir ameaçado. Essas pessoas não são más no sentido clássico. Mas criam armadilhas. Nietzsche as conhecia bem. E talvez tenha sido um dos primeiros a nomear essas estratégias com a clareza de quem entende que a moral também pode ser uma tática de guerra — dos fracos contra os fortes.

 

A armadilha como invenção da fraqueza:

Nietzsche, especialmente em obras como A Genealogia da Moral e Além do Bem e do Mal, faz uma distinção fundamental entre a moral dos senhores e a moral dos escravos. Para ele, os fortes — aqueles que criam valores a partir de sua potência vital — são espontâneos, afirmativos, agem. Já os fracos, ressentidos pela impossibilidade de exercer sua vontade de poder, constroem valores reativos: negam, condenam, moralizam.

A armadilha dos fracos, portanto, é um sistema de valores baseado no ressentimento. Ao não poderem ser fortes, erguem como virtudes aquilo que os protege: humildade, obediência, piedade, sofrimento. E mais: fazem com que os fortes se sintam culpados por sua própria força. Criam uma moral que aprisiona. E quem não se enquadra, é tido como cruel, egoísta, “sem compaixão”.

 

Ressentimento e poder invertido:

Nietzsche vê com clareza: o fraco não quer igualdade, quer inversão. Quer que o forte se curve, peça desculpas, peça permissão para viver sua potência. O ressentido — diz ele — é perigoso porque sua alma gira em torno da vingança. E sua vingança é moral. A religião, segundo Nietzsche, foi uma das formas mais eficazes dessa armadilha: “Bem-aventurados os pobres de espírito”, diz o Sermão da Montanha. Mas, no fundo, essa beatitude é uma inversão rancorosa: como não posso ser grandioso, direi que os grandiosos são pecadores. E esperarei, com fervor disfarçado, que caiam.

 

A compaixão como faca de dois gumes:

Nietzsche não condena a compaixão como emoção ocasional, mas sim como moral organizada. Uma moral baseada na compaixão constante aprisiona. “Cuidado com os que sofrem demais”, diria ele, “porque eles usam o sofrimento como cetro”. A armadilha está no uso estratégico da dor. Quem sofre vira santo, e quem vive intensamente vira monstro.

Isso se reflete em muitos contextos contemporâneos. A política do vitimismo, os discursos que transformam todo conflito em opressão unilateral, o uso da dor como moeda social. Tudo isso são formas modernas da armadilha dos fracos. E mais: são formas de capturar a energia dos fortes, culpabilizando-os por simplesmente existirem com potência.

 

O filósofo comenta: Clóvis de Barros Filho

Clóvis de Barros, ao refletir sobre o pensamento de Nietzsche, alerta: “O que Nietzsche nos convida é a assumir nossa responsabilidade ética sem delegar isso a códigos prontos”. Isso significa que, ao identificar a armadilha dos fracos, não devemos cair na armadilha oposta — do desprezo puro e simples. O desafio é maior: viver com autenticidade sem cair na culpa, ajudar sem ser manipulado, reconhecer o sofrimento alheio sem torná-lo centro moral absoluto.

 

A armadilha dos fracos, segundo Nietzsche, não é apenas uma denúncia — é um chamado à lucidez. Viver exige força, mas também exige clareza sobre as forças que nos cercam. Nem todo fraco é vil, mas quando a fraqueza se organiza como poder moral, ela se torna uma prisão. E escapar dessa prisão talvez seja o maior desafio ético do nosso tempo. Porque ser livre, como Nietzsche diria, é também ter coragem de carregar o peso da própria grandeza — sem se curvar às pequenas morais do ressentimento.


quarta-feira, 12 de março de 2025

O Dormidor

O Sono da Existência

Às vezes, vejo certas pessoas e me pergunto: será que elas estão realmente acordadas? Andam, falam, trabalham, discutem política no bar, reclamam da vida, mas há algo ausente no olhar. Como se vivessem em um estado de sonambulismo existencial, repetindo gestos automáticos sem jamais despertarem para si mesmas. Chamo essa figura de o dormidor – não aquele que apenas dorme à noite, mas aquele que faz do próprio viver um sono profundo.

O Sono da Consciência

Platão, em sua alegoria da caverna, nos apresentou prisioneiros acorrentados, vendo sombras na parede e acreditando que aquilo era toda a realidade. O dormidor é uma versão moderna desses prisioneiros, mas sem correntes visíveis. Suas algemas são feitas de rotina, distração e conformismo. Ele não questiona, não se inquieta, não percebe o absurdo da vida ou a beleza do instante. Apenas segue o fluxo, como um rio que já esqueceu que pode desaguar no oceano.

Sri Ram, em O Pensamento Vivo de Krishnamurti, sugere que há uma diferença entre ver e realmente enxergar. O dormidor olha o mundo, mas não vê. Ele lê frases motivacionais, mas nunca desperta para o real significado. Vive como um animal domesticado pelo cotidiano, onde tudo se repete sem variação significativa.

O Sonho do Dormidor

Mas o dormidor também sonha. E esse é o seu maior problema. Ele se ilude com sonhos emprestados, vendidos a ele como verdades absolutas: a carreira de sucesso, a casa perfeita, o status, a falsa segurança. Seu sonho não é uma aventura, mas um roteiro previsível. Ele corre, se cansa, e no final percebe que estava dormindo o tempo todo. O despertar, quando acontece, vem tarde demais – um vislumbre fugaz antes da noite definitiva.

Nietzsche, ao falar do eterno retorno, perguntaria ao dormidor: se tivesse que viver essa mesma vida infinitas vezes, sem mudar nada, isso lhe daria alegria ou desespero? A resposta diria muito sobre o seu grau de adormecimento.

Repetição e Alienação

John Locke pode ser conectado ao tema do dormidor através de sua teoria do conhecimento e da identidade pessoal. Ele acreditava que a mente humana nasce como uma tábula rasa – uma folha em branco que vai sendo preenchida pelas experiências sensoriais e pela reflexão.

O dormidor, nesse sentido, seria aquele que não usa sua experiência para construir um pensamento próprio, vivendo de forma passiva, sem refletir criticamente sobre o que recebe do mundo. Ele aceita tradições, normas e verdades sem questionamento, como se sua mente nunca tivesse saído da inércia do estado inicial.

Além disso, Locke defendia que a identidade pessoal se baseia na continuidade da consciência ao longo do tempo. Mas e se essa consciência está adormecida? O dormidor seria alguém cuja identidade se dissolve na repetição e na alienação, vivendo sem realmente formar uma noção própria de si.

Assim, aplicar Locke ao tema do dormidor nos leva a uma reflexão sobre a responsabilidade de despertar para a própria existência e o perigo de viver apenas como uma página escrita por outros.

O Despertar Possível

O que desperta alguém? Talvez um abalo – uma perda, um encontro, uma pergunta inesperada. Às vezes, basta um instante de silêncio, um raio de lucidez cortando a névoa, para que o dormidor perceba que sua vida não é apenas um ciclo mecânico. Ele descobre, então, que sempre houve uma porta para fora do labirinto. Apenas nunca se perguntou se deveria abrir.

O risco, claro, é que despertar pode ser assustador. De repente, tudo o que parecia certo se desfaz. E agora? Como seguir sem as muletas que sustentavam sua sonolência? Mas é só na vigília que se vive de verdade.

Talvez seja essa a escolha fundamental da existência: continuar dormindo, confortável em ilusões, ou despertar – mesmo que a luz do dia revele verdades desconfortáveis.


terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Rasgos de Lucidez

A lucidez, esse brilho fugaz que atravessa o véu do cotidiano, aparece quase como um relâmpago: breve, intenso e, às vezes, perturbador. Há momentos em que, no fluxo incessante de preocupações e distrações, somos tomados por um clarão de compreensão, um instante em que tudo parece fazer sentido – ou ao menos, um sentido que escapa à lógica ordinária. Esses “rasgos” não são apenas vislumbres do real, mas também momentos em que somos arrancados de nossas ilusões, confrontados com verdades que preferiríamos ignorar.

A Lucidez como Ruptura

Albert Camus, em O Mito de Sísifo, descreve a lucidez como o reconhecimento do absurdo da existência. Para ele, esse instante de clareza não oferece consolo, mas uma espécie de liberdade. Ao percebermos que a vida não tem sentido intrínseco, podemos finalmente criar nosso próprio significado. Nesse sentido, os rasgos de lucidez muitas vezes surgem como uma ruptura: um corte no tecido confortável da vida cotidiana que nos força a enxergar além.

Imagine alguém preso em um ciclo repetitivo de trabalho e consumo. De repente, enquanto espera o ônibus, um pensamento invade sua mente: “Para quê tudo isso?” Esse momento de lucidez não traz respostas prontas, mas provoca um mal-estar criativo. É a rachadura que permite à luz entrar, parafraseando Leonard Cohen.

O Cotidiano e a Névoa

A lucidez, entretanto, não é o estado natural do ser humano. Na maior parte do tempo, vivemos mergulhados em uma espécie de névoa. Essa névoa é feita de rotinas, preocupações triviais e distrações tecnológicas. Gastamos horas rolando telas, discutindo banalidades ou evitando o silêncio – tudo para escapar do confronto com questões fundamentais.

Mas essa névoa tem uma função: protege-nos da angústia de pensar demais. Nietzsche, em A Gaia Ciência, sugere que o ser humano precisa de ilusões para viver. A verdade nua e crua, sem adornos, seria insuportável. No entanto, é precisamente por isso que os rasgos de lucidez são tão importantes: eles nos relembram que há algo além do ordinário, que nossa existência pode – e deve – ser interrogada.

O Peso da Lucidez

Há, contudo, um preço a pagar pela lucidez. Ao percebermos a fragilidade das certezas que nos sustentam, podemos sentir o peso esmagador da responsabilidade. É mais fácil viver no automático, deixar-se levar pela correnteza da vida, do que assumir o controle do barco. O filósofo brasileiro Vilém Flusser argumenta que a lucidez exige coragem, pois implica sair de um estado de “programação” e encarar a liberdade com suas consequências.

Pense no artesão que, após anos produzindo peças iguais, percebe que sua criação perdeu o sentido para ele. Esse rasgo de lucidez pode levá-lo a abandonar seu ofício ou a redescobrir sua paixão por criar algo novo. Em ambos os casos, há um custo: o conforto da familiaridade é substituído pelo risco do desconhecido.

Lucidez e Transformação

Apesar do desconforto que provoca, a lucidez carrega um potencial transformador. Ela nos faz questionar hábitos, valores e até mesmo as estruturas sociais em que estamos inseridos. Ao percebermos a arbitrariedade de certas convenções, ganhamos a oportunidade de escolher conscientemente como queremos viver.

Por exemplo, um jovem que, após uma conversa profunda com amigos, percebe que está seguindo uma carreira apenas para agradar à família. Esse momento de lucidez pode levá-lo a tomar decisões difíceis, mas necessárias, para alinhar sua vida com seus desejos autênticos.

Os rasgos de lucidez são, portanto, momentos em que deixamos de ser apenas espectadores passivos de nossas vidas para nos tornarmos agentes conscientes.

O Preço e a Beleza da Lucidez

Os rasgos de lucidez não são constantes, nem deveriam ser. Se vivêssemos em um estado permanente de lucidez, talvez fôssemos consumidos pela angústia. Mas esses momentos de clareza, ainda que breves, são o que nos mantém humanos. Eles nos lembram de nossa capacidade de reflexão, de nossa liberdade e do poder que temos para transformar o mundo – começando por nós mesmos.

Como disse o poeta Olavo Bilac: "Há, na alma humana, recantos a que só se chega por essa luz violenta do desespero ou da lucidez." Os rasgos de lucidez são essa luz violenta que ilumina, ainda que por um instante, os recantos mais profundos de quem somos. E, por mais dolorosa que seja, é nela que reside a possibilidade de renovação.


terça-feira, 2 de julho de 2024

Momentos de Lucidez

A vida é uma montanha-russa de emoções e, em meio a isso, todos nós passamos por momentos de lucidez - aqueles instantes em que a realidade se apresenta de maneira clara e inequívoca. Para alguns, esses momentos podem ser profundamente aterradores. Vamos pensar por que isso acontece e como situações do cotidiano podem tornar esses clarões de realidade tão assustadores.

Natureza da Lucidez

Momentos de lucidez são como raios de sol perfurando um céu nublado. Eles nos forçam a encarar verdades que, por algum motivo, evitamos. Talvez seja o estado do nosso relacionamento, as nossas finanças, ou até mesmo a nossa própria saúde mental. Quando a névoa das ilusões se dissipa, somos deixados com a crua e muitas vezes desconfortável realidade.

Cotidiano e Seus Clarões de Realidade

Insatisfação no Trabalho: Imagine que você está no escritório, lidando com mais um projeto sem sentido. De repente, um pensamento surge: "Eu realmente odeio meu trabalho." Esse momento de lucidez pode ser esmagador. Enfrentar a realidade de que você passa a maior parte dos seus dias fazendo algo que não ama é aterrorizante. O medo da mudança, da instabilidade financeira e do desconhecido pode paralisar.

Espelho da Saúde: Um dia, ao subir uma escada, você percebe que está ofegante. Um check-up revela que seu estilo de vida sedentário está prejudicando sua saúde. Esse momento de lucidez pode ser um choque, forçando-o a reconhecer que precisa fazer mudanças drásticas para melhorar sua qualidade de vida. Admitir que seu corpo está pagando o preço por suas escolhas é um golpe duro.

Relacionamentos em Crise: Você está sentado ao lado do seu parceiro, assistindo TV, e de repente percebe um distanciamento emocional. A ficha cai: "Estamos apenas coexistindo." Admitir que o relacionamento está em crise pode ser doloroso. Enfrentar a possibilidade de separação, ou a necessidade de um esforço conjunto para reavivar a chama, é assustador.

Realidade Financeira: Chega o fim do mês e, ao olhar para o saldo bancário, você percebe que está no vermelho novamente. Esse momento de lucidez pode ser devastador, especialmente se estiver ignorando dívidas crescentes. Encarar a necessidade de mudar hábitos de consumo e possivelmente fazer sacrifícios financeiros é uma tarefa que ninguém deseja.

Por Que a Lucidez Pode Ser Aterradora?

A lucidez é aterradora porque nos tira da nossa zona de conforto. Ela nos obriga a enfrentar medos profundos, inseguranças e a necessidade de mudança. O ser humano, por natureza, tende a evitar a dor e a incerteza. Preferimos a ilusão confortável à realidade desconfortável. No entanto, esses momentos de clareza também são oportunidades para o crescimento e a transformação.

Como Lidar com os Momentos de Lucidez

Aceitação: O primeiro passo é aceitar a realidade como ela é. Resistir apenas prolonga o sofrimento.

Planejamento: Depois de aceitar a situação, planeje os próximos passos. O que pode ser feito para melhorar? Quais são as ações concretas que você pode tomar?

Apoio: Não hesite em buscar apoio. Conversar com amigos, familiares ou até mesmo profissionais pode ajudar a processar e enfrentar a realidade de maneira mais equilibrada.

Auto-Compaixão: Seja gentil consigo mesmo. Momentos de lucidez são difíceis, mas também são uma parte natural da vida. Reconheça seu esforço e resiliência.

Momentos de lucidez são inevitáveis e, apesar de aterradores, são essenciais para o nosso crescimento pessoal. Encarar a realidade de frente, embora doloroso, nos oferece a chance de viver de maneira mais autêntica e significativa. Então, da próxima vez que um desses momentos surgir, respire fundo e lembre-se: você é mais forte do que imagina.


sábado, 17 de fevereiro de 2024

Humor e Escuridão

 

Você já percebeu como o humor e a escuridão parecem ter uma relação estranha e, às vezes, até mesmo íntima? É como se fossem primos distantes que, de alguma forma, encontram maneiras de se conectar nos momentos mais inesperados. De piadas sombrias a memes sobre assuntos tabu, o humor e a escuridão dançam juntos em uma coreografia peculiar que desafia até mesmo os mais rígidos padrões sociais.

Quando você está em uma roda de amigos, por exemplo, e alguém solta uma piada sobre a própria desgraça, é quase impossível não rir, mesmo que seja um riso nervoso. É como se o humor funcionasse como um escudo contra a dureza da vida, uma maneira de dizer "sim, tudo isso é uma bagunça, mas pelo menos podemos rir disso juntos".

Pegue aquela situação embaraçosa que aconteceu com você no trabalho outro dia. Você derramou café na camisa branca bem antes de uma reunião importante. Na hora, você estava mortificado, mas depois, quando você se lembrou e riu da própria desgraça, não parecia tão ruim assim. É o tipo de humor que transforma o constrangimento em algo compartilhável e até mesmo engraçado.

E então, há o humor negro. Aquele tipo de humor que se aventura nos territórios mais sombrios da mente humana. É como uma lâmpada piscando em uma caverna escura - ao mesmo tempo assustadora e cativante. Não é para todos, é claro. Algumas pessoas podem sentir-se desconfortáveis ​​ou até mesmo ofendidas com piadas sobre temas delicados como morte, doença ou tragédia. Mas para outros, é como uma válvula de escape, uma maneira de enfrentar os medos e incertezas da vida cotidiana.

E como poderíamos ignorar as redes sociais? Elas são um playground para o humor e a escuridão se encontrarem. Memes sobre política, desastres naturais, ou mesmo a pandemia, inundam nossos feeds diariamente. É como se estivéssemos todos em um grande clube de comédia cósmica, rindo das desventuras do universo, é a alegria do caos.

Claro, nem tudo são risadas e piadas. Às vezes, o humor pode ser uma máscara para a dor. Aquele amigo que faz piadas sobre tudo, mas que nunca parece realmente feliz, sabe do que estou falando. É como se o riso fosse um véu que esconde as cicatrizes emocionais.

O humor e a escuridão são como dois lados da mesma moeda. Eles coexistem, às vezes harmoniosamente, outras vezes em uma dança tumultuada. Mas, no final do dia, eles nos lembram que a vida é uma montanha-russa de emoções, e o riso, por mais estranho que pareça, é muitas vezes o melhor remédio. Então, da próxima vez que a vida te der limões, faça piadas com eles. Afinal, o que mais você poderia fazer?

Um filósofo que aborda o tema do humor e da escuridão de maneira interessante é Arthur Schopenhauer. Schopenhauer, um filósofo alemão do século XIX, escreveu extensivamente sobre a natureza da existência humana e a condição do mundo. Em sua obra principal, "O Mundo como Vontade e Representação", Schopenhauer explora a ideia de que a vida é permeada pela dor, pelo sofrimento e pelo absurdo. No entanto, ele também reconhece o papel do humor como uma forma de enfrentar essa condição. Schopenhauer vê o humor como uma maneira de transcender as limitações da existência humana, permitindo-nos distanciar-nos temporariamente das dificuldades da vida e encontrar um sentido de liberdade e desapego. Embora Schopenhauer não tenha se dedicado especificamente ao estudo do humor, suas reflexões sobre a natureza da vida e da consciência oferecem insights valiosos sobre como o humor pode servir como uma ferramenta de enfrentamento diante das realidades mais sombrias da existência humana. Ele nos lembra que, mesmo nas situações mais desafiadoras, o riso pode ser uma forma de resistência e uma fonte de alívio.

Um livro que aborda o tema do humor e da escuridão de maneira interessante é "Ensaio Sobre a Lucidez", do autor português José Saramago. Embora não seja estritamente focado em humor negro, este romance apresenta uma narrativa provocativa que levanta questões sobre política, sociedade e moralidade. Na história, Saramago descreve uma cidade fictícia onde, em um dia de eleição, a maior parte da população decide votar em branco como forma de protesto. O governo, diante dessa situação inesperada, reage com medidas extremas, levando a cidade a uma crise política e social. A trama aborda temas profundos e sombrios, mas o autor utiliza seu estilo peculiar de escrita, repleto de ironia e humor sutil, para explorar as nuances da condição humana e da sociedade. "Ensaio Sobre a Lucidez" é uma obra que desafia as convenções e convida o leitor a refletir sobre questões complexas de forma criativa e instigante, mostrando como o humor pode ser uma ferramenta poderosa para abordar temas profundos e até mesmo sombrios.

Ficam aí as dicas de leituras!