Eu
demorei para entender que nem toda renúncia é virtude. E que nem todo apego é
fraqueza. Há uma forma de abnegação que nos empobrece — e outra que nos devolve
a nós mesmos.
A
abnegação apropriada não é desaparecer para que o outro exista. É saber até
onde ir sem se abandonar no caminho.
No
cotidiano, ela é silenciosa.
É
quando eu cedo sem me ressentir.
É
quando eu ajudo sem precisar me anular.
É
quando eu fico, mas também sei ir.
Existe
uma abnegação que nasce do medo: de perder, de desagradar, de ficar só. Essa
não liberta — ela adoece. E existe outra que nasce da lucidez: eu escolho abrir
mão porque não preciso mais segurar. Essa é leve.
Simone
Weil dizia que a atenção verdadeira é uma forma de
generosidade absoluta. Mas atenção não é submissão. É presença sem servidão.
A
abnegação apropriada é aquela que não pede aplauso, nem deixa cicatriz. Ela não
é sacrifício teatral; é equilíbrio íntimo. É o gesto que não grita “olhem o que
deixei”, mas sussurra “ainda estou inteiro”.
Eu
começo a achar que amadurecer é aprender a distinguir:
o
que eu entrego por amor,
do
que eu entrego por medo.
Porque
só a primeira forma constrói. A segunda apenas nos esvazia.
No
fim, a abnegação apropriada não é perder-se pelo outro —
é encontrar um modo de continuar sendo, mesmo ao se oferecer.