Entre Astros e Neurotransmissores
Há
algo quase cômico — e profundamente humano — na necessidade que temos de culpar
alguma coisa fora de nós. Ontem eram o Sol que ardia demais, a Lua que
enlouquecia, as estrelas que traçavam destinos inevitáveis. Hoje, com a mesma
convicção, apontamos o dedo para a serotonina, a dopamina, os circuitos
neuronais. Mudam os nomes, permanece o gesto: deslocar a responsabilidade. Este
ensaio não pretende julgar o homem devasso, mas compreendê-lo — não como um
desvio moral isolado, e sim como um sintoma recorrente da condição humana.
O
homem devasso, aqui, não é apenas o libertino vulgar ou o hedonista
caricatural. Ele é o sujeito que se recusa a assumir a autoria de seus
impulsos. Sua devassidão não está tanto no excesso de prazer, mas na
terceirização da culpa. Em tempos antigos, ele era astronômico: seu
comportamento era explicado pelas marés celestes, pelas conjunções planetárias,
pela vontade dos deuses. A responsabilidade era cósmica. Hoje, ele se tornou
bioquímico: seu humor oscila por causa da serotonina, seu desejo é produto da
dopamina, sua ansiedade nasce de um “desequilíbrio químico”. A responsabilidade
tornou-se molecular.
O
que une essas duas versões — a antiga e a contemporânea — é a mesma estrutura
narrativa: a negação da liberdade plena. Quando o homem culpa os astros, ele se
dissolve no universo; quando culpa a química cerebral, dissolve-se no corpo. Em
ambos os casos, ele evita o peso angustiante de ser livre.
Aqui,
a filosofia encontra um ponto delicado. Desde Jean-Paul Sartre, sabemos
que a liberdade humana não é um privilégio confortável, mas um fardo
inevitável. “Estamos condenados a ser livres”, diria ele. O homem devasso,
porém, busca escapar dessa condenação. Ele não nega seus atos — ele nega sua
autoria. É uma fuga sofisticada: não se trata de ignorância, mas de uma escolha
inconsciente de autoabsolvição.
Mas
será que a ciência moderna realmente fornece essa absolvição? A neurociência,
ao revelar os mecanismos do cérebro, parece oferecer uma linguagem mais precisa
— e, portanto, mais convincente — do que os mitos antigos. No entanto, há um
risco conceitual: confundir explicação com justificação. Saber que a serotonina
influencia o humor não equivale a dizer que o sujeito está isento de
responsabilidade por suas ações. Explicar não é absolver.
O
problema central não está na ciência, mas no uso existencial que fazemos dela.
O homem devasso contemporâneo instrumentaliza o conhecimento científico como
outrora instrumentalizava os mitos. Ele substitui o destino escrito nas
estrelas por um destino inscrito nos neurotransmissores. Em ambos os casos, ele
constrói uma narrativa de inevitabilidade.
Essa
narrativa, contudo, entra em conflito com uma dimensão fundamental da
experiência humana: a possibilidade de escolha. Mesmo que condicionados por
fatores biológicos, sociais ou históricos, ainda operamos em um espaço de
decisão. É nesse intervalo — por menor que seja — que a ética emerge. O homem
devasso tenta apagar esse intervalo, transformando tudo em causalidade.
Podemos,
então, reinterpretar a devassidão não como excesso de desejo, mas como déficit
de responsabilidade. O devasso não é aquele que sente demais, mas aquele que se
exime demais. Sua vida é uma sucessão de justificativas elegantes: ontem
astrológicas, hoje neuroquímicas.
Talvez
a questão mais provocadora seja esta: o progresso do conhecimento nos tornou
mais livres ou apenas mais sofisticados em nossas desculpas? Ao abandonar os
deuses, não abandonamos a necessidade de explicação — apenas a refinamos. E,
com isso, o homem devasso evoluiu: deixou de ser supersticioso para tornar-se
cientificamente autoindulgente.
No
entanto, há uma possibilidade de ruptura. Reconhecer os condicionamentos —
sejam cósmicos ou biológicos — não precisa levar à negação da liberdade. Pelo
contrário, pode aprofundá-la. Saber que somos influenciados não implica que
somos determinados. A maturidade filosófica talvez resida justamente em
sustentar essa tensão: somos, ao mesmo tempo, condicionados e responsáveis.
Assim,
o homem devasso pode ser redimido não pela negação de seus impulsos, mas pela
reintegração de sua autoria. Não se trata de rejeitar a ciência nem de retornar
aos mitos, mas de recusar o uso de ambos como álibis. Entre o Sol e a
serotonina, há algo que persiste — e que não pode ser terceirizado: a
responsabilidade de existir.
E
talvez seja aí que reside a verdadeira liberdade: não em escapar das causas,
mas em assumir as consequências.